Wednesday, November 06, 2019

George Monteiro (1932-2019)

.......

Jorge, o Minotauro não escreveu
nenhum verso e não há nenhuma
prova de que conseguisse
ler. A conclusão é
óbvia. Não o conseguias ler
e ele não te conseguia ler.
E como ele não te conseguia
ler e tu morreste antes de
eu escrever, nenhum de vós
me consegue ler. Então,
cá estamos. Só resto
eu para te ler, e
faço-o de bom grado, e só
resto eu para me ler.
Isso, também, farei, por mim,
por ti, e pela besta também.

.................


Post-Scritptum

Quando o Minotauro morreu
Lamento informar, ninguém
O queria embalsamar. Certo
Com ’ó raio, o filho da puta
Era Gémeos, meio touro,
Meio humano. Mas depois
Da sua morte, toda a gente
Engoliu a sua mensagem bestial.

 
G. Monteiro, "A Conversa de Café" (The Coffee Exchange", 1982)

George Monteiro morreu. As respostas que se sucedem ao email que circulou esta manhã com a triste notícia testemunham que isto das comunicações rápidas e dissemináveis também tem a sua luz: a de um memorial coletivo. Mesmo assim, quantas pessoas em Portugal, descontando aquelas a quem tocou e ajudou (e são tantas), saberão quem foi George Monteiro? Foi um professor militante dos estudos ingleses e, além disso fez o mais que pôde, na Universidade de Brown e nas inúmeras publicações que nos deixou, pela literatura portuguesa, por Pessoa, por Rodrigues Miguéis, por Jorge de Sena, e ainda - e nada pouco - pela herança portuguesa que mantêm e recriam os autores luso-americanos (dizia ele, sobre isto, com a sua meiga ironia: "não é nenhum titânico assunto melvilliano, mas alguns de nós afeiçoam-se-lhe").

Esta que não se assina conheceu George Monteiro por volta de 2002, quando iniciou o doutoramento sobre Poe em Portugal, e porque outra formidável académica/mentora lho apresentou, intuindo que daí sairia algo de bom, já que Monteiro acabara de publicar Fernando Pessoa and Nineteenth Century English Literature, e eram conhecidos o seu "faro" de arquivo e a sua inteligência em matéria de "afinidades literária" (bem como o humor para os respetivos mexericos). Isto foi em Lisboa, numa das suas muitas mas curtas passagens. Semanas depois, pelo correio (então o correio-caracol) chegou um envelope maçudo. Lá dentro, cópias de todos os papéis inéditos de Pessoa que George Monteiro encontrara nos reservados da BN a respeito de Poe. A generosidade, espontânea e trabalhosa e praticamente imprecedente no meio académico, de George Monteiro, era o seu dom.

Para um homem de tanta gentileza e discrição, não deixava de surpreender a sua admiração íntima pela truculência de Sena. Os versos acima são dois excertos do seu longo poema "The Coffee Exchange", escritos em paralelo com a tradução que fez de "Em Creta, com o Minotauro." Este post podia, portanto, chamar-se "Os Dois Jorges". A tradução que apresento resulta de um trabalho colaborativo de alunos da FLUL e está incluída em Nem Cá Nem Lá Mas Também: Portugal e América do Norte Entre Escritas (2017). Acrescento capas de alguns dos muitos livros de George Monteiro e, a seguir, a nota biográfica constante do volume atrás mencionado. Além do que lá vem escrito, diga-se que deixou também poesia esparsa, cáustica e dedicada. Que os Jorges descansem em paz e que o Minotauro desassossegue os leitores futuros.







George Monteiro nasceu na aldeia de Valley Falls em Rhode Island, filho de emigrantes portugueses, a mãe de Vila Ruiva da Serra e o pai de Freixo-de-Espada-à-Cinta, tendo ele próprio passado, desde os seis meses, parte da infância em Portugal. Formado pelas Universidades de Brown e Columbia, dedicou-se sobretudo a uma produtiva e multifacetada carreira académica. Sendo as suas habilitações em Estudos Ingleses, publicou diversos ensaios sobre autores da viragem do século xix e modernistas, como Stephen Crane, Emily Dickinson, Henry James e Elizabeth Bishop. Veio entretanto a interessar-se por autores de língua portuguesa, designadamente Fernando Pessoa, de quem é um reputado investigador, com publicações como The Presence of Pessoa (1998), Fernando Pessoa and Nineteenth-Century Anglo-American Literature (2000) ou, mais recentemente, As Paixões de Pessoa (2012). Tornou-se diretor do Centro de Estudos Brasileiros e Portugueses da Universidade de Brown em 1975, e é, com Onésimo de Almeida, professor na mesma universidade, um dos precursores dos estudos luso-americanos, tendo trabalhado muito pela divulgação e incentivo à produção da literatura em trânsito entre Portugal e os EUA. Traduziu, entre outros, Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Fernando Pessoa e Jorge de Sena.



