Sunday, April 20, 2008

estou farta

do erro ortográfico ali de baixo. Escreve-se manjericão. Não me perguntem porquê.

Sunday, February 24, 2008

Chat

Em Mercúrio, Sexta-feira, a sonda
detectou duas crateras de auréolas
sombrias. Apresentam ambas bordos
quase intactos e muros de socalcos

segundo especifica o endereço
http://messenger.jhuapl.edu/
(anoto e espero que o poema
seja eterno e o link não). Cliquei

para ampliar a imagem, e dentro
vi pequeninas covas circulares
como as que na areia faz a chuva
ou nas fontes as moedas dos desejos.

Também por via Messenger te encontro
e troco novidades, mais veloz
do que a luz, mais ágil o gracejo
do que o próprio pensamento, faísca

o espaço – onde chegamos, sem risco
já de nos tocarmos; os dois estamos
cheios de buracos – e nem é grave
se soubermos flutuar. Em tudo isto

ainda há algo como um halo fundo
e um radar que é como água gotejando
por degraus, que inquieta mas seduz
e nos deixa sombrios intactos sós.

Saturday, February 23, 2008

sex symbol bis



Ainda por cima aposto que gosta de encher casas de flores e de deixar passar condutores no trânsito. Infelizmente, não posso garantir o mesmo sobre Brad Pitt.

Óscares: Ivo Canelas



Já é tempo de em Portugal também se fazerem homens.

Monday, February 18, 2008

o primeiro pássaro que namora

acabo de ouvi-lo, aflito, ansioso, do lado de lá do vidro do terraço, e sei que não tarda vou sentir-lhe a falta. Hoje também recebi mais um sensível poema, e jantei com reencontro falado furiosa e entusiasticamente em estrangeiro. Afortunada eu. Quando tiver mais generosidade, enceto um diário.

Monday, February 04, 2008

Sunday, January 27, 2008

poema de Rogério Rôla para mim

(quando se tem amigos que nos escrevem assim até se fica gaga)


DESCOLAGEM


Como eu gostava de me elevar

na ponta dos pés quando me abraçavas

e pendurar-me ao teu pescoço.



Sorvia -te os olhos a voz e os lábios

e a tua nuca voava mais alto

como aeronave que toma outro rumo.



Eu ia feliz seguindo embalada

a directriz da tua viagem

sempre pendurada ao teu pescoço.



Os calcanhares já não tocam o solo

cruzo a estratosfera o ar rarefeito

pendurada e rígida ao teu pescoço.


Rogério Rôla

Saturday, January 26, 2008

mangericão

















se este blog tivesse cheiro cheirava ao que cheira o frigorífico com o molho que comprei

msg in a bottle: Ângela Marques



preocupa-me qd te escapas
labirinto espuma

Friday, January 25, 2008

incipit

para aqueles que insistem iludir
aquilo que vivo isto que escrevo é
mesmo assim

so tender

ao ponto
às vezes
de ser
tão duro
não mais
derretermos

Wednesday, January 16, 2008

Ressabiadas




Talvez lá no fundo acredite
que os seres humanos são todos sensivelmente
os mesmos em toda a parte, mas então
necessariamente as mulheres são mais.
Costumes que frequentamos:
o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas
do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão,
o alguidar, guardamos os restos, torcemos
os trapos, os nossos recados, os nossos sacos,
os nossos ovos.

Certamente que eles, em grande maioria,
escanhoam os queixos e gostam
de arejar, mas são médicos, polícias,
engraxadores, economistas
e os vários naipes da banda filarmónica
nós somos todas domésticas, mesmo

assim não nos entendemos, e
nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice, e a poesia
vem dos anjos já se sabe
carecidos de sexo.

E aliás que me rala a mim,
levo a minha vida e tenho o amor
de que não desconfio
e se consolo o cio e a fome
decerto falo de cor,
nem é por isso que me doem os calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos, refinadas
galdérias que se tomam a sério,
pestanas certeiras e beiços
que brilham, línguas que estalam
e mamas que chispam

corada invoco a imagem mal tirada
da fêmea recortada ao macho que a conforma;
sei que desminto qualquer laço comunal
e seja como for ninguém pediu
o meu palpite, pelo que não me habilito
e me desquito, acinte
mudo, era eu

quem estava mal.

Sunday, January 06, 2008

Confio ainda



se sorrir até o coração ficar tão grande
que eu abra inteiramente os braços
e queira e deixe partir

Leitura de Janeiro

Saturday, January 05, 2008

Mosteiro de Odivelas

Oprimidas pela virgindade e pela pedra esculpida
da Rainha Santa, percorríamos a emparedada adolescência

e, como rezava a lenda, no nosso colo
o pão da merenda em rosas se mudava;
com elas engrinaldávamos o júbilo imperfeito
que o pudor cerceava.

Como lira a estridência dos nossos corpos
de sombrias raparigas, na argila mergulhávamos
as mãos que dilatavam as primícias do Verão
e éramos inocentes conquanto experimentadas
no ofício da entrega e da sujeição.

Iludindo as harpias que nos espiavam,
a amiga e eu trocávamos de mãos dadas
junto às grades interditas palavras,
boca a boca nos enlevávamos
no atrito do canto das cigarras.

Wednesday, January 02, 2008

O BRANCO DO CORPO

Sobre as paredes celestes do quarto
Um esboço de canábis a branco
As lágrimas a branco deslizando sob as lentes
O estômago a branco, retorcendo-se
O coração branqueado, vais deixar-me
Porque nunca sorrimos
Como um casal feliz.

Eu arrancava-te todo o branco do corpo
Para te ensinar a ferida.

Como sempre sento-me à beira da cama
O rumor de uma palavra não dita destroça tudo
Chama-me, morde-me, chora um pouco mais
Vem
Apesar de tudo não sei o que tenho e quero
Acariciar-te.

Rocío Silva Santisteban (n. Lima, 1963) - de Mariposa Negra, 1993

Friday, December 28, 2007

Porque tenho vocação para o melodrama

mas independentemente disso gosto mesmo muito disto, à guisa de bom ano novo para os amigos:

Coping

Ficar quieta é técnica que já
aplico com rigor, e no preciso
sítio em que pulsa paraliso
tudo, quem está morto livre está.

Creio que começou quando cedeu
o avô. Alguém disse: afinal
o coração não aguentou. Eu
pensei: mais vale declinar o abalo.

Mas também não cheguei nessa altura
até ao fim. Escangalhei-me na novena
aos degredados filhos de Eva.
Iniciei-me então nos barbitúricos

e hoje passo bem melhor. Às vezes
é um jogo, em que recorro ao coito
antes da apanhada, e se esgoto
essa via, dedico-me à mimese,

diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não
há como acordar um corpo mudo.

Por exemplo agora que não veio
o homem, podia ter-me ferido
ou saído à busca de outro, e perdido;
mas pratico com vantagem a apneia

e a domesticidade. É pena
que me esqueça tanta coisa; foi
sorte saber da lamela – eia, pois,
advogada nossa – dormir serena.

Friday, December 21, 2007

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