Monday, November 04, 2019

rima e ruína

"corpo de palavras com peso, embora não necessariamente 'monumento de palavras': a tradução é mais ruína, mas ainda assim testamento do outro, 'Daquele nada que se aviva / quando se arrisca uma viagem' (David Mourão-Ferreira). […] Na rima e no seu uso criativo por David está presente algo de essencial na sua poética (na sua erotica?) da tradução como modo de aproximação ao outro, para com ele coincidir: a rima [...]"
                      João Barrento, "A mão esquerda de Orfeu".  Colóquio/Letras. 145/146 (1997), p. 259

Sunday, November 03, 2019

Leonard Cohen, HINO

ou Leonard sambando Beckett com pé chato

As aves, elas cantavam
ao raiar do dia
Start again ouvi-as dizer
(As aves, tem de ser em inglês)
Não ligues ao que já foi
nem ao que vai acontecer

, as guerras
vão travar-se outra vez
A santíssima pomba
será presa outra vez
comprada, vendida e comprada outra vez
A pomba não se vê livre
etc.

Toca os sinos que ainda cantam
Esquece a tua oferta intacta
Há uma falha, uma falha em tudo
É assim que a luz se capta

Pedimos sinais
Sinais nos deram
O nascimento traído
O casamento vencido
, os governos enviuvaram todos
Sinais para todos verem

Não posso mais correr
com a multidão a monte
enquanto altos matadores vociferam suas preces
Mas invocam, invocam, uma nuvem de alvoroço
Eu dou-lhes o responso

Toca os sinos que ainda cantam
etc.

Podes juntar as partes
Não terás o inteiro
Podes chamar a marcha
Não terás o pandeiro
Virá o amor
aos corações todos, todos
como rafeiro

Toca os sinos que ainda cantam
Esquece a tua oferta intacta
Há uma falha, uma falha em tudo
É assim que a luz se capta
É assim que a luz emana*
  assim que a chama arrasta

*(risca capta emana)
assim que a luz
etc.
elétrica (Prometeu,
sacana) chama
Falha
enrola outra vez
A luz
humana (?)
Leonard,
Teu sino inglês
Cracou
Chama seja eu (Adriana,
magana)
errática

Friday, November 01, 2019

A mão que não assina o papel

Traduzir é ler demoradamente, escrever com esforçado decalque, recobrir o texto alheio a partir de uma garantia auto-iludida: achar-se próxima dele. O altruísmo da tradutora é, de um prisma, arrogância; de outro, cobardia: cúmplice que se exime à congeminação moral do monstro. Mede-se, a medo, com o seu autor, veste-lhe a voz. Não lhe é imperativo decorá-la, cede a retocá-la, torneia-a ao ar do tempo.
Cobra por caracteres, contando os espaços.

Monday, October 21, 2019

Crude Truth


Pessoas radicais a fazer coisas radicais. O contraste do preto sobre o muito branco, a uniformidade da audiência, tal como a da maioria dos artistas e retratados na National Portrait Gallery, dá que pensar. Não será apenas uma luta de brancos. Podemos estranhar que o Extinction Rebellion, um movimento de protesto contra a extinção pelo capitalismo se globalize numa sigla que tem algo de marca, XR, mas, no que conheço dos seus propósitos, há um estímulo às diferentes expressões e auto-determinação dos grupos que pegam na bandeira. Não encontramos nesses grupos grande diversidade racial, é certo, mas eles próprios dizem proteger os mais fragilizados de entrar nas linhas da frente, dados os problemas acrescidos que podem ter com as autoridades. Percebe-se que a classe operária se exalte e enerve ao ver-se "boicotada", por pessoas que porventura têm como mais abonadas para o ócio, numa rotina que lhe garante o sustento necessário. Escolher como alvos transportes públicos nas lutas contra o clima e impedir a livre circulação de pessoas sem voz na matéria afigura-se uma consequência imprevista e extrema da intenção capacitadora, na base do movimento, de ceder a chancela a quem por ela quiser lutar. Assim, ainda bem que, igualmente no seio de grupos que se dizem XR, o assunto merece reflexão.

Por outro lado, parece-me que haverá alguns indivíduos de falas falaciosas a injectar ódio racial contra os ativistas. Os nossos semelhantes "em vias de desenvolvimento" viveriam em condições inferiores e ainda de maior exploração se não tivessem petróleo? Deverão ser bem mais complexas as condicionantes que fazem não termos ouvido ainda nenhuma preta nem parda reclamar contra os betinhos do clima, ou preencher as desfalcadas fileiras dos negacionistas, ou perfilhar o pensamento mágico dos tecnocrentes.

