Monday, May 15, 2006

Gomes Leal e o Publicismo das Vanguardas

ÁGUA FURTADA D’UM ORIGINAL

Eu moro altivo e só numa trapeira,
Onde as penas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia à soalheira…
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas vizinhanças límpidas dos astros!

Como na era feliz das serenadas,
As graves castelãs nos seus balcões,
E góticas varandas recostadas…
– Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!...

Professo o culto só do far niente
Deitado, todo o dia, num colchão…
Na posição imóvel dum vidente…
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquilos modos dum sultão.

Ó filhas do spleen malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
Ó sebentas do estudo empoeiradas,
E tristes quais sultanas desprezadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!...

E vós teias d’aranha inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!.
Ó musas que inspirais os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astro dos meus tectos!
Que vos criou ao seu fiat lux!?

Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felícia…
E onde pus um retrato de Trajano,
Dentro dum casacão diluviano,
Sofrendo como César de calvícia!

Nas paredes estão frases simbólicas,
E aqui e ali borradas a carvão:
Uma Vénus com ar de grandes cólicas,
Um santo dumas barbas apostólicas,
E dois frades jogando o bofetão!

Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Bíblia mui velha onde no fim…
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d’ouro…
Tendo num grande pé chinelo mouro,
E vestido com ar de mandarim!...

Defronte ri sinistra uma caveira,
A que pus uns bigodes de cortiça…
E dum truão a loura cabeleira…
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda à missa!

Ao lado mora-me um vizinho manco
Que faz dos sinos único regalo…
E goza da união dum saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noite canta como um galo.

Defronte uma vizinha costureira,
Doce lírio que treme a um vento vário…
Que canta a manhã toda e a tarde inteira…
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canário!...

Toda a noite o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!...
Imita o som dos sinos indiscretos…
E canta, numa voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!

E assim eu vivo só numa trapeira…
Onde as penas das pombas deixam rastros…
Exposta todo o dia à soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas vizinhanças límpidas dos astros.

Gomes Leal, Claridades do Sul, 1875.



Em prospectivo tributo à Revista de Literatura, Música e Artes Visuais, cujo nº 9 amadurece em Maio (foto alusiva em cima, e mais informações aqui) e que, além de patente em bancas selectas, pode ser encomendada por este mail: jup@jup.pt
aguasfurtadas: imprescindíveis para uma nítida ofuscação de paisagens.

No comments:

Blog Archive

Contributors