Wednesday, June 06, 2007
Wednesday, May 30, 2007
Monday, May 28, 2007
Émulos

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos.
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.
E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.
Wednesday, May 23, 2007
Etiqueta
Não, mãe, eu não estou a comer com a mão como os porquinhos. Eu como com a mão como se tirasse estrelas de um prato.
Wednesday, April 25, 2007
Wednesday, March 28, 2007
Monday, January 29, 2007
Intervalo
Por motivos de força qualquer, e porque este blog raramente foi o que era. Com um bem hajam para os que daqui se foram lembrando e foram lembrados. Prometendo voltar, possivelmente noutro formato, a solo, em dueto, na conta que Deus fez, com mais cinco ou os que forem precisos. Sem impedimento de que voltemos aqui caso nos ocorra uma mensagem pertinente para o mundo. Até lá, por que não uma boa fita?
Friday, January 05, 2007
Thursday, January 04, 2007
Tuesday, January 02, 2007
Saturday, December 30, 2006
Mais uma leitura de Plath, para o fim de 2006
PAPÁ
Já não serves tu,
Já não prestas,
Sapato preto
Em que vivi como um pé
Por trinta anos, pobre e branca,
Sem sequer ousar
Respirar, sequer, Ah-tchim.
Tive, papá, que te matar.
Tu morreste sem me dar tempo…
Pesado como mármore,
Um saco cheio de Deus,
Tétrica estátua com dedão cinzento,
Gigante como foca
De São Francisco.
E uma cabeça no Atlântico
De dar arrepios,
Onde verde-feijão se vai derramar
Sobre azul
Ao largo da bela Nauset.
Eu dantes rezava para te resgatar
Ach, du.
Na língua alemã,
Na vila polaca
Cilindrada pelas guerras,
Guerras, guerras.
Mas é vulgar o nome
Dessa vila.
Diz um amigo polaco
Que há uma dúzia delas.
Por isso não pude nunca
Descobrir onde foi
Que pisaste, que calcaste.
Não pude nunca
Falar-te, de língua
Pegada ao maxilar,
Numa cilada
De arame farpado.
Ich, ich, ich, ich.
Mal conseguia falar.
Achava que tu eras
Todos os alemães.
E a língua obscena
A máquina que engrena
A cuspir-me como aos judeus.
Um judeu para Dachau,
Para Auschwitz, Belsen.
Comecei a falar judeu
Acho que se calhar
Sou dos judeus.
As neves do Tirol,
A cerveja loura de Viena,
Não são verdadeiras nem castas.
Com a minha avó cigana
E a minha sorte madrasta
Mais as minhas cartas Tarô,
Se calhar dou para as bandas dos judeus.
Tive-te sempre medo
Com a tua Luftwaffe,
E a tua glote-glu-glu,
E o teu bigode aparado,
E o teu olho ariano azul.
O Homem do Panzer
És tu –
Ao invés de Deus,
Uma suástica muito preta
De forma que nenhum céu
Se esgueirasse pelas frinchas.
As mulheres gostam todas de fascistas.
A bota na cara, o coração bruto
Dum bruto como tu.
Foste chamado ao quadro, pai,
Na fotografia que eu tenho
Tens o queixo fendido
Em vez do teu pé,
O que não faz de ti
Menos diabo
Nem menos o homem preto
Que me mordeu em duas metades
O belo coração vermelho.
Tinha dez anos quando te enterraram.
Aos vinte tentei morrer
E voltar, voltar,
Voltar para ti.
Pensei que até os ossos bastavam.
Mas foram tirar-me do saco
E juntaram-me com cola.
E então eu soube
O que tinha a fazer.
Fiz uma réplica tua,
Um homem de preto
Com ar de Meinkampf.
E um gosto pela tortura,
Por tudo o que fura,
E anuí, Ah sim,