Monday, October 14, 2019

ACKER

"A mãe pura e simplesmente odeia toda a gente que não for do nosso sangue. Ela usa a palavra sangue. Odeia toda a gente, todas as coisas que não pode controlar: tudo o que é alegre, animado, tudo o que está a crescer, a produzir. A humanidade dá-lhe ataques de pânico; quando entra em pânico, faz o que pode para me magoar.
           Refugiei-me na cave. No seu ar bafiento, Jesus pousa morto nas janelas.
           (...)
Em busca viajei para Berlim. Aí conheci um médico chamado Wartburg de cujo apartamento nunca mais sairia. Não via mais ninguém a não ser ele. Eu queria desde sempre fazer de mim uma dádiva a outro e aquilo era o meu começo. Wartburg pôs-me uma coleira; comigo de gatas, segurava-me por uma trela e batia-me com um chicote de cães. Era elegante e refinado e parecia o Jean Genet.
           Nessa altura, não havia ninguém que conseguisse procurar-me, encontrar-me, juntar-se-me.
           O que me dominava completamente era a minha necessidade de me dar inteira e absoluta e diretamente ao meu amante. Soube que pertencia à comunidade dos artistas ou freaks não porque a raiva dentro de mim era insuportável mas porque o meu desejo avassalador de me dar toda não era socialmente aceitável. Até então ainda não perguntara se havia alguém que se chamasse eu.
           (...)
Tudo que os teus avós e os pais e os professores e a sociedade te ensinaram, a estrada triunfal, o caminho certo, a via da virtude verdadeira — o CERTO, o BEM — não passa de Liberdade Mutilada e Liberdade retalhada em tiras de carne. O corpo violado. Um homem é uma criança que anda pelo caminho certo — uma rua meticulosamente esculpida com tabuletas — pois tudo o que consegue ver é a palavra perigo."


Sunday, October 13, 2019

Balada de núpcias

Vamos viver juntos

as crianças correrão pelo soalho
derrapando em tábuas, odiando-me
a TV será uma bomba paralela
a janelas altas
não partilhando uma cama
dividimos placas, a minha
deixa-me escaras na pele
dum ombro, cambará

Vamos para a mesa anuídos

distraídos e amuados
carregando resíduos num saco
de plástico que não se pode
deitar para o espaço
e alargará a culpa
pelo formato do sonho
de encolhido alcance
estanque ânsia que alui
e arrasa

Vamos passar a dormir

cada vez mais tarde
com estímulos e desconfiança
tu já não me encaras
tal como eu
peço o silêncio como casa

Saturday, October 05, 2019

O Herbsttag de W. B. Yeats

O Cair da Folhas


Abaula o outono sobre longas folhas que nos amam,
Debruça-se sobre os ratos nas hastes do centeio;
São louras as folhas da sorveira abrigando-nos,
Louras as folhas perladas do bravio morangueiro.

Sobre nós se abate a hora em que o amor se dissipa,
E vão-nos as almas tristes, fatigadas, definhando;
Separemo-nos, antes que nos fuja a paixão do tempo,
Com um beijo e uma lágrima a tua fronte vincando.

Thursday, October 03, 2019

[na cabeça do sonho: da própria, perdido o centro da fala]

A fechadura estava dentro da gaveta e a chave cá fora.

Sunday, September 29, 2019

Filhas do clima




A desobediência das filhas bravias implica
que nos falta o pulso e o tempo foge

dizem elas que somos cegas nós
dizemos que não pesam as consequências

não por sermos harpias amedrontadas
ou nos acusarem de obsolescência ser tarde

porque nunca as defendemos dizem elas
que nos protegem por defeito
                                                                              Nós fizemos por elas sacrifícios humanos

então bloqueiam os acessos sentam-se
nas encruzilhadas cantam acantonadas

enfrentam a ordem de peito crescido dão corpos
para nosso bem dizem dar a liberdade se preciso

para as levarmos a sério não nunca as defendemos
em excesso nem contam muito os ralhos

embora nos aflijam tanto que com elas vamos
cedendo à cautela resguardo e sobressalto
                                                                         Nós não fizemos delas sacrifícios humanos

porque nos iludimos ser só questão de tempo
para o amor ou o reconhecimento ou a prece

ou a frugalidade ou a ciência dar seus frutos
para o pior ser sonho ou susto de momento

escalou o próprio tempo e bruto aperta os polos
duma espécie soberba crente que os afetos justificam

tudo querer os dons os danos tão inquietos tão
ávidos tão ineptos tão contritos como insanos

      Elas sacrificam-se por si por todas e todos dizem

os tão sobejos dons os danos tão acerbos                                                                 Não                    
os dessorados poços furos lodos todos dizem                                                          Mãe

com solene descaramento insolente coragem 
louca alegria ansiedade tamanha compaixão só

seria bom poderem estragar-se pouco mais
ou menos do que antes nós sem maior razão

e despudorada língua a empurrar a urgência
ou com a barriga a técnica sem outra previdência                        Já sabias não seria uma solução

Blog Archive

Contributors