Friday, June 26, 2026

Mareograma para uma exposição que ainda não vi

o oceano repetido pela Diana, amiga-irmã, tocado pelo Francisco no elo de dois que criam e se amam, chega-me numa gota no mp3 no meu whatsapp, aqui sete e um quarto da manhã em Espanha menos uma em Portugal, levadas já vinte e seis horas de viagem com embarque desde Veneza nesta gôndola mecânica de longo curso e muitas paragens, atracagem oxalá em Lisboa daqui a mais doze, na manhosa anódina intersecção internacional de flixbus de Quintana del Puente com código postal em Palencia, onde o betão armado e os cais das camionetas, traçados brancos em retas oblíquas, contrastam com a escuta de lamelofones, ondas, espirais, espanta-espíritos-arames, móbis de esferas, coloco em alta voz só um pouco para competir com as orações matinais em árabe, o ragetton e o ocasional influencer instagram dos outros viajantes avulsos, sendo que pelo ecrã de um deles, disputando o exíguo banco duplo comigo, com o volume sonoro acrescentando-se ao físico, vislumbro uma tribo de culturistas de roupas negras ou talvez cross-fitters ou metalo-punks ou skins ou ex-praxistas, e cruza-se o verso de Kadir dito na voz de prazer da Diana, “toda a gente vê uma gota de água no oceano mas poucos o oceano numa gota de água”, e o meu espírito dubitativo e contrário logo em ação pensa por acaso não é assim tão fácil ver o pingo na massa, o pequeno que faz o grande, os muitos mínimos a fazer o uno, pensa quase ninguém vê a gota, eu própria a terei visto menos vezes do que Deus, só o seu desejo na mente e já deixamos Quintana del Puente cinquenta minutos depois de termos sido acordados no escuro para abandonar o veículo, encaminhados em curro para um pequeno-almoço uniforme de croissant e café com leite, e agora o sol já nasce a vinte graus do céu, cálculo aproximado e certamente desinformado, e o sítio era sujo e no geral há um ar de miséria nas pessoas, ora contrafeita ora ostensiva, um ar de desleixo e suor, depois dos milhares de minutos em rodagem debaixo da incrível vaga de calor desde a Europa central, a segunda neste mês, e eu a achar que faço qualquer coisa contra isso poupando uns quantos quilos de caborno e correlatas emissões de estufa, a viajar como os românticos, as pessoas que nem sempre são amáveis ou atenciosas,  os condutores por exemplo com o seu tom paternalista para os passageiros desorientados, voz grossa alternado a qualquer instante entre o zombeteiro e o insultuoso, pensa em trânsito o meu corpo quantas vezes político, se deres um pequeno poder a um pequeno homem ele decerto o usará, e o autocarro já anda e há um que foi deixado para trás e vem a correr e afinal o motorista pára, e porque o sol subiu eu espanto-me com as milhares de espigas súbitas em redor, chamas pálidas logo à saída do grande depôt, cortadas rente na mesma luz a que não faz jus a câmara do meu telefone em movimento, o amarelo seco será moído em pão, o mar em sal, a gota como a espiga, mas aquela é transparente quando uma, azul quando muitas, por via da massa, por via do fundo, e a cor é feita afinal de extensão e profundidade, a cor é 3D, por via do cruzamento entre vida e dimensão, por via de ser afinal o oceano uma planta de água e o que eu gostava de ter estado em direto nesse lugar de onde vem o som da Diana, cruzado de fotos, lúmen, um arbusto, a minúcia, o diminuto e o conjunto da sua exposição.




Friday, May 08, 2026

Como o par de Lorca que vimos no palco


com rancor doentes, ciumentos de hábitos

contra esse fantasma, a erosão de nós

contra, amemos contra o perecer da luz

tontos comoventes

Friday, April 24, 2026

Ao balcão a Vera parece um Velasquez

olho acentuado e saca-rolha à cinta

dedos de elo em copos trazendo éter ácido

e óleo ao pão poema – trinca-se à dentada

nódoa e alma

Tuesday, April 07, 2026

efemérides

 dou-me conta de que blogo há vinte anos, um mês e doze dias.

Thursday, March 19, 2026

Vamos no asfalto altos até ao Bugio


Cobre a orla gente e uma cadela ruiva

rói o fio às rendas de espuma cadente

varre o mar o sol desdobrável – encosto-me 

à tua costela

Friday, March 06, 2026

Depois de António Lobo Antunes


porque terias de viver para eu continuar

a alimentar imagens como jovens 

 

e porque ainda podia ser 

no Miguel Bombarda há

trinta anos quando acedeste a ver-me fazia sol

preparei-me para a tua ufana complacência 

descartei a sonsice dum livro para assinares  

e enfiei a farpela à altura dum relance

sobre a diferença de idades

um isco de beleza um filtro de desamparo

uma cosmética de ingenuidade

 

seria melhor que um autógrafo

um período num romance teu

 

havia sol havia um cisco a cair numa camélia

no banco na orla do panóptico

e falámos falaste sobretudo eu ouvi 

dos poucos poetas que te assistiam

oito horas por dia lendo e quatro escrevendo

Gottfried Benn e Cristovam Pavia

fora os loucos que ainda consultavas

e esbracejavam de passagem nos cobiçavam os maços

faz favor doutor faz favor menina

orientem uma moeda

ou então uma pirisca

 

nos acusavam nos viam à transparência

desorbitados

o alheamento clínico

ou a exposição do sujo ou a cobarde mania

das grandezas comoventes

as arrelias tornadas magnetes de desgraça

as voluptuosas querelas de famílias 

para um único bom poema

ainda assim ao alcance de um mau

escritor qualquer

fizeste notar

longe das torturas do grande romance

bastava olhar

para os americanos do Sul

Marquez Faulkner McCarthy mas Styron

já um triste com a sua mãe todo o dia

meneando às escuras

 

eu portanto tinha muito que pensar

se era capaz de passar dias sem uma linha

os olhos arregalados

quanto tempo aguentaria

sendo tudo tão prestes a perder-se

bem haja uma piriscazinha

se mandava aquilo

ao diabo

que se lixe

era ali e eu

nem carne nem peixe

gaja

Margarida e o mestre

não me descosi e tu partiste

 

Saturday, February 28, 2026

Tão fartas serão as soleiras de amantes


pese muito a chuva, a rotina, feroz
mundo amanhã; chegas assim, impermeável
húmido, haurindo ao reenquadrar o beijo
fé por minidoses

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