Saturday, July 11, 2026

Milénios de bárbaros depois

continuamos parcos de formas de eclosão do belo e avanço do saber

que não o cerco, os arsenais opostos e a nostálgica devassidão do grego

Thursday, July 02, 2026

Em Julho, é manhã na Vasco da Gama

 Espraia-se na água a barrela do sol

leque nascente, alvos da corrente, círculos

próximos à oposta orla, entulhos de sal

silos destelhados


algo no movimento escoa o remorso:


quantas vezes os imaginámos, tais abrigos

filha, casas duma Veneza campestre – abre-se 

a porta e é sapal, chapinha-se, nada-se 

a caminho de maillot, de caiaque


que triste ficaste quando uma vez lá fui 

sem te levar – pedalava então

com um teu leve padrasto, incertos

parvos exaltados os sentimentos

sempre foram difíceis — há partes

que devíamos evitar ou então 

evitar partilhar, espinhos pelas costas

a ponta entre os nervos cerce

parece escassa coisa mas se também

isso 

passa fica a impressão da falta

somando apostas irrealizadas

moinhas remoinhos


algo no movimento escoa


na ponte há pouquíssimo veículos ainda

há os postes pautando o rio cruzando

sombras desta carrinha e arbustos, rasam

esteiras de estorninhos e nós 

rombas flechas reluzindo 

dispostas

Friday, June 26, 2026

Mareograma para uma exposição que ainda não vi

o oceano repetido pela Diana, amiga-irmã, tocado pelo Francisco no elo de dois que criam e se amam, chega-me numa gota no mp3 no meu whatsapp, aqui sete e um quarto da manhã em Espanha menos uma em Portugal, levadas já vinte e seis horas de viagem com embarque desde Veneza nesta gôndola mecânica de longo curso e muitas paragens, atracagem oxalá em Lisboa daqui a mais doze, na manhosa anódina intersecção internacional de flixbus de Quintana del Puente com código postal em Palencia, onde o betão armado e os cais das camionetas, traçados brancos em retas oblíquas, contrastam com a escuta de lamelofones, ondas, espirais, espanta-espíritos-arames, móbis de esferas, coloco em alta voz só um pouco para competir com as orações matinais em árabe, o ragetton e o ocasional influencer instagram dos outros viajantes avulsos, sendo que pelo ecrã de um deles, disputando o exíguo banco duplo comigo, com o volume sonoro acrescentando-se ao físico, vislumbro uma tribo de culturistas de roupas negras ou talvez cross-fitters ou metalo-punks ou skins ou ex-praxistas, e cruza-se o verso de Kadir dito na voz de prazer da Diana, “toda a gente vê uma gota de água no oceano mas poucos o oceano numa gota de água”, e o meu espírito dubitativo e contrário logo em ação pensa por acaso não é assim tão fácil ver o pingo na massa, o pequeno que faz o grande, os muitos mínimos a fazer o uno, pensa quase ninguém vê a gota, eu própria a terei visto menos vezes do que Deus, só o seu desejo na mente e já deixamos Quintana del Puente cinquenta minutos depois de termos sido acordados no escuro para abandonar o veículo, encaminhados em curro para um pequeno-almoço uniforme de croissant e café com leite, e agora o sol já nasce a vinte graus do céu, cálculo aproximado e certamente desinformado, e o sítio era sujo e no geral há um ar de miséria nas pessoas, ora contrafeita ora ostensiva, um ar de desleixo e suor, depois dos milhares de minutos em rodagem debaixo da incrível vaga de calor desde a Europa central, a segunda neste mês, e eu a achar que faço qualquer coisa contra isso poupando uns quantos quilos de caborno e correlatas emissões de estufa, a viajar como os românticos, as pessoas que nem sempre são amáveis ou atenciosas,  os condutores por exemplo com o seu tom paternalista para os passageiros desorientados, voz grossa alternado a qualquer instante entre o zombeteiro e o insultuoso, pensa em trânsito o meu corpo quantas vezes político, se deres um pequeno poder a um pequeno homem ele decerto o usará, e o autocarro já anda e há um que foi deixado para trás e vem a correr e afinal o motorista pára, e porque o sol subiu eu espanto-me com as milhares de espigas súbitas em redor, chamas pálidas logo à saída do grande depôt, cortadas rente na mesma luz a que não faz jus a câmara do meu telefone em movimento, o amarelo seco será moído em pão, o mar em sal, a gota como a espiga, mas aquela é transparente quando uma, azul quando muitas, por via da massa, por via do fundo, e a cor é feita afinal de extensão e profundidade, a cor é 3D, por via do cruzamento entre vida e dimensão, por via de ser afinal o oceano uma planta de água e o que eu gostava de ter estado em direto nesse lugar de onde vem o som da Diana, cruzado de fotos, lúmen, um arbusto, a minúcia, o diminuto e o conjunto da sua exposição.




Friday, May 08, 2026

Como o par de Lorca que vimos no palco


com rancor doentes, ciumentos de hábitos

contra esse fantasma, a erosão de nós

contra, amemos contra o perecer da luz

tontos comoventes

Friday, April 24, 2026

Ao balcão a Vera parece um Velasquez

olho acentuado e saca-rolha à cinta

dedos de elo em copos trazendo éter ácido

e óleo ao pão poema – trinca-se à dentada

nódoa e alma

Tuesday, April 07, 2026

efemérides

 dou-me conta de que blogo há vinte anos, um mês e doze dias.

Thursday, March 19, 2026

Vamos no asfalto altos até ao Bugio


Cobre a orla gente e uma cadela ruiva

rói o fio às rendas de espuma cadente

varre o mar o sol desdobrável – encosto-me 

à tua costela

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