Thursday, January 13, 2022

Florbela


Vá assobie lá quanto o além-

tejo pode fazer por si se tanto

lonjura nojo erótico quebranto

cantou sempre lhe digo também

 

me embaraçou estranha fêmea

comadre eu cobarde que em desdém

lhe cato farpas dos sonetos sem

ousar louvar-lhe a febre a apneia

 

o querer a auto-morte aliviada 

antes lhe acuso tal papel de atriz

esbanjada por Visconti a que assisti

 

a afogar docemente a mão espal-

mada no nó górdio da cerviz

tensa aflita arfante quase igual

Sunday, January 02, 2022

NA FALTA DO MAR


Algo remove rumores dos ouvidos desta casa,

Pendura cortinas desventadas, espanta os espelhos

Até privar de substância os reflexos.

 

Algum som como moinhos que rangem e estacam

Na moagem da morte.

Uma ausência de ensurdecer, uma guinada.

 

Zune por este vale, pesa nesta montanha,

Aliena o gesto, empurra este lápis

Pelo grumoso nada de agora.

 

Assusta a louça com silêncio, dobra a roupa azeda,

Como as roupas do morto deixadas tal qual

O morto se apresentava à amada,

 

Incrédulo, aguardando ocupação.


Derek Walcott

Monday, December 27, 2021

O MAR É HISTÓRIA


Onde os vossos monumentos, batalhas, mártires?

Onde a vossa memória tribal? Senhores,

naquela cripta sombria. O mar. É no mar

que estão trancados. O mar é História.

 

Primeiro, foi o óleo que pulsava,

pesado como caos;

então, qual luz ao fundo do túnel,

 

a vela acesa de uma nau,

e foi o Génesis.

Depois foram os gritos enlatados,

a merda, as lamúrias.

 

Êxodo.

O coral soldando osso a osso,

mosaicos 

acamados sob a bênção do sombrio tubarão,

 

e foi isso a Arca da Aliança,

depois, dos soltos filamentos de arame 

de sol no pavimento do mar,

 

as harpas plangentes de servidão babilónica,

enquanto os caurins brancos, como algemas,

se agarravam aos homens afogando-se.

 

e essas foram as pulseiras de marfim

do Cântico dos Cânticos,

mas o mar não parava de virar folhas brancas

 

à procura da História.

Então vieram os homens com olhos de ferro, âncoras,

que se afundaram sem campas,

 

rufias que assavam gado nas brasas,

deixando costeletas queimadas na praia, folhas de palmeira,

depois o bucho, espumejante, raivoso

 

da onda gigante que engoliu Port Royal,

e isso foi Jonas,

mas onde a vossa Renascença?

 

Senhor, está trancada nas areias do mar

além, depois da pedra amoladora do recife,

onde flutuam fundo as caravelas portuguesas;

 

calcem as barbatanas; eu próprio vos levarei lá.

É tudo muito subtil e submarino,

através de colunatas de coral,

 

passem janelas góticas de exoesqueletos,

até onde a garoupa rude fecha os olhos

de ónix, de joias encrustada, qual rainha calva;

 

e essas grutas ogivadas de percebes

cravados como pedras

são as nossas catedrais,

 

e a fornalha que antecipa os furacões:

Gomorra. Ossos que os moinhos trituram

em marga e papas de milho,

 

e foi isso as Lamentações;

apenas as Lamentações,

não foi História;

 

vieram então, como baba nos lábios secos do rio,

os juncos castanhos das aldeias

acamando e congelando em cidades,

 

e à noite, os coros de melgas,

e sobre elas as espiras, 

lancetando o lado de Deus

 

vieram depois as irmãs brancas aplaudindo

o progresso das ondas

e foi isso a Emancipação —

 

regozijo, Ó regozijo —

rapidamente esvaído

enquanto enxuga ao sol a renda do mar,

 

mas não foi isso História,

isso foi só fé,

e então cada rocha se quebrou numa nação própria;

 

então veio o sínodo das moscas,

então veio a garça secretarial,

então veio a rã-touro a berrar por votos,

 

os pirilampos cheios de ideias luminosas

e os morcegos como embaixadores tingidos,

e os louva-a-deus, a polícia de caqui,

 

e as lagartas peludas dos juízes

escrutinando caso a caso,

e então nos escuros tímpanos dos líquenes

 

e no sal escarninho das rochas

com suas poças de mar, veio o som

como um rumor sem eco

 

da História, realmente a começar.


Derek Walcott

Saturday, December 18, 2021

[na cabeça do sonho:] do amor pedestre

Guiando até Madrid, aproximávamo-nos do hotel.

