Sunday, April 07, 2013

Saudações Romanas

 


cachos de flores rosa clarinho a crescer sobre campas anãs em latim
e um obelisco com homens de há vários mil anos em serpentina para o céu

algumas paredes todas de heras
uma ponte de pedra sem braços sobre o Tibre
com líquenes e rápidos que lembram as palavras villa di campagna

ruínas com ares condicionados nos andares de cima
e mercados de relíquias reprodutivas - 2 por cinco euros

vicino ao Palatino, um parque eduardo sétimo cheio
de mais uns quantos mortos a despontar da gravilha
e das ondas das ervas. Mas nenhum cão dá por mim

num céu sobretudo azul encrespado de nuvens
a condizer com os anéis grisalhos de certos querubins

chiese por toda a parte - nas abóbadas os humanistas
pintores descobriram a visão 3 D
mistérios, simpósios e aparições em
frescos de tintas manuais, antecipam a ilusão mecânica
do cinerama. Maria guardava todas estas coisas
em seu coração; eu sou turista, tenho uma objetiva
de auto-focagem e os rolos não se revelam mais
.

Monday, March 25, 2013

Louvor e valor da manhã

É que chega sempre tarde, disseste,
o verso. Mas olha, a melancolia
que colocaste à mesa da poesia
talvez seja só ideia que o Oeste,

com seu crepúsculo, ronronou
de Harold Bloom, que leu o Bartleby
certamente, mas também Emerson:
for we never know how soon it will be

too late; esquecendo que no ringue
entre gigantes também coube o prodígio
de, consumadas mortes e erros do espírito,
se crer: my business is with the living.

Custará tanto buscar da América
a noção de que sempre se repete
a aurora? e apresentar-se o poeta
a esse céu da noite em planisfério

que ao astrónomo amador, sem spleen,
cabe no chão do dia religar?
E que a poesia, se tem de recordar,
será do amor que não se redime

nunca da gana absurda de o fazer.
E de um incrível viço de erva
que sim, que frágil – que nítida – ferve
nos nossos olhos ao alvorecer.

Thursday, January 10, 2013

Desponta em Janeiro a manhã na Ponte Vasco da Gama




E os monstros da cidade sossegados da insónia
até às tantas não veem raiar prateadamente
o rio à luz. Que por isso nos pode acolchoar e
colore os abstractos e nodosos cordões das algas.
Nos arrozais resvalam garças brancas. E homens pretos
com frontais de miniatura à cabeça, consolados
pela borracha húmida, recolhem para o balde
bivalves e demais corredias criaturas e o mal
que fazem não estraga o único bem que sabem
.

Saturday, January 05, 2013


para quem não quis saber de 2013
                                   
e se me habituei a ripar mortos
frente à escrita, como só neste século,
brancos quadrados, o halo na tela,
baixas janelas, postiços confortos

do scroll que animo com dedo absorto––
cobarde; admito, vá, sois duros
de calcar, e o wi-fi é todo um futuro
de distrações sem vós, toda uma corte

de engates a um toque; logo, clico
na acédia do social; mas porque
escolho ter no limbo os vossos nicks?

bem lo sabeis, absurdo mastermind,
que
sois rivais do desespero, ícones
que furto ao lixo pelo atalho find 
.

Monday, November 26, 2012

Com a desgraça não se brinca


a funda dor
Com
funde a dor
.

Perseides



Na serra aliamos as tendas, aquecemos
música. A luz é da tribo, a Grande Pedra
escuta. Somo xamãs foragidos da pele da
Cidade, despidos do Futuro junto ao rio.
Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,
esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as
mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar. 
                                                Rui Costa



No tecto da noite há o templo
de escutar. Fazemos hinos
ao coração turvo ao
corpo poroso ao húmido vão
à luz nunca única nem tão
doce quanto se imagina e se des-
inclinam vozes assim desce
a palavra som. São ondas
e cordas senhor são tubos grandes
cromos estes adultos que tocam
um hino nacional contra a língua
única e os deuses até e o coro
do alto sem outro remédio
que nós os sem nenhuma arma
e só soluções diluídas de amar
.

