Sunday, April 26, 2020

Entre Abril e Junho de 74


1.


Urgentemente te invoco,
De lá, de onde estás, entre móveis e tapetes,
Entregue aos deuses domésticos, se-
parada atormentada traída carne
                        (Poderei explicar?)

Invoco-te quando crepitam os movimentos da natureza, quando as flores desabrocham sementes no ventre da terra
E quando se estendem as sedentas línguas verdes para as (poucas) gotas nocturnas — invoco-te.
Quando vemos de noite a aspereza das manchas negras rasuradas no céu
(Quando de noite nos deitamos sob as rosáceas dos pinheiros e sentimos que o orvalho vai nascendo e quando e como)
Quando de dia a chuva verde, coagulada,
Quando descobrimos certas árvores e com elas descobrimos certas cores
Quando descobrimos exactamente antes da tal Primavera a intensidade do lilás à flor dos rebanhos de choupos que bebem junto aos rios
Poderemos dizer — diz-me se poderemos dizer — ser o corpo das mulheres a pele que querem dizê-lo?
Mesmo quando expele o poder mágico de muitas gotas pressurosas?

Muito se disse sobre a Primavera
E sobre o mês em que começa Abril ou Maio
(«Ó mês crudelíssimo», o mais cruel! Ó doce mês,
«Quando em Abril as doces chuvas caem»!).
Mas Abril é o mês das marés intensas
............................ Perante isto
Que corpo de mulher é pele fotográfica?
Eu vejo sob os vestidos finíssimos
Vibrar toda a alma dos músculos
E, sob filas de castanheiros,
A passar, duas mulheres ternamente enlaçadas
Vejo sobretudo cinco dedos duma delas pousados sobre uma anca improvável.
Ó maré viva
Invoco-te desse murmúrio doméstico onde estás
Entregue aos furiosos manes
Sou um soldado,
Como todos os soldados sinto
A doença adolescente do corpo
E segundo dizem vivo em comunhão com a natureza
E os músculos me doem
Contra a terra quente e húmida
Contra a ditadura dos choupos e dos eucaliptos e das pseudo-acácias comendo-me hora a hora
O sono das noites não dormidas


2.
Vi passar nuvens talvez
Para sul do Tejo
A várias horas da tarde
Chovia um como tinir de metais moles
Contra vidros e janelas ali à volta
À volta das três da tarde
Diz-se que agora o povo escreverá
Aos ministros a perguntar
Pelos lucros e pelas perdas
Diz-se que há pedidos e exigências e
Uma infernal vozearia e é bom
Diz-se que há manifestações a meio dos Clérigos
E que um amigo nosso morreu e que alguém fez streaking por ocasião do 25 de Abril
Mas no dia 1 de Maio, vizinho dos ratos, seu parceiro de civilização
Vim a saber que as nuvens que corriam talvez corressem para sul do Tejo
Conhecia Lisboa por ouvir dizer e vim aqui ter sem saber ao que vinha
Deixai-me que vos diga aprovo que o regime caísse eu que vivo entre ratos
E como (que o povo saiba) em pratos de lata e em mesas lavadas à mão com mãos lavadas contra a farda

Que o regime caia pois que nos apodrecia
Que caia e caia cem mil vezes pois que tinha que cair
E que vá para o inferno o raio do regime (que corra para o mar por esses esgotos)
Que caiam os grandes da terra pois é bom ouvi-los fazer o barulho de caírem
E já era tempo de petiscarmos um pouco de ilusão de justiça
Mas eu vivi entre merda e na merda vivo
Eu vivi oito dias no meio da porcaria
Vendo passar os rapazes dos sindicatos
A malta proletária e grandes mulheres operárias em camionetas de excursão vindas dos arredores
Ou em carros de camaradas
(Havia também um pouco de sexo cheirando no ar: sexo simbólico, claro, pois tudo são símbolos)
E não pude ser aqueles que passavam
E não passei, saudando os soldados que ali estávamos, saudando
A queda dum regime odiado


3.

