Monday, March 27, 2006

Carta de Paris


Apesar de curta a estada, e decorrida intra-muros de bibliotecas em fastidiosa aplicação e estudo, alinhavei estas breves impressões sobre os quatro dias que passei na cidade cognominada “das luzes”, actualmente em crucial ponto de intermitência.

1. Contrariando os cartazes anunciando os espaços verdes da cidade, “Paris respire”, os parisienses sufocam. Crispados, tensos, tristes. O céu, que Baudelaire descreveu como um capacete de chumbo, pareceu-me ter baixado ainda mais.

2. Outra inscrição-chave, a dos menus dos restaurantes, desta feita absolutamente justa: “formule” (entrada + prato + sobremesa, por um preço menos exorbitante do que seria a adição das partes, mas exorbitante “quand même”): grande parte de Paris é formulaica; “bon jour”, “je vous en prie”, “bonne soirée” – convenções de delicadeza que podem resguardar a intimidade.

3. No Quartier Latin, com ruas barricadas de grades de ferro e portinholas de sentinelas, não abundavam os jovens. Quando apareciam, era geralmente gritando à frente de polícias.

4. Nos cafés, nada que se equiparasse ao espírito de 68 que tinha esperanças de encontrar: dois anciãos, talvez professores da Sorbonne (suspensa até nova ordem), discutiam filosofia perante uma plateia neófita. Um, ensaiando pelo olhar a centelha do génio, perorava sobre Kant e a limitação da verdade às categorias perceptuais de espaço e tempo. O outro, mais taciturno, achou campo para o interromper: “Conheço gente que continua convencida de que o Sol gira em torno da Terra, por ser isso que observam no espaço, e por o Sol determinar o seu tempo.” O primeiro, insensível à ironia, refutou que a verdade se aplica ao cientificamente demonstrável, e que Galileu tratou bem do assunto.
Noutra ocasião, a voz melíflua de um americano discorrendo airosamente sobre o romance policial fez-me virar a cabeça para me certificar de que não estava perante uma ressurreição de Truman Capote, voltado do túmulo para assistir à sua entronização cinematográfica. Capote tinha o fascínio do requinte e da excentricidade dos franceses. Bajulou Colette e emulou Artaud. Nessa altura, pelo menos culturalmente, ainda se podia acreditar que a Terra rodava à volta de França.

5. Sempre resisti ao cliché da xenofobia francesa. Por outro lado, se a francofonia tem seus matizes de agência imperialista, são inegáveis as vias de acesso que proporciona à democratização cultural. Basta ir aqui: http://gallica.bnf.fr/. Desta vez, no entanto, por uma ou duas ocasiões, senti-me maltratado enquanto estrangeiro. Incertos do futuro da sua sociedade, pareceu-me que os parisienses se fechavam, algo covardemente, na arrogância nacional que se lhes colou como estereótipo. E pela primeira vez me deu que pensar a circunstância de a “fraternidade”, da fórmula revolucionária tricolor, não ser exactamente sinónima de “solidariedade”.

Ass: Xavier de Carvalho

9 comments:

fguerra said...

Penso sempre a mesma coisa quando leio textos deste jaez, por mais racional e bom-rapaz que queira ser: mais um cliché sobre um outro cliché. Primeiro: porque numa passagem, ainda por cima de estudo nas bibliotecas, nunca se percebe nada de nada a não ser o cliché que nos impuseram anteriormente. Segundo: em Paris há de tudo, bom e mau, ainda mais do que em França, e muitíssimo mais do que aquelas personagens literárias que você viu por lá e, desculpe, só lhe faltou falar com o chofer de táxi e com a concierge para ficar com uma ideia completa e cabal da França e dos franceses. Terceiro: nada nos prova que o céu de chumbo de Baudelaire estivesse mais alto do que o céu de chumbo de hoje em dia e, deve dizer-se, acho que os franceses não têm culpa desse céu porque quem o pôs lá «Foi Deus, meu amor!»

cafe_dada said...

Caro Alfinete:

Ao contrário de fguerra, não vejo cliché algum no seu post. De alguma maneira, vejo a sua vontade de reencontrar alguns aspectos mitificados de Paris. Mas é antes um reencontrar o "mito" actualizado no presente e na sua vivência pessoal da experiência. E isso nada tem de cliché. (Não ligue ao comentário previsível de fguerra e diga ao moço para ir brincar com os tintins dele.)

Achei muito interessante a ideia de uma Paris formulaica. Tal significaria que a Paris de Baudelaire e do Projecto das Arcadas de Benjamin se estaria a transformar num 'não lugar' (num 'non-lieu' de Marc Augé) ou num heterotopos foucauldiano. Nos dias que correm, parte de Paris foi convertida num enorme 'não lugar'.

fguerra said...

