PAPÁ
Já não serves tu,
Já não prestas,
Sapato preto
Em que vivi como um pé
Por trinta anos, pobre e branca,
Sem sequer ousar
Respirar, sequer, Ah-tchim.
Tive, papá, que te matar.
Tu morreste sem me dar tempo…
Pesado como mármore,
Um saco cheio de Deus,
Tétrica estátua com dedão cinzento,
Gigante como foca
De São Francisco.
E uma cabeça no Atlântico
De dar arrepios,
Onde verde-feijão se vai derramar
Sobre azul
Ao largo da bela Nauset.
Eu dantes rezava para te resgatar
Ach, du.
Na língua alemã,
Na vila polaca
Cilindrada pelas guerras,
Guerras, guerras.
Mas é vulgar o nome
Dessa vila.
Diz um amigo polaco
Que há uma dúzia delas.
Por isso não pude nunca
Descobrir onde foi
Que pisaste, que calcaste.
Não pude nunca
Falar-te, de língua
Pegada ao maxilar,
Numa cilada
De arame farpado.
Ich, ich, ich, ich.
Mal conseguia falar.
Achava que tu eras
Todos os alemães.
E a língua obscena
A máquina que engrena
A cuspir-me como aos judeus.
Um judeu para Dachau,
Para Auschwitz, Belsen.
Comecei a falar judeu
Acho que se calhar
Sou dos judeus.
As neves do Tirol,
A cerveja loura de Viena,
Não são verdadeiras nem castas.
Com a minha avó cigana
E a minha sorte madrasta
Mais as minhas cartas Tarô,
Se calhar dou para as bandas dos judeus.
Tive-te sempre medo
Com a tua Luftwaffe,
E a tua glote-glu-glu,
E o teu bigode aparado,
E o teu olho ariano azul.
O Homem do Panzer
És tu –
Ao invés de Deus,
Uma suástica muito preta
De forma que nenhum céu
Se esgueirasse pelas frinchas.
As mulheres gostam todas de fascistas.
A bota na cara, o coração bruto
Dum bruto como tu.
Foste chamado ao quadro, pai,
Na fotografia que eu tenho
Tens o queixo fendido
Em vez do teu pé,
O que não faz de ti
Menos diabo
Nem menos o homem preto
Que me mordeu em duas metades
O belo coração vermelho.
Tinha dez anos quando te enterraram.
Aos vinte tentei morrer
E voltar, voltar,
Voltar para ti.
Pensei que até os ossos bastavam.
Mas foram tirar-me do saco
E juntaram-me com cola.
E então eu soube
O que tinha a fazer.
Fiz uma réplica tua,
Um homem de preto
Com ar de Meinkampf.
E um gosto pela tortura,
Por tudo o que fura,
E anuí, Ah sim,
Assim: papá, fiz o recado.
O telefone preto
Foi arrancado pelo fio,
Não há voz que lá se possa enroscar.
Se matei um homem,
Vale o mesmo que dois…
O vampiro que fingiu que eras tu
E bebeu do meu sangue por um ano,
E, de resto, sete.
Se queres mesmo saber.
Já podes deitar-te na cama que fizeste
Que nunca ninguém da aldeia te amou.
Tens uma estaca
Nesse teu coração preto e anafado.
Estão a dançar e espezinham-te.
Sempre souberam
Que eras tu.
Meu papázinho, sacana, fiz o recado.
Saturday, December 30, 2006
Saturday, December 23, 2006
Wednesday, December 20, 2006
Wednesday, December 13, 2006