Monday, November 04, 2019

rima e ruína

"corpo de palavras com peso, embora não necessariamente 'monumento de palavras': a tradução é mais ruína, mas ainda assim testamento do outro, 'Daquele nada que se aviva / quando se arrisca uma viagem' (David Mourão-Ferreira). […] Na rima e no seu uso criativo por David está presente algo de essencial na sua poética (na sua erotica?) da tradução como modo de aproximação ao outro, para com ele coincidir: a rima [...]"
                      João Barrento, "A mão esquerda de Orfeu".  Colóquio/Letras. 145/146 (1997), p. 259

Sunday, November 03, 2019

Leonard Cohen, HINO

ou Leonard sambando Beckett com pé chato

As aves, elas cantavam
ao raiar do dia
Start again ouvi-as dizer
(As aves, tem de ser em inglês)
Não ligues ao que já foi
nem ao que vai acontecer

, as guerras
vão travar-se outra vez
A santíssima pomba
será presa outra vez
comprada, vendida e comprada outra vez
A pomba não se vê livre
etc.

Toca os sinos que ainda cantam
Esquece a tua oferta intacta
Há uma falha, uma falha em tudo
É assim que a luz se capta

Pedimos sinais
Sinais nos deram
O nascimento traído
O casamento vencido
, os governos enviuvaram todos
Sinais para todos verem

Não posso mais correr
com a multidão a monte
enquanto altos matadores vociferam suas preces
Mas invocam, invocam, uma nuvem de alvoroço
Eu dou-lhes o responso

Toca os sinos que ainda cantam
etc.

Podes juntar as partes
Não terás o inteiro
Podes chamar a marcha
Não terás o pandeiro
Virá o amor
aos corações todos, todos
como rafeiro

Toca os sinos que ainda cantam
Esquece a tua oferta intacta
Há uma falha, uma falha em tudo
É assim que a luz se capta
É assim que a luz emana*
  assim que a chama arrasta

*(risca capta emana)
assim que a luz
etc.
elétrica (Prometeu,
sacana) chama
Falha
enrola outra vez
A luz
humana (?)
Leonard,
Teu sino inglês
Cracou
Chama seja eu (Adriana,
magana)
errática

Friday, November 01, 2019

A mão que não assina o papel

Traduzir é ler demoradamente, escrever com esforçado decalque, recobrir o texto alheio a partir de uma garantia auto-iludida: achar-se próxima dele. O altruísmo da tradutora é, de um prisma, arrogância; de outro, cobardia: cúmplice que se exime à congeminação moral do monstro. Mede-se, a medo, com o seu autor, veste-lhe a voz. Não lhe é imperativo decorá-la, cede a retocá-la, torneia-a ao ar do tempo.
Cobra por caracteres, contando os espaços.

Monday, October 21, 2019

Crude Truth


Pessoas radicais a fazer coisas radicais. O contraste do preto sobre o muito branco, a uniformidade da audiência, tal como a da maioria dos artistas e retratados na National Portrait Gallery, dá que pensar. Não será apenas uma luta de brancos. Podemos estranhar que o Extinction Rebellion, um movimento de protesto contra a extinção pelo capitalismo se globalize numa sigla que tem algo de marca, XR, mas, no que conheço dos seus propósitos, há um estímulo às diferentes expressões e auto-determinação dos grupos que pegam na bandeira. Não encontramos nesses grupos grande diversidade racial, é certo, mas eles próprios dizem proteger os mais fragilizados de entrar nas linhas da frente, dados os problemas acrescidos que podem ter com as autoridades. Percebe-se que a classe operária se exalte e enerve ao ver-se "boicotada", por pessoas que porventura têm como mais abonadas para o ócio, numa rotina que lhe garante o sustento necessário. Escolher como alvos transportes públicos nas lutas contra o clima e impedir a livre circulação de pessoas sem voz na matéria afigura-se uma consequência imprevista e extrema da intenção capacitadora, na base do movimento, de ceder a chancela a quem por ela quiser lutar. Assim, ainda bem que, igualmente no seio de grupos que se dizem XR, o assunto merece reflexão.

