Em Mercúrio, Sexta-feira, a sonda
detectou duas crateras de auréolas
sombrias. Apresentam ambas bordos
quase intactos e muros de socalcos
segundo especifica o endereço
http://messenger.jhuapl.edu/
(anoto e espero que o poema
seja eterno e o link não). Cliquei
para ampliar a imagem, e dentro
vi pequeninas covas circulares
como as que na areia faz a chuva
ou nas fontes as moedas dos desejos.
Também por via Messenger te encontro
e troco novidades, mais veloz
do que a luz, mais ágil o gracejo
do que o próprio pensamento, faísca
o espaço – onde chegamos, sem risco
já de nos tocarmos; os dois estamos
cheios de buracos – e nem é grave
se soubermos flutuar. Em tudo isto
ainda há algo como um halo fundo
e um radar que é como água gotejando
por degraus, que inquieta mas seduz
e nos deixa sombrios intactos sós.
Sunday, February 24, 2008
Saturday, February 23, 2008
sex symbol bis
Monday, February 18, 2008
o primeiro pássaro que namora
acabo de ouvi-lo, aflito, ansioso, do lado de lá do vidro do terraço, e sei que não tarda vou sentir-lhe a falta. Hoje também recebi mais um sensível poema, e jantei com reencontro falado furiosa e entusiasticamente em estrangeiro. Afortunada eu. Quando tiver mais generosidade, enceto um diário.
Monday, February 04, 2008
Sunday, January 27, 2008
poema de Rogério Rôla para mim
(quando se tem amigos que nos escrevem assim até se fica gaga)
DESCOLAGEM
Como eu gostava de me elevar
na ponta dos pés quando me abraçavas
e pendurar-me ao teu pescoço.
Sorvia -te os olhos a voz e os lábios
e a tua nuca voava mais alto
como aeronave que toma outro rumo.
Eu ia feliz seguindo embalada
a directriz da tua viagem
sempre pendurada ao teu pescoço.
Os calcanhares já não tocam o solo
cruzo a estratosfera o ar rarefeito
pendurada e rígida ao teu pescoço.
Rogério Rôla
DESCOLAGEM
Como eu gostava de me elevar
na ponta dos pés quando me abraçavas
e pendurar-me ao teu pescoço.
Sorvia -te os olhos a voz e os lábios
e a tua nuca voava mais alto
como aeronave que toma outro rumo.
Eu ia feliz seguindo embalada
a directriz da tua viagem
sempre pendurada ao teu pescoço.
Os calcanhares já não tocam o solo
cruzo a estratosfera o ar rarefeito
pendurada e rígida ao teu pescoço.
Rogério Rôla
Saturday, January 26, 2008
Friday, January 25, 2008
Wednesday, January 16, 2008
Ressabiadas

