Thursday, February 13, 2020

breve

contra a dificuldade de perder
muito tempo a olhar pequena coisa
ou a amar a mesma

Wednesday, January 29, 2020

Matar o Pai

                                            ao Manuel Resende

Progredia a brancura, e nós uma corrente:
era um socalco ao lado sem cume a vertente
do outro lado um abismo que havia e nós

não víamos pois era tudo branco a neve
iludia. Piso macio, desfeito, breve
a nossos pés a boca de um perigo. Nós

seguíamos na branca duna que cedia
calcada pelos pés, e aos poucos se tingia
permanecendo embora muito branca. Nós

não éramos bons nem maus, tão-só sabíamos
que doía perder-se alguém. Retrocedíamos
quando um na neve se sumia. Aflitos nós

cavávamos até a pá achar um corpo,
acalentávamos com as mãos o sangue morto
e à vida ele tornava invariável, nós

tínhamos fé; bastava não negar volver
quando um mais débil se deitava a morrer;
bastava não acreditar, pois para nós

a morte o seu rigor tirava e a brancura
se aluía, desde que, sem pesar da dura
marcha já transposta, voltássemos lá nós

a buscá-lo. Tal foi a abnegação feroz
que tão longe nos trouxe. Donde, doutor, sei
que sabe, aqui chegados, por que o não matei.


Wednesday, January 22, 2020

Circundando o cabo prodigioso onde



se cingiu a terra se disputaram línguas
se dividiram as peles se circunscreveram
reinos e rivais se capturaram pretos
se levaram presos os que mais imbicaram
sem ninguém os convocar foram contados —
o que fizeram não foi registado.

Além dos rumores de desleixo de boca fraterna
e fraca, guardaram-nos fechados por anos
numa instalação rodeada de água 
onde lhes retirariam o sono com baldes
ou deixavam que sonhassem com os filhos
sempre pequenos, depois saíram um dia e já não eram.
Saíram com os filhos grandes, ocupando o lugar
que nunca tinham pensado, contando-as a elas, chefias
anteriores, inundando-lhes o sono com uma tarja:
verdade e reconciliação, o assédio para o perdão
destapando horrores.

Quando quase toda a gente é crente, dez fervorosos
por um ímpio, ocorre agora no comboio regional de que se diz
mal, destroço público e fim literal de linha —
apraz cristãmente a indulgência ao selvagem
se até papoilas brotam dos carris
nos pés dum continente onde sabe aliás a primavera
numa antípoda gémea do litoral português onde
os barcos arrotearam os impérios brancos
até hoje se enviesa a coluna dos autóctones.

Dez traves por um argueiro e quase
toda a gente sai dos apeadeiros segundo os mais próximos atalhos:
cruzando a linha ou colados a ela, quase toda a gente
mente cega segue em frente evitando as tabelas apesar de irrisória
a tarifa da comuta, talvez testem a fé ou ainda contornem a tortura
despedindo as roupas, porções pessoais desirmanadas

dobrada a ponta, onde se travam
agora os pretos embaraçados de indiluível convívio aqui
no vagão onde o único espécime claro não contém a pena

os estofos têm repelões que são as peles arrancadas.
As janelas têm fracturas ovais e além delas vêem-se arames
igualmente rompidos em buracos do tamanho duma bola
por eles viçam ervas daninhas, repousam no vale
as vinhas dos Afrikaans, gente a um tempo sisuda
e condoída, vista de fora. Muralhas, maravilhas, o dobre
da história que mal se desenrola não ensina.

Metrorail, Cidade do Cabo – Stellenbosch, 9 de setembro, 2019

Tuesday, December 31, 2019

Terminus

           (em construção, mas propício à estação)

É tempo de ser velho,
De levantar velas:
O deus dos confins,
Que dá orla aos mares,
Apareceu-me na sua ronda fatídica,
E comandou: “Não mais!
Não mais dispares
Teus grandes ramos ávidos, e raiz
Larga a fantasia; chega de inventares;
Cinge o firmamento
Ao diâmetro de uma tenda.
Não podes esbanjar-te nisto ou naquilo,
Há que escolher qual dos dois;
Economiza o rio que vacila
Prezando sempre o Doador;
Deixa os vários e guarda os raros
Aceita os termos atempados,
Ampara a queda com pé avaro;
E, por um bocado,
Faz planos, sorri ainda,
E – se nada novo se gesta –
Amadurece o fruto que resta.
Maldiz, se te apraz, teus pais,
Maus maridos de seus lares,
Que, soprando-te o alento,
Não lograram legar-te
Esse tendão que dantes era grosso,
O bárbaro tutano dos ossos,
E deram-te apenas veias vazas,
Fogo inconstante e rédeas lassas —
Deixaram-te, entre as musas, mudo e mouco,
Entre os gladiadores, paralisado e oco."