Thursday, November 08, 2012

"Silence" de Carlos Bulosan


Eu tinha emudecido de tanto  despertar os dias todos para o comando de outros a falar.
Quando na relva além dos meus vidros foscos apareceu o teu corpo achei que era bom construir com ele a minha língua.
Atrás da minha janela depositei metros de cortinas a combinar com todas as tuas saias
e todas as tuas camisolas.
Será que tomaste sentido alguma vez de chegares de amarelo e eu, no interior, me aconchegar nas tuas roupas do dia anterior?
Será que sabias o que eras, meu sonho americano, em diferido e a cores?
.

Wednesday, October 10, 2012

À sombra de Krishnarmuti



À sombra de Krishnamurti

Alimentados à colher pelos nossos santos, temos andado doentes,
bastante gananciosos e por conveniência sujeitos,
entidades em segunda mão, ocasionais lampejos de alegria e afeição.

Sob tortura, a mente retalhada,
que se furta a toda a confusão e refuta o mundo fora,
achará apenas em conformidade com a sua distorção.

Precisamos realizar que é a nossa imperfeita conflitualidade
que torna as relações em ressentimento, perceber que toda a história do homem
se inscreve em nós, e morrer para o que foi ontem;
perceber, não intelectual mas actualmente,
que só abdicando da respeitabilidade, nesta vida competitiva,
podemos suspeitar da infinita realidade desmedida.

Disseram-nos que todos os caminhos –  Cristianismo, Islamismo, Taoísmo, prática existencial da virtude –
conduzem à verdade e se encontram a uma mesma porta;
algo que, submetido ao teste da observação, é obviamente absurdo,
além de que não se pode olhar através de um ecrã de palavras.

Pelo que, não obstante a higiene do preceito
de não deixar passar nenhum dia sem linha,
não nos podemos fiar de que a escritura nos cura.
Mais importante do que o traço será a abertura,
o furo ou o recorte por onde se entra e verte e vem,
e o têxtil não tem de ser inconsútil nem
a urna bem lavrada, e a bailarina desmancha
os véus e a rasgadura denuncia a usura da memória.

A pergunta que nos colocamos é séria: há alguma coisa que se
possa fazer?
Tens olhos: ninguém tem de te dizer para ver.

Podemos então, tu e eu, após noite inteira de chuva
e desenrolada no céu a manhã livre de impureza
como se fosse a primeira, abrir,
sem qualquer convicção exterior ou temor de castigo,
a intensa revolução: a verdade sem a certeza vive-se
de vária maneira, é a beleza, um espírito
leve sem temor pode amar imenso,

havendo o amor faz-se o que se queira
.

Monday, July 16, 2012

Não é um o começo,

isso foi mal contado, é preciso
mais, de doloroso interior
a quem atroe o espanto dum rumor
de se calhar fundar um estado liso

e disponível. Não houve um verbo, antes
conversa aflita, disputada rota
de intersecta órbita, der-rota,
curso d’além aqui sem plano e, entre

mais, nós, redes rombas de sentido
rebentando deslaçantes, as pontas
plo ar para tecer melhor tecido

para ser corpos novos nossos mais
em arco ou concha ou cacho ou fortes,
alavancas d’amor, reiniciais
.

Wednesday, April 25, 2012

Tuesday, April 17, 2012

Melides - aluga-se férias casa / Melides house for holiday rental

2 bedrooms, for 4-6 people (there is a sleeping couch in the living room). Domestic appliances (icebox, washing machine, TV). Nice patios for sunbathing and dining. Overlooking a beautiful valley and brook. 7 km from the beach.


2 quartos para 4-6 pessoas (com sofá-cama na sala). Eletrodomésticos (frigorífico, máquina de lavar, fogão). Lindos terraços para banhos de sol e refeições. Sobre um bonito vale e uma gárrula ribeira. 7 km da praia.


