o oceano repetido pela Diana, amiga-irmã, tocado pelo Francisco no elo de dois que criam e se amam, chega-me numa gota no mp3 no meu whatsapp, aqui sete e um quarto da manhã em Espanha menos uma em Portugal, levadas já vinte e seis horas de viagem com embarque desde Veneza nesta gôndola mecânica de longo curso e muitas paragens, atracagem oxalá em Lisboa daqui a mais doze, na manhosa anódina intersecção internacional de flixbus de Quintana del Puente com código postal em Palencia, onde o betão armado e os cais das camionetas, traçados brancos em retas oblíquas, contrastam com a escuta de lamelofones, ondas, espirais, espanta-espíritos-arames, móbis de esferas, coloco em alta voz só um pouco para competir com as orações matinais em árabe, o ragetton e o ocasional influencer instagram dos outros viajantes avulsos, sendo que pelo ecrã de um deles, disputando o exíguo banco duplo comigo, com o volume sonoro acrescentando-se ao físico, vislumbro uma tribo de culturistas de roupas negras ou talvez cross-fitters ou metalo-punks ou skins ou ex-praxistas, e cruza-se o verso de Kadir dito na voz de prazer da Diana, “toda a gente vê uma gota de água no oceano mas poucos o oceano numa gota de água”, e o meu espírito dubitativo e contrário logo em ação pensa por acaso não é assim tão fácil ver o pingo na massa, o pequeno que faz o grande, os muitos mínimos a fazer o uno, pensa quase ninguém vê a gota, eu própria a terei visto menos vezes do que Deus, só o seu desejo na mente e já deixamos Quintana del Puente cinquenta minutos depois de termos sido acordados no escuro para abandonar o veículo, encaminhados em curro para um pequeno-almoço uniforme de croissant e café com leite, e agora o sol já nasce a vinte graus do céu, cálculo aproximado e certamente desinformado, e o sítio era sujo e no geral há um ar de miséria nas pessoas, ora contrafeita ora ostensiva, um ar de desleixo e suor, depois dos milhares de minutos em rodagem debaixo da incrível vaga de calor desde a Europa central, a segunda neste mês, e eu a achar que faço qualquer coisa contra isso poupando uns quantos quilos de caborno e correlatas emissões de estufa, a viajar como os românticos, as pessoas que nem sempre são amáveis ou atenciosas, os condutores por exemplo com o seu tom paternalista para os passageiros desorientados, voz grossa alternado a qualquer instante entre o zombeteiro e o insultuoso, pensa em trânsito o meu corpo quantas vezes político, se deres um pequeno poder a um pequeno homem ele decerto o usará, e o autocarro já anda e há um que foi deixado para trás e vem a correr e afinal o motorista pára, e porque o sol subiu eu espanto-me com as milhares de espigas súbitas em redor, chamas pálidas logo à saída do grande depôt, cortadas rente na mesma luz a que não faz jus a câmara do meu telefone em movimento, o amarelo seco será moído em pão, o mar em sal, a gota como a espiga, mas aquela é transparente quando uma, azul quando muitas, por via da massa, por via do fundo, e a cor é feita afinal de extensão e profundidade, a cor é 3D, por via do cruzamento entre vida e dimensão, por via de ser afinal o oceano uma planta de água e o que eu gostava de ter estado em direto nesse lugar de onde vem o som da Diana, cruzado de fotos, lúmen, um arbusto, a minúcia, o diminuto e o conjunto da sua exposição.
Friday, June 26, 2026
Friday, May 08, 2026
Como o par de Lorca que vimos no palco
com rancor doentes, ciumentos de hábitos
contra esse fantasma, a erosão de nós
contra, amemos contra o perecer da luz
tontos comoventes
Friday, April 24, 2026
Ao balcão a Vera parece um Velasquez
olho acentuado e saca-rolha à cinta
dedos de elo em copos trazendo éter ácido
e óleo ao pão poema – trinca-se à dentada
nódoa e alma
Tuesday, April 07, 2026
Thursday, March 19, 2026
Vamos no asfalto altos até ao Bugio
Cobre a orla gente e uma cadela ruiva
rói o fio às rendas de espuma cadente
varre o mar o sol desdobrável – encosto-me
à tua costela
Friday, March 06, 2026
Depois de António Lobo Antunes
porque terias de viver para eu continuar
a alimentar imagens como jovens
e porque ainda podia ser
no Miguel Bombarda há
trinta anos quando acedeste a ver-me fazia sol
preparei-me para a tua ufana complacência
descartei a sonsice dum livro para assinares
e enfiei a farpela à altura dum relance
sobre a diferença de idades
um isco de beleza um filtro de desamparo
uma cosmética de ingenuidade
seria melhor que um autógrafo
um período num romance teu
havia sol havia um cisco a cair numa camélia
no banco na orla do panóptico
e falámos falaste sobretudo eu ouvi
dos poucos poetas que te assistiam
oito horas por dia lendo e quatro escrevendo
Gottfried Benn e Cristovam Pavia
fora os loucos que ainda consultavas
e esbracejavam de passagem nos cobiçavam os maços
faz favor doutor faz favor menina
orientem uma moeda
ou então uma pirisca
nos acusavam nos viam à transparência
desorbitados
o alheamento clínico
ou a exposição do sujo ou a cobarde mania
das grandezas comoventes
as arrelias tornadas magnetes de desgraça
as voluptuosas querelas de famílias
para um único bom poema
ainda assim ao alcance de um mau
escritor qualquer
fizeste notar
longe das torturas do grande romance
bastava olhar
para os americanos do Sul
Marquez Faulkner McCarthy mas Styron
já um triste com a sua mãe todo o dia
meneando às escuras
eu portanto tinha muito que pensar
se era capaz de passar dias sem uma linha
os olhos arregalados
quanto tempo aguentaria
sendo tudo tão prestes a perder-se
bem haja uma piriscazinha
se mandava aquilo
ao diabo
que se lixe
era ali e eu
nem carne nem peixe
gaja
Margarida e o mestre
não me descosi e tu partiste