Talvez lá no fundo acredite
que os seres humanos são todos sensivelmente
os mesmos em toda a parte, mas então
necessariamente as mulheres são mais.
Costumes que frequentamos:
o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas
do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão,
o alguidar, guardamos os restos, torcemos
os trapos, os nossos recados, os nossos sacos,
os nossos ovos.
Certamente que eles, em grande maioria,
escanhoam os queixos e gostam
de arejar, mas são médicos, polícias,
engraxadores, economistas
e os vários naipes da banda filarmónica
nós somos todas domésticas, mesmo
assim não nos entendemos, e
nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice, e a poesia
vem dos anjos já se sabe
carecidos de sexo.
E aliás que me rala a mim,
levo a minha vida e tenho o amor
de que não desconfio
e se consolo o cio e a fome
decerto falo de cor,
nem é por isso que me doem os calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos, refinadas
galdérias que se tomam a sério,
pestanas certeiras e beiços
que brilham, línguas que estalam
e mamas que chispam
corada invoco a imagem mal tirada
da fêmea recortada ao macho que a conforma;
sei que desminto qualquer laço comunal
e seja como for ninguém pediu
o meu palpite, pelo que não me habilito
e me desquito, acinte
mudo, era eu
quem estava mal.
Sunday, January 06, 2008
Saturday, January 05, 2008
Mosteiro de Odivelas
Oprimidas pela virgindade e pela pedra esculpida
da Rainha Santa, percorríamos a emparedada adolescência
e, como rezava a lenda, no nosso colo
o pão da merenda em rosas se mudava;
com elas engrinaldávamos o júbilo imperfeito
que o pudor cerceava.
Como lira a estridência dos nossos corpos
de sombrias raparigas, na argila mergulhávamos
as mãos que dilatavam as primícias do Verão
e éramos inocentes conquanto experimentadas
no ofício da entrega e da sujeição.
Iludindo as harpias que nos espiavam,
a amiga e eu trocávamos de mãos dadas
junto às grades interditas palavras,
boca a boca nos enlevávamos
no atrito do canto das cigarras.
da Rainha Santa, percorríamos a emparedada adolescência
e, como rezava a lenda, no nosso colo
o pão da merenda em rosas se mudava;
com elas engrinaldávamos o júbilo imperfeito
que o pudor cerceava.
Como lira a estridência dos nossos corpos
de sombrias raparigas, na argila mergulhávamos
as mãos que dilatavam as primícias do Verão
e éramos inocentes conquanto experimentadas
no ofício da entrega e da sujeição.
Iludindo as harpias que nos espiavam,
a amiga e eu trocávamos de mãos dadas
junto às grades interditas palavras,
boca a boca nos enlevávamos
no atrito do canto das cigarras.
Wednesday, January 02, 2008
O BRANCO DO CORPO
Sobre as paredes celestes do quarto
Um esboço de canábis a branco
As lágrimas a branco deslizando sob as lentes
O estômago a branco, retorcendo-se
O coração branqueado, vais deixar-me
Porque nunca sorrimos
Como um casal feliz.
Eu arrancava-te todo o branco do corpo
Para te ensinar a ferida.
Como sempre sento-me à beira da cama
O rumor de uma palavra não dita destroça tudo
Chama-me, morde-me, chora um pouco mais
Vem
Apesar de tudo não sei o que tenho e quero
Acariciar-te.
Rocío Silva Santisteban (n. Lima, 1963) - de Mariposa Negra, 1993
Um esboço de canábis a branco
As lágrimas a branco deslizando sob as lentes
O estômago a branco, retorcendo-se
O coração branqueado, vais deixar-me
Porque nunca sorrimos
Como um casal feliz.
Eu arrancava-te todo o branco do corpo
Para te ensinar a ferida.
Como sempre sento-me à beira da cama
O rumor de uma palavra não dita destroça tudo
Chama-me, morde-me, chora um pouco mais
Vem
Apesar de tudo não sei o que tenho e quero
Acariciar-te.
Rocío Silva Santisteban (n. Lima, 1963) - de Mariposa Negra, 1993
Friday, December 28, 2007
Porque tenho vocação para o melodrama
mas independentemente disso gosto mesmo muito disto, à guisa de bom ano novo para os amigos:
Coping
Ficar quieta é técnica que já
aplico com rigor, e no preciso
sítio em que pulsa paraliso
tudo, quem está morto livre está.
Creio que começou quando cedeu
o avô. Alguém disse: afinal
o coração não aguentou. Eu
pensei: mais vale declinar o abalo.
Mas também não cheguei nessa altura
até ao fim. Escangalhei-me na novena
aos degredados filhos de Eva.
Iniciei-me então nos barbitúricos
e hoje passo bem melhor. Às vezes
é um jogo, em que recorro ao coito
antes da apanhada, e se esgoto
essa via, dedico-me à mimese,
diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não
há como acordar um corpo mudo.
Por exemplo agora que não veio
o homem, podia ter-me ferido
ou saído à busca de outro, e perdido;
mas pratico com vantagem a apneia
e a domesticidade. É pena
que me esqueça tanta coisa; foi
sorte saber da lamela – eia, pois,
advogada nossa – dormir serena.
aplico com rigor, e no preciso
sítio em que pulsa paraliso
tudo, quem está morto livre está.
Creio que começou quando cedeu
o avô. Alguém disse: afinal
o coração não aguentou. Eu
pensei: mais vale declinar o abalo.
Mas também não cheguei nessa altura
até ao fim. Escangalhei-me na novena
aos degredados filhos de Eva.
Iniciei-me então nos barbitúricos
e hoje passo bem melhor. Às vezes
é um jogo, em que recorro ao coito
antes da apanhada, e se esgoto
essa via, dedico-me à mimese,
diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não
há como acordar um corpo mudo.
Por exemplo agora que não veio
o homem, podia ter-me ferido
ou saído à busca de outro, e perdido;
mas pratico com vantagem a apneia
e a domesticidade. É pena
que me esqueça tanta coisa; foi
sorte saber da lamela – eia, pois,
advogada nossa – dormir serena.
Friday, December 21, 2007
Thursday, November 15, 2007
Encontrar-nos-emos todos
talvez se houver outra vida
em volta de uma mesa
a beber bebidas
na espirituosa retoma
dos mesmos enredos
da velha dor querida
em volta de uma mesa
a beber bebidas
na espirituosa retoma
dos mesmos enredos
da velha dor querida
Saturday, October 20, 2007
Mais uma Vez
Da Transparência
Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres
Sophia de Mello Breyner
Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres
Sophia de Mello Breyner
Sunday, October 07, 2007
da tradução
terei eu de facto o estofo
para um balanço preciso?
quantas vezes vou ao Outro,
quantas vezes sou Narciso?
para um balanço preciso?
quantas vezes vou ao Outro,
quantas vezes sou Narciso?
Friday, October 05, 2007
Monday, October 01, 2007
Wednesday, September 19, 2007
A Língua contra a Linguagem
Queria um homem que me queria. Comecei a dar-lhe nome, fugiu-me dos lábios.
Tuesday, September 04, 2007
Tresleitura e abreviatura: T. S. Eliot
Se me atrevo a comover o Universo:
ter refeito os trajectos todos
com colheres de café
será caso de prever
ou estimar um recomeço?
ter refeito os trajectos todos
com colheres de café
será caso de prever
ou estimar um recomeço?
Monday, August 27, 2007
reparação
Abraça-me, comanda nossa filha
do interior do sono. Eu desentendo.
Ela insiste. Aí desperto e rendo
amor ao riso que na sombra brilha.
Que quem connosco cresce a cada dia
se desliga. Também o seu pedido
mo ensina – pela discreta elipse
do olho que a tristeza me desvia.
E que isto é preciso acolher:
ilude o tempo os laços de um momento
de equívoco sentido, nó incerto.
Aqui, da solidão, este soneto
que embora nada possa demover
seria bom achar anuimento.
do interior do sono. Eu desentendo.
Ela insiste. Aí desperto e rendo
amor ao riso que na sombra brilha.
Que quem connosco cresce a cada dia
se desliga. Também o seu pedido
mo ensina – pela discreta elipse
do olho que a tristeza me desvia.
E que isto é preciso acolher:
ilude o tempo os laços de um momento
de equívoco sentido, nó incerto.
Aqui, da solidão, este soneto
que embora nada possa demover
seria bom achar anuimento.
Saturday, August 18, 2007
Sunday, July 29, 2007
Thursday, July 05, 2007
Wednesday, July 04, 2007
Friday, June 29, 2007
Tuesday, June 26, 2007
embora me seja incalculável essa harmonia da forma como ardia, gosto quando dela me socorro para atravessar o dia
TU DORMES
Tu dormes embalado nos rochedos
E aos meus ouvidos vem falar o vento.
Escuto, busco, chamo e não respondes,
E todo o mundo se tornou fantasma.
Estou fechada, suspensa, prisioneira
Queria voltar para fora, para o dia
Ressurgir, respirar, tornar a ver,
Mas todo o mundo se tornou fantasma.
E a voz do mar encheu o céu e a terra
Uma voz que está cheia e que se quebra
E nunca mais acaba.
Pássaros brancos cortam as janelas,
Anémonas cintilam nos rochedos:
Terror de estar sozinha e de escutar
Com este tempo morto entre os meus dedos.
BARCOS
Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrido
Os seus olhos de estátua
E a curva do seu bico
Rói a solidão.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tu dormes embalado nos rochedos
E aos meus ouvidos vem falar o vento.
Escuto, busco, chamo e não respondes,
E todo o mundo se tornou fantasma.
Estou fechada, suspensa, prisioneira
Queria voltar para fora, para o dia
Ressurgir, respirar, tornar a ver,
Mas todo o mundo se tornou fantasma.
E a voz do mar encheu o céu e a terra
Uma voz que está cheia e que se quebra
E nunca mais acaba.
Pássaros brancos cortam as janelas,
Anémonas cintilam nos rochedos:
Terror de estar sozinha e de escutar
Com este tempo morto entre os meus dedos.
BARCOS
Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrido
Os seus olhos de estátua
E a curva do seu bico
Rói a solidão.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Thursday, June 14, 2007
Mutilação
Se por fora não pareço oca dentro
podre ao centro estou.
Sem querer armar-me em modernista tenho Alturas
em que experimento a lúcida percepção
quase materialista e táctil
do progresso da loucura
sou tal película sobre-
posta sobre-exposta,
precipitado cálculo de abertura -
aí o pânico a insónia eu cindida.
Só escrever me alivia um pouco
e dantes inclusive consolava;
agora é mais um corte
que sob a pele se exerce a prevenir
a coisa mais violenta que me pulsa na cabeça
e compulsivamente desta forma se escoa
mas não seca nunca estanca apenas se desloca.
E quanto disto não assenta na suspeita
de que me torno assim pior pessoa?
podre ao centro estou.
Sem querer armar-me em modernista tenho Alturas
em que experimento a lúcida percepção
quase materialista e táctil
do progresso da loucura
sou tal película sobre-
posta sobre-exposta,
precipitado cálculo de abertura -
aí o pânico a insónia eu cindida.
Só escrever me alivia um pouco
e dantes inclusive consolava;
agora é mais um corte
que sob a pele se exerce a prevenir
a coisa mais violenta que me pulsa na cabeça
e compulsivamente desta forma se escoa
mas não seca nunca estanca apenas se desloca.
E quanto disto não assenta na suspeita
de que me torno assim pior pessoa?
Wednesday, June 13, 2007
Beckett bis
Levanta os olhos para mim e diz se me podes ver, faz isso por mim. Eu torço-me atrás o mais que puder.
Tresleitura # 3: Beckett
Há tão pouco que uma pessoa possa realmente fazer. Faz-se o mais que se pode.
Saturday, June 09, 2007
Os Lugares Comuns
Quando o homem que ia casar comigo
chegou a primeira vez na minha casa,
eu estava saindo do banheiro, devastada
de angelismo e carência. Mesmo assim,
ele me olhou com olhos admirados
e segurou minha mão mais que
um tempo normal a pessoas
acabando de se conhecer.
Nunca mencionou o fato.
Até hoje me ama com amor
de vagarezas, súbitos chegares.
Quando eu sei que ele vem,
eu fecho a porta para a grata supresa.
Vou abri-la como o fazem as noivas
e as amantes. Seu nome é:
Salvador do meu corpo.
Adélia Prado
chegou a primeira vez na minha casa,
eu estava saindo do banheiro, devastada
de angelismo e carência. Mesmo assim,
ele me olhou com olhos admirados
e segurou minha mão mais que
um tempo normal a pessoas
acabando de se conhecer.
Nunca mencionou o fato.
Até hoje me ama com amor
de vagarezas, súbitos chegares.
Quando eu sei que ele vem,
eu fecho a porta para a grata supresa.
Vou abri-la como o fazem as noivas
e as amantes. Seu nome é:
Salvador do meu corpo.
Adélia Prado
Wednesday, June 06, 2007
Wednesday, May 30, 2007
Monday, May 28, 2007
Émulos

