Monday, June 15, 2020

Papoilas de Mar

The Sea, Poppies and A Front Door | mybeautfulthings

Espiga de âmbar
rematada a ouro,
fruto na areia
com um grão que vinga,

tesouro
atirado para os arbustos
para descorar nas pedras;

teu caule criou raiz
entre húmidos seixos,
destroços que o mar traz
entre moídas conchas
entre divididos búzios.

Formosa, toda aberta,
fogo sobre folha,
que prado produz
tão olorosa folha
como a tua trans-luz?


Sunday, June 14, 2020

Precisar de outra têmpera

Ao menos que seja uma terapia para fazer render talentos com a vantagem de desviar a fantasia de se possuir uma bênção única e original. Aqui chamada, curvo, inemocionando os olhos, nem sempre afinal das almas exatos poros. Falo de outra coisa, claro, não nomeio. Falo
do que rodeio por interposto interesse, não me lerão a gastar mais nenhuma palavra com duvidoso ouro, lapso momentâneo, além, aquém, o que tem por sinónimo técnico a usura. Toda a euforia metida para dentro, convexa. Na realidade, reservada - apesar da suspeita de não se referir a isso Rimbaud, quando, a propósito de ter dado cores, tão justas quanto arbitrárias, a cada uma das vogais, se vangloriava, em “A Alquimia do Verbo”, “de inventar um verbo acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos”; sem mais: je reservais la traduction. Colocava a tradução em reserva. Un jour ou l’autre, um  dia ou outro, indica a possibilidade de haver dias felizes, como no soneto em causa, “Les Voyelles”, para se dizer das cores as “nascenças latentes” (je dirai quelque jour vos naissances latentes).
Calhará, talvez, num qualquer dia, haver uma eflorescência selvagem onde dispare tudo gloriosamente, e aí se libertem os vapores da tradução que se pôs de reserva[1], e venha a famosa desregração dos sentidos projetar-nos para partes mais inteiras ou mais abertas.
Só que desconfio ainda de perceber o que Rimbaud quis dizer por Je réservais la traduction[i]. É, segundo os especialistas, a única ocorrência da palavra “tradução” em toda a obra do poeta prematuro vidente. Quis dizer apenas “abstinha-me de traduzir,” “punha a tradução de parte”?  mas aí talvez haja mais uma razão para martelar os signos à espera que eles se soltem, ao mesmo tempo que se evita o mais prolongadamente possível a intromissão na sua desordem. É-me mais afim a ideia de “suspendia a tradução”, até porque parece que para Rimbaud estava em causa um “estudo” ou “exercício” (ce fut d’abord un étude) – prolongar esse momento em que se suspende a equivalência de uma coisa a outra, e entidades várias se prontificam para exame.
 “Reservei a tradução”, disse Cesariny na sua assombrosamente pessoal Uma Cerveja no Inferno - como quem não só reinventa o verbo poético a cada dia como ainda fica com a opção sobre quaisquer futuros direitos mundiais de tradução. É precisa uma forte inclinação para a vidência, com bastante impudor, e até onde, até que nível de susto, displicência, irrisão ou violência.
Pelo instante de preparação para a tarefa, por mim receio prejudicar-me a embriaguez: forja da soberba, sustento brutalmente manuseado da poesia.
Nem que aplique ao coração um bate-estacas serei por força, se não digna, con-vencida capaz para abrir este tesouro.


[1] A ideia de reserva com toda a sua polissemia parece-me crucial à tradução. No sentido de sustento, comida e bebida, retém-se o depósito, o amadurecimento, a colheita selecta. No sentido de temperamento, realça-se a timidez e prudência. No sentido de viagem ou espetáculo, implica a antecipação, mas também a exclusividade, que parece aliás contrária ao propósito –
caiu-me a ficha do Espírito Santo quando em tempos participei num encontro de “jovens criadores”. Era em Nápoles, não havia privacidade, mas os autocarros destinados à deslocação dos participantes diziam Riservata. Eu já era tradutora e tinha feito alguns trabalhos de interpretação e nessas pequenas viagens de Riservata dei por mim num estado total de eletricidade de veículo condutor, por a minha vocação e as línguas que conhecia me permitirem colocar os restantes participantes de várias proveniências em comunicação com o nosso motorista. Pensava em mim como puro pbx, alinhando as linhas e as línguas. E foi também nesse festival que me achei pensativamente incomunicada com certos pares poetas, que nas privadas conversas de copos do lounge do hotel questionavam a opção de terem os seus poemas lidos ou escritos em tradução, achando a poesia sustentada no som e na materialidade do nativo.


[i] Riservata

Entre vocês e eu na aflitiva
via rápida dos artistas há
um baldio de línguas que se
tresmalham incandescem e internamente
queimam os ouvidos: pares poetas eu
lamento discordar mas
sendo
a poesia
o que perde a tradução
há então mais importantes coisas
que guardar e eu não vejo forma
outra de sair deste férvido ruído
senão o esforço estrénuo e distendido
de diminuir a extática da expressão
para salvar, posto o atrito,
a transmissão.

