Sunday, March 19, 2006

Gomes Leal: para ajudar à festa do valor literário

Acabei de comentar um post acerca de mais uma recente polémica sobre o que deve ser a literatura, lembrando a importância de Gomes Leal para as nossas letras do século XIX. Não me canso de a lembrar. Gomes Leal foi, quanto a mim e alguns outros, o nosso mais estranho e empolgante poeta oitocentista. Considero o seu primeiro livro de 1875, Claridades do Sul, embora com muitas composições imitando descaradamente Baudelaire ou Eça de Queirós (e talvez por isso mesmo), muito mais fascinante do que as Odes Modernas de Antero cuja segunda edição foi publicada nesse mesmo ano. Gostava de ter mais Gomes Leal neste blog, mas não sei se a dama está pelos ajustes, e além disso noutro sítio já andaram a tratar disso.
Posto isto, parece-me que Gomes Leal às vezes falha muito, ou eu não o percebo, e sobretudo no fim da vida. Mas ele insistia que tinha uma visão. Com o rebentar da Primeira Guerra, Gomes Leal procurou iluminar-nos n’A Águia (a revista do Teixeira de Pascoaes) com sonetos de “medalhões femininos” em estilo que o mais das vezes me parece puerilmente gótico, sendo um deles acompanhado de desconcertante nota. Transcrevo um pouco dessa nota, e respectivo poema, na esperança de que possam aí achar mais do que eu. E porque o valor literário está nos olhos de quem lê, começando os problemas com o facto de um escritor ser o seu próprio e primeiro leitor (não resisto, a propósito, a citar o chiste que o contemporâneo Fernandes Costa dirigiu a Gomes Leal: “Eu sinto que emudecia / Todas as línguas mordazes, / – Desde o Alfeite à Trafaria, – / Se versos fizesse um dia… / Como tu pensas que os fazes!”). E porque não é de descurar a hipótese de existir um maravilhoso mundo de pessoas mais videntes do que nós.

“NOTA: Este soneto parecerá a muitos que é somente inspirado pela mera poética imaginativa. Não o é, senão parcialmente. N’alguns livros dos Ocultistas, Cabalistas (…) encontram-se referências ao caso de um homem singular, que era sempre acompanhado pela sombra de uma jovem amada, que por toda a parte o seguia. Ora, a histérica e convulsionada Idade Média está cheia de todas estas tradicionais legendas, sobretudo e especialmente nos tempos das Cruzadas.
Parece que estes casos se podem explicar (mas que os escritores tradicionalistas nunca souberam fazer!) pelo facto passional, ou histérico, das castelãs medievais jazerem longos e dilatados anos, às vezes, sem receberem novas algumas dos castelões que haviam partido a combaterem os guerreiros infiéis na Palestina. Muitas delas feneciam, elanguesciam, extinguiam-se lentamente, melancolicamente, tal como uma
pálida lâmpada que bruxuleia numa penumbra nocturna; ou, muitas vezes, então, adulteravam, prostituíam-se, sucumbiam às tentações inferiores. Era ainda, e sempre, o mesmo caso patológico e doentio das místicas monjas e mais o de todos os corações insatisfeitos, sucumbindo no silêncio, no abandono, no isolamento, ao devastador mal da Saudade, ou do Tédio, e conhecido monacalmente pelo taciturno nome da Acedia. Por isso as legendas das damas brancas são inúmeras. (…) Os Cronistas referem às vezes desapiedadadamente, e minuciosamente, os medievais escândalos aulterinos da Idade Média, mas somente os poetas, ou os psicólogos, é que sabem definir, dissecar, ver claro muitas vezes, nestas desoladas idiossincrasias, histerias, e tragédias femininas. Leiam-se Huysmans, Papus, e sobretudo, com muita atenção, A Feiticeira, de Michelet. – G. L.”




A DAMA BRANCA

(Miniatura de Mistério)

Vivi outrora, num castelo antigo,
era então! era então! pagem, donzel,
da jovem castelã, casta, fiel,
etérea… loira… um loiro… cor de trigo.

Jamais me concedeu sorriso amigo,
mais terno que ao seu cão ou seu corcel.
Morreu bem cedo, e em prantos, no jazigo,
cerrei tão linda, tão mimosa pele!...

Alta noite, porém, eis que a finada,
vem sentar-se ao meu pé, muda, calada,
e ao partir, diz gemente: Adeus! Adeus!

Quem me dera entender um tal mistério.
A dama branca de olhar casto e sério,
Ama-me, adora-me… ou amo-a eu, meu Deus?

(imagem: John Everett Millais, “The Eve of St. Agnes”; alguém me explica como se escolhem as imagens que ficam maiores e mais visíveis? pelos vistos não é pelos píxeis)

3 comments:

Mr. D said...

Caro Alfinete:

Pois, percebo as suas reticências relativamente ao valor literário desta composição. Mas, empiricamente, à primeira vista, questiono-me se não há aqui alguma influência (angustiada ou não) da poesia de Antero (para além de influências de outros poetas). O ambiente preparado e as sonoridades (conceito impreciso, bem sei!) lembram-me a tradução que Antero fez da "Cantiga do Rei de Tule" do 'Faust'. Mas parece-me haver mais Antero aqui, não acha?

De quando é este poema? Em que livro está? (Pergunto só para ver datas.)

Um abraço másculo... e veja se mete a sua colega feminista na ordem ("This is a men's world!" LOL)

Mr. D (ADP)

alfinete said...

Camarada D,
Podemos passar ao tratamento por tu? O Gomes Leal era uma ave de rapina, claro que há Antero e pode haver "Balada do Rei de Tule", mas deve também haver tudo o que ele diz e que eu não li: A Feiticeira do Michelet, etc.
Agora, eu até acho certa graça ao poema. O que eu não entendo é como ele achava que este, e outros poemas do género que então publicou, podiam salvar o mundo. Talvez não me tenha feito entender, mas a data deste soneto é contemporânea da Primeira Grade Guerra, mais propriamente de 1915 (como disse n'A Águia, segunda série). Outros "Medalhões femininos" como estes começou eles a publicá-los em 1914, num deles inscrevendo mesmo "ano fatídico de 1914". Abraço solidário.

Mr. D said...

Caro Sr. Alfinete:

Fez-se entender, sim. Eu é que li o post com interrupções e, quando escrevi o comentário, já não retinha os dados que lhe pedi no meu primeiro comentário. Tenho de deixar de fazer comentários quando estiver ensonado; caso contrário, dá isto.

Agora, quanto ao tratamento por camarada e à proposta de nos "tutearmos", só os aceitarei quando me enviar o seu nº de militante do Partido. Estamos entendidos?

D

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