Tuesday, May 16, 2006

Sobre literatura, geopolítica, e os limites do conhecimento da linguagem


e porque acabo de ler agora, e porque até pode vir a propósito de uma velha questão sobre as representações de Paris (ver comentários a este post), desta feita mais propriamente sobre essa cidade-artefacto que até há bem pouco tempo pôde ser uma “improvável síntese do asilo político e da consagração artística”, nas palavras de Pascale Casanova, autora do estimulante livro La Republique Mondiale des Lettres (Paris: Seuil, 2004). De sua segunda mão cito o seguinte relato de uma “excursão a Paris” do escritor jugoslavo Danilo Kiš (1935-1989):

“De súbito percebo nitidamente que não construí a Paris dos meus sonhos a partir dos franceses, mas que – de modo estranho e paradoxal – foi um estrangeiro que me inoculou o veneno da nostalgia (…) Penso em todos esses náufragos da esperança e do sonho que lançaram ferro num porto de salvação parisiense: Matoš, Tin Ujević, Bora Stanković, Crnjanski (…). [Endre] Ady, porém, foi o único que conseguiu exprimir e pôr em verso todas essas nostalgias, todos os sonhos dos poetas que se prostraram diante Paris como diante um ícone. (…) Não cheguei a Paris como um estrangeiro, mas como alguém que vai numa romaria às paisagens íntimas do seu próprio sonho, para uma Terra Nostálgica. (…) As vistas e os asilos de Balzac, o “estômago de Paris” naturalista de Zola, o spleen parisiense do Baudelaire dos Pequenos Poemas em Prosa, bem como as suas velhas e as suas crioulas, os ladrões e as prostitutas no perfume amargo d’As Flores do Mal, os salões e os fiacres proustianos, a ponte Mirabeau de Apollinaire (…), Montmartre, Pigalle, a place de la Concorde, o boulevard Saint-Michel, os Campos Elísios, o Sena (…), tudo isso não mais do que puras telas impressionistas salpicadas de sol cujos nomes aqueciam o meu sonho (…) Os Miseráveis de Hugo, as revoluções, as barricadas, o rumor da história, a poesia, a literatura, o cinema, a música, tudo isso chocalhava e fervia, ardendo-me na cabeça muito antes de ter posto os pés em solo parisiense.”



Sobre Endre Ady (aqui retratado por Josse de Pauw), o tal estrangeiro que ensinou Paris a Danilo Kiš (tantos antropónimos limítrofes e enigmáticos, em contraste com a reconhecível fisiologia da banca central dos valores literários de Paris, acima evocada…), encontrei a seguinte informação, repescada do site “A Poesia dos Calendários” da Assírio e Alvim: “Poeta húngaro, nascido em Érmindszent, que com seu lirismo poderoso e de exaltada sinceridade renovou a literatura e a vida cultural de seu país. De uma família de aristocratas calvinistas empobrecidos, começou a estudar direito em Debreczen. Publicou seu primeiro livro, Versek (1899) e mudou-se para Nagyvárad, hoje Oradea Mare, chamando a atenção como veemente publicista liberal. Com a sua amante Leda, morou em Paris (1904) e no ano seguinte, já em Budapeste, colaborou na revista Nyugat que reuniu a vanguarda modernista. Com uma linguagem toda particular, de intensidade explosiva e revolucionária, trouxe na sua obra uma mensagem de denúncia político-social e patriótica, tornando-se o símbolo da rebeldia, do inconformismo e de hostilidade aos conservadores de todos os estilos e propósitos. Morreu vítima de uma pneumonia, em Budapeste, e o melhor da sua lavra poética apareceu nos seus versos de acentos apocalípticos, como em Új versek (1906), Vér és arany (1907), Az Illés Szekerén (1908) e Szeretném, ha szeretnének (1909), e em livros como A Menekülö élet (1912), A halottak élén (1918) e o póstumo Az utolsó hajók (1923)”. Dele encontrei também este poema, traduzido por Ernesto Rodrigues para a Antologia de Poesia Húngara editada pela Âncora em 2002. À falta de referências culturais, lamento que seja uma composição para mim ininteligível, mas não soa mal:

Eu sou filho de Gog e Magog,
contra portas e muros em vão bato,
sem deixar de vos perguntar:
pode-se chorar abaixo dos Cárpatos?

Vim p'lo célebre caminho de Verecke,
soa-me inda aos ouvidos velho canto húngaro;
posso irromper de junto a Dévény
com cantos novos de tempos novos?

Chumbo vertam nos ouvidos fervente,
eu serei o novo cantor Vazul;
não oiça da vida os cantos novos,
pisem-me rude e cobardemente.

Mas, até lá, chorando entre penas,
nada esperando, em novas asas voa o canto;
e quando Pusztaszer maldiz cem vezes,
é inda vencedor, e novo, e húngaro.

No comments:

Blog Archive

Contributors