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos.
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.
E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.
Wednesday, May 23, 2007
Etiqueta
Não, mãe, eu não estou a comer com a mão como os porquinhos. Eu como com a mão como se tirasse estrelas de um prato.
Wednesday, April 25, 2007
Wednesday, March 28, 2007
Monday, January 29, 2007
Intervalo
Por motivos de força qualquer, e porque este blog raramente foi o que era. Com um bem hajam para os que daqui se foram lembrando e foram lembrados. Prometendo voltar, possivelmente noutro formato, a solo, em dueto, na conta que Deus fez, com mais cinco ou os que forem precisos. Sem impedimento de que voltemos aqui caso nos ocorra uma mensagem pertinente para o mundo. Até lá, por que não uma boa fita?
Friday, January 05, 2007
Thursday, January 04, 2007
Tuesday, January 02, 2007
Saturday, December 30, 2006
Mais uma leitura de Plath, para o fim de 2006
PAPÁ
Já não serves tu,
Já não prestas,
Sapato preto
Em que vivi como um pé
Por trinta anos, pobre e branca,
Sem sequer ousar
Respirar, sequer, Ah-tchim.
Tive, papá, que te matar.
Tu morreste sem me dar tempo…
Pesado como mármore,
Um saco cheio de Deus,
Tétrica estátua com dedão cinzento,
Gigante como foca
De São Francisco.
E uma cabeça no Atlântico
De dar arrepios,
Onde verde-feijão se vai derramar
Sobre azul
Ao largo da bela Nauset.
Eu dantes rezava para te resgatar
Ach, du.
Na língua alemã,
Na vila polaca
Cilindrada pelas guerras,
Guerras, guerras.
Mas é vulgar o nome
Dessa vila.
Diz um amigo polaco
Que há uma dúzia delas.
Por isso não pude nunca
Descobrir onde foi
Que pisaste, que calcaste.
Não pude nunca
Falar-te, de língua
Pegada ao maxilar,
Numa cilada
De arame farpado.
Ich, ich, ich, ich.
Mal conseguia falar.
Achava que tu eras
Todos os alemães.
E a língua obscena
A máquina que engrena
A cuspir-me como aos judeus.
Um judeu para Dachau,
Para Auschwitz, Belsen.
Comecei a falar judeu
Acho que se calhar
Sou dos judeus.
As neves do Tirol,
A cerveja loura de Viena,
Não são verdadeiras nem castas.
Com a minha avó cigana
E a minha sorte madrasta
Mais as minhas cartas Tarô,
Se calhar dou para as bandas dos judeus.
Tive-te sempre medo
Com a tua Luftwaffe,
E a tua glote-glu-glu,
E o teu bigode aparado,
E o teu olho ariano azul.
O Homem do Panzer
És tu –
Ao invés de Deus,
Uma suástica muito preta
De forma que nenhum céu
Se esgueirasse pelas frinchas.
As mulheres gostam todas de fascistas.
A bota na cara, o coração bruto
Dum bruto como tu.
Foste chamado ao quadro, pai,
Na fotografia que eu tenho
Tens o queixo fendido
Em vez do teu pé,
O que não faz de ti
Menos diabo
Nem menos o homem preto
Que me mordeu em duas metades
O belo coração vermelho.
Tinha dez anos quando te enterraram.
Aos vinte tentei morrer
E voltar, voltar,
Voltar para ti.
Pensei que até os ossos bastavam.
Mas foram tirar-me do saco
E juntaram-me com cola.
E então eu soube
O que tinha a fazer.
Fiz uma réplica tua,
Um homem de preto
Com ar de Meinkampf.
E um gosto pela tortura,
Por tudo o que fura,
E anuí, Ah sim,
Assim: papá, fiz o recado.
O telefone preto
Foi arrancado pelo fio,
Não há voz que lá se possa enroscar.
Se matei um homem,
Vale o mesmo que dois…
O vampiro que fingiu que eras tu
E bebeu do meu sangue por um ano,
E, de resto, sete.
Se queres mesmo saber.
Já podes deitar-te na cama que fizeste
Que nunca ninguém da aldeia te amou.
Tens uma estaca
Nesse teu coração preto e anafado.
Estão a dançar e espezinham-te.
Sempre souberam
Que eras tu.
Meu papázinho, sacana, fiz o recado.
Já não serves tu,
Já não prestas,
Sapato preto
Em que vivi como um pé
Por trinta anos, pobre e branca,
Sem sequer ousar
Respirar, sequer, Ah-tchim.
Tive, papá, que te matar.
Tu morreste sem me dar tempo…
Pesado como mármore,
Um saco cheio de Deus,
Tétrica estátua com dedão cinzento,
Gigante como foca
De São Francisco.
E uma cabeça no Atlântico
De dar arrepios,
Onde verde-feijão se vai derramar
Sobre azul
Ao largo da bela Nauset.
Eu dantes rezava para te resgatar
Ach, du.
Na língua alemã,
Na vila polaca
Cilindrada pelas guerras,
Guerras, guerras.
Mas é vulgar o nome
Dessa vila.
Diz um amigo polaco
Que há uma dúzia delas.
Por isso não pude nunca
Descobrir onde foi
Que pisaste, que calcaste.
Não pude nunca
Falar-te, de língua
Pegada ao maxilar,
Numa cilada
De arame farpado.
Ich, ich, ich, ich.
Mal conseguia falar.
Achava que tu eras
Todos os alemães.
E a língua obscena
A máquina que engrena
A cuspir-me como aos judeus.
Um judeu para Dachau,
Para Auschwitz, Belsen.
Comecei a falar judeu
Acho que se calhar
Sou dos judeus.
As neves do Tirol,
A cerveja loura de Viena,
Não são verdadeiras nem castas.
Com a minha avó cigana
E a minha sorte madrasta
Mais as minhas cartas Tarô,
Se calhar dou para as bandas dos judeus.
Tive-te sempre medo
Com a tua Luftwaffe,
E a tua glote-glu-glu,
E o teu bigode aparado,
E o teu olho ariano azul.
O Homem do Panzer
És tu –
Ao invés de Deus,
Uma suástica muito preta
De forma que nenhum céu
Se esgueirasse pelas frinchas.
As mulheres gostam todas de fascistas.
A bota na cara, o coração bruto
Dum bruto como tu.
Foste chamado ao quadro, pai,
Na fotografia que eu tenho
Tens o queixo fendido
Em vez do teu pé,
O que não faz de ti
Menos diabo
Nem menos o homem preto
Que me mordeu em duas metades
O belo coração vermelho.
Tinha dez anos quando te enterraram.
Aos vinte tentei morrer
E voltar, voltar,
Voltar para ti.
Pensei que até os ossos bastavam.
Mas foram tirar-me do saco
E juntaram-me com cola.
E então eu soube
O que tinha a fazer.
Fiz uma réplica tua,
Um homem de preto
Com ar de Meinkampf.
E um gosto pela tortura,
Por tudo o que fura,
E anuí, Ah sim,
Assim: papá, fiz o recado.
O telefone preto
Foi arrancado pelo fio,
Não há voz que lá se possa enroscar.
Se matei um homem,
Vale o mesmo que dois…
O vampiro que fingiu que eras tu
E bebeu do meu sangue por um ano,
E, de resto, sete.
Se queres mesmo saber.
Já podes deitar-te na cama que fizeste
Que nunca ninguém da aldeia te amou.
Tens uma estaca
Nesse teu coração preto e anafado.
Estão a dançar e espezinham-te.
Sempre souberam
Que eras tu.
Meu papázinho, sacana, fiz o recado.
Saturday, December 23, 2006
Wednesday, December 20, 2006
Wednesday, December 13, 2006

