Monday, September 18, 2006

Porque sempre que tenho arrufos com a maternidade me lembro



e lembro também um certo ex-aluno – dos que soe dizer-se “problemáticos” – cuja voz se lhe embargou quando lhe pedi para ler este texto do Almada, e ainda porque ontem, pelas 20h00, a Elisa viu nascer a Maria Rita.

“Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado! Eu ainda não fiz viagens E a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar. Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras. Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa. Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!”

Sunday, September 10, 2006

Tresleituras # 1

A PARTIR DE WILLIAM FAULKNER:

A falta é uma função do espírito dos que ficam.

Monday, September 04, 2006

Não está estafado, nem o poema nem o tema, e aliás a questão é: o que se faz a seguir a isto?

Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.

- Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.

O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.


Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.

excerto de Cântico dos Cânticos, tradução de Herberto Helder, ilustração de Marc Chagall

Friday, September 01, 2006

Exercício expurgatório

Escrever 100 vezes:

amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir

Voluntariado Infantil



Quando me caírem os dentes, se a fadinha me puser dinheiro debaixo da almofada, dou-to a ti.

Wednesday, August 30, 2006

Transfer

Que caiba na escrita tudo o que enegrece:
às palavras a escória, a mim a luz coada.

Saturday, August 26, 2006

Sabes que

mesmo quando eu me zango contigo eu estou feliz contigo.

Wednesday, August 16, 2006

POST 100: Xantipa, a Megera




Pudera. Ela até podia ter estofo para a maiêutica e pedalada para o peripatetismo. Mas tenho para mim que o que lhe deu a volta ao miolo foi a petulância do "conhece-te a ti mesmo/a".

Tuesday, August 15, 2006

Saturday, August 12, 2006

Introdução aos Estudos Linguísticos


Não se diz mais grande porque maior é mais grande que mais grande.

Tuesday, August 08, 2006

DIES IRAE


“Whether Grace left Dogville or, on the contrary, Dogville had left her – and the world in general – is a question of a more artful nature, that few would benefit from by asking, and even fewer by providing an answer; nor, indeed, will it be answered here”
(do filme Dogville de Lars von Trier)

pela porra toda de mesquinhezes e rancores e prepotências e conspirações silenciosas ou resmoneantes e pelas barreiras e pelas defesas e pelas guardas e pelos chuis mais as suas mãos barradas de manteiga e por todo o laxismo oportunista e pelo deixa-andar e pelos maus olhados e os vodus e pelas aparências do que deve ser e do que não se pode e pelas pedras lançadas nas jenys e nos pretos e nas ciganas e nos libaneses e nos larilas e em todos que deviam ser nossos semelhantes mas que desconsoladamente não atingem a nossa fasquia e por aqueles que me cobram para poder chegar à minha casa ou para poder deixá-la e até se cumpro os semáforos têm ganas de me atropelar hoje é daqueles dias em que se me esvai a confiança na humanidade e que estou com um pó que só seria solúvel se pulverizasse duma vez e para sempre a louça toda e mandasse às urtigas a caritas paulina que já o João mais amado que decerto deus conserva à sua beira devia estar como eu quando resolveu deitar a pena ao apocalipse

Sunday, July 30, 2006

Woman Overboard

MAYDAY lanço, porque a guerra dura



e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
drena a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, em ponto lento a onda
fará um manto sobre o afogamento.

Wednesday, July 19, 2006

Post Scriptum

COM-PAIXÃO & HIPOCONDRIA

Confortamo-nos com histórias laterais,
esquivamos o toque, há risco de contágio;
e, por mais que preservemos a franqueza,
passou o estágio da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía.

Tuesday, July 18, 2006

Pousio



Este blog entrou em estado de conserva vegetativo. Será reanimado lá para Setembro. Bem hajam, até lá.

Saturday, July 08, 2006

Poderá haver sinonímia

ou onde se acha o traço distintivo entre reconhecimento e projecção?

Female Bonding # 4?



HETTIE JONES & AMINA BARAKA

E este, jovens mulheres,
é o dilema

ele mesmo a solução:

sempre fui ao mesmo tempo
muito mulher para me comover ao pranto
e muito homem para
conduzir meu carro em qualquer direcção.

(final do poema Hard Drive, de Hettie Jones, n. 1934)

"Há quem pense que a força está na perseverança; às vezes está no deixar ir"
(Amina Baraka, n. 1937, poeta, cantora de jazz e jornalista no órgão de propaganda de esquerda "People's Weekly World")

As duas mulheres foram companheiras do poeta actualmente conhecido por Amiri Baraka, n. 1934, antes associado ao movimento beat com o nome de LeRoi Jones. A mudança de nome deu-se no período quente de meados de 1960 com a radicalização da luta pela afirmação identitária dos afro-americanos (nomeadamente, em sequência do assassinato de Malcolm X) Muitos negros recusaram então os antropónimos que julgavam herdadados dos esclavagistas do passado, optando por nomes de origem africana. Amiri, ao que parece, significa "príncipe", e Baraka "benção". A questão torna-se controversa e irónica quando comparada com as mudanças de nome por que optaram as mulheres daquele que recentemente reconquistou notoriedade com o poema activista "Somebody blew up America". Hettie Jones, nascida Cohen, branca e de ascendência judia, mudou o apelido para "Jones" quando se casou com LeRoi numa cerimónia budista em 1958. Divorciaram-se em 1965 e no ano seguinte o escritor casou com a cantora negra Sylvia Robinson que viria a mudar para "Amina Baraka", significando o nome próprio "leal e fiel". Pelo menos em autógrafos recentes, a actual mulher do ex-poeta laureado de Nova Jersey assina apenas "Amina".

Saturday, July 01, 2006

Aos meus amigos # 2

FOI BONITA A FESTA, PÁ

"And I'll see if my friends are still there:
Yes, and here's to the few
Who forgive what you do
And the fewer who don't even care"

(Leonard Cohen)
Obrigada

Thursday, June 15, 2006

Beleza é fundamental

Não é importante ser-se mais bonito. É importante ser-se bonito. Eu era Leonor Borboleta e tu eras Pedro Cravo.