Por outro lado, parece-me que haverá alguns indivíduos de falas falaciosas a injectar ódio racial contra os ativistas. Os nossos semelhantes "em vias de desenvolvimento" viveriam em condições inferiores e ainda de maior exploração se não tivessem petróleo? Deverão ser bem mais complexas as condicionantes que fazem não termos ouvido ainda nenhuma preta nem parda reclamar contra os betinhos do clima, ou preencher as desfalcadas fileiras dos negacionistas, ou perfilhar o pensamento mágico dos tecnocrentes.

Monday, October 14, 2019

ACKER

"A mãe pura e simplesmente odeia toda a gente que não for do nosso sangue. Ela usa a palavra sangue. Odeia toda a gente, todas as coisas que não pode controlar: tudo o que é alegre, animado, tudo o que está a crescer, a produzir. A humanidade dá-lhe ataques de pânico; quando entra em pânico, faz o que pode para me magoar.
           Refugiei-me na cave. No seu ar bafiento, Jesus pousa morto nas janelas.
           (...)
Em busca viajei para Berlim. Aí conheci um médico chamado Wartburg de cujo apartamento nunca mais sairia. Não via mais ninguém a não ser ele. Eu queria desde sempre fazer de mim uma dádiva a outro e aquilo era o meu começo. Wartburg pôs-me uma coleira; comigo de gatas, segurava-me por uma trela e batia-me com um chicote de cães. Era elegante e refinado e parecia o Jean Genet.
           Nessa altura, não havia ninguém que conseguisse procurar-me, encontrar-me, juntar-se-me.
           O que me dominava completamente era a minha necessidade de me dar inteira e absoluta e diretamente ao meu amante. Soube que pertencia à comunidade dos artistas ou freaks não porque a raiva dentro de mim era insuportável mas porque o meu desejo avassalador de me dar toda não era socialmente aceitável. Até então ainda não perguntara se havia alguém que se chamasse eu.
           (...)
Tudo que os teus avós e os pais e os professores e a sociedade te ensinaram, a estrada triunfal, o caminho certo, a via da virtude verdadeira — o CERTO, o BEM — não passa de Liberdade Mutilada e Liberdade retalhada em tiras de carne. O corpo violado. Um homem é uma criança que anda pelo caminho certo — uma rua meticulosamente esculpida com tabuletas — pois tudo o que consegue ver é a palavra perigo."


Sunday, October 13, 2019

Balada de núpcias

Vamos viver juntos

as crianças correrão pelo soalho
derrapando em tábuas, odiando-me
a TV será uma bomba paralela
a janelas altas
não partilhando uma cama
dividimos placas, a minha
deixa-me escaras na pele
dum ombro, cambará

Vamos para a mesa anuídos

distraídos e amuados
carregando resíduos num saco
de plástico que não se pode
deitar para o espaço
e alargará a culpa
pelo formato do sonho
de encolhido alcance
estanque ânsia que alui
e arrasa

Vamos passar a dormir

cada vez mais tarde
com estímulos e desconfiança
tu já não me encaras
tal como eu
peço o silêncio como casa

Saturday, October 05, 2019

O Herbsttag de W. B. Yeats

O Cair da Folhas


Abaula o outono sobre longas folhas que nos amam,
Debruça-se sobre os ratos nas hastes do centeio;
São louras as folhas da sorveira abrigando-nos,
Louras as folhas perladas do bravio morangueiro.

Sobre nós se abate a hora em que o amor se dissipa,
E vão-nos as almas tristes, fatigadas, definhando;
Separemo-nos, antes que nos fuja a paixão do tempo,
Com um beijo e uma lágrima a tua fronte vincando.

Thursday, October 03, 2019

[na cabeça do sonho: da própria, perdido o centro da fala]

A fechadura estava dentro da gaveta e a chave cá fora.

Blog Archive

Contributors