310 € week / semana - 7-21 Jul, 4-11 Aug and 18 Aug - 1 Set
2 weeks / semanas 580 €
weekends or 2 day minimum / fins-de-semana ou mínimo 2 dias - 60 - 95 € dependente da époa / depending on season
Tel. 969667823
email - liteua19@gmail.com















Sunday, March 25, 2012

Não levaste pedras e eu duro


Embora distes mais da minha margem
com esta multidão de luzes no céu camponês,
não te penso nem busco menos, ou porque
planto jasmim e semeio bagas e carrego terra
numa pá desde a ribeira ao quintal, vingam
coisas que vivem. Disseste que virias mas
aqui o ano passou sem notícias, fiz
um voto por ti, atirei pela janela o resto
do espumante para os lábios remetentes.
Propuseste também fazermos um pacto
de azeite numa lua ou lagar em sangue, não
lembro bem, era natural distorcias as figuras
sentimentais, comentei até essa conversa
em que não vi nenhum fim especial
e apenas me deixou alegre pois virias eu
estava talvez não tão atenta mas foi bom
sendo incerto o que aconteceria a seguir
– e mil vezes aceitar, mesmo que contrário
ao investimento posto na ideia de amigo
ou até algo mais afim ao outro lado da alma,
avesso ainda assim à perda que é ficar
só com este real irremediável – tu nem 
remetente deixaste para uma chave
que não tinhas outro sítio onde enfiar,
mas nos olhos ou ao ombro uma banda
negra e escutavas um silvo apertado e seria
eufórico ou sobrenatural no fulgor de um
tímpano a perder de riso o rio, mas não
vale encobrir tantas vezes a morte
de muitas palavras, e afinal tu crês,
o que há além do superficial talvez seja
mais que fundo, mas só fundo repito é
onde estão os que ficámos e eu não sei
que tempos, porque não chove, demora,
com as cheias, a tranquila ascensão outra vez.
Queria pedir-te, como antes fazias e eu
vinha, uma visita em duas linhas neste estilo:
não se está mal mas não corre como eu queria,
se cá estivesses sempre parecia mais normal
.

Friday, March 02, 2012

Turva se faz não raro a graça ínfima,

nem sempre é garantido que não trema
na funâmbula corda que mantenho
entre a pulsão e o amor; se tenho
querido voltar para cima o poema,

estendê-lo ao ar e vibrá-lo tenso
e respirar em luz – sem que prescinda
da sombra e do chão do mar ainda
da onda que me lava em banho denso –

vejo que não resolvo toda a dó
de mim; lá lindo é, isto, mas preciso
– tanto – a temperatura de um homem

nos ocos que de frio me consomem;
porém mais vezes claro solto o riso
dou o melhor e quanto posso só
.

ar

na sua falta se cobra o mais alto
preço de querer ser livre
sem deixar de agradar
.

Wednesday, February 08, 2012

aquário

sou descendente de vikings, dos que iam
até newfoundland à pesca, foram eles que
começaram a estender os bacalhaus no convés
dos barcos, a secar. depois espetavam as
espinhas uns nos outros. eram tipos bons e
maus, e perto dos quarenta anos arrependiam-se
e afundavam os pés na terra, visitavam a mãe.
a mãe ainda estava lá, a remexer ovos no ar.



Rui Costa
Fev. 2009
.

Friday, February 03, 2012

Comparação

do olho à boca
corre natural a lágrima
como o beijo
.

Thursday, February 02, 2012

Sendo mais que palavras na cabeça

agora que penso claro que
nos atraíria a tal
admiração da dança:
o corpo em formidável equilíbrio
de desejar - e o tosco desajeito
em achar o eixo total
da matéria em ar

no meu sonho eras a dactilografia
da enumeração dos elementos
e o eco das tenazes de tinta
e ainda que eu cuide do que
sinta sempre queria saber
como é

banzé. revolução
não estás zangado
pois não
estás a dançar
iê-
-iê.
__

Thursday, January 19, 2012

Calmeirão cabeçudo, por tudo


Começou com um sinal ao lado dos teus óculos escuros, Não,
o princípio foi um rebordo à noite onde quiseste ensinar-me
a soletração de versos, Não, reinicio: o pequeno almoço
num café pequeno numa rua comprida com pernas para o mar
e dom rodrigos enxovalhos de lustro postos à mesa, Não
há-de ter sido só quando esticámos as mãos e elas escorregaram
e nos encostámos aos peitos os dois chocalhavam tu riste-te eu
fiz-me de parva, Se calhar foi aí porque escrevemos sobre isso
entendendo cada um à sua maneira como sempre se
fez, Eu adverti logo aliás não tinha nenhuma esperança
que viéssemos a coincidir alguma vez e tu achaste claro
muito bem feito porque assim queríamos constantemente
aprofundarmo-nos sempre aos apalpões a ver onde derretia
quando lá no fundo doía não encaixarmos perfeita
mente, Só que sim é um privilégio acontece menos
vezes do que os dedos encontrarmos alguém
a quem queiramos continuar a bater como
disseste que me fazias a vida toda quando apertaste por
baixo dos meus braços a resistência dos materiais, E há-de
ter sido gentileza não justificares apesar do orgulho
de cumprir proezas não contamos os princípios nem os fins