Reincidindo, porque acaba de me chegar às mãos, por Ana Luísa Amaral, aquela que me parece ser a melhor das traduções em português do célebre Lady Lazarus.
LADY LÁZARO
Fi-lo outra vez.
Um ano em cada dez
Eu sou capaz -
Um milagre ambulante, a minha pele
Brilhante como abat-jour nazi,
O pé direito
Um pisa-papéis,
A minha face como um pano fino, sem contornos
Em linho judeu.
Tira o sudário,
Ó meu inimigo.
Aterrorizo? -
O nariz, as órbitas, completa, a dentadura?
O hálito azedo
Esfumar-se-á num dia.
Em breve, muito em breve, a carne
Que a gruta do túmulo comeu
Comigo viverá
E eu, mulher sorridente.
Tenho só trinta anos
E como o gato nove vezes para morrer.
Esta é a Número Três.
Quanto lixo
A destruir por década.
Quantos mil filamentos.
A multidão vulgar e curiosa
Delira ao vê-los
A despirem-me toda -
O grande strip tease.
Minhas senhoras, meus senhores
Eis as minhas mãos
Eis os meus joelhos.
Posso ser pele e osso,
E todavia, sou a mesma, idêntica mulher.
Tinha dez anos quando aconteceu pela primeira vez.
Foi acidente.
Da segunda vez quis
Que durasse e eu nunca mais voltasse.
Fechei-me toda
Como concha do mar.
E eles tiveram que chamar e chamar
E arrancar de mim os vermes, pérolas cravadas.
Morrer
É uma arte, como tudo o resto.
Faço-o excepcionalmente bem.
Faço-o para que saiba a inferno,
Faço-o para que saiba a real.
Podem mesmo dizer que tenho um talento especial.
É fácil fazê-lo numa cela,
É fácil fazê-lo e ficar direita.
É o regresso
Teatral, em plena luz do dia,
Ao mesmo sítio, à mesma cara, ao mesmo grito
Divertido e bruto:
"Milagre!"
Dá cabo de mim.
Há um preço
Para ver as minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir o meu coração -
É que ele bate mesmo!
E há um preço, um preço muito alto
Por uma palavra, ou um toque
Ou um pouco de sangue
Ou um fio do meu cabelo ou um fio da minha roupa.
Vá lá, Herr Doktor.
Vá lá, Herr Inimigo.
Sou a vossa obra de arte,
A vossa peça de maior valor,
O bebé de ouro puro
Que se derrete como um grito.
Viro-me e ardo.
Não penseis que subestimo o vosso interesse.
Cinzas, cinzas -
Atiçais, revolveis.
Carne, osso, nada disso existe -
Um sabonete,
Uma aliança,
Um dente de ouro.
Herr Deus, Herr Lucifer,
Tremei,
Temei.
Das cinzas
Ergo-me, o cabelo em fogo,
E devoro homens como ar.
Sunday, December 03, 2006
A realidade supera em muito a wikipédia