O meu primeiro silogismo

Se tu estás a dormir tu não te zangas
tu só te zangas quando não estás a dormir

Wednesday, June 14, 2006



Abrenúncio, te arrenego, que uma diferença existe: entre explicação e justificação.

Monday, June 12, 2006

Pois, mas uns podem e outros esforçam-se, e olha que com amigos destes…

Foram-se todos embora para o sol e para o sul e para o mar, ou estão-se a preparar para os santos, ou até vão para Praga e Budapeste como os mafiosos lá de baixo, ou têm crianças para cuidar como uns e outras, mas não há ninguém, ninguém num raio de 30 km de tlm, disposto a compartilhar com os mais atarefados e menos afortunados uma horita de lazer com umas minis mais um pires de caracóis e um pãozito mal tostado. Essa é que é essa, e assim quem precisa de inimigos?

…. pronto, eu sei que até os há com razões capitais como afinal o mais bondoso dos recém-casais lá de baixo, e outra(o)s, e sou eu que tenho de me desemerdar, como dirias tu Miguel (embora aquela da unha partida, enfim ;)), porque estes gajos que escrevem têm sempre a mania que não conseguem carpir metáforas sem um amiguinho ao lado, e por isso, olhem, lá se vai a hora de lazer para posts onanistas e injustos.

Sunday, June 11, 2006

Aos meus amigos

(especialmente aos mais belos recém-esposos do 10 de Junho)



A MESA TRANS-POSTA

se ao coração se vai pela barriga
dou a minha vulnerabilidade
em troca dum regalo de comida

Friday, June 09, 2006

Talvez a injecção letal

não precise ser fatal
após o incerto cruzeiro
após pagar ao barqueiro
dos lameiros de Aqueronte
que pode bem ser bifronte
velho sátiro ou Morgana
criatura quase humana
que tudo engana consoante
se olha pra trás ou diante

tão cansada de engolir
comprimidos sem dormir
do meu sexo que se embota
do coração que se esgota
esticado na horizontal
sob uma agulha sensual
e a sopa na panela
embacia-me a janela
e sorvo mas sem palato
sem ter forças para o salto



se há uma falha um abalo
Dickinson Plath Woolf Kahlo
onde foram estavam loucas
queriam coisas eram ocas
queriam chique eram pedras
queriam arte eram merdas
tentando o voo eram estacas
punho em riste eram farpas
fornos hortos seu delírio
nunca foi santo martírio

da fonte de Lete das letras
dos opostos caracteres
desconheço o que esquecer
se a vida sobre ou subterra
e se a barca vai na esteira
da nascente derradeira
ou duma foz mais absconsa
sem que embale a brisa ondas
sulcando turvas manhãs
duma ilha de maçãs

Sunday, June 04, 2006

Os Pirotécnicos Unidos Jamais Serão Vencidos

E o dia de Pentecostes não podia ter melhor término. Cá se vão gozando os fogos d'um'alt'água-furtada.

Se calhar é por isso que eu me pelo pela Sintaxe

Aos cuidados de e de:

O Léxico tem sexo; a Morfologia tem géneros; o Sentido é filho da mãe que, não desfazendo, é a Semântica; só a Sintaxe permite sintéticas manipulações de genética, como por exemplo:

1. Agente de crime violento é inimputável.

2. Vítima destituída de reparação de danos.

3. Crime violento passa impune.

Todas estas opções têm as suas consequências. Mas podemos escolhê-las. Não podemos escolher que "vítima" seja um substantivo invariavelmente feminino nem que "agente" seja invariavelmente masculino.
Salvaguarde-se a paridade de "inimputável", "imputável", "impune" e "punível" serem todos hermafroditas (sujeitando-se inclusive a brejeiras pintelhices com putéfios e punhetas).

P. S. Se, por improvável hipótese, alguma alma penada, que não esteja na praia nem a curtir o arraial do meu bairro, tiver passado por aqui reiteradamente nos últimos quarenta minutos constatará que este post sofreu várias alterações. É que também me pelo pela palavra justa e pelo justo vocábulo.

Efemérides #2: A LEBRE


Regozijemo-nos, associando imagem consonante com o feliz aniversário e com o espírito santo de baixo. Parabéns.

Pentecostes

“Porque eu rezo numa LÍNGUA DESCONHECIDA, o meu espírito reza, mas a minha compreensão é estéril” (Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios)



Segue excerto do “Boletim Paroquial”, emitido pela Igreja da Graça para a Paróquia de Santo André e Santa Marinha em Lisboa, nº 37, 4 de Junho de 2006; editado por mim, com ecumenismo e respeito por crentes e não-crentes (as maiúsculas correspondem a expressões em itálico no original, mas ainda não aprendi o código para fazer isso):

“Na festa de Pentecostes, em que se juntavam em Jerusalém muitos judeus vindos de todas as nações, os apóstolos falaram do Evangelho (…). E todos os presentes entenderam bem o que lhes era dito, apesar de falarem línguas diversas. (…) FALAR A MESMA LÍNGUA significa estar em comunhão com todos. Infelizmente, as pessoas às vezes falam, utilizam as mesmas palavras, mas não se entendem. (….)
Deixemo-nos invadir pelo Espírito Santo*; punhamos de lado o medo e a indolência. Saiamos do CENÁCULO do medo (…)”

* O Espírito Santo, para mim, como crente e não-crente, representa precisamente a coragem de procurarmos um entendimento, um espaço médio, ou mesmo uma fugaz comunhão, por entre as línguas múltiplas de que nos servimos. Nesse sentido, e reiterando um dos pontos talvez mais sensíveis do texto que há dias afixei, se houver (boa?) fé, julgo que a tradução é um seu artigo transitivo fundamental.