Com que temeridade – górdio
nó desta questão – nos dispomos
ceder entre línguas a arder.
Se escrever vale de outro modo
se por hipótese se deve
testar a sondagem complacente
rasando inclusive a cilada

do comum e do corrente?

Pares poetas eu lamento discordar
mas verso é arco de alvos desiguais:
ter em vista o chegarmos a outrem
ou escudar a perda que se arrisca:
a mim é o primeiro que convém.

E mesmo assim no átrio do hotel
quando deitamos enfim as flechas
no parapeito do balcão – rondando
forasteiros num refúgio as bebidas
e as pontas de vidas e cigarros
será jamais possível emalhar as nossas
línguas sem cair no brejeiro trocadilho
ou lenocínio da força de expressão?
e vão tomar-me por aqui onde estou ou
por aquilo que em mim miram pode haver
uma outra via de sair a via
de mudar-nos e folgar quando falharmos
a equívoca vocação de sermos únicos?

Embaraça-me, pares poetas, discordar
de vossa arraigada opinião
mas agradeço todavia
os ínvios ramais do estaleiro
a mesmo que inquinada comunhão
nestes médio-territórios aturdidos
como um lounge ou uma carreira
onde malentendidos derivam
passageiros.

Saturday, June 13, 2020

soneto rosário


rezo muito dez minutos ao dia para aceitar o não ficar
contigo; os já somados são mais que os passados altos
fugazes mesmo a contar antes da fornicação; vieste dum raio
fizeste-me arder fiquei em lava o sangue sem chão
magma pedra cinza; eu não sou nem fénix nem fedra
quero assim dizer que não renasço nem me mato não
me absolvo nem censuro, há dias quase chego ao neutro
quase não-pena vivendo menos pesada e mais larga
relativamente (revisto tudo) menos só, mas o fole que fui
depois de me encheres e me tirares a ti tem peles pregas
e assobios por frinchas furam como açoites; eu não sou
muito estoica com a dor nem grande franciscana segundo
consta escrito a ponto de, como quem não quer a coisa nada
perde apenas muda, ceder sem estrondo ao desabrigo do amor

Tuesday, June 09, 2020

Rumor de Pasárgada

poema de Odile Kennel, a partir da curta-metragem O Poeta do Castelo (sobre Manuel da Bandeira) de Joaquim Pedro de Andrade (1959)

pela janela olhar, certificar-se
de que existimos, porque o Mundo
lá de fora existe. No interior
há livros, quem sabe a ideia
dum filho que não se teve, há
uma cama, uma máquina de escrever.
Um telefone que toca, prova por seu turno
de que há mundo, sons, sinais
elétricos. Então, fora, atravessar
a cidade; esta não é prova alguma
de que há Dentro atrás dos estores
das janelas; salvo quiçá
o homem do leite, o rapaz do jornal:
o lampejo duma hipótese, os vincos
num fato, os gestos no quotidiano,
o resgate do substantivo:
bicicletas, reis, lições
de se ir embora, cada
coisa no seu lugar.

Tuesday, June 02, 2020

Let America be America Again

Que a América seja a América outra vez
Que seja o sonho que antes se teve
Que seja o pioneiro na planície
À procura de casa pra ser ele próprio livre

(A América nunca foi a América para mim)

Que a América seja o sonho que os sonhadores imaginam---
Que seja essa terra de amor grandiosa e forte
Onde jamais os reis ou os tiranos congeminam
Onde nenhum homem seja por outro mais alto esmagado até à morte.

(É que nunca foi a América para mim.)

Oh que esta terra seja uma terra onde a Liberdade
Não se cante com falsa e patriótica lira
Mas seja livre a vida, real a oportunidade:
A igualdade está no ar que se respira.

(Nunca houve igualdade para mim
Nem liberdade nesta “pátria livre e sem fim”.)

Diz, quem és tu que murmuras nas trevas
E quem és tu que entre estrelas te velas?

Sou o branco pobre, enganado, pelas ruas da amargura,
Sou o negro que ostenta as cicatrizes da escravatura,
Sou o pele vermelha escorraçado da terra,
Sou o imigrante agarrado à esperança que procuro –
E que só acha o velho plano furado
Do cão que come o cão, do grande que calca o fraco.

Sou o jovem, cheio de força, esperando férreo
Emaranhado nessa velha corrente interminável
De lucro, poder, ganho, de agarra a terra!
De agarra o ouro! De agarra os meios para qualquer fim!
De utiliza os homens! De dá cá o pilim!
De abarbatar tudo por pura ambição!

Sou o lavrador, agarrado ao chão.
Sou o operário vendido à máquina.
Sou o negro, o criado da multidão.
Sou a multidão, humilde, faminta, medonha –
Esfomeada, hoje, ainda, apesar do sonho.
Batida hoje ainda – Ó Pioneiros!
Eu sou o homem que nunca chegou à frente.
O mais pobre trabalhador, esfalfado sempre.