Assim: papá, fiz o recado.
O telefone preto
Foi arrancado pelo fio,
Não há voz que lá se possa enroscar.
Se matei um homem,
Vale o mesmo que dois…
O vampiro que fingiu que eras tu
E bebeu do meu sangue por um ano,
E, de resto, sete.
Se queres mesmo saber.
Já podes deitar-te na cama que fizeste
Que nunca ninguém da aldeia te amou.
Tens uma estaca
Nesse teu coração preto e anafado.
Estão a dançar e espezinham-te.
Sempre souberam
Que eras tu.
Meu papázinho, sacana, fiz o recado.
Já não serves tu,
Já não prestas,
Sapato preto
Em que vivi como um pé
Por trinta anos, pobre e branca,
Sem sequer ousar
Respirar, sequer, Ah-tchim.
Tive, papá, que te matar.
Tu morreste sem me dar tempo…
Pesado como mármore,
Um saco cheio de Deus,
Tétrica estátua com dedão cinzento,
Gigante como foca
De São Francisco.
E uma cabeça no Atlântico
De dar arrepios,
Onde verde-feijão se vai derramar
Sobre azul
Ao largo da bela Nauset.
Eu dantes rezava para te resgatar
Ach, du.
Na língua alemã,
Na vila polaca
Cilindrada pelas guerras,
Guerras, guerras.
Mas é vulgar o nome
Dessa vila.
Diz um amigo polaco
Que há uma dúzia delas.
Por isso não pude nunca
Descobrir onde foi
Que pisaste, que calcaste.
Não pude nunca
Falar-te, de língua
Pegada ao maxilar,
Numa cilada
De arame farpado.
Ich, ich, ich, ich.
Mal conseguia falar.
Achava que tu eras
Todos os alemães.
E a língua obscena
A máquina que engrena
A cuspir-me como aos judeus.
Um judeu para Dachau,
Para Auschwitz, Belsen.
Comecei a falar judeu
Acho que se calhar
Sou dos judeus.
As neves do Tirol,
A cerveja loura de Viena,
Não são verdadeiras nem castas.
Com a minha avó cigana
E a minha sorte madrasta
Mais as minhas cartas Tarô,
Se calhar dou para as bandas dos judeus.
Tive-te sempre medo
Com a tua Luftwaffe,
E a tua glote-glu-glu,
E o teu bigode aparado,
E o teu olho ariano azul.
O Homem do Panzer
És tu –
Ao invés de Deus,
Uma suástica muito preta
De forma que nenhum céu
Se esgueirasse pelas frinchas.
As mulheres gostam todas de fascistas.
A bota na cara, o coração bruto
Dum bruto como tu.
Foste chamado ao quadro, pai,
Na fotografia que eu tenho
Tens o queixo fendido
Em vez do teu pé,
O que não faz de ti
Menos diabo
Nem menos o homem preto
Que me mordeu em duas metades
O belo coração vermelho.
Tinha dez anos quando te enterraram.
Aos vinte tentei morrer
E voltar, voltar,
Voltar para ti.
Pensei que até os ossos bastavam.
Mas foram tirar-me do saco
E juntaram-me com cola.
E então eu soube
O que tinha a fazer.
Fiz uma réplica tua,
Um homem de preto
Com ar de Meinkampf.
E um gosto pela tortura,
Por tudo o que fura,
E anuí, Ah sim,
Assim: papá, fiz o recado.
O telefone preto
Foi arrancado pelo fio,
Não há voz que lá se possa enroscar.
Se matei um homem,
Vale o mesmo que dois…
O vampiro que fingiu que eras tu
E bebeu do meu sangue por um ano,
E, de resto, sete.
Se queres mesmo saber.
Já podes deitar-te na cama que fizeste
Que nunca ninguém da aldeia te amou.
Tens uma estaca
Nesse teu coração preto e anafado.
Estão a dançar e espezinham-te.
Sempre souberam
Que eras tu.
Meu papázinho, sacana, fiz o recado.
Saturday, December 23, 2006
Wednesday, December 20, 2006
Wednesday, December 13, 2006