Wednesday, May 31, 2006

1º DE JUNHO: Quando eu for grande eu não vou combater

Como eles somos livres



de voar / de dizer / de crescer: em diante, um bocado ao lado, até um poucochinho para trás, e quase sempre em ziguezague (porque é o único programa que os meus pais me deixam ver na TV, embora não saibam que eu às vezes faço zap para a Floribela)

PUB - Estaleiros de Literatura


ESCRITA CRIATIVA NA FACULADE DE LETRAS DE LISBOA
21 de Junho

No âmbito do 9th International Conference on the Short Story in English, organizado pela Faculdade de Letras de Lisboa em conjunto com a Society for the Study of the Short Story, vão funcionar seis oficinas de escrita criativa orientadas pelos seguintes escritores:

Ana Castillo (“Unfinished Pieces: Keep or Trash?”)
Amiri Baraka/Leroi Jones ("Culture, Language, Fact, Fiction, Media")
Francine Prose ("Reading like a Writer.")
Katherine Vaz (“Portuguese & American Writing”)
Robert Olen Butler (“Creating Fictional Art”)
Rui Zink (“Lá vamos contando e rindo/“Snow White and her 7 shortcuts”)

Informam-se todos os interessados de que a inscrição nas oficinas, de três a quatro horas em blocos de manhã e à tarde, é de 50€, e independente da inscrição no congresso.
Para consultar uma breve descrição do tema de cada uma, bem como para descarregar o boletim de inscrição poderá visitar a página do Congresso.
Para mais informações ou esclarecimentos (designadamente sobre o custo, que não tem taxa de registo tardio, ao contrário do que a página pode indicar, sendo antes o que acima se discrimina), contactar via email shortstory2006@fl.ul.pt

Monday, May 29, 2006

Dar o Salto




Imagem delicadamente transviada deste acervo. Porque há furtos brancos no comércio do espírito.

Saturday, May 27, 2006

A Net voltou!

E nós, cara dama, somos relapsos.



COTTAGE STREET, 1953

Edna Ward, tal fénix que um guarda-fogo encobre
Debruça-se no bule de Cantão, e verte
Chá à medrosa Sylvia Plath, depois sobre
A acanhada filha, mim e minha mulher,

Quer saber se o tomamos quente ou morno,
Indaga se com leite, lima, ou um cheiro.
Já a visita nos parece tensa e enorme
E cada um à vez lhe diz nossos desejos.

É meu encargo ilustrar a boa sorte
Do poeta publicado, para animar
A Sr.ª Plath, após ter cobiçado a morte;
Mas sinto-me tolhido e incapaz de dar,

Sou um canhestro salva-vidas, que encontrou
Uma miúda devolvida pela maré,
Que, ao largo, imensamente se afundou
E fixa assim a água, com olhos de pérola.

Tão fundo disse não, e tão vácuo agora
Recomendar-lhe, neste delicado entrecho,
A vida, de uma tarde de Verão, embora
O ocaso em brando lume acene o seu desfecho.

E dentro de quinze anos morrerá
Edna, aos oitenta e oito verões duma
Graça e bravura sem direito a lágrimas:
A esguia mão esticada, o amor a palavra última,

Sobrevivendo a Sylvia, à vida sujeita,
E a mais dez anos de labor, com tanto custo,
Até dizer que não enfim, um não perfeito,
Em poemas inquietos, livres e injustos.

Richard Wilbur (1921 - ), com texto de partida em inglês aqui, onde se explica que Edna Ward era sogra do poeta e amiga da família de Sylvia Plath.

Thursday, May 25, 2006

OBA

vou ganhar uma trotinete!

Saturday, May 20, 2006

Trans-poética



HOTEL LOUNGE

Entre vocês e eu na arriscada
via rápida dos artistas há
um baldio de línguas que se
tresmalham incandescem e internamente
queimam os ouvidos: pares poetas eu
lamento discordar mas
sendo
a poesia
o que perde a tradução
há então mais importantes coisas
que guardar e eu não vejo forma
outra de sair deste férvido ruído
senão o esforço extreme e distendido
no transporte de chegarmos.

Quão arriscadamente – é o nodo
central desta questão – nos dispomos
a correr entre as línguas a arder
e se escrever vale de outro modo.

Por exemplo o nosso lounge
no hotel, pode ser um espaço
franco de chegarmos face
a face? e caso isso suceda
é prudente
defendermos a cilada
do comum e do corrente?

Pares poetas eu lamento discordar
mas na arte vejo alvos desiguais:
ter em vista o chegarmos a outrem
ou escudar a perda que se arrisca
e para mim é o primeiro que convém.

E mesmo assim no lounge do hotel
se enfim depositamos os punhais
no parapeito do balcão – rondando
estrangeiros num abrigo as bebidas
e as pontas de vidas e cigarros –
será jamais possível emalhar as nossas
línguas sem cair no brejeiro trocadilho
e no perverso lenocínio de um verso?
e vão tomar-me por aquilo que eu sou ou
por aquilo que em mim miram e pode haver
uma outra via de sair a via
de fazer um esforço mútuo
de mudar-nos e folgar quando falamos
o freio do orgulho de ser únicos?

Embaraça-me, pares poetas, discordar
do vosso tão distinto parecer
mas agradeço todavia essas vias
lenitivas no encontro de chegarmos
à provisória e aturdida comunhão
entre o médio-transitivo território
de um lounge num hotel.

Thursday, May 18, 2006

e o teu barco negro dançava na luz

outro poema de Ady Endre traduzido por Ernesto Rodrigues, e que foi silenciado por alfnete, apesar de ter andado a rondar a página



MULHERES NA PRAIA

Estavam na praia mil mulheres,
tendo seus lenços, e com flores,
que soluçavam nos adeuses,
e eu no barco jubilei.

Veio crepúsculo; em névoa,
estavam na praia mil mulheres.
Mas inda vi os lenços delas,
mas as flores inda caíram.

Veio a noite e escureceu,
como o passado, qual vingança;
estavam na praia mil mulheres,
e eu no barco que chorei.

Porque não via já nenhuma,
nem sequer lenços, flores sequer,
e ouviu-se assim, qual numa história:
«Estavam na praia mil mulheres».