Mas seja como for aqui vai, com um bem hajam, para todos os que por mim foram iniciados neste culto e que noutros cultos me iniciaram. Não, isto não tem que ver com ortógonos templários, mas, como alvíssaras, oferecem-se alguns anos de indulgência (cada caso é um caso) a quem conseguir apontar e corrigir todos os erros do verbete.
"A Capela de Nossa Senhora do Monte ou Ermida da Senhora do Monte, encontra-se na freguesia da Graça em Lisboa.
A primeira ermida que existiu, perto deste local, foi construída em 1147 após a reconquista da cidade de Lisboa. Foi dedicada a São Gens que tinha sido bispo da cidade muito antes da reconquista e que teria sido martirizado neste local. Os frades Agostinhos, que tomaram contam da ermida, colocaram no seu interior, a cadeira de pedra que pertencera ao santo. À volta desta cadeira surgiu uma lenda segundo a qual, as senhoras grávidas que lá se sentassem, tinham partos sem complicações. A própria mulher de D. João V, D. Maria Ana de Áustria, foi lá sentar-se quando estava grávida do herdeiro do trono.
Após o terramoto de 1755, que foi devastador em toda a zona circundante, a ermida ficou praticamente destruída. A actual ermida, foi construída em 1796, um local um pouco mais acima do local original e é obra do arquitecto Honorato José Teixeira. No seu interior foi de novo colocada a cadeira de São Gens."

Aqui, de onde foram retiradas as fotos de injustiça para com o real ainda mais flagrante do que a wikipédia, mas com legendas inegavelmente superiores na aprimoração escrita, acrescenta-se que São Gens era um "mártir da ocupação romana e padroeiro dos actores cómicos, que pregava aos cristãos e, por isso, muito venerado no reinado de D. Afonso Henriques", e que "na entrada do templo ainda se conserva a cadeira de pedra do bispo de S. Gens". Pode ser que sim, mas está fechada atrás duma portinha, eu nunca vi. Em contrapartida, tenho lá visto cousas tam extraordinarias e maravilhosas que nam conto por receio do mor escarnio que me possa advir dos que, piores do que sam tome, nem vendo com os olhos da cara, nem tocando com os dedos das mãos, abrem ao mundo as pupilas do coraçam e dispoem o espírito a acolher o tacto e o sabor da mais gozosa paixam.
Friday, December 01, 2006
Transatlântico
Were I an American
I would make myself
an eyeball
all-mighty
Nonetheless
this body of mine weighs me
down-to-earth
matter-of-factly
I heave heavily
the air ten inches thick
I sink while I breathe
I exhale
not a thing
I reflect
not a fling.

Fosse eu americana
faria comigo um globo
ocular
Todavia
finca-me o corpo
terra-a-terra
Arfo arco
o mundo aos pés
Tortura-me o ar
a uma grossura de dez polegadas
Afoga-me respirar
Fôlego que valha
não exalo
Não refracto
uma centelha.
I would make myself
an eyeball
all-mighty
Nonetheless
this body of mine weighs me
down-to-earth
matter-of-factly
I heave heavily
the air ten inches thick
I sink while I breathe
I exhale
not a thing
I reflect
not a fling.

Fosse eu americana
faria comigo um globo
ocular
Todavia
finca-me o corpo
terra-a-terra
Arfo arco
o mundo aos pés
Tortura-me o ar
a uma grossura de dez polegadas
Afoga-me respirar
Fôlego que valha
não exalo
Não refracto
uma centelha.
Thursday, November 23, 2006
A Imagem Romântica

Há outras coisas, Horácio,
e a tua filosofia é barata,
na verdade não custa fixar
as coisas ideais à distância:
terás vista panorâmica
mas sempre a visão é polémica.
Gostava que alguém me mostrasse,
mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.
As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
Tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm, pessoas morrem, a vida
é breve, impávido o
real que ansiamos designar.
Comparar é colidir: o verbo
talvez nos leve
a mais nenhum sinal.
Friday, November 10, 2006

escrevo o poema enquanto penso agora
por que não um soneto panegírico
desta hora de que abdico e não repete
nunca mais nevermore é para sempre
que só resta a saudade portuguesa
e tal que concerteza universal
será mournful e neverending era
um corvo que grasnava deixa lá
já nem o vês passou está só ali
ainda e não obstante o ruge ruge
gingando a esconso metro a sua asa
e escarnecendo à pala da poesia
senão mesmo do mundo vai por mim
que por um triz a treta engrupia.
Tuesday, October 24, 2006
Estou a arder
Não deixa de ser uma coisa bonita de se dizer, e decerto não pensaria nisso se estivesse num forno crematório. Mas há de facto qualquer coisa a queimar dentro de mim: um consumo físico. Tira-me peso. Está a tentar tirar-me o corpo. E ele faz-me falta. Uma hora para arrumar papéis. A quem ando eu a tentar enganar?
Friday, October 20, 2006
Ser Homem
Não é preciso um homem ser
bendito entre as mulheres
para agradar ao par.
Não é preciso um homem ter
nas mãos o testo ou à cintura
briosa a bilha balançar
ou fabricar candura.
Um homem pode não ser
mãe e até ter
filhos mesmo mamas
costuras na barriga
que o período o não inibe
da literatura.
Um homem pode ser
lúbrico louvar o mal
e sem olhar a quem
há certos que se mandam para o mar
e firmam fama de artistas
sei de cor a epopeia
venda-se o olho sendo a vista dura.
Um homem inclusivamente pode
chegar à lua
e reluzir no espaço
a pila ao léu.
O que não pode um homem
segura a dama sua.

