Sunday, August 11, 2019

Torre da Canção

          com mimo ao poeta do décimo verso

Quem dera de baixo um sino
balido metal, resíduo
rebate venal, toxinas
loucas no corpo ruído

caem borras e suores
onde dói antes se gozava
(os beiços regougam mel
a trova riscada de cor)

No barril podre do afã
venda-se a manhã burra
a desoras surdem ímpetos
fazem-se fanicos rudes

(um frouxo ranger de leque
a seda nas pregas puída
golfo oco, faúlhas cinza
ar roxo, opacas sílabas)

Nascer-me-ão cãs no púbis
e uma míngua malograda
de hubris, um pirolito
acre rolha a própria língua

Wednesday, August 07, 2019

variante à Teta de Ouro

como àquela que amamenta
o leite
transbordante turba

assim ao poeta a palavra
nele
para outros se derruba


Comme la nourrice encombrée de son lait débordant, ainsi le poète de cette parole en lui à d'autres adressée. (...) O Tête d'Or au croisement des routes, etc.  (Paul Claudel, 3ª Ode)


Monday, August 05, 2019

Paulo Quintela III

Manuel Alegre é dos poucos que reconhece a dívida a Paulo Quintela, faz um poema em seu nome, começa com esta aliteração, que se pode ler como um sussurro do outro: “Nada sabíamos da língua portuguesa / e então sílaba a sílaba ele ensinou-nos” (uma boa intuição que não deixa de espelhar uma agenda — vivíamos no alheamento ditatorial, e não tínhamos como arredar a língua da rotina). Mas logo a seguir Alegre reconduz-nos ao doméstico do “mar salgado”, de que Quintela, julgo, queria fugir: “a ondulação o ritmo / o marulhar das frases e o seu / sabor a sal” (1995: 67). Que tinha Quintela, filho de um sapateiro e de uma padeira de Bragança, deslocado sempre para lugares pouco litorais, que ver com o “marulhar”? Se algo de mar trouxe (devolve?) à língua, foi o seu rouco – esse rouco que Sophia de Mello Breyner (uma mulher que afinal também compareceu no despique com os anjos) nos dizia ouvir nas traduções felizes:
O que há de execrável nas traduções ditas bem feitas ('bem-feitas' para mim no mau sentido) é a abolição de todo o resíduo de caos que está sempre presente num bom poeta. Há sempre uma rouquidão no poema que é a voz do caos, da origem do combate que houve com a treva, com a imperfeição, com a desordem em que o poeta se afogou e de que emerge através do poema. (Andresen e Passos 1982: 4).

Se há rouquidão numa língua, é no alemão. Todo o “Herbsttag” rima (entre cruzamentos e emparelhamentos), mas Quintela, para fazer sobressair o estranho, o raro, aquilo que raspa, neste como em tantos outros poemas do alemão que mais amava, terá prescindido da rima. Fê-lo também com muitos outros poemas de formas fixas de Rilke, e foi aí que ele o superou na responsabilidade de revolucionar a linguagem da nossa poesia. É esta a lição da mais atenta estudiosa sobre o impacto das traduções de Rilke por Quintela na poesia portuguesa, Maria António Hörster:

O exemplo de Rilke/Quintela, que apresentava temas e motivos tão caros à sensibilidade e à tradição lírica dos portugueses, porém trabalhados em verso anisométrico e não rimado, e, para além disso, moldados numa linguagem de acentos modernos, vigorosa, e despida de uma tradicional maviosidade, foi decisiva para a renovação da lírica em Portugal. Limito-me, neste contexto, a enunciar um testemunho oral que me foi confiado por E. Melo e Castro em 1995 (...). Conforme declarou em conversa, toda a sua geração leu Rilke nas versões de Paulo Quintela. Corriam também versões francesas e inglesas do poeta, mas era com as versões de Quintela que se entusiasmavam. (...) Aquela linguagem áspera e desprovida de musicalidade foi muito apreciada como moderna. (Hörster 2004: 721).

Hörster reforça também que Quintela furou “um dos mais invocados critérios quando se fala de traduções poéticas, justamente o da manutenção da rima” (2004: 719).  Os poetas portugueses desataram a escrever poemas ao curso do verso, carregando mais no visual, ou na dança das ideias, e servindo com isso o surrealismo e o experimentalismo conceptual.

Hörster aponta ainda os “efeitos de sonoridade” como outro fator de “desrespeito” de Quintela e aí é-me difícil concordar. Aquele final do “Dia de Outono” de Quintela agrada-me muito mais do que o de Vasco Graça-Moura, que rima (se damos de barato que VGM sabia de prosódia, terá sido deliberada a sua escolha de um vazio assonântico no penúltimo verso – “e a um ir e vir inquieto se acostuma” – mas não percebo o fundamento). Assim, não é propriamente que Quintela se concentrasse no conteúdo sobre a forma, ou no “espírito” sobre a “letra”, mas que nos quisesse sobretudo forjar o material da língua para acomodar aquela estranheza de dicção.
Suponho que afinal foi esta ideia de Hörster que me fez um dia querer aprender alemão e saber o que dizia Rilke nele. Foi preciso, porém, esperar pela outra motivação, a da idade.