Caro cafe_dada, quem me dera ser instruído e, ao arrumar o meu lugar de frutas e legumes onde trabalho e antes de ir beber o apéro com os meus colegas xenófobos franceses com cuja irmã de um deles me casei, pudesse ver naquele lugar que me derreia as costas um não-lugar onde pudesse brincar com os tintins ou um heterotopos foucauldiano qualquer onde me empanturrasse de mito baudelairiano, e não esta miséria formulaica que já não é o que era!

alfinete said...

Camaradas Filipe Guerra e Sr. D.,

Obrigado pelos comentários.
Fiz questão de salientar que a estada fora curta e enclausurada. Procurei, porém, nos breves tempos livres, arrebitar as orelhas: porque a luta dos jovens franceses neste momento me interessa profundamente. Nos estudantes de Sainte-Geneviève, colados, quinta-feira, aos telemóveis para saberem da manifestação (sendo, decerto, os menos afoitos), só notei desânimo. Em 68, creio, apesar da violência, houve esperança e alegria, crença de que se podia mudar. E mudou-se. Para bem melhor.
Não notei agora nenhuma crença, só tristeza e, como disse, refúgio em fórmulas. Mas posso ter-me enganado.
Procurei modalizar o discurso. Disse "grande parte". Não disse todos, nem sequer "a maior parte".
Gosto de França e gosto de Paris, que é, a seguir a Lisboa e Nápoles, a cidade europeia que conheço onde me sinto melhor.
Os capacetes de chumbo eram também uma alusão oblíqua ao policiamento da cidade. De resto, os polícias pareceram-me ainda mais tristes do que os estudantes. Ser flic é fodido.
Não tenho dinheiro para andar em táxis. Sou profissional precário e independente. Considero o CPF uma lei injusta.
O concierge, caro Filipe, meu conhecido de longa data (sim, vou a Paris com alguma frequência, e sempre que lá volto fico com uma impressão diferente; como tentei explicar, só desta vez é que me deu para dar crédito a estereótipos), é da Galiza, região que tanto gosta. Mais propriamente de Orense. Nunca foi às ilhas Cíes. Exprime-se em perfeito português, mas explicou-me que só o aprendera em França, porque emigrara no tempo de Franco, hostil ao ensino de línguas estrangeiras. Perguntei-lhe se fugira ao regime: que não, que viera com os pais, que ele próprio não tinha qualquer ideia política.
Dommage.
Todas as visões são parciais. Confesso ainda que não tenho bons amigos parisienses, infelizmente, pois decerto poderiam corrigir a minha perspectiva de cansaço e deslocação. Os meus amgios franceses são bretões, bons como os galegos.
Termino com uma nota mais positiva. Apesar de não serem especialmente poliglotas, os franceses gozam de uma tarifa baixíssima das telecomunicações: pode-se falar para o estrangeiro a preço local. Talvez ainda haja esperança para os despaísados.

fguerra said...

Alfinete, Maio de 68 teve outra amplidão (outras circunstâncias históricas e sociais), claro, mas olhe que começou quase assim. De qualquer maneira, CPE's já há por toda a Europa (liberalismo oblige), e tudo se passou pacificamente (tumularmente) e só em França eu vejo por fim um movimento social contra isso. Saia da biblioteca hoje e vá até à Place d'Italie, parece que está negra de gente, parece que 3 milhões de franceses se andam hoje a manifestar por esses não-lugares! Um grande abraço e desejo-lhe boa estada e bom trabalho aí!

alfinete said...

Infelizmente, Filipe, já regressei à soalheira e plácida Lisboa. Mas espero que a Place d'Italie não esteja negra de gente. Espero que esteja rubra de gente!

fguerra said...

«Place d'Italie noire de monde», foi esta expressão francesa, tirada do Monde, que eu traduzi à letra. Rubro-negra existe?

rodrigo sena said...

Tenho uma empatia com França (não digo franceses)- tem sido o palco onde a génese de direitos, liberdades e garantias medra. Lembrando-me do Maio de 68 e agora das reivindicações tão justas dos jovens candidatos ao primeiro emprego, estou a programar o mês de Maio, ou Junho, inteirinho em Paris, como um 'modesto guerrilheiro,nómado,só,num quarto alugado, a fim de 'beber' o elixir sagrado de lutas justas e respirar os odores das nuvens de chumbo de/e de Baudelaire!

Manuel Resende said...

Claro que rubro negro existe.

É a coisa melhor que há no mundo!

Ai ai!

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