Reincidindo, porque acaba de me chegar às mãos, por Ana Luísa Amaral, aquela que me parece ser a melhor das traduções em português do célebre Lady Lazarus.
LADY LÁZARO
Fi-lo outra vez.
Um ano em cada dez
Eu sou capaz -
Um milagre ambulante, a minha pele
Brilhante como abat-jour nazi,
O pé direito
Um pisa-papéis,
A minha face como um pano fino, sem contornos
Em linho judeu.
Tira o sudário,
Ó meu inimigo.
Aterrorizo? -
O nariz, as órbitas, completa, a dentadura?
O hálito azedo
Esfumar-se-á num dia.
Em breve, muito em breve, a carne
Que a gruta do túmulo comeu
Comigo viverá
E eu, mulher sorridente.
Tenho só trinta anos
E como o gato nove vezes para morrer.
Esta é a Número Três.
Quanto lixo
A destruir por década.
Quantos mil filamentos.
A multidão vulgar e curiosa
Delira ao vê-los
A despirem-me toda -
O grande strip tease.
Minhas senhoras, meus senhores
Eis as minhas mãos
Eis os meus joelhos.
Posso ser pele e osso,
E todavia, sou a mesma, idêntica mulher.
Tinha dez anos quando aconteceu pela primeira vez.
Foi acidente.
Da segunda vez quis
Que durasse e eu nunca mais voltasse.
Fechei-me toda
Como concha do mar.
E eles tiveram que chamar e chamar
E arrancar de mim os vermes, pérolas cravadas.
Morrer
É uma arte, como tudo o resto.
Faço-o excepcionalmente bem.
Faço-o para que saiba a inferno,
Faço-o para que saiba a real.
Podem mesmo dizer que tenho um talento especial.
É fácil fazê-lo numa cela,
É fácil fazê-lo e ficar direita.
É o regresso
Teatral, em plena luz do dia,
Ao mesmo sítio, à mesma cara, ao mesmo grito
Divertido e bruto:
"Milagre!"
Dá cabo de mim.
Há um preço
Para ver as minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir o meu coração -
É que ele bate mesmo!
E há um preço, um preço muito alto
Por uma palavra, ou um toque
Ou um pouco de sangue
Ou um fio do meu cabelo ou um fio da minha roupa.
Vá lá, Herr Doktor.
Vá lá, Herr Inimigo.
Sou a vossa obra de arte,
A vossa peça de maior valor,
O bebé de ouro puro
Que se derrete como um grito.
Viro-me e ardo.
Não penseis que subestimo o vosso interesse.
Cinzas, cinzas -
Atiçais, revolveis.
Carne, osso, nada disso existe -
Um sabonete,
Uma aliança,
Um dente de ouro.
Herr Deus, Herr Lucifer,
Tremei,
Temei.
Das cinzas
Ergo-me, o cabelo em fogo,
E devoro homens como ar.
Sunday, December 03, 2006
A realidade supera em muito a wikipédia

Mas seja como for aqui vai, com um bem hajam, para todos os que por mim foram iniciados neste culto e que noutros cultos me iniciaram. Não, isto não tem que ver com ortógonos templários, mas, como alvíssaras, oferecem-se alguns anos de indulgência (cada caso é um caso) a quem conseguir apontar e corrigir todos os erros do verbete.
"A Capela de Nossa Senhora do Monte ou Ermida da Senhora do Monte, encontra-se na freguesia da Graça em Lisboa.
A primeira ermida que existiu, perto deste local, foi construída em 1147 após a reconquista da cidade de Lisboa. Foi dedicada a São Gens que tinha sido bispo da cidade muito antes da reconquista e que teria sido martirizado neste local. Os frades Agostinhos, que tomaram contam da ermida, colocaram no seu interior, a cadeira de pedra que pertencera ao santo. À volta desta cadeira surgiu uma lenda segundo a qual, as senhoras grávidas que lá se sentassem, tinham partos sem complicações. A própria mulher de D. João V, D. Maria Ana de Áustria, foi lá sentar-se quando estava grávida do herdeiro do trono.
Após o terramoto de 1755, que foi devastador em toda a zona circundante, a ermida ficou praticamente destruída. A actual ermida, foi construída em 1796, um local um pouco mais acima do local original e é obra do arquitecto Honorato José Teixeira. No seu interior foi de novo colocada a cadeira de São Gens."