Todavia sou aquele que sonhou o nosso sonho de base
No Velho Mundo, quando ainda servia Sua Majestade,
Que sonhou um sonho tão forte, tão genuíno, tão bravo
Que mesmo tremendo faz cantar
Cada tijolo e cada pedra, cada sulco a lavrar
E que fez a América tornar-se espaço-mito
Ah, eu sou o homem que sonhou esse primeiro mar
Buscando a ideia que eu fazia de lar
Pois sou aquele que deixou a escura costa da Irlanda
E da Polónia a esteva, e da Inglaterra o capim,
E que veio da negra África em bolandas
Para erguer uma “pátria dos livres sem fim”

Dos livres?

Quem disse os livres? Eu não?
Não posso ter sido eu? Os milhões no desemprego?
Os milhões alvejados quando fazemos greve?
Os milhões que não têm nada para nos pagar?
Por todos os sonhos que sonhámos
Por todas as canções que cantámos
E todas as esperanças que nutrimos
E todas as bandeiras que subimos
Os milhões que não têm nada para nos pagar
A não ser o sonho, hoje, especialmente, a acabar.

Oh, que a América seja a América outra vez –
A terra que nunca foi ainda
E contudo tem de vir a ser – a terra onde todo e cada seja livre
A terra que é minha – do pobre, do índio, do negro, de mim
Que fiz a América,
Cujo sonho e o sangue, cuja fé e o sofrimento,
Cuja mão na forja, cujo arado em mau tempo
Deve devolver-nos o grande sonho reincidente.

Com certeza, chamem-me se quiserem nomes feios –
O ferro da liberdade não enegrece.
Para os que vivem como sanguessugas dos alheios,
Temos de recuperar a nossa terra outra vez,
América.

Ah, sim
Digo alto e duro
A América nunca foi a América para mim
E todavia isto solenemente juro
A América há-de ser enfim!

Dos destroços e dos esgotos das mortes dos gangues,
Dos estupros, dos enxertos, da cara podre, dos rumos ínvios,
Nós, o povo, temos de resgatar
A terra, as minas, as plantas, os rios.
As montanhas e toda a infinita pradaria –
Ah todos estes estados verdes grandes a perder de vista
E fazer da América o que ela seria.

Langston Hughes, 1935, Let America Be America Again (tradução a limar)

Sunday, May 31, 2020

a ver se desta acabo teu prazer

escrevo-o porque é o mais difícil
de fazer sem ti, que foste corpo
bóia às minhas mãos, bordão torto
mas para vir à terra o mais fiel

ferro. E se eu na pele nem soube
do mal que me avisaram que me fazes
e já sou mestra em largar-te quase
tanto como a Plath a gritar lobo

até morrer de facto, eis o tributo
ao que passámos: rumores de noites,
copos, cafés, suspensões de céus

e sol manchado após o mar ou coito
e o pasmo sobretudo libertado
do vazio — que triste, cigarro, adeus.

Monday, May 18, 2020

milho (de Jan Wagner)

isto é um campo, nele te perdes
a brincar, com as sombras como hastes,
e as jardas ou os hectares
de campo, de vento, de vasto

da casa te apartam. é revolta
a folhagem, como se baralhássemos
cartas. logo, entre massas de astros
uma nova imagem: lebre à solta.

tu dormes. enrolado como animal.
isto é uma manhã. te alcança
o sol, com a tua sede rilhando

o crânio. sobre ti o colossal
vulto de onda que balança
ri, dentes de ouro arreganhando.


[Primeira tradução, praticamente sem assistência, do alemão - ok, há uma tradução inglesa que...  - e de um contemporâneo do camandro. Gosto muito deste poema porque ele é espantosamente igual à história repetida vezes sem conta, pelo meu pai, da sua primeira memória, aos quatro anos, entre a casa e o pai dele (meu avô), levando-lhe o talego aonde lavrava - substituindo, diz ele, "a folhagem do milho pela dos juncos e atabuas".]

[na cabeça do sonho: viajar da maneira mais difícil]

Estacionava num mall duma universidade porque era só para ir à farmácia, mas saía pela porta errada, demorava a contornar, quando descobria o carro já lá não estava. O rebocador só o devolveria depois do bilhete de regresso para Portugal. Era preciso suborná-lo, bem como ao polícia da multa. O carro vinha pintalgado de vermelho e praticamente imprestável. Passava a viajar com um cabide com rodas. Mas não eram sítios muito interessantes que visitava. Ia de mercearia em mercearia e recebia sobras de graça pois só tinha uma nota muito alta e ninguém tinha troco para ela. Era árduo voltar para casa, o cabide às vezes desabava no meio da estrada, dobrava-se sobre si como triângulo de automóvel, o casaco da filha caía ao chão, os pães com chouriço ficavam esmagados no saco de papel ao fundo de onde estava, criava verdadeiros engarrafamentos de trânsito enquanto percorria as estradas com aquela espécie de algália.

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