ter o fresco, já descalços, quase húmus
manso cujo sol se dissolve agora áspero;
foi verão, o mundo esperneia — ao menos
teme-se em conjunto
ter o fresco, já descalços, quase húmus
manso cujo sol se dissolve agora áspero;
foi verão, o mundo esperneia — ao menos
teme-se em conjunto
Aquilo que bosqueja, a rapariga
transposta a saída da infância
a tons de cera e negro, o mundo
é mescla, mal que liga e se amolece
como se não fosse atroz a história
e coexista o dia, a chama, a rama
viva de cerejas perto da aldeia
eis que se esfuma – o lar, e pais e filhos
vedados e vendidos de país
separados em gangues, saltimbancos
não obstante os intervalos do espanto
no trapézio, a paleta de improviso:
como se pisa o gelo e surge um lago
e um espinho pica o sangue nela nua —
sabemos, pois, já menstrua — e acresce
o perigo ao corpo desperto pelo frio
no mundo do homem (mesmo os mais rectos
soslaiam, comerciam, diminuem)
a beleza não salva, acompanha
o olho não evita, mas altera
(o dela, ucraniana, palestina,
síria, séria, lembra-me a amiga
Mariana, que não era migrante
era etérea, teve um tumor, foi-se
em meses); é melhor enquanto vemos
os que traçam secretos o caminho:
aqueles com perguntas tatuadas
nos rostos mudos, esses que contemplam
tomar riscos para que atravessemos
Voando e revoando num maior círculo
Não pode o falcão ouvir o falcoeiro.
As coisas desabam; o centro não se aguenta;
A vulgar anarquia anda no mundo à solta;
Eivada de sangue, rompe a maré, por toda a parte
Se afoga a cerimónia da inocência;
Falta aos melhores toda a convicção, enquanto
Ardem os piores de intensidade apaixonada.
Na certa está prestes uma revelação
Na certa está prestes a Segunda Vinda.
A Segunda Vinda! Mal saem estas palavras
Já uma vasta imagem do Spiritus Mundi
Me tolda a vista; algures nas areias do deserto
Uma forma com corpo de leão, cabeça de homem,
Um olhar cego e implacável como o sol,
Move as ancas lentas, enquanto em seu redor
Passam iradas sombras de aves do deserto;
As trevas tornam a cair; mas eu agora sei
Que vinte séculos de um sono de pedra
Ruíram em pesadelo num embalo de berço,
E que rude fera, chegada enfim a sua hora,
Se arrasta até Belém para nascer?
Volto à posição de mulher
peito e braços na diagonal
um vinco na cintura
as articulações inchadas
tenho um vestido de merino
abafado para a estação
quase não respiro a erva é seca
não sei quem mo legou
de que guião
deixei de me ler
na instrução alheia
perdi as minhas deixas
não consigo gritar
no sonho em que foste de férias
com a tua ex
e me deixaram cães
a guardar
no agosto que mal inicia
em que passaste o óbito
ao verão
terço palavras
contra mim
todos meus agoiros conluios
verve de vítima
e besta
o vestido de merino
se o envergasse
menos lesta
ao sufoco
no borboto
se caísse
se balisse ao menos
continuamos parcos de formas de eclosão do belo e avanço do saber
que não o cerco, os arsenais opostos e a nostálgica devassidão do grego
Espraia-se na água a barrela do sol
leque nascente, alvos da corrente, círculos
próximos à oposta orla, entulhos de sal
silos destelhados
algo no movimento escoa o remorso:
quantas vezes os imaginámos, tais abrigos
filha, casas duma Veneza campestre – abre-se
a porta e é sapal, chapinha-se, nada-se
a caminho de maillot, de caiaque
que triste ficaste quando uma vez lá fui
sem te levar – pedalava então
com um teu leve padrasto, incertos
parvos exaltados os sentimentos
sempre foram difíceis — há partes
que devíamos evitar ou então
evitar partilhar, espinhos pelas costas
a ponta entre os nervos cerce
parece escassa coisa mas se também
isso
passa fica a impressão da falta