Aqui, de onde foram retiradas as fotos de injustiça para com o real ainda mais flagrante do que a wikipédia, mas com legendas inegavelmente superiores na aprimoração escrita, acrescenta-se que São Gens era um "mártir da ocupação romana e padroeiro dos actores cómicos, que pregava aos cristãos e, por isso, muito venerado no reinado de D. Afonso Henriques", e que "na entrada do templo ainda se conserva a cadeira de pedra do bispo de S. Gens". Pode ser que sim, mas está fechada atrás duma portinha, eu nunca vi. Em contrapartida, tenho lá visto cousas tam extraordinarias e maravilhosas que nam conto por receio do mor escarnio que me possa advir dos que, piores do que sam tome, nem vendo com os olhos da cara, nem tocando com os dedos das mãos, abrem ao mundo as pupilas do coraçam e dispoem o espírito a acolher o tacto e o sabor da mais gozosa paixam.
Friday, December 01, 2006
Transatlântico
Were I an American
I would make myself
an eyeball
all-mighty
Nonetheless
this body of mine weighs me
down-to-earth
matter-of-factly
I heave heavily
the air ten inches thick
I sink while I breathe
I exhale
not a thing
I reflect
not a fling.

Fosse eu americana
faria comigo um globo
ocular
Todavia
finca-me o corpo
terra-a-terra
Arfo arco
o mundo aos pés
Tortura-me o ar
a uma grossura de dez polegadas
Afoga-me respirar
Fôlego que valha
não exalo
Não refracto
uma centelha.
I would make myself
an eyeball
all-mighty
Nonetheless
this body of mine weighs me
down-to-earth
matter-of-factly
I heave heavily
the air ten inches thick
I sink while I breathe
I exhale
not a thing
I reflect
not a fling.

Fosse eu americana
faria comigo um globo
ocular
Todavia
finca-me o corpo
terra-a-terra
Arfo arco
o mundo aos pés
Tortura-me o ar
a uma grossura de dez polegadas
Afoga-me respirar
Fôlego que valha
não exalo
Não refracto
uma centelha.
Thursday, November 23, 2006
A Imagem Romântica

Há outras coisas, Horácio,
e a tua filosofia é barata,
na verdade não custa fixar
as coisas ideais à distância:
terás vista panorâmica
mas sempre a visão é polémica.
Gostava que alguém me mostrasse,
mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.
As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
Tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm, pessoas morrem, a vida
é breve, impávido o
real que ansiamos designar.
Comparar é colidir: o verbo
talvez nos leve
a mais nenhum sinal.
Friday, November 10, 2006

escrevo o poema enquanto penso agora
por que não um soneto panegírico
desta hora de que abdico e não repete
nunca mais nevermore é para sempre
que só resta a saudade portuguesa
e tal que concerteza universal
será mournful e neverending era
um corvo que grasnava deixa lá
já nem o vês passou está só ali
ainda e não obstante o ruge ruge
gingando a esconso metro a sua asa
e escarnecendo à pala da poesia
senão mesmo do mundo vai por mim
que por um triz a treta engrupia.
Tuesday, October 24, 2006
Estou a arder
Não deixa de ser uma coisa bonita de se dizer, e decerto não pensaria nisso se estivesse num forno crematório. Mas há de facto qualquer coisa a queimar dentro de mim: um consumo físico. Tira-me peso. Está a tentar tirar-me o corpo. E ele faz-me falta. Uma hora para arrumar papéis. A quem ando eu a tentar enganar?
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