Tuesday, May 16, 2006

Sobre literatura, geopolítica, e os limites do conhecimento da linguagem


e porque acabo de ler agora, e porque até pode vir a propósito de uma velha questão sobre as representações de Paris (ver comentários a este post), desta feita mais propriamente sobre essa cidade-artefacto que até há bem pouco tempo pôde ser uma “improvável síntese do asilo político e da consagração artística”, nas palavras de Pascale Casanova, autora do estimulante livro La Republique Mondiale des Lettres (Paris: Seuil, 2004). De sua segunda mão cito o seguinte relato de uma “excursão a Paris” do escritor jugoslavo Danilo Kiš (1935-1989):

“De súbito percebo nitidamente que não construí a Paris dos meus sonhos a partir dos franceses, mas que – de modo estranho e paradoxal – foi um estrangeiro que me inoculou o veneno da nostalgia (…) Penso em todos esses náufragos da esperança e do sonho que lançaram ferro num porto de salvação parisiense: Matoš, Tin Ujević, Bora Stanković, Crnjanski (…). [Endre] Ady, porém, foi o único que conseguiu exprimir e pôr em verso todas essas nostalgias, todos os sonhos dos poetas que se prostraram diante Paris como diante um ícone. (…) Não cheguei a Paris como um estrangeiro, mas como alguém que vai numa romaria às paisagens íntimas do seu próprio sonho, para uma Terra Nostálgica. (…) As vistas e os asilos de Balzac, o “estômago de Paris” naturalista de Zola, o spleen parisiense do Baudelaire dos Pequenos Poemas em Prosa, bem como as suas velhas e as suas crioulas, os ladrões e as prostitutas no perfume amargo d’As Flores do Mal, os salões e os fiacres proustianos, a ponte Mirabeau de Apollinaire (…), Montmartre, Pigalle, a place de la Concorde, o boulevard Saint-Michel, os Campos Elísios, o Sena (…), tudo isso não mais do que puras telas impressionistas salpicadas de sol cujos nomes aqueciam o meu sonho (…) Os Miseráveis de Hugo, as revoluções, as barricadas, o rumor da história, a poesia, a literatura, o cinema, a música, tudo isso chocalhava e fervia, ardendo-me na cabeça muito antes de ter posto os pés em solo parisiense.”



Sobre Endre Ady (aqui retratado por Josse de Pauw), o tal estrangeiro que ensinou Paris a Danilo Kiš (tantos antropónimos limítrofes e enigmáticos, em contraste com a reconhecível fisiologia da banca central dos valores literários de Paris, acima evocada…), encontrei a seguinte informação, repescada do site “A Poesia dos Calendários” da Assírio e Alvim: “Poeta húngaro, nascido em Érmindszent, que com seu lirismo poderoso e de exaltada sinceridade renovou a literatura e a vida cultural de seu país. De uma família de aristocratas calvinistas empobrecidos, começou a estudar direito em Debreczen. Publicou seu primeiro livro, Versek (1899) e mudou-se para Nagyvárad, hoje Oradea Mare, chamando a atenção como veemente publicista liberal. Com a sua amante Leda, morou em Paris (1904) e no ano seguinte, já em Budapeste, colaborou na revista Nyugat que reuniu a vanguarda modernista. Com uma linguagem toda particular, de intensidade explosiva e revolucionária, trouxe na sua obra uma mensagem de denúncia político-social e patriótica, tornando-se o símbolo da rebeldia, do inconformismo e de hostilidade aos conservadores de todos os estilos e propósitos. Morreu vítima de uma pneumonia, em Budapeste, e o melhor da sua lavra poética apareceu nos seus versos de acentos apocalípticos, como em Új versek (1906), Vér és arany (1907), Az Illés Szekerén (1908) e Szeretném, ha szeretnének (1909), e em livros como A Menekülö élet (1912), A halottak élén (1918) e o póstumo Az utolsó hajók (1923)”. Dele encontrei também este poema, traduzido por Ernesto Rodrigues para a Antologia de Poesia Húngara editada pela Âncora em 2002. À falta de referências culturais, lamento que seja uma composição para mim ininteligível, mas não soa mal:

Eu sou filho de Gog e Magog,
contra portas e muros em vão bato,
sem deixar de vos perguntar:
pode-se chorar abaixo dos Cárpatos?

Vim p'lo célebre caminho de Verecke,
soa-me inda aos ouvidos velho canto húngaro;
posso irromper de junto a Dévény
com cantos novos de tempos novos?

Chumbo vertam nos ouvidos fervente,
eu serei o novo cantor Vazul;
não oiça da vida os cantos novos,
pisem-me rude e cobardemente.

Mas, até lá, chorando entre penas,
nada esperando, em novas asas voa o canto;
e quando Pusztaszer maldiz cem vezes,
é inda vencedor, e novo, e húngaro.

Monday, May 15, 2006

Desejo



ter uma querida fofinha
gatinha Teresa
que não faça mal a ninguém
e que seja toda minha

Gomes Leal e o Publicismo das Vanguardas

ÁGUA FURTADA D’UM ORIGINAL

Eu moro altivo e só numa trapeira,
Onde as penas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia à soalheira…
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas vizinhanças límpidas dos astros!

Como na era feliz das serenadas,
As graves castelãs nos seus balcões,
E góticas varandas recostadas…
– Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!...

Professo o culto só do far niente
Deitado, todo o dia, num colchão…
Na posição imóvel dum vidente…
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquilos modos dum sultão.

Ó filhas do spleen malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
Ó sebentas do estudo empoeiradas,
E tristes quais sultanas desprezadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!...

E vós teias d’aranha inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!.
Ó musas que inspirais os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astro dos meus tectos!
Que vos criou ao seu fiat lux!?

Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felícia…
E onde pus um retrato de Trajano,
Dentro dum casacão diluviano,
Sofrendo como César de calvícia!

Nas paredes estão frases simbólicas,
E aqui e ali borradas a carvão:
Uma Vénus com ar de grandes cólicas,
Um santo dumas barbas apostólicas,
E dois frades jogando o bofetão!

Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Bíblia mui velha onde no fim…
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d’ouro…
Tendo num grande pé chinelo mouro,
E vestido com ar de mandarim!...

Defronte ri sinistra uma caveira,
A que pus uns bigodes de cortiça…
E dum truão a loura cabeleira…
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda à missa!

Ao lado mora-me um vizinho manco
Que faz dos sinos único regalo…
E goza da união dum saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noite canta como um galo.

Defronte uma vizinha costureira,
Doce lírio que treme a um vento vário…
Que canta a manhã toda e a tarde inteira…
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canário!...

Toda a noite o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!...
Imita o som dos sinos indiscretos…
E canta, numa voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!