fico pois à espera que apareças atrás de um sms com uma tarte
de maçã encostada ao focinho, Que não te cansa o jogo de fazeres
todos os gestos importantes entre portas para depois te pores ao 
fresco como se nada fosse e largas daqui porque tens um handicap
muito menor e patas maiores e queres ver outros bichos cheios
de perguntas, Por mim punha era o vestido de Espanha para
rodopiarmos aos casais de sucesso entre os bem-pensantes com
licença vou escrever sobre os teus livros todos muitos palavrões
.

Thursday, January 12, 2012

Cumpre que não foste

entender


falar de mar só com a boca afogada



a regularidade assusta

e eu acho isso bonito como o som de ossos na porta



cai alguma coisa

na direcção das minhas mãos e eu corto-as



sinto os cabelos

o ombro morno do coração no ombro



não me fui embora

na praia ao vento tudo o que acontece
 
Rui Costa (Março de 2009)

Tuesday, January 10, 2012

Segundo Amor

Segundo Amor

Quando estás só tens as manhãs todas
de organizar o mundo; preciso grito
intenso aqui agora. Lembro-me de ti
já nem tantas vezes assim, lembro
o que fomos à noite o dia desmentiu.
Mas também às vezes especialmente
querendo com isto – o quê – a pele
sempre lisa, o futuro de ocasiões, só,
sim, só lamento o corte, recrimino
algumas unhas de raspão, triste espera,
o que houve rasteiro, o que de alto
me falta, pouco limpos passes da vida
e terna, sinceramente, tua, Guida
.

Saturday, January 07, 2012

Maya Deren



Mas se uma enrola o novelo
a outra destorce a meada.

A que enovela é severa,
a que desmancha treslouca.

Pouco se move a que enrola,
a outra vibra com a boca
mas não se ouve o que fala –
apenas estica e deslaça
o fio que oblíquo se esgarça.

Aquela que mira a que larga,
de hirto rosto tal osso
denso caroço emaranha –
e vai-se tornando mais só
e a outra sempre mais estranha.

Até que resta uma corda –
e a que de riso se embala
toda de mãos espirala
e lavra o ar como ave...

A que é sisuda não fala
volve-se ainda mais grave;

Solta-se a primeira, leve,
flutua como rameira 
as mamas de luz arqueia
e frustra a espera e a teia.

(A outra, do sério semblante,
olha uma inerte cadeira
agora sem ocupante.)
.

Tuesday, January 03, 2012

Democrítica


Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
que a exercer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,

herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,

e deixa que o isente a lucidez
da rota rigorosa da unidade
além da sua esfera. Mais consola

levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.

Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.

Agora, se descerem os médios
à rua e os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência e translação,
a derrubar ditas classes consumo e capital,
o cómodo sem afecto, a sôfrega avidez pateta,
e o que a todos sobre os ombros nos carrega,
aí então. além de sublime e ser poeta,
talvez mais do que busque eu dê entrega
.

Sunday, August 21, 2011

Porque já era tempo de desempoeirar a xafarica


Amtrak


Somando tudo já dei um par de vezes a volta
ao mundo agora outra vez enamorada outra vez
desengomada e tão de veludo e tensa e tenra
e outra vez um muito semelhante cansaço de urgência
impossível não comparar este relato de me deslocar
até ti com um poema de amor de há dezasseis anos
escrito em turbilhão e certeza onde maldizia
de avaro e com que ironia hoje o tempo