(com toda a carícia para cê, que não tá nem aí pra quem eu sou, e mesmo que seu novo release deixe em parte a desejar é talvez por isso: quando a gente cuida é claro que a gente curte música de foda)
bendito entre as mulheres
para agradar ao par.
Não é preciso um homem ter
nas mãos o testo ou à cintura
briosa a bilha balançar
ou fabricar candura.
Um homem pode não ser
mãe e até ter
filhos mesmo mamas
costuras na barriga
que o período o não inibe
da literatura.
Um homem pode ser
lúbrico louvar o mal
e sem olhar a quem
há certos que se mandam para o mar
e firmam fama de artistas
sei de cor a epopeia
venda-se o olho sendo a vista dura.
Um homem inclusivamente pode
chegar à lua
e reluzir no espaço
a pila ao léu.
O que não pode um homem
segura a dama sua.

(com toda a carícia para cê, que não tá nem aí pra quem eu sou, e mesmo que seu novo release deixe em parte a desejar é talvez por isso: quando a gente cuida é claro que a gente curte música de foda)
Monday, October 16, 2006
Sunday, October 15, 2006
Do consumo do desejo
Como saber se isto é o esforço
que pede à carne o espanto do mundo,
ou se é pretensão de arte o esquecer
à porta toda uma noite a chave
para acolher cupidamente
o imprevisto o amor a rapina
na ânsia excitada do que somos
a seguir capazes de fazer?
se é este o estrénuo abandono
ao inquieto instante ou se antes
nos ilude a evasão? tão ténue
a fronteira entre a fuga e a oferta.
Tu estás do outro lado e eu não
sei como chegar e se escavar
um túnel sob o mar pode haver
maior exumação antes de ti:
tudo o que sepulta o passado –
ruínas de outros, o mudo lodo
sem que haja o modo de dragar;
e o dilatar-se o curso e não
cumprir-se o nosso encontro. Mau grado
a grande apneia o imenso hausto,
cruzam-se os destroços e entravado
o túnel cerca e serpenteia
eu devia ter tentado o voo
porém faltava-me o equilíbrio;
devia ter optado pelo arroubo
todavia não sabia preces;
não tinha a palavra de salvar,
a senha que consagra e exonera;
só tinha este corpo para entrar
e um tacto insolente para abrir.
que pede à carne o espanto do mundo,
ou se é pretensão de arte o esquecer
à porta toda uma noite a chave
para acolher cupidamente
o imprevisto o amor a rapina
na ânsia excitada do que somos
a seguir capazes de fazer?
se é este o estrénuo abandono
ao inquieto instante ou se antes
nos ilude a evasão? tão ténue
a fronteira entre a fuga e a oferta.
Tu estás do outro lado e eu não
sei como chegar e se escavar
um túnel sob o mar pode haver
maior exumação antes de ti:
tudo o que sepulta o passado –
ruínas de outros, o mudo lodo
sem que haja o modo de dragar;
e o dilatar-se o curso e não
cumprir-se o nosso encontro. Mau grado
a grande apneia o imenso hausto,
cruzam-se os destroços e entravado
o túnel cerca e serpenteia
eu devia ter tentado o voo
porém faltava-me o equilíbrio;
devia ter optado pelo arroubo
todavia não sabia preces;
não tinha a palavra de salvar,
a senha que consagra e exonera;
só tinha este corpo para entrar
e um tacto insolente para abrir.
Thursday, October 12, 2006
Anti-matéria
Monday, October 09, 2006
Polegarzinha
(com gratidão para a Vanda Melo)
Refaço o percurso, detendo-me para trincar cada côdea a marcar a volta à casa partida.
Refaço o percurso, detendo-me para trincar cada côdea a marcar a volta à casa partida.
Saturday, October 07, 2006
Kit de Sobrevivência da Poesia Portuguesa # 1
ALBA

Levad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aves do mundo d'amor diziam,
leda m'and'eu
Levad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todalas aves do mundo d'amor cantavam,
leda m'and'eu
Todalas aves do mundo d'amor diziam
do meu amor e do vosso en ment'aviam,
leda m'and'eu
Todalas aves do mundo d'amor cantavam;
do meu amor e do vosso y enmentavam
leda m'and'eu
Do meu amor e do vosso en ment'aviam;
vós lhi tolhestes os ramos en que siiam,
leda m'and'eu
Do meu amor e do vosso y enmentavam;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam,
leda m'and'eu
Vós lhi tolhestes os ramos en que siiam,
e lhis secastes as fontes en que beviam,
leda m'and'eu
Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam
leda m'and'eu
Nuno Fernandes Torneol

Levad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aves do mundo d'amor diziam,
leda m'and'eu
Levad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todalas aves do mundo d'amor cantavam,
leda m'and'eu
Todalas aves do mundo d'amor diziam
do meu amor e do vosso en ment'aviam,
leda m'and'eu
Todalas aves do mundo d'amor cantavam;
do meu amor e do vosso y enmentavam
leda m'and'eu
Do meu amor e do vosso en ment'aviam;
vós lhi tolhestes os ramos en que siiam,
leda m'and'eu
Do meu amor e do vosso y enmentavam;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam,
leda m'and'eu
Vós lhi tolhestes os ramos en que siiam,
e lhis secastes as fontes en que beviam,
leda m'and'eu
Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam
leda m'and'eu
Nuno Fernandes Torneol
Friday, October 06, 2006
The Big Divide
ELAS: Aos meus filhos não há-de faltar nada nem que eu tenha de lavar escadas.
ELES: Aos meus filhos não há-de faltar nada nem que eu tenha de passar fome.
ELES: Aos meus filhos não há-de faltar nada nem que eu tenha de passar fome.
Sunday, October 01, 2006
Teatrinho
Monday, September 25, 2006
deslocalização da Primavera
a despedida de Setembro, o diagnóstico de Outubro
dão azo desta vez a uma melancolia remota
tão somente, gralhas que não gritam neste calendário
decerto extemporâneo; pois somos nós o mês de Maio,
migrantes pássaros não tementes já dos dias curtos;
que deslumbradamente as penas luzem: invés de cinza,
uma patine de prata – vantagem devida à lua
que roda e dura agora mais que o sol – e o tempo assim
é amor que não azeda na demora da reserva
dão azo desta vez a uma melancolia remota
tão somente, gralhas que não gritam neste calendário
decerto extemporâneo; pois somos nós o mês de Maio,
migrantes pássaros não tementes já dos dias curtos;
que deslumbradamente as penas luzem: invés de cinza,
uma patine de prata – vantagem devida à lua
que roda e dura agora mais que o sol – e o tempo assim
é amor que não azeda na demora da reserva
Saturday, September 23, 2006
Thursday, September 21, 2006
Eu cá não fazia fiado na fé deste Papa
(reflexão automática após conversa sobreouvida na mercearia:)
D. Georgete: O outro, sabe, era mais prudente.
Cliente do Cão Zulu: Pois, mas eu acho que há coisas que se dizem de boa fé e outras de má fé. E este se calhar é mais inocente, mas não quer dizer que não seja de boa fé.
D. Georgete: O outro, sabe, era mais prudente.
Cliente do Cão Zulu: Pois, mas eu acho que há coisas que se dizem de boa fé e outras de má fé. E este se calhar é mais inocente, mas não quer dizer que não seja de boa fé.
Monday, September 18, 2006
Porque sempre que tenho arrufos com a maternidade me lembro

