Tuesday, August 13, 2019
Monday, August 12, 2019
Herbsttag II
Senhor, é tempo. O Verão foi muito longo.
Põe nos quadrantes já sombras escuras
E nas planuras larga o vento à solta.
Obriga os frutos a que se encham mais;
dá-lhes do sul inda dois dias quentes,
leva-os à perfeição e faze que entrem
no vinho denso as doçuras finais.
Quem não tem casa já não vai erguê-la.
Quem esteja só, fica mais só agora,
Lendo, escrevendo cartas, altas horas
ou, dum lado para o outro, na alameda,
Inquieto andando, enquanto as folhas correm. (Rilke/Carvalho 2003: 243-44)
Os tradutores arranjam geralmente uma marca para
se distinguirem dos outros, ou então para servir os seus planos de ação. Neste
caso, há uma palavra, Fluren — dependentemente do género poderá querer
dizer “corredores” (masc.) ou “campos” (fem.), e sendo plural no poema podiam
ser ambos, embora o contexto aponte claramente para o segundo — que todos
traduzimos diferentemente: Quintela
optou por “campinas” e Carvalho por “planuras”, mantendo-se fiel ao género
original da palavra (embora as “planuras” sejam discutíveis, pois se tornam
demasiado coesas com a questão do “sul”). Maria João escolheu “campos”, Graça
Moura “prado” e eu “campos lavrados”. Defendo a minha escolha por o étimo da
palavra indicar “terra arável” e por querer rimar (embora imperfeitamente) com
“demorado”, no primeiro verso. Depois de assim me ter obrigado a percorrer as
ocorrências tradutórias bem como as ocorrências de Rilke, reconheço que há duas
escolhas minhas bastante idiossincráticas: uma delas é a palavra “cirandar”,
mas não desgosto para “wander”, a outra é mais discutível e trai as redes
significantes que parecem ser tão importantes na poesia de Rilke. É no segundo
verso da primeira estrofe, onde encontramos o famoso bleiben, de que já
falei como mostrando um estado continuado do ser (para Quintela) ou
“permanecer”; literalmente, pois, o verso diz “Quem agora está só, vai assim
longamente permanecer”. Eu, acarinhando as minhas rimas-por-trás-da-orelha,
decidi que precisava do eco de “extensas” e “densas”, e aproveitei por
introduzir uma palavra que reconheço mais da minha sensibilidade do que
rilkeana: “vai continuar carente” — e era preciso deixar margem para se calhar
esta solidão permitir a plenitude de amar sem objeto, que João Barrento (1996)
entende como corolário de As Elegias de
Duíno.
Sunday, August 11, 2019
Torre da Canção
Quem dera de baixo um sino
balido metal, resíduo
rebate venal, toxinas
loucas no corpo ruído
caem borras e suores
onde dói antes se gozava
(os beiços regougam mel
a trova riscada de cor)
No barril podre do afã
venda-se a manhã burra
a desoras surdem ímpetos
fazem-se fanicos rudes
(um frouxo ranger de leque
a seda nas pregas puída
golfo oco, faúlhas cinza
ar roxo, opacas sílabas)
Nascer-me-ão cãs no púbis
e uma míngua malograda
de hubris, um pirolito
acre rolha a própria língua
Wednesday, August 07, 2019
variante à Teta de Ouro
como àquela que amamenta
o leite
transbordante turba
assim ao poeta a palavra
nele
para outros se derruba
Comme la nourrice encombrée de son lait débordant, ainsi le poète de cette parole en lui à d'autres adressée. (...) O Tête d'Or au croisement des routes, etc. (Paul Claudel, 3ª Ode)
o leite
transbordante turba
assim ao poeta a palavra
nele
para outros se derruba
Comme la nourrice encombrée de son lait débordant, ainsi le poète de cette parole en lui à d'autres adressée. (...) O Tête d'Or au croisement des routes, etc. (Paul Claudel, 3ª Ode)
Monday, August 05, 2019
Paulo Quintela III
O que há de execrável nas traduções ditas bem feitas ('bem-feitas' para mim
no mau sentido) é a abolição de todo o resíduo de caos que está sempre presente num bom poeta. Há sempre
uma rouquidão no poema que é a voz do caos, da origem do combate que houve com
a treva, com a imperfeição, com a desordem em que o poeta se afogou e de que
emerge através do poema. (Andresen e Passos 1982: 4).
Se há rouquidão numa língua, é no alemão. Todo o
“Herbsttag” rima (entre cruzamentos e emparelhamentos), mas Quintela, para
fazer sobressair o estranho, o raro, aquilo que raspa, neste como em tantos
outros poemas do alemão que mais amava, terá prescindido da rima. Fê-lo também
com muitos outros poemas de formas fixas de Rilke, e foi aí que ele o superou
na responsabilidade de revolucionar a linguagem da nossa poesia. É esta a lição
da mais atenta estudiosa sobre o impacto das traduções de Rilke por Quintela na
poesia portuguesa, Maria António Hörster:
O exemplo de
Rilke/Quintela, que apresentava temas e motivos tão caros à sensibilidade e à
tradição lírica dos portugueses, porém trabalhados em verso anisométrico e não
rimado, e, para além disso, moldados numa linguagem de acentos modernos,
vigorosa, e despida de uma tradicional maviosidade, foi decisiva para a
renovação da lírica em Portugal. Limito-me, neste contexto, a enunciar um
testemunho oral que me foi confiado por E. Melo e Castro em 1995 (...).
Conforme declarou em conversa, toda a sua geração leu Rilke nas versões de
Paulo Quintela. Corriam também versões francesas e inglesas do poeta, mas era
com as versões de Quintela que se entusiasmavam. (...) Aquela linguagem áspera
e desprovida de musicalidade foi muito apreciada como moderna. (Hörster 2004: 721).
Hörster reforça também que Quintela furou “um dos mais
invocados critérios quando se fala de traduções poéticas, justamente o da
manutenção da rima” (2004: 719). Os
poetas portugueses desataram a escrever poemas ao curso do verso, carregando
mais no visual, ou na dança das ideias, e servindo com isso o surrealismo e o
experimentalismo conceptual.
Hörster aponta ainda os “efeitos de sonoridade” como outro
fator de “desrespeito” de Quintela e aí é-me difícil concordar. Aquele final do
“Dia de Outono” de Quintela agrada-me muito mais do que o de Vasco Graça-Moura,
que rima (se damos de barato que VGM sabia de prosódia, terá sido deliberada a
sua escolha de um vazio assonântico no penúltimo verso – “e a um ir e vir inquieto
se acostuma” – mas não percebo o fundamento). Assim, não é propriamente que
Quintela se concentrasse no conteúdo sobre a forma, ou no “espírito” sobre a
“letra”, mas que nos quisesse sobretudo forjar o material da língua para
acomodar aquela estranheza de dicção.
Suponho que afinal foi esta ideia de Hörster que me fez um dia querer aprender alemão e saber o
que dizia Rilke nele. Foi preciso, porém, esperar pela outra motivação, a da
idade.
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