Friday, March 06, 2026

Depois de António Lobo Antunes


porque terias de viver para eu continuar

a alimentar imagens como jovens 

 

e porque ainda podia ser 

no Miguel Bombarda há

trinta anos quando acedeste a ver-me fazia sol

preparei-me para a tua ufana complacência 

descartei a sonsice dum livro para assinares  

e enfiei a farpela à altura dum relance

sobre a diferença de idades

um isco de beleza um filtro de desamparo

uma cosmética de ingenuidade

 

seria melhor que um autógrafo

um período num romance teu

 

havia sol havia um cisco a cair numa camélia

no banco na orla do panóptico

e falámos falaste sobretudo eu ouvi 

dos poucos poetas que te assistiam

oito horas por dia lendo e quatro escrevendo

Gottfried Benn e Cristovam Pavia

fora os loucos que ainda consultavas

e esbracejavam de passagem nos cobiçavam os maços

faz favor doutor faz favor menina

orientem uma moeda

ou então uma pirisca

 

nos acusavam nos viam à transparência

desorbitados

o alheamento clínico

ou a exposição do sujo ou a cobarde mania

das grandezas comoventes

as arrelias tornadas magnetes de desgraça

as voluptuosas querelas de famílias 

para um único bom poema

ainda assim ao alcance de um mau

escritor qualquer

fizeste notar

longe das torturas do grande romance

bastava olhar

para os americanos do Sul

Marquez Faulkner McCarthy mas Styron

já um triste com a sua mãe todo o dia

meneando às escuras

 

eu portanto tinha muito que pensar

se era capaz de passar dias sem uma linha

os olhos arregalados

quanto tempo aguentaria

sendo tudo tão prestes a perder-se

bem haja uma piriscazinha

se mandava aquilo

ao diabo

que se lixe

era ali e eu

nem carne nem peixe

gaja

Margarida e o mestre

não me descosi e tu partiste

 

Saturday, February 28, 2026

Tão fartas serão as soleiras de amantes


pese muito a chuva, a rotina, feroz
mundo amanhã; chegas assim, impermeável
húmido, haurindo ao reenquadrar o beijo
fé por minidoses

Tuesday, February 03, 2026

Chove, venta o clima ralha arrasa

 casas

gruas antes estáveis subidas

por homem

sem medir o que era. Repara

ainda assim — clara

a azeda húmida duma hora

jovem

noutra primavera



Friday, January 23, 2026

É também amor tristeza acompanhada

leia-se, aos pedaços, absorvê-la ao outro:
tal partida fome calmada por dois—
possa a tua dor levantar lestas mãos
máximas de afeto

Monday, January 12, 2026

Ir no trilho ao poço dum tal Barbarroxa


há o mar de ser uma rouca aventura—

lá te levo, há sol no rebordo dunar:  

bagas, fungos cor de veneno glacé

nus por sob os pés

Saturday, November 22, 2025

Vamos às castanhas no parque ao sol-posto


Há ouriços sob o tapete, fogo áspero

picos, folhas fofas no topo aplainado —

Amo a par de ti e tropeço, são soltos

frutos que atiçamos

Friday, November 07, 2025

como dizer onde nos lamber


delícia Odile

dá-me lídimo 

safismo e onanismo

decerto Odile titila-me

 

ficando aquém a língua, eu sei 

a líbido de cerzir com linhas 

minhas traduções de Odile

 

assim, se ela diz, die Zuflucht der Hand

an der Möse, der Möse an der Hand

eu sei, já deslizei de modo

tão semelhante aquela mão

tateando iguais medidas

entre espaço e matéria, abrigo

e humidade, tenra e tesa

a tua pélvis

as minhas nádegas, a tua mão

sobre o meu monte, os teus joelhos

encostados

num poema de há eras

chamado O princípio do escuro

 

eu sei, ao mesmo tempo, que monte

é uma fraca verve, cobardia

poética para Möse, e desola-me

a falta de um nome de que goste

na minha língua para o meu sexo

a léguas da igualdade com o texto

 

ou de um calão veemente

eu sei, esse princípio do escuro

é um blackout glossológico

até ao perímetro da cintura

ao ponto de, aliciando-me deveras

levar palavrões na caixa aberta

do poema, não ter ainda achado

até ao presente, provocação

certa, sem o mínimo de pudor

para o que tenho entre pernas

 

mesmo quando me titila Odile 

ao pôr na boca em Manifotzo

todas as formas de os gajos

nos acapacharem com o pior 

na sua língua – Fotze! – eu falho

 

o português é tão macho que até uma cona

para causar estragos

tem de ser do caralho 

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