Sem sítio para estacionar, levámos o carro ao colo

(matéria de velhos sonhos... é também para outros

recorrente?). Para assegurar a cama deixámo-lo

numa berma em curva. Depois já não estava lá

(aqui é roubo frequente, garantiam os amigos

da poesia). Depois cerrava-se a noite e eu 

procurava, tu desaparecias (ligava-te, mudaras

para o quarto em frente, tinhas-te desviado

de ti, dizias.) Aí desistia de termos veículo

para voltar. A consolar-me, uma amiga antiga

(de quando eu fazia vela) trazia um saco

de entrecosto quente, pála-pálas – detalhes

a farejar o literal: tínhamos chegado um ao

outro mas francamente não havia meio

de transporte ou alimento.

Tuesday, December 14, 2021

[na cabeça do sonho:] de pretender reaver a perda

 Leva-se a coisa ou pessoa da realidade para dentro do sonho. No meu caso, a mochila azul às flores. Faz-se a coisa desaparecer. No meu caso,  apeada de um veículo sobre um passeio. Saber que a coisa se reave na realidade e acordar para a mentira da perda. Mas antes complica-se o sonho. A mãe passa por uma tasca de interior de trevas e névoa e afirma ter detetado a mancha colorida da mochila. Vou buscá-la entre as pernas de dois senegaleses sentados nos bancos corridos. Ganho de bónus lá dentro uma lancheira. Ando a ler o Frantz Fanon, acordo para o auto-denegrimento. 

Tuesday, November 23, 2021

A Revelação Mosaica

 El poeta, inmerso en el movimiento del idioma, continuo ir y venir verbal, escoge unas cuantas palabras – o es escogido por ellas. Al combinarlas, construye su poema: un objeto verbal hecho de signos insustituibles e inamovibles. El punto de partida del traductor no es el lenguaje en movimiento, materia prima del poeta, sino el lenguaje fijo del poema. Lenguaje congelado y, no obstante, perfectamente vivo. Su operación es inversa a la del poeta...

Octavio Paz, Traducion: Literatura Y Literalidad

 


Um pulmão rosa aflora outro pulmão cor 

de pele

um torso bege namora um bosquejo

de coração ou molde 

de púbis feminil

por baixo um rosto de homem seu chapéu oval

farejando tudo 

num mapa deflagrável nos estilhaços

do material cintilante sigiloso

negro

 

era isto que eu via prolongando o tempo 

na sanita

eu menina cruzava os grifos que havia 

no padrão tosco do mosaico 

cujo nome há de ser pertença do mundo

da construção civil 

(termos relacionados

grés 

lambaz 

tessela)

decifrar era a indagação daquilo que conversava

o chão consigo

 

talvez pensasse que o chão era a cabeça

da terra ou que o mosaico falava 

e as formas eram bocas a buscar a cor

o alvo de um acento

talvez não pensasse

creio em palavras que soube primeiro n’As Mais Belas

Histórias da Bíblia e na catequese

sarça 

maná 

profeta

contratos de cedência

entre homens

bonecos que apagava o dedo de Jesus no terreiro 

em frente à fúria de lapidação da mulher 

adúltera

 

Cada lasca

tinha mais línguas do que o céu o meu exercício 

era isso 

línguas ainda não palavras nem

ainda linguagem pendurada em árvores

sintáticas


só um diagrama infantil de forca

a terminar as patas de uma rola cantando

 

ainda expressão

incomum sem comunicação genérica

ainda só sentidos ainda

só paleta só pauta

e o tempo da diferença a dissuadir o tácito

convénio da gramática

 

mais variáveis

do que regras

 

quando eu era menina relacionava assim

as formas na retrete e se retraçava

de mirada absorta

nem de perto nem

de longe a vida

e a sua pantomina

se praticava

o desejo partido de coisas

abjetas quem me dera 

 

hoje

essa tradução de

morada tosca escondida

anterior

 

a poetas

Thursday, November 04, 2021

Re volta


Cem dias ao ano o banho

em curso de água frio corrente—

Coisa da revolução

e o mundo: o desejo 

de encontrar outra pele

mais funda que a língua

lambente

Deixar os cigarros sempre

mais bicudo que manifestar-se

por uma salvação verde.

Estender após lançada a linha 

aos de bruços na amurada:

importância em queda

zunindo, cortante, uma lâmina

de prata, uma vela preta, quanta jangada

a morrer na praia, quanta vaga

levantada por inércia. Que alague

os livros e queime e abale solo e onda

a prumo, o ataque, o pirata

misericordioso que acabe rápido

com este tormento: maré

vaza, estopa e fogo nesse conceito

mimoso do sujeito

suposto saber, dengoso

de amor e ocidente (aquele morrer

na praia); maré

cheia, briga, motim, ir de novo

logo vir à tona, quanto custa

esta história de singrar 

no mar (além do floreio obsceno)

cortar-lhe a veia na raiz, repor, rodopiar

o tabuleiro do jogo da solitária, do assentamento

na sofrência injusta e inglória:

desnaturar o privilégio  largar

a má onda de ser infeliz.

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