E tu sociedade civil que sabes tu
Dessas palavras que são
O nosso pão-nosso de cada dia
(O morteiro-60, o lança granadas foguete,
Essas chaimites ameaçando o Carmo)
Teu mero dicionário simbolista
Que sabes tu da dura vida dos soldados
Ou dos postos do exército
Que sabes tu dos generais


4.

É como digo
A carne é triste quando a traem a carne é fraca
Se me fosse dado dobrar realmente os ombros decerto os dobraria
Pois a carne é fraca o flanco dói como a dor
Da faca que nos inflama o flanco
É certo que a carne dói é o que nos dói mais... às vezes...
Pois viveremos entre ruas dedicadas aos heróis da finança
E todos os dias nos traem
Ouço dizer que as cidades aclamam o general

Passam mulheres de incerta idade indefinidamente seguidas por cães da província
E em verdade vos digo nos últimos tempos sonho agora com filmes a cores
Filmes verdadeiramente pornográficos
Que prazer terei eu senão este em que nos encerraram
Capitães e generais entregues à fúria da razão pura
Aí onde estive estarei por força
Oh loucura diz-se revolução o movimento dos corpos que nos últimos tempos passam sempre pelos mesmos lugares comuns
E não era isto que eu queria
É como te digo a carne é fraca e a minha então
Todo este bricabraque
Air conditioned nightmare (sim: égua nocturna
Negra se possível deixa-me devorar o teu flanco sei que passas correndo)
Odeio todas as turistas e o seu folklore
O pão tostado da pele, os collants, as blusas verdes, saias vermelhas, as coxas nervosas, o rímel, a base,
E também o descarado pudor das raparigas da província
(Os turistas passam em grupos, em autocarros, a pé, seguidos indefinidamente por cães sempre os mesmos da província) As cidades aclamam o general

Manuel Resende in Natureza Morta e Desodorizante, 1983


Thursday, April 23, 2020

Seja um agente de saúde pública

ao fim a solidão também se soma
como experiência em caixa por dias
circunscrita a câmaras arredias
de operador em off, só se nota

em certos frames frágeis: a tabela
diária da arritmia, feita à escala
de casos por milhão — e mais, se cale
a cisma com serenatas de janela

e a morte com lives de poesia;
a cólera com mordaças de compressa.
Ardem torres, contraditas teorias

da puta da virose propagada
por receosa causa incontroversa
lá fora, se garante, não há nada.

Sunday, April 19, 2020

25 de Abril Desobediência Civil

E se fosse um passeio pela Avenida, dois por dois, com cravos desde o peito às orelhas?


Monday, April 13, 2020

quarentena depois da quaresma

Alguém disse que a comparação certa não era A Peste de Camus. Não li esse. Mas é o feeling de Camus, sim: estamos rodeados por nós próprios e ignoramo-nos, rodeados pela nossa posse e pela violência de ombros encolhidos e a cada limite que se dobra existimos no nosso próprio silêncio. Isso e a mão ambivalente da pressão social, justificando arbitrária as nossas escolhas nulas, tornando-nos protagonistas da nossa reclusão.

Sunday, April 12, 2020

No Parque

– Ei! – pergunta o rapazinho. –
Quem é aquela senhora?

– É uma estátua da Caridade,
qualquer coisa do género –
responde a mãe.

– Mas como é que a senhora
ficou tãaaao estragada?

– Sei lá, ela sempre
foi assim, acho eu.
O município devia tratar disso.
Livrar-se dela, arranjá-la.
Vá, anda lá, não te ponhas a pastelar.

Wislawa Szymborska (a partir do inglês)

Thursday, April 09, 2020

Só que, só que, vós horas cabisbaixas

Só que, só que, vós horas cabisbaixas, vos conheço também,
pesos de chumbo, que me empapam, se me agarram aos tornozelos,
Terra dentro do meu quarto às voltas pela manhã - ouço-vos a voz tão lamuriosa, trocista,
Conquistadora, a matéria - a matéria, somente vitoriosa, segue em frente.