Como a ave se aproa à procela
Apresto-me ao vento do tempo,
Dirijo o leme, rizo a vela,
No falho presente sigo a voz de outrora,
“Com mansa lealdade, abole o medo,
Ruma sempre reto e incólume,
Está perto o porto, de merecida rota,
E cada onda a maravilha enrola.”

Sunday, December 15, 2019

Sunday, December 08, 2019

Amantes


sem casa um beco de vento os chama
céus seus a solidão o silêncio o
segredo tremendo que boca de incêndio
os traga
e solta na noite irrestrita vasta

céus seus a inconvenção a demora
o denodo furtado ao mito denso
de que o amor se faz – e é – agora
alegre
trino mútuo sopro recomeço

stacatto em loop ao fio do disco
céus seus o risco o riso o raio aí
acaba
a língua rompida cantando o atrito
veloz tristitia do fruto aberto

selo
a tenra polpa soluçante ao grito
céus seus o sismo a fita telepática
tão impante falta que falo nihil
placet inestimável nu abjeto

belo

ó Paixão rasgo impérvio e lasso
ato
espelhado com colapso sedutor
à escarpa de onde raro em rigor
se morre ou se tanto só no palco

a luz a paga

e cobra
que ávida no tal morro se contrai
morderá sarará escalada dobra
céus seus o susto a vista a vertigem
se se cai

e se resvala céus seus a corda

Monday, December 02, 2019

Compagnon de Route

O comboio-lata em sono-cinza abranda na estação
espanta o bronze das folhas, embarco na hinterland
alemã, salto o carril da história direta ao milagre
da paisagem comparada. O inverno levanta céus
cobre rios de gaze verdes ervas renova seu lume
estarrece

somente pela direita: do lado sinistro o companheiro
tendeu o estore, treliça da manhã, rede mosquiteira
da luz — vaga indefinição que não chega
a ser feia mas me põe sobranceira em guarda:
à sonolência do anódino meu solene desdém a quem
ignora

que “mortos são os que não aprenderam a cair” disse
a jovem debruçada no meu poema entendendo como
queria raspando a taluda na verdade sem rimar
na terminação, cheia de empatia para com as folhas
impreventivas da poesia. Não mais
cantar

Ele veste um blusão, tatuagens inscritas por baixo
há pele, uma origem operária que somos nos arrabaldes.
E o lanche ao lado no estofo: ratos cor de rosa, brancos
doces, densos, de esponja, com sumo de fluorescência
edulcorada, descartável, incompaginável com
ele, dorme

eu meço meu risco e ilusão: na lira das pálpebras
alheias porventura um pantone mais amplo gira
a visão inimaginada... daqui quem sabe a aventura
é irrazoável.


            ICE Hamburgo-Berlim, 29/11/2019

[na cabeça do sonho: do equilíbrio espiritual]

Fui com o meu pai comprar esquadros para suportar o verso das mensagens divinas que se iam exibir pelo natal. Entretanto ligavas; desconsolada de esperança, obrigava-te a repetir três vezes a tua indecisão.

Sunday, November 24, 2019

[na cabeça do sonho: classes e dança contemporânea]

À refeição, discutíamos a humanidade, relativa aos visados, de termos pessoal de serviço que tratasse das migalhas. Entrados no fim, debaixo da mesa, os seus corpos ora se sacudiam, tiras de couro nuas, ora deslizavam, bocas no mosaico.

Friday, November 22, 2019

Quantas vezes não te agradeci

DIÁRIO DE HANNAH ARENDT
A filósofa Hannah Arendt
Está a descascar cebolas na cozinha.
Pergunta: “Sabes dizer-me
O horário dos correios?”
E a amiga:
“Tu estás apaixonada…”
Manuel Resende, O Mundo Clamoroso Ainda, Angelus Novus, 2004

Sunday, November 17, 2019

Traduzir Faulkner



Sempre é uma terapia que faz render talentos com a vantagem de desviar a imaginação de uma original bênção. Aqui chamada, inemocionando porém os olhos, nem sempre afinal das almas exatos poros. Falo de outra coisa, claro, não nomeio. Falo
do que rodeio por interposto interesse, não me lerão a gastar mais nenhuma palavra com duvidoso ouro, lapso momentâneo, além, aquém, o que tem por sinónimo técnico a usura. Toda a euforia metida para dentro, convexa. Na realidade, reservada.

Pelo instante aversa à embriaguez: forja da soberba, sustento brutalmente manuseado da poesia.

Nem que aplique ao coração um bate-estacas serei por força, se não digna, con-vencida capaz para abrir este tesouro.

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