Reincidindo, porque acaba de me chegar às mãos, por Ana Luísa Amaral, aquela que me parece ser a melhor das traduções em português do célebre Lady Lazarus.
LADY LÁZARO
Fi-lo outra vez.
Um ano em cada dez
Eu sou capaz -
Um milagre ambulante, a minha pele
Brilhante como abat-jour nazi,
O pé direito
Um pisa-papéis,
A minha face como um pano fino, sem contornos
Em linho judeu.
Tira o sudário,
Ó meu inimigo.
Aterrorizo? -
O nariz, as órbitas, completa, a dentadura?
O hálito azedo
Esfumar-se-á num dia.
Em breve, muito em breve, a carne
Que a gruta do túmulo comeu
Comigo viverá
E eu, mulher sorridente.
Tenho só trinta anos
E como o gato nove vezes para morrer.
Esta é a Número Três.
Quanto lixo
A destruir por década.
Quantos mil filamentos.
A multidão vulgar e curiosa
Delira ao vê-los
A despirem-me toda -
O grande strip tease.
Minhas senhoras, meus senhores
Eis as minhas mãos
Eis os meus joelhos.
Posso ser pele e osso,
E todavia, sou a mesma, idêntica mulher.
Tinha dez anos quando aconteceu pela primeira vez.
Foi acidente.
Da segunda vez quis
Que durasse e eu nunca mais voltasse.
Fechei-me toda
Como concha do mar.
E eles tiveram que chamar e chamar
E arrancar de mim os vermes, pérolas cravadas.
Morrer
É uma arte, como tudo o resto.
Faço-o excepcionalmente bem.
Faço-o para que saiba a inferno,
Faço-o para que saiba a real.
Podem mesmo dizer que tenho um talento especial.
É fácil fazê-lo numa cela,
É fácil fazê-lo e ficar direita.
É o regresso
Teatral, em plena luz do dia,
Ao mesmo sítio, à mesma cara, ao mesmo grito
Divertido e bruto:
"Milagre!"
Dá cabo de mim.
Há um preço
Para ver as minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir o meu coração -
É que ele bate mesmo!
E há um preço, um preço muito alto
Por uma palavra, ou um toque
Ou um pouco de sangue
Ou um fio do meu cabelo ou um fio da minha roupa.
Vá lá, Herr Doktor.
Vá lá, Herr Inimigo.
Sou a vossa obra de arte,
A vossa peça de maior valor,
O bebé de ouro puro
Que se derrete como um grito.
Viro-me e ardo.
Não penseis que subestimo o vosso interesse.
Cinzas, cinzas -
Atiçais, revolveis.
Carne, osso, nada disso existe -
Um sabonete,
Uma aliança,
Um dente de ouro.
Herr Deus, Herr Lucifer,
Tremei,
Temei.
Das cinzas
Ergo-me, o cabelo em fogo,
E devoro homens como ar.
Sunday, December 03, 2006
A realidade supera em muito a wikipédia

Mas seja como for aqui vai, com um bem hajam, para todos os que por mim foram iniciados neste culto e que noutros cultos me iniciaram. Não, isto não tem que ver com ortógonos templários, mas, como alvíssaras, oferecem-se alguns anos de indulgência (cada caso é um caso) a quem conseguir apontar e corrigir todos os erros do verbete.
"A Capela de Nossa Senhora do Monte ou Ermida da Senhora do Monte, encontra-se na freguesia da Graça em Lisboa.
A primeira ermida que existiu, perto deste local, foi construída em 1147 após a reconquista da cidade de Lisboa. Foi dedicada a São Gens que tinha sido bispo da cidade muito antes da reconquista e que teria sido martirizado neste local. Os frades Agostinhos, que tomaram contam da ermida, colocaram no seu interior, a cadeira de pedra que pertencera ao santo. À volta desta cadeira surgiu uma lenda segundo a qual, as senhoras grávidas que lá se sentassem, tinham partos sem complicações. A própria mulher de D. João V, D. Maria Ana de Áustria, foi lá sentar-se quando estava grávida do herdeiro do trono.
Após o terramoto de 1755, que foi devastador em toda a zona circundante, a ermida ficou praticamente destruída. A actual ermida, foi construída em 1796, um local um pouco mais acima do local original e é obra do arquitecto Honorato José Teixeira. No seu interior foi de novo colocada a cadeira de São Gens."

Aqui, de onde foram retiradas as fotos de injustiça para com o real ainda mais flagrante do que a wikipédia, mas com legendas inegavelmente superiores na aprimoração escrita, acrescenta-se que São Gens era um "mártir da ocupação romana e padroeiro dos actores cómicos, que pregava aos cristãos e, por isso, muito venerado no reinado de D. Afonso Henriques", e que "na entrada do templo ainda se conserva a cadeira de pedra do bispo de S. Gens". Pode ser que sim, mas está fechada atrás duma portinha, eu nunca vi. Em contrapartida, tenho lá visto cousas tam extraordinarias e maravilhosas que nam conto por receio do mor escarnio que me possa advir dos que, piores do que sam tome, nem vendo com os olhos da cara, nem tocando com os dedos das mãos, abrem ao mundo as pupilas do coraçam e dispoem o espírito a acolher o tacto e o sabor da mais gozosa paixam.
Friday, December 01, 2006
Transatlântico
Were I an American
I would make myself
an eyeball
all-mighty
Nonetheless
this body of mine weighs me
down-to-earth
matter-of-factly
I heave heavily
the air ten inches thick
I sink while I breathe
I exhale
not a thing
I reflect
not a fling.

Fosse eu americana
faria comigo um globo
ocular
Todavia
finca-me o corpo
terra-a-terra
Arfo arco
o mundo aos pés
Tortura-me o ar
a uma grossura de dez polegadas
Afoga-me respirar
Fôlego que valha
não exalo
Não refracto
uma centelha.
I would make myself
an eyeball
all-mighty
Nonetheless
this body of mine weighs me
down-to-earth
matter-of-factly
I heave heavily
the air ten inches thick
I sink while I breathe
I exhale
not a thing
I reflect
not a fling.