Desesperados clamores incessantemente flutuam até mim,
O grito do meu mais chegado amor, interpondo-se, assustado, incerto,
O mar que devo veloz navegar, vinde dizer-me,
Vinde dizer-me aonde me precipito, dizer-me o meu destino.

Compreendo a vossa angústia, mas não vos posso ajudar,
Aproximo-me, ouço, vejo, a boca triste, o olhar que vos sai dos olhos, o mudo interrogatório,
Para onde irei do leito onde me deito, vinde dizer-me;
Provecta idade, assustada, incerta —a voz de uma rapariga, apelando ao meu consolo;
A voz de um rapaz, Eu não escaparei?

Walt Whitman





Sunday, April 05, 2020

[na cabeça do sonho; tempo de gaze]

sob máscaras forçam-se cordões
apertam-se os olhos uns
dos outros para o próximo vazio

e o sonho era um barco para onde entrávamos todos - outra vez literal a toda a prova. Eu tinha o condão de me fazer hostilizada numa solidão  muito pouco digna. Havia quem entrasse por umas escadas seguras de madeira e quem entrasse por uma espécie de armação metálica desconjunta. Estava debruçada no pontão para entrar, alguém caía e nesse momento eu puxava um cabo rendado que afastava o talabardão do barco do muro do cais e aumentava a extensão da água onde a pessoa esperneava. Não se afogava, mas eu devia naturalmente ser olhada de lado,

Monday, March 30, 2020

A virtualização das classes


A romantização da quarentena é um privilégio de classe e a personificação do vírus é de uma misantropia bizantina - de acordo, mas adiante: reticulada em casa, "conheci", por via de recente adesão ao Instagram, mais gente nestes últimos vinte dias do que nos vinte meses antes. Pus-me a seguir escritores e afins artistas que percebi serem meus contemporâneos nos quatro costados e vejo agora as suas fotografias, os seus ecrãs afanosos de criatividade dentro das minhas quadrículas, as suas mensagens de coração à janela, certamente mais elevadoras do que lhe vão soluçando as imaginações, de onde sairá talvez ao seu tempo uma arte ansiosa. Correspondo, participo desse palpitar de streaming, partilho os meus passos em volta entre a casa e as escadas de trás, mimando uma meta-dança, fake it till you make it.

Sou seguida e sigo, além disso, gente com nicks divertidos, estrangeiros, estapafúrdios, que não faço a mínima ideia quem sejam, mas que partilham, também eles, cintilantes lagos de cisnes contra a peste.

A colonização em curso da zoom-escola, porém, afasta-me dos virtuosismos em directo para me levar a ponderar se vale a pena abreviar o programa ou substituir conteúdos por outros mais cativantes e/ou atuais, como por exemplo - parece que estão mesmo a pedi-las - redes sociais e cultura popular participativa. Sobre isso, relembro-me: as redes aumentam -  como é sua função e elas próprias apregoam, "filtram" - a clivagem social. Qualquer um, em teoria, pode "publicar" a sua história, mas as janelas seguem a bitola do condomínio. É grande a facilidade em privatizá-las e em admitir exclusivamente quem se quer ou reconhece num mesmo clube. E há uma espécie de política de terra queimada: cada nova rede procura atrair as vanguardas mais dotadas (leia-se, abonadas) e deixar as anteriores para "o povo" e para os ultrapassados (assim foi, dizem os dados da sociologia, na transição do myspace para o facebook, ou deste para o twitter e instagram). E sim, comiseramo-nos, emocionamo-nos até e agravamos os nervos com "aqueles que não têm a nossa sorte", que vão ficar muito pior numa crise imprecedente, vamos tendo notícias deles nos rodapés das tendências da curva viral, sabemos dos que sobem proporcionalmente às portas dum sítio com o lindo nome de "Casal Vistoso" e as condições de uma barraca sem tropas.

