Monday, August 03, 2026

O vestido de merino


Volto à posição de mulher

peito e braços na diagonal

um vinco na cintura

as articulações inchadas

tenho um vestido de merino

abafado para a estação

quase não respiro a erva é seca

 

não sei quem mo legou

de que guião

deixei de me ler

na instrução alheia

perdi as minhas deixas

não consigo gritar

no sonho em que foste de férias

com a tua ex

e me deixaram cães

a guardar

 

no agosto que mal inicia

em que passaste o óbito

ao verão

terço palavras

contra mim

todos meus agoiros conluios

verve de vítima

 

e besta

 

o vestido de merino

se o envergasse

menos lesta 

ao sufoco

no borboto

se caísse

se balisse ao menos

Saturday, July 11, 2026

Milénios de bárbaros depois

continuamos parcos de formas de eclosão do belo e avanço do saber

que não o cerco, os arsenais opostos e a nostálgica devassidão do grego

Thursday, July 02, 2026

Em Julho, é manhã na Vasco da Gama

 Espraia-se na água a barrela do sol

leque nascente, alvos da corrente, círculos

próximos à oposta orla, entulhos de sal

silos destelhados


algo no movimento escoa o remorso:


quantas vezes os imaginámos, tais abrigos

filha, casas duma Veneza campestre – abre-se 

a porta e é sapal, chapinha-se, nada-se 

a caminho de maillot, de caiaque


que triste ficaste quando uma vez lá fui 

sem te levar – pedalava então

com um teu leve padrasto, incertos

parvos exaltados os sentimentos

sempre foram difíceis — há partes

que devíamos evitar ou então 

evitar partilhar, espinhos pelas costas

a ponta entre os nervos cerce

parece escassa coisa mas se também

isso 

passa fica a impressão da falta

somando apostas irrealizadas

moinhas remoinhos


algo no movimento escoa


na ponte há pouquíssimos veículos ainda

há os postes pautando o rio cruzando

sombras desta carrinha e arbustos, rasam

esteiras de estorninhos e nós 

rombas flechas reluzindo 

dispostas

Friday, June 26, 2026

Mareograma para uma exposição que ainda não vi

o oceano repetido pela Diana, amiga-irmã, tocado pelo Francisco no elo de dois que criam e se amam, chega-me numa gota no mp3 no meu whatsapp, aqui sete e um quarto da manhã em Espanha menos uma em Portugal, levadas já vinte e seis horas de viagem com embarque desde Veneza nesta gôndola mecânica de longo curso e muitas paragens, atracagem oxalá em Lisboa daqui a mais doze, na manhosa anódina intersecção internacional de flixbus de Quintana del Puente com código postal em Palencia, onde o betão armado e os cais das camionetas, traçados brancos em retas oblíquas, contrastam com a escuta de lamelofones, ondas, espirais, espanta-espíritos-arames, móbis de esferas, coloco em alta voz só um pouco para competir com as orações matinais em árabe, o ragetton e o ocasional influencer instagram dos outros viajantes avulsos, sendo que pelo ecrã de um deles, disputando o exíguo banco duplo comigo, com o volume sonoro acrescentando-se ao físico, vislumbro uma tribo de culturistas de roupas negras ou talvez cross-fitters ou metalo-punks ou skins ou ex-praxistas, e cruza-se o verso de Kadir dito na voz de prazer da Diana, “toda a gente vê uma gota de água no oceano mas poucos o oceano numa gota de água”, e o meu espírito dubitativo e contrário logo em ação pensa por acaso não é assim tão fácil ver o pingo na massa, o pequeno que faz o grande, os muitos mínimos a fazer o uno, pensa quase ninguém vê a gota, eu própria a terei visto menos vezes do que Deus, só o seu desejo na mente e já deixamos Quintana del Puente cinquenta minutos depois de termos sido acordados no escuro para abandonar o veículo, encaminhados em curro para um pequeno-almoço uniforme de croissant e café com leite, e agora o sol já nasce a vinte graus do céu, cálculo aproximado e certamente desinformado, e o sítio era sujo e no geral há um ar de miséria nas pessoas, ora contrafeita ora ostensiva, um ar de desleixo e suor, depois dos milhares de minutos em rodagem debaixo da incrível vaga de calor desde a Europa central, a segunda neste mês, e eu a achar que faço qualquer coisa contra isso poupando uns quantos quilos de caborno e correlatas emissões de estufa, a viajar como os românticos, as pessoas que nem sempre são amáveis ou atenciosas,  os condutores por exemplo com o seu tom paternalista para os passageiros desorientados, voz grossa alternado a qualquer instante entre o zombeteiro e o insultuoso, pensa em trânsito o meu corpo quantas vezes político, se deres um pequeno poder a um pequeno homem ele decerto o usará, e o autocarro já anda e há um que foi deixado para trás e vem a correr e afinal o motorista pára, e porque o sol subiu eu espanto-me com as milhares de espigas súbitas em redor, chamas pálidas logo à saída do grande depôt, cortadas rente na mesma luz a que não faz jus a câmara do meu telefone em movimento, o amarelo seco será moído em pão, o mar em sal, a gota como a espiga, mas aquela é transparente quando uma, azul quando muitas, por via da massa, por via do fundo, e a cor é feita afinal de extensão e profundidade, a cor é 3D, por via do cruzamento entre vida e dimensão, por via de ser afinal o oceano uma planta de água e o que eu gostava de ter estado em direto nesse lugar de onde vem o som da Diana, cruzado de fotos, lúmen, um arbusto, a minúcia, o diminuto e o conjunto da sua exposição.




Friday, May 08, 2026

Como o par de Lorca que vimos no palco


com rancor doentes, ciumentos de hábitos

contra esse fantasma, a erosão de nós

contra, amemos contra o perecer da luz

tontos comoventes

Friday, April 24, 2026

Ao balcão a Vera parece um Velasquez

olho acentuado e saca-rolha à cinta

dedos de elo em copos trazendo éter ácido

e óleo ao pão poema – trinca-se à dentada

nódoa e alma

Tuesday, April 07, 2026

efemérides

 dou-me conta de que blogo há vinte anos, um mês e doze dias.

Blog Archive