Saturday, February 28, 2026
Tão fartas serão as soleiras de amantes
Tuesday, February 03, 2026
Chove, venta o clima ralha arrasa
casas
gruas antes estáveis subidas
por homem
sem medir o que era. Repara
ainda assim — clara
a azeda húmida duma hora
jovem
noutra primavera
Friday, January 23, 2026
É também amor tristeza acompanhada
tal partida fome calmada por dois—
possa a tua dor levantar lestas mãos
máximas de afeto
Monday, January 12, 2026
Ir no trilho ao poço dum tal Barbarroxa
há o mar de ser uma rouca aventura—
lá te levo, há sol no rebordo dunar:
bagas, fungos cor de veneno glacé
nus por sob os pés
Saturday, November 22, 2025
Vamos às castanhas no parque ao sol-posto
Há ouriços sob o tapete, fogo áspero
picos, folhas fofas no topo aplainado —
Amo a par de ti e tropeço, são soltos
frutos que atiçamos
Friday, November 07, 2025
como dizer onde nos lamber
delícia Odile
dá-me lídimo
safismo e onanismo
decerto Odile titila-me
ficando aquém a língua, eu sei
a líbido de cerzir com linhas
minhas traduções de Odile
assim, se ela diz, die Zuflucht der Hand
an der Möse, der Möse an der Hand
eu sei, já deslizei de modo
tão semelhante aquela mão
tateando iguais medidas
entre espaço e matéria, abrigo
e humidade, tenra e tesa
a tua pélvis
as minhas nádegas, a tua mão
sobre o meu monte, os teus joelhos
encostados
num poema de há eras
chamado O princípio do escuro
eu sei, ao mesmo tempo, que monte
é uma fraca verve, cobardia
poética para Möse, e desola-me
a falta de um nome de que goste
na minha língua para o meu sexo
a léguas da igualdade com o texto
ou de um calão veemente
eu sei, esse princípio do escuro
é um blackout glossológico
até ao perímetro da cintura
ao ponto de, aliciando-me deveras
levar palavrões na caixa aberta
do poema, não ter ainda achado
até ao presente, provocação
certa, sem o mínimo de pudor
para o que tenho entre pernas
mesmo quando me titila Odile
ao pôr na boca em Manifotzo
todas as formas de os gajos
nos acapacharem com o pior
na sua língua – Fotze! – eu falho
o português é tão macho que até uma cona
para causar estragos
tem de ser do caralho
Sunday, October 19, 2025
Translatio Imperii
As estradas eram longas e levavam
ou eram compridas e conduziam
The streets were long and led
escreve Rosmarie Waldrop
em A Key into the Language of America
que reincide (300 anos depois
de Roger Williams e da sua recolha
algo fatídica de expressões e costumes
dos Narragansett) e infiltra na estrutura
uma voz de rapariga nascida “do outro
lado” pouco à vontade
com seus sexo e classe entre povoadores
para quem nada de nativo é congénito
talvez um enunciado se possa deixar no ar as ruas longas sem uma ponte
mas como ruas longas numa urbe atamancada
ou será aquilo uma crítica sobre a escrita
ou uma poeta na coeva cidade de Providence
“com um nível de nevoeiro denso como sémen” abordando
o começo de um novo mundo
com as compensações de alguém crente
mas sem poderes aliando-se com dúvidas
desfazendo pela mesma moeda sua língua
mãe vaga nuvem a infância dela em Kitzingen a irrupção
do Blitz o tempo logo após a divisão – em que faria de “seis
a sete anões
a neve era branca
e o príncipe na batalha”
em Berlin Mitte (num quartil de cidade
em que histórias apagadas mas nada mortas
clamam pelo tempo presente de dever)
Elke Erb atreve-se à própria
assimilação com uma madrasta
que nos vem no encalço
não para marcar mas para entretecer
escreve
paira em Kastananienalle um “cheiro
a ratos egocêntricos” repara
e depois revê um primeiro rascunho
de A Key feito por Marianne (Oellers de nascença
Frisch por casamento com Max
com um fraco por pequenas
apesar dos bloqueios)
e no princípio do trabalho risca
alle Strassen waren lang und führten
reescreve
alle Strassen führten lang und ledig
todas as ruas levavam longas e solteiras
uma sugestão que Waldrop sinalizou
a lápis — Prima!
mas compridas solteiras conduzindo aonde
por que “autocrática teia de vergonha”
ou trama (Schmachgespinst) ou nódoa nas carruagens?
pode a arquitetura afinal
ultrapassar um plano
andaimar experiências
oscilantes trans-
bordantes vasos entre parentes
e estrangeiros Sinne
podem sentidos
em vez de levados
ser caudais tecidos para traslados
escritos nas margens
lambendo o que se está a apagar?