Entretanto, neste "estado emergente", passei a seguir pessoas que não sei se têm carne viva. Deixei de seguir aquelas que diariamente encarnavam à minha frente, sem que eu fosse grandemente vista ou achada e muito menos "gostada":  nos transportes públicos ou até sentadas em papelões em frente ao supermercado que continuo a frequentar. Desconheço, aliás, se desapareceram porque as convenceram a proteger-se no tal barracão (e valha-nos a espantosa coragem dos voluntários), se as escorraçaram por pânico de o vírus se pegar exponencialmente com(o) a miséria, ou se deixaram de vir simplesmente porque as moedinhas se acabaram. Ah, o metal é finalmente vil e somos todos, como nos solicitam, agentes de saúde pública, encartados clientes de superfícies com acesso controlado.

P. S. Termino este post e verifico ter recebido, às 00:16, um email da "equipa escola virtual" que me trata pelo nome e dá "truques e dicas para o ensino online". Entre eles: "não esteja mais de um dia sem dar feedback aos alunos." Isto é verídico. Isto anda tudo ligado e nem sequer é um plano: superproteger, infantilizar, sobrecarregar, desautonomizar, acefalizar, insensibilizar — as massas virtuais.

Friday, March 27, 2020

[na cabeça do sonho: lista de presenças]

Demasiado literais os casos dos alunos esvaídos no streaming, seus quadrados de repente pretos.

A viver numa residência Erasmus, tinha perdido o meu frigorífico e o meu filho adoptivo não se satisfazia com as barras energéticas coladas com velcro nas paredes, berrava para que lhe fizesse o jantar.

Os corpos são cargas de semicondutores à flor dos dedos, ou antes: toda a pele se torna extremidades, fichas num morse de mau contacto. Acordamos de um pesadelo para o mesmo, pior e com mais definição.

Friday, March 20, 2020

más influenzas










Edgar Allan Poe in Obra Poética Completa, ilustração de Filipe Abranches e tradução de Margarida Vale de Gato, Lisboa, Tinta da China, 2009

Friday, March 13, 2020

Walt Whitman, uma nota preparatória a Folhas de Erva

“Há que perceber que não se pode ter na escrita qualidades que não acalentamos honestamente cá dentro. Há que perceber que não se consegue afastar da escrita os sinais do mal ou da frivolidade que acalentamos cá dentro. Se somos do género de adorar ter um criado atrás da cadeira ao jantar, isso há-de aparecer na nossa escrita; se temos uma opinião vil das mulheres, ou guardamos algum rancor, ou duvidamos da imortalidade, estas coisas transparecerão naquilo que deixamos por dizer mais do que no que dizemos. Não há truque nem ardil, não há arte nem receita, que nos façam ter na escrita aquilo que não possuímos em nós.”

[traduzido a partir do sublinhado por F. Pessoa na biografia de Whitman da autoria de Bliss Perry]

Sunday, February 23, 2020

ImoMelides

Aqui como em toda a parte a porcaria
joga-se com o sol a produzir beleza.

Gostamos, tanto mais é boa porcaria:
a do barro das valas quando chove

a do barro do lago quando não chove

a do pó dos campos com tempo nas janelas

a da ribeira com o lodo as rãs os talos
de hortelã que têm de lavar-se em águas
várias como as mãos dentro delas
ou no centro da terra pegando estaca

as mudas com raízes estuárias os
riscos nas unhas encardidas e quadradas

e a queratina sob certo ângulo de luz

ou fímbria de alguma lua a tingir algas
e o azul do sisal falso das redes atiradas.

Que sempre mais ou menos esse meio
sujo: no silêncio o sulco no céu
de pássaros e excrementos no solo aí

batido coleante fértil vastamente desútil
e roçado segundo a época; mas não
é igual a porcaria — também o ditado
logra desmentido:

      o sol não brilha bem
para todos, isso perturba e suscita
a quezília do lugar à sombra (o sol
no caso, presumido de bandeja) logo:

um dia tudo isto será construído.




Thursday, February 13, 2020

breve

contra a dificuldade de perder
muito tempo a olhar pequena coisa
ou a amar a mesma

Blog Archive

Contributors