e pensar isto é pensar que muito se medita mas já se prevê
que não é desta que termina a correria
é Outono
outra estação outro país outra idade tu
falas outra língua tens a pele anilada
que herdaste de pais que vieram da Índia
e esta carruagem que me leva já vem do Canadá há
o Hudson que bordeja em serpentina sem eucaliptos nem igrejas
desta vez como num sonho crepitante há
folhas de ácer lembrando nos três dedos
patas de asas curtidas em peles secas e ocres e rugiriam
se pisadas
embora condiga a paisagem com mais doces imagens
de resto que perfeito isto até o frio
cá dentro não se sente e coa-se o ocaso
e eu deslizo para ti e um outro continente há
tantas horas viajo que quase tudo esqueci
menos o quanto abençoadamente
menos esta ternura coberta de fadiga
mesmo se suspeite
que sub-reptícia mova a vertigem e o impossível não dure

e de repente tenho vinte e um anos outra vez há
pouco tempo sou outra vez maior
visto que chego esta noite e tudo indica que faremos amor
voei sobre a água até ti suporto este atrito até ti
devoro as copas do ácer no Outono para me deitar junto de ti
contanto desta vez adivinhe – ou já percebi –
que são lindas promessas mas dificilmente nos perseguimos
até ao fim sequer a nós próprios porque a viagem
tem esta coisa de nos provar que já não somos o que fomos

e porque haveríamos de ser separados de vidas anteriores
e colocados em lados contrários do globo
– amor que tudo move como iludes na verdade –
quero perscrutar pelo grande vidro deste vagão
a noite e descubro o meu reflexo sedentário
mas já não sou quem podia não ter usado o bilhete
na bifurcação além deixei-o para trás
e se compreendo o que antigamente era é
agora à luz da América e de ti
amor com desenlace iminente
e de todos os registos e testemunhos e gritos
de vidas por esse exigente caminho fora
sem tréguas mas com contemplações
se compreendo isto é porque compreendo dizia talvez
o tempo aqui por esta faísca em frente no espaço:
é preciso contar ao pormenor e repetidamente
o que vivemos e por que ansiámos e onde chegámos
pois é na medida em que nos movemos que mudamos
e basta deslocarmo-nos para divergirmos tu
soubeste antes de mim –  evidência que me surge com algum choque –
quando voltaste para aí depois da proposta que foste fazer-me
onde eu estava tiraste-me de lá amor
e respiraste-me ao ouvido Vai
fazendo com isso logo com que um pouco eu te perdesse
e será assim para sempre repetir constantemente por onde passámos
quem foram os nossos pais e quem julga neste momento
Vossa Majestade que eu sou quem não seremos jamais eu
envelheço falta-me a mão
para escrever e para errar quanto mais viver
importa portanto esta noite ir-te amar

vá o pensamento com o movimento e o cansaço
e algum frio que se levantou desde há bocado
não haja aspereza de palavras ou pedidos se
o que escrevo a cada quadrado de janela não fica se
modifica e passa se
expira a intensidade e o vazio a agarra – tanto
mais acerbo quanto ela for real – insisto
por ti por amor que me movi
em quatro sentidos seja total
a graça à noite

e nós no final
um pouco após a luz ainda unidos
.

Thursday, February 10, 2011

Medeia


[Lugar baixo, rancor surdo, tremenda
raiva – o despeito da mulher
ao centro e o sensato coro atrás.]








Diz-se que matou o próprio irmão,
que descende do Sol e solo bárbaro,
e que, deslumbrada por jovem prático
e pouco espiritual, lhe deu
um animal de lã dourada. Ele
porém ainda quis um trono, outro
matrimónio e o mando dum país.

Quando uma feiticeira chora invoca
demónios que invocam malefícios.
O escritor, atento ao móbil, fixa
os joelhos da semideusa mágica
e empático pinta-lhe na boca
a palavra trágica: eu nada quis
para mim, por ti só tudo fiz.

E o mundo  entretém no seu decurso
o público. Do crime participa
quem dele tira prémio ou espanto –
E o pranto corre a cada livre gesto
e o excesso com que sofre nos consola
o sobressalto. E o manto que tece
sufoca em chamas e excita deveras
o sangue a correr e a carne a arder.

Resta um par de cadáveres infantis
aos pés do pai: o céu está vazio
e ninguém saiu ainda da sala.
Para concluir o acto o génio
declara solene que ali se ama
e mata sobre a cena. Não mais
discursos. Inclina-se e repousa

a pena com a ponta de veneno.