e lembro também um certo ex-aluno – dos que soe dizer-se “problemáticos” – cuja voz se lhe embargou quando lhe pedi para ler este texto do Almada, e ainda porque ontem, pelas 20h00, a Elisa viu nascer a Maria Rita.
“Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado! Eu ainda não fiz viagens E a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar. Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras. Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa. Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!”
Sunday, September 10, 2006
Monday, September 04, 2006
Não está estafado, nem o poema nem o tema, e aliás a questão é: o que se faz a seguir a isto?
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
- Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
excerto de Cântico dos Cânticos, tradução de Herberto Helder, ilustração de Marc Chagall
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
- Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
excerto de Cântico dos Cânticos, tradução de Herberto Helder, ilustração de Marc Chagall
Friday, September 01, 2006
Exercício expurgatório
Escrever 100 vezes:
amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir
amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir
Wednesday, August 30, 2006
Saturday, August 26, 2006
Wednesday, August 16, 2006
POST 100: Xantipa, a Megera
Tuesday, August 15, 2006
Saturday, August 12, 2006
Tuesday, August 08, 2006
DIES IRAE

“Whether Grace left Dogville or, on the contrary, Dogville had left her – and the world in general – is a question of a more artful nature, that few would benefit from by asking, and even fewer by providing an answer; nor, indeed, will it be answered here”
(do filme Dogville de Lars von Trier)
pela porra toda de mesquinhezes e rancores e prepotências e conspirações silenciosas ou resmoneantes e pelas barreiras e pelas defesas e pelas guardas e pelos chuis mais as suas mãos barradas de manteiga e por todo o laxismo oportunista e pelo deixa-andar e pelos maus olhados e os vodus e pelas aparências do que deve ser e do que não se pode e pelas pedras lançadas nas jenys e nos pretos e nas ciganas e nos libaneses e nos larilas e em todos que deviam ser nossos semelhantes mas que desconsoladamente não atingem a nossa fasquia e por aqueles que me cobram para poder chegar à minha casa ou para poder deixá-la e até se cumpro os semáforos têm ganas de me atropelar hoje é daqueles dias em que se me esvai a confiança na humanidade e que estou com um pó que só seria solúvel se pulverizasse duma vez e para sempre a louça toda e mandasse às urtigas a caritas paulina que já o João mais amado que decerto deus conserva à sua beira devia estar como eu quando resolveu deitar a pena ao apocalipse
Sunday, July 30, 2006
Woman Overboard
MAYDAY lanço, porque a guerra dura

e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
drena a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, em ponto lento a onda
fará um manto sobre o afogamento.

e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
drena a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, em ponto lento a onda
fará um manto sobre o afogamento.
Wednesday, July 19, 2006
Post Scriptum
COM-PAIXÃO & HIPOCONDRIA
Confortamo-nos com histórias laterais,
esquivamos o toque, há risco de contágio;
e, por mais que preservemos a franqueza,
passou o estágio da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía.
Confortamo-nos com histórias laterais,
esquivamos o toque, há risco de contágio;
e, por mais que preservemos a franqueza,
passou o estágio da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía.
Tuesday, July 18, 2006
Pousio
Saturday, July 08, 2006
Female Bonding # 4?