E assim eu vivo só numa trapeira…
Onde as penas das pombas deixam rastros…
Exposta todo o dia à soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas vizinhanças límpidas dos astros.

Gomes Leal, Claridades do Sul, 1875.



Em prospectivo tributo à Revista de Literatura, Música e Artes Visuais, cujo nº 9 amadurece em Maio (foto alusiva em cima, e mais informações aqui) e que, além de patente em bancas selectas, pode ser encomendada por este mail: jup@jup.pt
aguasfurtadas: imprescindíveis para uma nítida ofuscação de paisagens.

Friday, May 12, 2006

d. A. (depois de Adília [Lopes])

enquanto tais poetisos obscuros
tanto mais
precisa a desassombrada poeta

Sunday, May 07, 2006

do teu nascimento

como eu palavras busco que pensar
o amor que em dor se haure e me sufoca
meu leite busca brusca tua boca
do ventre que acabou de te soltar,

me assalta primitivo o incontido
materno sentimento imprevisto
dos corpos fluidos mútuos e vertidos
que um no outro se acham repetidos;

e se recolhe enfim teu cenho feio,
teu choro sem governo no meu colo
sossega e dá lugar, sugando o seio,

a um semblante humano que consolo.
De ti esperei tudo e agora isto:
que em ti o excesso meu se ache visto.

Thursday, May 04, 2006

Rogério Rola

ARTESANATO

Quantos anos dura o elefante?
Ainda jovem o elefante parece
um animal muito velho.

Às vezes cantamos
Se um elefante incomoda muita gente
dois elefantes.

O elefante pressente quando vai morrer
o elefante busca paciente
o lugar da sua morte.

Os olhos húmidos a tromba flácida
o elefante morre em silêncio.
O elefante deixa só os dentes

que encantados compramos na feira.
E os dentes do elefante enfeitam
as estantes das nossas casas.













Rogério Rola é professor de Português no ensino Secundário. Nasceu em 1961, passou os primeiros anos da sua infância em Moçambique

Wednesday, May 03, 2006

Revista do Portugal da outra senhora

A propósito do primeiro número, dedicado a Afonso Henriques, da história infatilóide da nação que está a ser publicada serialmente pelo Expresso na colecção “Era uma Vez Um Rei”, já aqui o Camarada D deixou pertinentes considerações, a que se podiam acrescentar ainda mais, como o maniqueísmo racial com que se perpetua a versão heróica da vitória dos pequenos e honrados portugueses contra os numerosos e avassaladores mouros. Mas é sobre o nº 4 da referida colecção, dedicado a “D. João I, O de Boa Memória”, que gostaria agora de ventilar a minha fúria de feminista compulsivamente pirómana de soutiens (cf. comments a este post). É que, relativamente a duas das mulheres mais interessantes da nossa história que marcaram este período, Leonor Teles (dita “a aleivosa”) e a lendária padeira, aka Joana Brites de Almeida, que abateu sete espanhóis saídos de um forno de Aljubarrota, o livro - caucionado, tal como os restantes, pela “revisão científica” [sic] da Associação de Professores de História, escrito por uma donzela finalista de Psicologia (!!!), narrado pela consorte dum intelectual socialista, e com ilustrações do filho dum poeta da intervenção pela liberdade de Abril - mantém uma impávida omissão. Em contrapartida, numa das canções festivaleiras que pontuam assiduamente esta série, só uma figura feminina é digna de singularização nominal, D. Filipa de Lencastre. E nestes termos: “[D. João] Casou com D. Filipa, / Rainha e mãe virtuosa / Que educou bem os seus filhos, / Sendo honesta e caridosa.” Concede-se ainda, noutra das cantigas, a que festeja a Batalha virilmente chefiada por Nun’Álvares (com esta pérola versejante do cançonetismo popular, “Com a táctica do quadrado / Damos conta do recado”), dar voz ao feminino, mas, não surpreendentemente, em indistinto coro e contraponto de “mulheres”. E que cantam elas? “– Lá estão os nossos maridos / Nos campos, a combater. / Façamos uma sopinha, / Para melhor os receber…”



Face a isto, com masoquista ansiedade, aguardo ardentemente o único número da colecção dedicado a uma gaja que, à falta de melhor varão, conseguiu trepar à hierarquia do trono: “D. Maria II – A Educadora”. É o décimo primeiro. Se é mãe, ou pertence ao grupo de risco das que podem vir a sê-lo, faça já a sua reserva. Sob pena de descurar a cultura genérica de suas filhas e filhos.

(foto: insígnia das enfermeiras da Cruz de Aviz)

Monday, May 01, 2006

Confissões de uma infanta que diz que eu não posso ser menina



Eu não tenho culpa de pistolas
Não tenho culpa de espadas
Tenho culpa de portas
Tenho culpa de casas

O meu coração descolou-se

Fórum de caracteres russos



Raskólnikov said...

sibéria natal tristeza e que frio meu deus
com todo o respeito andou mal fiódor mikháilovitch na sua busca
do cristo moderno ao
eleger-me e depois de eleito ao abandonar-me
Semicrucificou-me apenas
quando eu queria morrer
pelos homens. Deu-me a Sónia a quem lavei os pés mas não salvei e não provou que pelo sofrimento
se chega ao amor
Deu-me um pouco da sua epilepsia
e a alergia ao cheiro das tintas que me traiu na esquadra é verdade
para cumprir o que estava no Livro
mas não bastou não me sinto
seu filho nem salvador de nada
apenas o triste mortal
rodion dito o Raskal

Sunday, April 30, 2006

Efemérides # 1

DIA DO TRABALHADOR,




em feliz sintonia com o aniversário natalício do blogger Camarada D aka Alexandre Dias Pinto. Parabéns, portanto, para todos nós.