Thursday, December 23, 2010

Etílio Barroco


Que eu, dizias, agendava êxtases
à sexta-feira, às vezes quinzenais,
cumprindo ao resto as lides usuais
–– meu umbigo d’amiba com metástases ––

e hoje, rima fácil, só-li-dão
comigo me embriago e consinto
a garrafa de Grant’s já a um quinto
(o rótulo soletra a alit’ração)

chove fora viola o vento o vidro
o mundo nunca é como os prospectos ––
Embriagado deste rame recto

e reco do arame, oco coração,
ó turvo murcho músculo entupido,
mil vezes fosse a vida a excepção
.

Sunday, December 05, 2010

O Balde









E a magana da gata, arisca e fugidia
foi logo parir as crias
no sofá do arrumo onde ele tinha os papéis
(havia de se esquecer do último,
agora por lá anda o advogado
a tratar de escrevê-lo)
no sofá que a bem dizer não era dele
nem nunca ninguém usou
que comprou para impressionar os gaiatos
filhos dos meus enteados
(os que trataram do advogado):
bom couro, estofo fofo,
a vagabunda gata achou-o de agrado.

Foi isto dois dias depois que me fizeram
sair da minha casa com o meu filho pois, diziam,
não nos sabíamos governar depois que
segundo eles – (eu achei-o delgado
e pequeno o meu homem
a quem puseram tubos uma algália
e aquela máscara nas ventas
que não o deixava sossegar
e obrigavam-no a dormir nu
porque não gostavam que ele suasse

só lá fui uma vez onde o levaram
para prolongar a morte
onde nem me conhecia
não tinha dentes nenhuns
e o corpo naquela indecência
nem sei se me ouvia
toda a vida ele tinha sido uma árvore
mas voltou já vestido no carro preto
e depois fez-se a missa) –

não tínhamos condições para o resto da vida.
A mim calhava melhor ter ficado em casa
com o meu filho que tem problemas mas é esperto
e sempre demos conta do recado
mas disseram os enteados,
meios-irmãos do meu filho,
mais os netos e o advogado
que eu já não posso
e era melhor irmos para um sítio
a que querem que chamemos lar
e eu chamo asilo para os arreliar
que estou fraca e magra é verdade mirrei
que vivemos no campo demora a ver-se
alguém de longe se sucedia alguma coisa
ficávamos aflitos e ninguém nos acudia.

mas ia-se a ver onde ela tinha metido os bichos
ninguém dava sentido senão eu
e por isso me trouxeram eu vi
logo ao abrir da porta
e ao sair da gata disparada
pelo cheiro
deixei na cozinha o balde preparado
o sofá estava armado no arrumo
ao lado esquerdo do corredor
onde ele tinha os papéis
meti as mãos pelo buraco no couro
dentro da espuma dei logo com a pele
ainda sem pêlo engelhada e corredia
a chiar de olhos cerrados
um dois três quatro cinco seis
que embrulhei no regaço ainda cegos
e levei para a cozinha
para fazer uma coisa
que já fiz tanta vez
com a porta fechada que a mãe
andava coitadita a rondar
e ainda continuou nos dias depois
em que eu a vi muito magra
minhas mãos de velha na água
a forçar-lhes o cachaço para baixo
aflito pequeno delgado
até sossegarem
quando já não se mexem
não me custa assim tanto
não estão à espera desta
não têm governo para o resto é a vida
.

Friday, August 06, 2010

Woolf



Someone has blundered
alguém meteu o pé na argola
e tu és a óbvia suspeita
Likely it was you

a vida irremediavelmente enrolou-se
e agora não se endireita
in an impassable crux
Sobrevém, pois, irresistível, comoção
do fluxo
What are we to do against the summon of the swoon
O transtorno das águas o tocar o fundo
the swell of your backward burial
mergulhar em câmara invertida
como dizem que passa a vida
quando se abandona o mundo

mesmo que desejes ainda
parar
o gesto nada
vai mudar if you wanted to press stop now it’s too late
a água é densa turva provavelmente
gelada
and the stones are loaded dice
nos bolsos a escuridão dilui-se
lentamente
ice cold thick, there you stood, yet ever did you regret what you undertook?

Quiseste alguma vez um pouco
menos de talento
?

