Saturday, September 17, 2022

Fado Isolda

 Eu amante, ele marido e vice-
-versa. Era como olhar um aquário

dormir com seu corpo imaginário.

Igual divertimento colorido,

retro-iluminado. Confundido

o afogo por afago, a sucção

pela agulha, a linha pelo dejecto,

a guelra, a guerra, a cobiçada taça

pelo lago, um coração, uma bolha,

minha cinta casta, delgada caça,

centro de espada de rota bainha,

bomba por onda, movimento boto

no espelho da água, a maga, a rainha

num enleio de alga, raia, varinha

e o nefando derrame do cálice

dourado, vermelho, o pobre palhaço

boiando de lado, afinal morto.

 

Era nostálgico como um aquário

ser amada por Tristão da Cornualha.

 

Igual entretém de loucos:

esperá-lo partido em bocadinhos

ou ver empardecer os flocos

de que à tona desistem os peixinhos.


A Repetition of "Tristan und Isolde", 1896 - Aubrey Beardsley - WikiArt.org

Sunday, September 11, 2022

[na cabeça do sonho:] RC

Bem que demoraste e apareceste afinal 
num sonho.
Sabendo que acabaria
esperávamos-te em tua casa.
Chegaste, cumprimentaste, disseste-me 
obrigada
e que não querias tirar-me os olhos 

do livro mas dormiste no meu colo, depois 

começámos e pediste-me para contar tudo 

o que sentia 

eu disse: não faço verso, sou primitiva, gemo

e tu riste-te muito largo, paraste, sentaste-me sobre ti


mais nada, tinhas a tua decisão

na tua grande cabeça, no líquido do olhar

uma mancha contaminante

como numa foto aérea — eu queria virar-me 

contra tu te vires

era absurdo porém não teres vindo 

para me disciplinares

depois comemos na tua presença

uma última refeição, eu ao acordar

ainda brevemente fiz confusão – a manhã 

em que não mergulharas.

Sunday, August 21, 2022

Janela de emergência

quebra antes

que se exija um plano

de prestações de deveres de férias de escalada 

de violência

ou danos a terceiros

ou nos lesem ao apanhar-nos despidos e tocados

ou nos passe pela cabeça ser exemplo

contrapoder

ou símbolo ou eternos ou anteriores

 

antes

que demores teus olhos brilhantes na minha aparição

e eu não mais fugaz

imprevista entre 

monótonos um desleixo

entre meticulosos desça

na condição de antes

quebra

 

se te anuncio à noite meu mergulho no tanque 

semi-fluorescente espaçoso azul

nas traseiras de onde dançam os convidados da boda

esperando que vejas o desejo de que me sigas

no porte cerimonioso 

com que esfarelo migalhas no deserto

enluarada pela hipótese de isto ser perene

 

quebra

neste estado altamente inflamável

do mundo-mina fóssil esta paixão

antes que isto estoure

e termine numa questão de tempo 

aquém de agapé

ou outro escalão grego menos eufórico e efémero

ou seja cinza (e se for fértil?)

 

quebra antes

que te convide por uma trilha

entre penedos e quase extintas feras

e nativos sabedores da seiva e suas beberagens de selva

ou viagens entre estrelas regressivas

até quando eu a fonte e tu o fogo que germinam

no ingresso do universo 

e receio digas não

amo-te quebra

 

antes de me ser pesado rodar as pétalas 

constantemente para o teu foco

me seja impossível rimar pólen com éden

se alumiem os cometas do sofrimento

ou eu acumule rancor 

irrazoável pelo que falha

quebra

 

e vai

com a nossa queimada (ou se for arável?). 

Wednesday, August 17, 2022

Sharon Olds


Torno a ler-te num aterro e destapo

num soluço o alçapão de mim;

a saliva de mistura com areia

e memória contorcida, vesga

de confuso incêndio, tantos anos 

 

de que falavas quando dizias

coisas impertinentes para o amor

ou perras aberturas, como na mãe

sob escrutínio, inepta, semi-filha?

a vulva descerrando o pai sempre

um penetra solar, um assassino

 

arquetípico – claro, como não

arder com tal incorrência em ira

de abuelos, penates, dos dueños

geradores, maria e jesus, seus

dois progenitores, a natividade

traficada, solene, porta-a-porta?

 

a santa arreganhando letras, lábios

nas cócoras de uma rapariga pu-

lando como uma fera ao ego torto

de eros consanguíneo, as confissões

todas e assim eu, em teus humores

manchei-me, conivente, eu medi-te

 

digitei-te e traduzi-te e lamento

do teu cofre ter tirado tão menos

do que preciso para ser da falta

salva, dizer uma palavra cheia

de ponta, enxofre, perdimento explícito.


Sharon Olds, America's Brave Poet of the Body ‹ Literary Hub

Monday, August 15, 2022

Pátria

            a começar por Auden e a acabar com Adrienne Rich                       

Do sofrimento pouco nos 

enganamos

sobre seus mestres mas se

desvelos

temos e assistência lhes 

prestamos

com impotência de deixar de vê-los

 

morrer penso 

que espécie esta 

ao centro 

se é única a marcar combate

para “limpar a honra” (que é?) e 

parte

para um duelo como um sacramento

 

e escolhe padrinhos árbitros 

tércios

ternos laços luvas balas 

fuzis

e quantos passos alvos de

batalha

e calibrados danos de civis

 

(a jura da bandeira deferida)

se são armas seu maior 

comércio

se é a que mais morre a que 

mais mata

por coisas como um marco 

de país 

 

tua nativa terra, a tua vida.

Saturday, July 02, 2022

[na cabeça do sonho:] gatinhos & cataratas

 A minha amiga mais antiga tinha uma ninhada de gatinhos. Não podia ficar com todos mas não se queria desfazer de nenhum, seriam uns oito. Íamos à veterinária e eles escorregavam-nos das mãos, além de que tinham de ser emergidos cuidadosamente, porque não, não os queríamos afogar. Depois estavam todos numa gaiola num parque de estacionamento e aguardávamo-te. Vinhas com o teu filho connosco à Serra da Estrela. A tua mulher acompanhava-te, estava mais robusta, de verde, beijava-te de despedida. O teu filho queria um dos gatinhos, eu intercedia e íamos escolhê-lo, mas um esgueirara-se e caíra por uma catarata que era, ó Hollywood, o Niagara.

Sunday, June 26, 2022

Fala do garçom que serviu a dobrada ao engenheiro

 O amor, púzio na mesa

mas arrefeceu enquanto o senhor escrevia.

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