somando apostas irrealizadas
moinhas remoinhos
algo no movimento escoa
na ponte há pouquíssimos veículos ainda
há os postes pautando o rio cruzando
sombras desta carrinha e arbustos, rasam
esteiras de estorninhos e nós
rombas flechas reluzindo
dispostas
o oceano repetido pela Diana, amiga-irmã, tocado pelo Francisco no elo de dois que criam e se amam, chega-me numa gota no mp3 no meu whatsapp, aqui sete e um quarto da manhã em Espanha menos uma em Portugal, levadas já vinte e seis horas de viagem com embarque desde Veneza nesta gôndola mecânica de longo curso e muitas paragens, atracagem oxalá em Lisboa daqui a mais doze, na manhosa anódina intersecção internacional de flixbus de Quintana del Puente com código postal em Palencia, onde o betão armado e os cais das camionetas, traçados brancos em retas oblíquas, contrastam com a escuta de lamelofones, ondas, espirais, espanta-espíritos-arames, móbis de esferas, coloco em alta voz só um pouco para competir com as orações matinais em árabe, o ragetton e o ocasional influencer instagram dos outros viajantes avulsos, sendo que pelo ecrã de um deles, disputando o exíguo banco duplo comigo, com o volume sonoro acrescentando-se ao físico, vislumbro uma tribo de culturistas de roupas negras ou talvez cross-fitters ou metalo-punks ou skins ou ex-praxistas, e cruza-se o verso de Kadir dito na voz de prazer da Diana, “toda a gente vê uma gota de água no oceano mas poucos o oceano numa gota de água”, e o meu espírito dubitativo e contrário logo em ação pensa por acaso não é assim tão fácil ver o pingo na massa, o pequeno que faz o grande, os muitos mínimos a fazer o uno, pensa quase ninguém vê a gota, eu própria a terei visto menos vezes do que Deus, só o seu desejo na mente e já deixamos Quintana del Puente cinquenta minutos depois de termos sido acordados no escuro para abandonar o veículo, encaminhados em curro para um pequeno-almoço uniforme de croissant e café com leite, e agora o sol já nasce a vinte graus do céu, cálculo aproximado e certamente desinformado, e o sítio era sujo e no geral há um ar de miséria nas pessoas, ora contrafeita ora ostensiva, um ar de desleixo e suor, depois dos milhares de minutos em rodagem debaixo da incrível vaga de calor desde a Europa central, a segunda neste mês, e eu a achar que faço qualquer coisa contra isso poupando uns quantos quilos de caborno e correlatas emissões de estufa, a viajar como os românticos, as pessoas que nem sempre são amáveis ou atenciosas, os condutores por exemplo com o seu tom paternalista para os passageiros desorientados, voz grossa alternado a qualquer instante entre o zombeteiro e o insultuoso, pensa em trânsito o meu corpo quantas vezes político, se deres um pequeno poder a um pequeno homem ele decerto o usará, e o autocarro já anda e há um que foi deixado para trás e vem a correr e afinal o motorista pára, e porque o sol subiu eu espanto-me com as milhares de espigas súbitas em redor, chamas pálidas logo à saída do grande depôt, cortadas rente na mesma luz a que não faz jus a câmara do meu telefone em movimento, o amarelo seco será moído em pão, o mar em sal, a gota como a espiga, mas aquela é transparente quando uma, azul quando muitas, por via da massa, por via do fundo, e a cor é feita afinal de extensão e profundidade, a cor é 3D, por via do cruzamento entre vida e dimensão, por via de ser afinal o oceano uma planta de água e o que eu gostava de ter estado em direto nesse lugar de onde vem o som da Diana, cruzado de fotos, lúmen, um arbusto, a minúcia, o diminuto e o conjunto da sua exposição.