Saturday, June 12, 2010

Condições mínimas

Esta sarça é interdita a matilhas;
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas

semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha

e que só uso eu; a nós vontade
basta – e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,

aceitas? compreendes? aguentas?

no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro
.

Sunday, May 09, 2010

Gosto muito do meu macaco


toda a gente pensa que ele e so um peluche insensivel espicialmente é o M que diz isso. há muita gente que não acredita em peluche e pensão que esas pessoas são doidas mas as pessoas que não acreditam é que perdem.

Sunday, April 25, 2010

25 de Abril


sempre

(nem que seja para mostrar que este blog continua vivo, embora a precisar de assistência respiratória)

Sunday, November 22, 2009

One Art

A arte de perder não custa dominar;

há tantas coisas que parecem decididas

a perder-se, que o mundo não pode acabar.

Perder quotidianamente. Há que aceitar

a falta das chaves, a hora consumida.

A arte de perder não custa dominar.

Depois treina-te a perder mais e sem parar:

nomes, e sítios, onde tinhas prometido

que ias; nem por isso há-de o mundo acabar.

Perdi o relógio da minha mãe, e – azar! –

a última, ou quase, das minhas casas queridas.

A arte de perder não custa dominar.

Perdi duas cidades, lindas, e, para somar,

duas terras, dois rios, e tantas despedidas

de coisas que faltam mas não causam pesar.

– Até perder-te a ti (a voz de troça, a xingar

que eu amo) não estou a enganar. É sabido

que a arte de perder não custa dominar,

embora pareça (escreva-se!) o mundo a acabar.

Oh, não, seja o que for o que for à excepção do amor

Diz: o mundo a acabar. (nota de Bishop para o poema)


Elizabeth Bishop
http://www.youtube.com/watch?v=6dudxfkrYi4&feature=related

Sunday, November 08, 2009



Acordei hoje como se fosse natural-

mente necessário ter o comprimento

do teu corpo na minha cama e estranhei

que não me abraçasses, nem preenchesse

o encaixe da tua pélvis

as minhas nádegas, a tua mão

sobre o meu monte, os teus joelhos

encostados à dobra onde os meus flectem.

Vês daí como tudo aqui ainda e sempre

treme continuamente, e a descompasso

do real, todos os dias tenho calores

de imaginação, trabalho a líbido

do cansaço, se fecho os olhos não durmo

e ao invés viajo dentro de mim

enchendo-me de corpos e fricções. Depois

no outro plano, já sentiste, custa-me

estar presente: das consecutivas vezes

que nos tocámos na boca, estudei os beijos

como uma alegoria embaraçosa:

tudo sob o comando diferido

da cabeça, com tensão mais que tesão,

a minha língua esgrimia a tua, quase

nada clamava ou humedecia, talvez

exceptuando um latido pequeno de amor

a pingar com irritação, não sei,

e além do mais haveria que indagar

se realmente são compatíveis as nossas

espécies, se isso é motivo de inevitabilidade,

ou de eu precisar das tuas carícias

nos anéis das cervicais, ou dos teu dedos

na pele ou o princípio do escuro

a partir do perímetro da cintura.

Sunday, August 09, 2009

"Aquela que de amor descomedido"


Não resisto, depois do post abaixo, a colocar parte da minha tradução até agora favorita de Landeg White. A elegia é longa, e não transcrevo tudo, mas a verdade é que se não fosse a leitura nova do inglês, a mim nunca me teria tocado tanto este poema de Camões (clicar aqui para comparar com português, infelizmente sem quebra dos tercetos; o que transcrevo começa no 7º verso).








(...)

In the same fashion, of my personal hurt,
already history, nothing remains
but this poem I scribble urgently,

and if its tenuous, threadbare existence
reflects love, it's because the thought
echoes its loss of the good that is present.

My lord, do not be at all startled
that overtaken by such ill fortune,
I steal this little space to inscribe it,

for whoever has the strength to go on
without killing himself by way of statement
has also the strength to write it down.

Nor it is I who write of my customary fate;
but within my heart, overwhelmed and broken,
the heartbreak writes, and I translate.

(...)