HETTIE JONES & AMINA BARAKA
E este, jovens mulheres,
é o dilema
ele mesmo a solução:
sempre fui ao mesmo tempo
muito mulher para me comover ao pranto
e muito homem para
conduzir meu carro em qualquer direcção.
(final do poema Hard Drive, de Hettie Jones, n. 1934)
"Há quem pense que a força está na perseverança; às vezes está no deixar ir"
(Amina Baraka, n. 1937, poeta, cantora de jazz e jornalista no órgão de propaganda de esquerda "People's Weekly World")
As duas mulheres foram companheiras do poeta actualmente conhecido por Amiri Baraka, n. 1934, antes associado ao movimento beat com o nome de LeRoi Jones. A mudança de nome deu-se no período quente de meados de 1960 com a radicalização da luta pela afirmação identitária dos afro-americanos (nomeadamente, em sequência do assassinato de Malcolm X) Muitos negros recusaram então os antropónimos que julgavam herdadados dos esclavagistas do passado, optando por nomes de origem africana. Amiri, ao que parece, significa "príncipe", e Baraka "benção". A questão torna-se controversa e irónica quando comparada com as mudanças de nome por que optaram as mulheres daquele que recentemente reconquistou notoriedade com o poema activista "Somebody blew up America". Hettie Jones, nascida Cohen, branca e de ascendência judia, mudou o apelido para "Jones" quando se casou com LeRoi numa cerimónia budista em 1958. Divorciaram-se em 1965 e no ano seguinte o escritor casou com a cantora negra Sylvia Robinson que viria a mudar para "Amina Baraka", significando o nome próprio "leal e fiel". Pelo menos em autógrafos recentes, a actual mulher do ex-poeta laureado de Nova Jersey assina apenas "Amina".
Saturday, July 01, 2006
Aos meus amigos # 2
FOI BONITA A FESTA, PÁ
"And I'll see if my friends are still there:
Yes, and here's to the few
Who forgive what you do
And the fewer who don't even care"
(Leonard Cohen)
Obrigada
"And I'll see if my friends are still there:
Yes, and here's to the few
Who forgive what you do
And the fewer who don't even care"
(Leonard Cohen)
Obrigada
Thursday, June 15, 2006
Beleza é fundamental
O meu primeiro silogismo
Se tu estás a dormir tu não te zangas
tu só te zangas quando não estás a dormir
tu só te zangas quando não estás a dormir
Monday, June 12, 2006
Pois, mas uns podem e outros esforçam-se, e olha que com amigos destes…
Foram-se todos embora para o sol e para o sul e para o mar, ou estão-se a preparar para os santos, ou até vão para Praga e Budapeste como os mafiosos lá de baixo, ou têm crianças para cuidar como uns e outras, mas não há ninguém, ninguém num raio de 30 km de tlm, disposto a compartilhar com os mais atarefados e menos afortunados uma horita de lazer com umas minis mais um pires de caracóis e um pãozito mal tostado. Essa é que é essa, e assim quem precisa de inimigos?
…. pronto, eu sei que até os há com razões capitais como afinal o mais bondoso dos recém-casais lá de baixo, e outra(o)s, e sou eu que tenho de me desemerdar, como dirias tu Miguel (embora aquela da unha partida, enfim ;)), porque estes gajos que escrevem têm sempre a mania que não conseguem carpir metáforas sem um amiguinho ao lado, e por isso, olhem, lá se vai a hora de lazer para posts onanistas e injustos.
…. pronto, eu sei que até os há com razões capitais como afinal o mais bondoso dos recém-casais lá de baixo, e outra(o)s, e sou eu que tenho de me desemerdar, como dirias tu Miguel (embora aquela da unha partida, enfim ;)), porque estes gajos que escrevem têm sempre a mania que não conseguem carpir metáforas sem um amiguinho ao lado, e por isso, olhem, lá se vai a hora de lazer para posts onanistas e injustos.
Sunday, June 11, 2006
Aos meus amigos
Friday, June 09, 2006
Talvez a injecção letal
não precise ser fatal
após o incerto cruzeiro
após pagar ao barqueiro
dos lameiros de Aqueronte
que pode bem ser bifronte
velho sátiro ou Morgana
criatura quase humana
que tudo engana consoante
se olha pra trás ou diante
tão cansada de engolir
comprimidos sem dormir
do meu sexo que se embota
do coração que se esgota
esticado na horizontal
sob uma agulha sensual
e a sopa na panela
embacia-me a janela
e sorvo mas sem palato
sem ter forças para o salto

se há uma falha um abalo
Dickinson Plath Woolf Kahlo
onde foram estavam loucas
queriam coisas eram ocas
queriam chique eram pedras
queriam arte eram merdas
tentando o voo eram estacas
punho em riste eram farpas
fornos hortos seu delírio
nunca foi santo martírio
da fonte de Lete das letras
dos opostos caracteres
desconheço o que esquecer
se a vida sobre ou subterra
e se a barca vai na esteira
da nascente derradeira
ou duma foz mais absconsa
sem que embale a brisa ondas
sulcando turvas manhãs
duma ilha de maçãs
após o incerto cruzeiro
após pagar ao barqueiro
dos lameiros de Aqueronte
que pode bem ser bifronte
velho sátiro ou Morgana
criatura quase humana
que tudo engana consoante
se olha pra trás ou diante
tão cansada de engolir
comprimidos sem dormir
do meu sexo que se embota
do coração que se esgota
esticado na horizontal
sob uma agulha sensual
e a sopa na panela
embacia-me a janela
e sorvo mas sem palato
sem ter forças para o salto

se há uma falha um abalo
Dickinson Plath Woolf Kahlo
onde foram estavam loucas
queriam coisas eram ocas
queriam chique eram pedras
queriam arte eram merdas
tentando o voo eram estacas
punho em riste eram farpas
fornos hortos seu delírio
nunca foi santo martírio
da fonte de Lete das letras
dos opostos caracteres
desconheço o que esquecer
se a vida sobre ou subterra
e se a barca vai na esteira
da nascente derradeira
ou duma foz mais absconsa
sem que embale a brisa ondas
sulcando turvas manhãs
duma ilha de maçãs
Sunday, June 04, 2006
Os Pirotécnicos Unidos Jamais Serão Vencidos
Se calhar é por isso que eu me pelo pela Sintaxe
Aos cuidados de e de:
O Léxico tem sexo; a Morfologia tem géneros; o Sentido é filho da mãe que, não desfazendo, é a Semântica; só a Sintaxe permite sintéticas manipulações de genética, como por exemplo:
1. Agente de crime violento é inimputável.
2. Vítima destituída de reparação de danos.
3. Crime violento passa impune.
Todas estas opções têm as suas consequências. Mas podemos escolhê-las. Não podemos escolher que "vítima" seja um substantivo invariavelmente feminino nem que "agente" seja invariavelmente masculino.
Salvaguarde-se a paridade de "inimputável", "imputável", "impune" e "punível" serem todos hermafroditas (sujeitando-se inclusive a brejeiras pintelhices com putéfios e punhetas).
P. S. Se, por improvável hipótese, alguma alma penada, que não esteja na praia nem a curtir o arraial do meu bairro, tiver passado por aqui reiteradamente nos últimos quarenta minutos constatará que este post sofreu várias alterações. É que também me pelo pela palavra justa e pelo justo vocábulo.
O Léxico tem sexo; a Morfologia tem géneros; o Sentido é filho da mãe que, não desfazendo, é a Semântica; só a Sintaxe permite sintéticas manipulações de genética, como por exemplo:
1. Agente de crime violento é inimputável.
2. Vítima destituída de reparação de danos.
3. Crime violento passa impune.
Todas estas opções têm as suas consequências. Mas podemos escolhê-las. Não podemos escolher que "vítima" seja um substantivo invariavelmente feminino nem que "agente" seja invariavelmente masculino.
Salvaguarde-se a paridade de "inimputável", "imputável", "impune" e "punível" serem todos hermafroditas (sujeitando-se inclusive a brejeiras pintelhices com putéfios e punhetas).
P. S. Se, por improvável hipótese, alguma alma penada, que não esteja na praia nem a curtir o arraial do meu bairro, tiver passado por aqui reiteradamente nos últimos quarenta minutos constatará que este post sofreu várias alterações. É que também me pelo pela palavra justa e pelo justo vocábulo.
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