Thursday, April 27, 2006

Male Bonding # 2



FAG said...

anna sempre me repugnou seres usada
violada pela pena de aço do velho
olha como se fosses minha filha
Eu riscava-te das bibliotecas
se houvesse uma inquisição para
defesa das almas violadas
Como te pôde retratar e retratar-se
quando até pugnou pelo fim da servidão
da terra e do homem como te pôde
fruir e logo enjoar como à última
das suas três mil servas, a ti
uma senhora

Pequena provocação



Desconfio, Tolstói, que não nos estávamos a entender:
Deixei que me pintasses por ter lido algures
não ser raro o artista tornar-se o retratado
mas cedo admito surpreendi em mim os teus trejeitos
que eu era um modelo às tuas poses obedecia inclinava-me
consoante me olhavas abstraía-me quando diluídas
tuas pupilas na função de me não veres erecta não havia
qualquer desejo entre nós eu simplesmente morria
no fim sabias disso desde o início eu sem qualquer mansidão
devo dizer-te esperei que mudasses de ideias não consegui
jogar contigo seria aliás delicado não me teres matado assim
como no início mas ias lá defraudar tão fáceis auspícios
prevendo homem cruel de antemão entre todos que jamais
me escreveram o deselegante desfecho meu corpo
de mulher perdida ao assalto da locomotiva os braços ao acaso
não balançavam já quiseste partir-me e veres de que me fazia
tiraste-me um filho tiraste-me dois deste-me mais que um homem
e sequer em troco te ocupou montar-me passe o obsceno chiste
achaste que devia perder-me mas foi quando comecei a cansar-te
e todos os sobrenomes e o espírito e as relações que me atribuías
fruto de um complexo sistema linguístico polida a falsa
intimidade nada daquilo me dizia tal como os meus olhos
repara não foram nunca escuros e tão pouco coruscantes
que o magnetismo é coisa de animal eu queria
ser pessoa sem disfarçados cordéis sem truques eu queria
tréguas mandava às urtigas o teu romance eu queria
a verdade ao passo que tu com critério julgavas escolhias
o tom pastel que melhor me assentava e dizias são escuros
enquanto eu para variar tentava ver-me no teu papel e claramente
te fixava custou tanto que não pude desistir e afinal depois
de tanto esforço entendi absolutamente nada eras quem
me lias e eu quem não existia e esse enjoo
da fêmea em que se entra e a outro voo é interdita já então
eu definhava sob tua pena hirta pouco fui
capaz espreitando por teu ombro de corrigir-te a mão
bom seria sermos quites porém ainda não em paz.

Anna Karenina

Monday, April 24, 2006

De hoje para amanhã

e sempre

Trabalhador


colhendo cravos para uma creche no sul da Califórnia

Saturday, April 22, 2006

Horrível

esta noite foi como se fosse um sonho histérico

Friday, April 21, 2006

Condição

Não sou mulher-mãe
nem sou musa de ninguém.

O papel de parede amarelo



Descobri realmente qualquer coisa enfim.
De tanto o observar à noite, quando está constantemente a mudar, eu enfim descobri.
O padrão na superfície move-se de verdade – e não admira! A mulher por trás abana-o!
Às vezes acho que há uma quantidade fabulosa de mulheres por trás, e às vezes que só uma, e que gatinha velozmente em redor, e ao gatinhar abana aquilo tudo.
Depois, nas manchas muito brilhantes fica quieta, e nas manchas muito na penumbra agarra-se às grades e abana-as com muita força.
E está constantemente a querer trepar por ali. Mas ninguém seria capaz de trepar por aquele padrão, que estrangula de um modo tão brutal; acho que é por isso que tem tantas, imensas cabeças.

Charlotte Perkins Gilman in “The Yellow Wallpaper” (1892).

Epifania das Batatas-hóstia

Conheço o descendente de quem as inventou!



Batata frita Pala Pala
É uma tara de sabor

Saturday, April 15, 2006

A Paixão, segundo infante

Falta muito tempo para morrer e falta muito tempo para viver.

Se não há partilha,

o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.

Adília Lopes (citada hoje, no Mil Folhas, por EPC)

Female roles #1 (ou a goma nos naperons)


MORRE COMIGO ESTE SEGREDO

faz-se a renda juntando os quadrados
em fiadas, uns que se abrem e outros
que se fecham, é fácil mesmo de olhos
vendados, como agora nesta casa
onde vivo emparedada entre lágrimas
crónicas de cataratas e os ratos
que me atacam as crostas do telhado,
esta casa onde nasci e onde hoje
só a morte espera ainda que eu
já não espero nada, sepultado

o pânico da vida sem eventos
durmo de um só sono à noite com
os meus medicamentos e a Bíblia
à cabeceira, no canapé a colcha
por acabar que é para o enxoval
da filha da afilhada – tantas vezes fui
madrinha no altar, até dos manos
que vinham de visita aos domingos
mais as cunhadas prenhes e ufanas
sem saberem felizmente que a vida

que me não quis amada me fizera
amante insana em tempos pubescentes
nessa época antiga do recente
mênstruo empolgando os animais,
mergulhando-me e às amigas no
mistério das regras mensais do corpo
ainda irregular, nesse outro tempo
dizia em que um estrangeiro me apartou
das alegrias do gineceu e me deu
a conhecer o intranquilo apelo

que com desconforto rompeu
o retráctil selo do meu sigilo—
e porque ainda em flor fui desflorada
nunca mais quis eu o amor nem ser
casada, e portanto que escarneçam se
quiserem as cunhadas cobiçosas,
levem-me os móveis mas deixem-me a casa
onde fui nada e fui criada que sem
a deixar nunca me valeu o ganho
das rendas que me pedem de encomenda,

e em tudo o mais levo eu vida piedosa,
cumpro os ofícios na missa e recolho
o ofertório finda a homilia;
só eu sei da lingueta do ferrolho
onde fulgem as jóias da família.

Sunday, April 09, 2006

La Belle Dame Sans Merci




CANTIGA

Senhor genta,
min tormenta
voss' amor en guisa tal
que tormenta
que eu senta
outra non m' é ben nen mal,
mas a vossa m' é mortal.

Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror:
fin roseta,
non me meta
en tal coita voss' amor!

Des que vejo
non desejo
outra senhor se vos non,
e desejo
tan sobejo
mataria un leon,
senhor do meu coraçon!

Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror:
fin roseta,
non me meta
en tal coita voss' amor!

Mia ventura
e loucura
me meteu de vos amar;
é loucura
que me dura
que me non poss' eu quitar.
ai fremosura sen par!

Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror:
fin roseta,
non me meta
en tal coita voss' amor!