Thursday, July 25, 2019

Paulo Quintela II



Maria Irene Ramalho homenageia-o assim: “Temos a poesia da prosa portuguesa reinventada n’Os Cadernos de Malte Laurids Brigge” (2008: 39-40). Mas foram sobretudo poetas, os que da literatura portuguesa pós-1945 aderiram ao Rilke que Paulo Quintela traduziu, de tal forma que se poderá dizer que poéticas tão diferentes como as de Vitorino Nemésio, Miguel Torga e Herberto Helder terão sobretudo em comum esse ouvido das traduções de Quintela. Posto que Rilke, constatou David Mourão-Ferreira (depois também seu tradutor), se tivesse feito sobretudo como poeta a procurar um ver de novo, o que o levou a Rodin como à viagens (ver 1973: 21).[1]

Acontece que as traduções de Quintela desarmaram inauditamente a própria língua portuguesa “no rigor a fogo / das palavras exatas e sofridas”, para usar uns versos sobre Hölderlin dedicados por Nemésio ao amigo Quintela (2007: 483). Possivelmente, seria preciso alguém que, como Quintela, se pacientasse num doutoramento (concluído em 1947) sobre A Vida e a Poesia de Hölderlin para colocar tanto afinco no desencastramento de uma língua. Mas foi Rilke a primeira paixão daquele homem  que, do seu dificultoso berço em Bragança, teimou no ingresso na Faculdade de Letras de Coimbra que lhe havia de abrir os cordões de uma bolsa em Berlim, de onde regressaria em 1933 com uma mulher e uma ameaça (a ascensão do nazismo) para a breve trecho se lançar nas suas primeiras “tentativas baldadas” de “adaptações” do polimorfo Rilke (1938: 215). Notamos-lhe aí a paixão, como a humildade, que o levaria ao maior contágio do estrangeiro na literatura portuguesa pós-guerra: “Eu suponho que o poder poético de Rilke é tamanho que supera mesmo as deficiências naturais (naturais minhas, entenda-se!) e inevitáveis (porque é impossível transpor para português estados poéticos que foram vividos em alemão)” (idem). Seria impossível, mas Quintela tentou-o, e daí, do seu íntimo desejo, “mal dito”, de superar as suas “naturais” tendências, o extravasamento do que até aí se fazia, a naturalização da língua.

Quintela usou traduzir ad contrario, não imaginando-se o poeta a escrever como se tivesse sido português, mas antes aventurando-se a pensar-se que a importação da língua estrangeira já faz meio poema. Porque desaloja o hábito da língua. Veja-se como ele lidou com “Herbsttag” e trabalhou uma distinção supostamente inexistente no ramo anglo-germânico, entre “ser e estar”, a partir daquela palavra tão recorrente em Rilke, bleiben (um “permanecer” que indica, provavelmente, um de-morar), para inverter a oposição costumeira:  Quem agora está só, longo tempo o será” (Wir jetzt allein ist, wird es lange bleiben). Na íntegra, foi assim que Quintela nos deu a ler “Herbsttag”:

Dia de Outono
Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre as campinas.

Manda que os últimos frutos se arredondem;
dá-lhes inda mais dois dias de calor,
leva-os à perfeição e faze entrar
a última doçura no vinho pesado.
Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.

Quem agora está só, longo tempo o será.
Fará vigílias, e lerá, escreverá longas cartas
e vagueará, de cá para lá, nas alamedas,
agitado, quando o vento arrasta as folhas.           (Rilke / Quintela 1938: 222-223)

O desencontro esperado (mais do que vivido) para a velhice do homem, como para o tempo em queda (o Outono) está lá. Quintela escreveu isto perto dos 30 (tinha 31 pela data que inscreve na carta a Nemésio), próximo em idade de Rilke quando lhe botou a pena, e suspeita-se que para a sua vida a previsão do desamparo fosse um presságio constante (ver Aguiar 2005). Caprichou na aliteração das folhas revolteantes (com a alternância entre [v] e [l], e ainda os [ʃ] e os  [ʀ]) e acrescentou-lhe uma opção – um uso de futuro (será, fará, escreverá, vagueará), que talvez não pareça fruto do original (construído perifrasticamente, com modal, wird + infinitivo, como mais habitualmente o faz o português, “vai permanecer”, “vai escrever”), e no entanto arranha, como arranha vento, e arranha, wird.

Quintela chama trágica à atividade do tradutor, fica insatisfeito com o que faz – a única alteração que ele introduz a “Dia de Outono”, quando o publica em livro em 1943, não deixa de ser sintomática de deslocação – dele, e de Rilke. Onde estava gib ihnen noch zwei südlichere Tage, ele primeiro traduziu por “dá-lhes inda mais dois dias de calor”. Isso, porém, seria banal e doméstico – é a experiência do nosso verão, que o outono vem substituir. Contudo, no vivido em alemão essa era uma experiência escassa, vinda do sul, isto é, do alheio. Quintela fica desassossegado por transportar o alheio para o doméstico, e depois lá encontra a palavra estranha, “meridionais” (que entra no labirinto das confluências e divergências literárias, remontando, penso eu, à oposição de Madame de Stael, entre os povos du Midi e os povos du Nord); substitui assim: “dá-lhes inda um par de dias meridionais” (Quintela 1998, III: 67).



[1] O contágio das imagens de Rilke foi no Ocidente mais ou menos universal mesmo que assíncrono; por cá, terá até levado ao exagero de alguns que, despencados do surrealismo, se refugiaram no “angelismo cego” (Barrento in Hatherly 1999: 12) e que Jorge de Sena apodou de “Rilkinhos” numa invetiva satírica de 1961 (cit. in Saraiva 1984:  22). Eduardo Lourenço também satirizou: “"Como num filme de Hitchcock invadido de legiões de pássaros apocalípticos, coortes de anjos balizam o céu (ou o purgatório) da poesia portuguesa dos últimos vinte anos" (1974: 149). Para uma resenha mais sóbria sobre a questão, ver Horster 1996 e Lage 2010.



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