Direito à Indignação

Comentei isto além, mas como raramente me indigno, e já há muito que aqui não boto nada, resolvi repetir:
"Admiro muito o trabalho de R Zenith mas está na altura de eu me indignar um bocadinho. Como é que esta notícia do Instituto Camões pode começar com a frase "A primeira tradução para inglês da poesia lírica de Luís de Camões"? Ainda o ano passado se lançou "The Collected Lyric Poems of Luís de Camões" - uma tradução de Landeg White que de resto foi comentada no lançamento de Zenith, onde estive. Já em 1884 R. Burton traduziu o que então pensava serem os poemas líricos completos, menos éclogas e elegias, e existem várias outras selecções parciais do século XIX. Sobre as recentes traduções, é justo dizer que se complementam: a de Zenith é um trabalho ponderado e exacto de um grande tradutor literário; a de L. White, que deu à língua inglesa também uns excelentes Lusiads (1997) é uma viagem de partilha amorosa entre poetas.
Já agora ainda digo mais: não me parece que R Zenith ou a Universidade de Dartmouth necessitem de publicidade enganosa. Não concebo que uma instituição cujo principal objectivo é a divulgação da língua portuguesa no estrangeiro, e que assume por nome o do poeta em causa, possa encetar uma notícia com um lapso destes.

Monday, June 01, 2009

Descrição de haver perdido a bordo

Havia no canhenho doze anos
de memória, reserva especial
mal selada, havia lá marítimas
travessias, esquissos do velame,
planos, logs, tabelas de marés,

e partidas de king em horas
mortas, cálculos de azimutes,
havia relatos de perdas, queixas,
uma folha seca com fita gomada,
fixa a natureza a páginas
tantas, havia a minha mensagem
para o mundo, trajectos do espírito
com travessões e rimas mancas à – ah,
Dickinson – e Sede assim, cartografada
com maiúscula, a santa demanda da taça
fissurada, coágulo espesso, o sangue
que nunca seca bem no fundo, havia
amor com arrebiques de ficção, arrufos
conjugais, a fluida consciência assindética
amparando inexprimíveis comoções, havia
tropismos, apóstrofes de estímulos exteriores
com subjectiva irradiação, havia a íntima
confissão de minha filha elevando-se
cá dentro, raiada de tentáculos, vibrátil
medusa em muco de placenta ansiando
arborescer, havia algum motivo
de orgulho,
mas a fadiga dos fusos horários
mal registou o esquecimento, a crónica
de mim caída no tapete do aeroplano, varrida
junto com jornais, prospectos da companhia,
algum passageiro frequente tê-la-á pisado,
os funcionários da limpeza a bem
do asseio tê-la-ão – é o mais certo – destruído
.

Monday, May 25, 2009


















Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.
*

Sunday, May 24, 2009

poema-resposta

(a um poema de um poeta de expressão inglesa cujo nome não me lembro, que me foi dado ler aqui)

do outro lado de mim há a casa
que tenho procurado
em corpo dos homens

por uma vez, duas vezes (eu só
sei bem
quantas)
encontrei-a.

Foi quando consegui dormir com ela.

Sunday, May 17, 2009

Medicação

indicada contra a melancolia.

Alegria

Literatura inclusa.

Posologia: ao menos
uma vez
cada dia
.

A menor arte poética

ao Rui Almeida

Não obstante o canto, se calhar
o que me agarra aqui é a textura.
Que faço no poema? Acupuntura,

o texto em vez do tacto, massagem
a mensagem
.

Saturday, May 16, 2009

Aniversário

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.

O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
no vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor
.

Wednesday, May 06, 2009

revisão da matéria dada

as pessoas mudam, e o amor é seu mais poderoso transformador, mesmo que nem sempre se possa garantir a irreversibilidade ou os benefícios de médio e longo termo das alterações produzidas
.

Sunday, May 03, 2009

Dia da Mãe

Já não sente este corpo, dói e come-
-se por dentro e é só cego animal
na oca luz do foco do hospital
pela qual a enfermeira sem nome

empurra as mãos como colher cavando
os muros do casulo de água duro
onde deves vir ao colo maduro,
mas és arisca e esquivas-te, nadando

a salvo do isco que te procura.
Até que a tua nuca desemboca
na minha boca, e ela te segura

com seus dedos hábeis, te desloca,
e por certeiro corte se desata
o nó da corda que de mim te aparta
.

Friday, April 24, 2009

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