Cantiga de amor de João de Lobeira, sob quadro, com o título do post, do pré-rafaelita John William Waterhouse

Thursday, April 06, 2006

La Belle Dame Sans Merci




CANÇÃO

Em minha sepultura,
ó meu amor, não plantes
Nem cipreste nem rosas;
Nem tristemente cantes.
Sê como a erva dos túmulos
Que o orvalho humedece.
E se quiseres, lembra-te;
Se quiseres, esquece.

Eu não verei as sombras
Quando a tarde baixar;
Não ouvirei de noite
O rouxinol cantar.
Sonhando em meu crepúsculo,
Sem sentir, sem sofrer,
Talvez possa lembrar-me,
Talvez possa esquecer.

Christina Rossetti, tradução de Manuel Bandeira; a pintura tem o título do post e é do pré-rafaelita Cowper.

Wednesday, April 05, 2006

NÃO HÁ MOTIVO PARA ALARME

que a linha da vida rescinda
em lépida lima na artéria
que dizem indolor num molho tépido

Tuesday, April 04, 2006

Fiquei com uma bola de neve no coração.

Sunday, April 02, 2006

Intermitências Internáuticas

Aproveito computador roubado para informar que dificuldades de ligação inviabilizam temporariamente a prossecução deste blog. Retomaremos a emissão assim que possível.

Tuesday, March 28, 2006

Female bonding # 3


para a allegra e a lebredoarrozal (esperando assim ser absolvida de furto de imagologia)

HAVERÁ ALGUM SENTIDO POR FORA DESTE SONHO?

As correias são frouxas
é frágil a bagagem
uma bata infantil
espreita dos caixotes
ela deslaça-me a mão
aflita e dócil
Na orientação dos adultos

eu não consigo partir
São precisos os carimbos
do passaporte as notas
lilases do monopólio:
$339 para começar—
um rigoroso cálculo
a apontar a confusão

As escadas rolantes
são escorregas desencontrados
o elevador encrava
o terminal tem sentidos escondidos
a bateria escangalhada não
dá sinal a menina apita
no embalo na descida

estamos nisto
há várias voltas
Colei as mãos ao volante
a criança desapareceu
agarrada a um biscoito
pelo espelho retrovisor
Apesar dos meus esforços

apesar de saber
que é um pesadelo comum
Ao último minuto
acorda-se Alice
está pronta para a partida
eu tenho a cabeça feita
para a perder

Monday, March 27, 2006

Carta de Paris


Apesar de curta a estada, e decorrida intra-muros de bibliotecas em fastidiosa aplicação e estudo, alinhavei estas breves impressões sobre os quatro dias que passei na cidade cognominada “das luzes”, actualmente em crucial ponto de intermitência.

1. Contrariando os cartazes anunciando os espaços verdes da cidade, “Paris respire”, os parisienses sufocam. Crispados, tensos, tristes. O céu, que Baudelaire descreveu como um capacete de chumbo, pareceu-me ter baixado ainda mais.

2. Outra inscrição-chave, a dos menus dos restaurantes, desta feita absolutamente justa: “formule” (entrada + prato + sobremesa, por um preço menos exorbitante do que seria a adição das partes, mas exorbitante “quand même”): grande parte de Paris é formulaica; “bon jour”, “je vous en prie”, “bonne soirée” – convenções de delicadeza que podem resguardar a intimidade.

3. No Quartier Latin, com ruas barricadas de grades de ferro e portinholas de sentinelas, não abundavam os jovens. Quando apareciam, era geralmente gritando à frente de polícias.

4. Nos cafés, nada que se equiparasse ao espírito de 68 que tinha esperanças de encontrar: dois anciãos, talvez professores da Sorbonne (suspensa até nova ordem), discutiam filosofia perante uma plateia neófita. Um, ensaiando pelo olhar a centelha do génio, perorava sobre Kant e a limitação da verdade às categorias perceptuais de espaço e tempo. O outro, mais taciturno, achou campo para o interromper: “Conheço gente que continua convencida de que o Sol gira em torno da Terra, por ser isso que observam no espaço, e por o Sol determinar o seu tempo.” O primeiro, insensível à ironia, refutou que a verdade se aplica ao cientificamente demonstrável, e que Galileu tratou bem do assunto.
Noutra ocasião, a voz melíflua de um americano discorrendo airosamente sobre o romance policial fez-me virar a cabeça para me certificar de que não estava perante uma ressurreição de Truman Capote, voltado do túmulo para assistir à sua entronização cinematográfica. Capote tinha o fascínio do requinte e da excentricidade dos franceses. Bajulou Colette e emulou Artaud. Nessa altura, pelo menos culturalmente, ainda se podia acreditar que a Terra rodava à volta de França.

5. Sempre resisti ao cliché da xenofobia francesa. Por outro lado, se a francofonia tem seus matizes de agência imperialista, são inegáveis as vias de acesso que proporciona à democratização cultural. Basta ir aqui: http://gallica.bnf.fr/. Desta vez, no entanto, por uma ou duas ocasiões, senti-me maltratado enquanto estrangeiro. Incertos do futuro da sua sociedade, pareceu-me que os parisienses se fechavam, algo covardemente, na arrogância nacional que se lhes colou como estereótipo. E pela primeira vez me deu que pensar a circunstância de a “fraternidade”, da fórmula revolucionária tricolor, não ser exactamente sinónima de “solidariedade”.

Ass: Xavier de Carvalho

Tuesday, March 21, 2006

Anita no Dia Mundial da Poesia


À atenção do Sr. D e do alfinete, que eu cá não sou antropógina.

ANITA

Branca, franzina, delicada,
tem no olhar a inocência da criança,
que em fofo leitozinho reclinada,
sorrindo sonha, e que a sonhar, descansa.

Mas quando Anita sonha, gentil fada
voa dela ao redor, com asa mansa,
e com pés de cetim sobre a almofada
não faz ruído algum - Quem é? A Esprança.

Mas quando Anita acorda e em redor
ouve só gritos, ais, prantos de dor,
queixoso pranto lhe magoa o olhar.

Cerra de novo as pálpebras mimosas.
Quer ver de novo a Esprança, o Sol, as Rosas.
- fazes bem Dona Anita, é bom sonhar!...

Cascais, Ano trágico de 1914
GOMES LEAL

Monday, March 20, 2006

Poema heliotrópico-real-revisionário a partir do infra-citado Gomes Leal


mesmo que não haja nada novo
debaixo do Sol talvez seja
mesmo o Sol a fazer o novo
mau-grado a falácia de nascer
mesmo para todos

Literariamente, a capacidade de inovar é directamente proporcional à arte de furtar

Mas o busílis continua a estar na arte.

“Se um escritor tem de roubar a mãe, nem sequer hesita; a 'Ode a uma Urna Grega' vale bem umas quantas velhotas.”
William Faulkner

“E assim é fácil, por um contraste notável, num dado espírito poderem ter operado as influências da leitura de Proudhon, de Cícero, de Vico, de Dante, de Baudelaire, de Renan, de Voltaire e de S. Agostinho: e daí, depois, criar-se uma entidade tão diversa destas entidades, em particular, que nenhum deles o teria por discípulo.
(…)
É por isso que compete ao escritor trabalhar a sua ideia, lapidá-la, poli-la, desenvolvê-la, facetá-la, de maneira que ela seja como que um grande elo em que se vão encatenar um rosário luminoso doutras novas, e que ela saia transformada deste vasto laboratório intelectual, por um processo misterioso semelhante ao do que faz a natureza, transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.
O escritor é um produto literário do seu tempo, das suas leituras, do seu temperamento, do seu estudo: – e obedece, mais que tudo ainda, à sua consciência e à influência do Sol sob que nasceu.”
Gomes Leal

Sunday, March 19, 2006

Gomes Leal: para ajudar à festa do valor literário

Acabei de comentar um post acerca de mais uma recente polémica sobre o que deve ser a literatura, lembrando a importância de Gomes Leal para as nossas letras do século XIX. Não me canso de a lembrar. Gomes Leal foi, quanto a mim e alguns outros, o nosso mais estranho e empolgante poeta oitocentista. Considero o seu primeiro livro de 1875, Claridades do Sul, embora com muitas composições imitando descaradamente Baudelaire ou Eça de Queirós (e talvez por isso mesmo), muito mais fascinante do que as Odes Modernas de Antero cuja segunda edição foi publicada nesse mesmo ano. Gostava de ter mais Gomes Leal neste blog, mas não sei se a dama está pelos ajustes, e além disso noutro sítio já andaram a tratar disso.
Posto isto, parece-me que Gomes Leal às vezes falha muito, ou eu não o percebo, e sobretudo no fim da vida. Mas ele insistia que tinha uma visão. Com o rebentar da Primeira Guerra, Gomes Leal procurou iluminar-nos n’A Águia (a revista do Teixeira de Pascoaes) com sonetos de “medalhões femininos” em estilo que o mais das vezes me parece puerilmente gótico, sendo um deles acompanhado de desconcertante nota. Transcrevo um pouco dessa nota, e respectivo poema, na esperança de que possam aí achar mais do que eu. E porque o valor literário está nos olhos de quem lê, começando os problemas com o facto de um escritor ser o seu próprio e primeiro leitor (não resisto, a propósito, a citar o chiste que o contemporâneo Fernandes Costa dirigiu a Gomes Leal: “Eu sinto que emudecia / Todas as línguas mordazes, / – Desde o Alfeite à Trafaria, – / Se versos fizesse um dia… / Como tu pensas que os fazes!”). E porque não é de descurar a hipótese de existir um maravilhoso mundo de pessoas mais videntes do que nós.

“NOTA: Este soneto parecerá a muitos que é somente inspirado pela mera poética imaginativa. Não o é, senão parcialmente. N’alguns livros dos Ocultistas, Cabalistas (…) encontram-se referências ao caso de um homem singular, que era sempre acompanhado pela sombra de uma jovem amada, que por toda a parte o seguia. Ora, a histérica e convulsionada Idade Média está cheia de todas estas tradicionais legendas, sobretudo e especialmente nos tempos das Cruzadas.
Parece que estes casos se podem explicar (mas que os escritores tradicionalistas nunca souberam fazer!) pelo facto passional, ou histérico, das castelãs medievais jazerem longos e dilatados anos, às vezes, sem receberem novas algumas dos castelões que haviam partido a combaterem os guerreiros infiéis na Palestina. Muitas delas feneciam, elanguesciam, extinguiam-se lentamente, melancolicamente, tal como uma
pálida lâmpada que bruxuleia numa penumbra nocturna; ou, muitas vezes, então, adulteravam, prostituíam-se, sucumbiam às tentações inferiores. Era ainda, e sempre, o mesmo caso patológico e doentio das místicas monjas e mais o de todos os corações insatisfeitos, sucumbindo no silêncio, no abandono, no isolamento, ao devastador mal da Saudade, ou do Tédio, e conhecido monacalmente pelo taciturno nome da Acedia. Por isso as legendas das damas brancas são inúmeras. (…) Os Cronistas referem às vezes desapiedadadamente, e minuciosamente, os medievais escândalos aulterinos da Idade Média, mas somente os poetas, ou os psicólogos, é que sabem definir, dissecar, ver claro muitas vezes, nestas desoladas idiossincrasias, histerias, e tragédias femininas. Leiam-se Huysmans, Papus, e sobretudo, com muita atenção, A Feiticeira, de Michelet. – G. L.”




A DAMA BRANCA

(Miniatura de Mistério)

Vivi outrora, num castelo antigo,
era então! era então! pagem, donzel,
da jovem castelã, casta, fiel,
etérea… loira… um loiro… cor de trigo.

Jamais me concedeu sorriso amigo,
mais terno que ao seu cão ou seu corcel.
Morreu bem cedo, e em prantos, no jazigo,
cerrei tão linda, tão mimosa pele!...

Alta noite, porém, eis que a finada,
vem sentar-se ao meu pé, muda, calada,
e ao partir, diz gemente: Adeus! Adeus!

Quem me dera entender um tal mistério.
A dama branca de olhar casto e sério,
Ama-me, adora-me… ou amo-a eu, meu Deus?

(imagem: John Everett Millais, “The Eve of St. Agnes”; alguém me explica como se escolhem as imagens que ficam maiores e mais visíveis? pelos vistos não é pelos píxeis)

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