Fosse eu americana
faria comigo um globo
ocular
Todavia
finca-me o corpo
terra-a-terra
Arfo arco
o mundo aos pés
Tortura-me o ar
a uma grossura de dez polegadas
Afoga-me respirar
Fôlego que valha
não exalo
Não refracto
uma centelha.
Thursday, November 23, 2006
A Imagem Romântica

Há outras coisas, Horácio,
e a tua filosofia é barata,
na verdade não custa fixar
as coisas ideais à distância:
terás vista panorâmica
mas sempre a visão é polémica.
Gostava que alguém me mostrasse,
mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.
As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
Tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm, pessoas morrem, a vida
é breve, impávido o
real que ansiamos designar.
Comparar é colidir: o verbo
talvez nos leve
a mais nenhum sinal.
Friday, November 10, 2006

escrevo o poema enquanto penso agora
por que não um soneto panegírico
desta hora de que abdico e não repete
nunca mais nevermore é para sempre
que só resta a saudade portuguesa
e tal que concerteza universal
será mournful e neverending era
um corvo que grasnava deixa lá
já nem o vês passou está só ali
ainda e não obstante o ruge ruge
gingando a esconso metro a sua asa
e escarnecendo à pala da poesia
senão mesmo do mundo vai por mim
que por um triz a treta engrupia.
Tuesday, October 24, 2006
Estou a arder
Não deixa de ser uma coisa bonita de se dizer, e decerto não pensaria nisso se estivesse num forno crematório. Mas há de facto qualquer coisa a queimar dentro de mim: um consumo físico. Tira-me peso. Está a tentar tirar-me o corpo. E ele faz-me falta. Uma hora para arrumar papéis. A quem ando eu a tentar enganar?
Friday, October 20, 2006
Ser Homem
Não é preciso um homem ser
bendito entre as mulheres
para agradar ao par.
Não é preciso um homem ter
nas mãos o testo ou à cintura
briosa a bilha balançar
ou fabricar candura.
Um homem pode não ser
mãe e até ter
filhos mesmo mamas
costuras na barriga
que o período o não inibe
da literatura.
Um homem pode ser
lúbrico louvar o mal
e sem olhar a quem
há certos que se mandam para o mar
e firmam fama de artistas
sei de cor a epopeia
venda-se o olho sendo a vista dura.
Um homem inclusivamente pode
chegar à lua
e reluzir no espaço
a pila ao léu.
O que não pode um homem
segura a dama sua.

(com toda a carícia para cê, que não tá nem aí pra quem eu sou, e mesmo que seu novo release deixe em parte a desejar é talvez por isso: quando a gente cuida é claro que a gente curte música de foda)
bendito entre as mulheres
para agradar ao par.
Não é preciso um homem ter
nas mãos o testo ou à cintura
briosa a bilha balançar
ou fabricar candura.
Um homem pode não ser
mãe e até ter
filhos mesmo mamas
costuras na barriga
que o período o não inibe
da literatura.
Um homem pode ser
lúbrico louvar o mal
e sem olhar a quem
há certos que se mandam para o mar
e firmam fama de artistas
sei de cor a epopeia
venda-se o olho sendo a vista dura.
Um homem inclusivamente pode
chegar à lua
e reluzir no espaço
a pila ao léu.
O que não pode um homem
segura a dama sua.

(com toda a carícia para cê, que não tá nem aí pra quem eu sou, e mesmo que seu novo release deixe em parte a desejar é talvez por isso: quando a gente cuida é claro que a gente curte música de foda)
Monday, October 16, 2006
Sunday, October 15, 2006
Do consumo do desejo
Como saber se isto é o esforço
que pede à carne o espanto do mundo,
ou se é pretensão de arte o esquecer
à porta toda uma noite a chave
para acolher cupidamente
o imprevisto o amor a rapina
na ânsia excitada do que somos
a seguir capazes de fazer?
se é este o estrénuo abandono
ao inquieto instante ou se antes
nos ilude a evasão? tão ténue
a fronteira entre a fuga e a oferta.
Tu estás do outro lado e eu não
sei como chegar e se escavar
um túnel sob o mar pode haver
maior exumação antes de ti:
tudo o que sepulta o passado –
ruínas de outros, o mudo lodo
sem que haja o modo de dragar;
e o dilatar-se o curso e não
cumprir-se o nosso encontro. Mau grado
a grande apneia o imenso hausto,
cruzam-se os destroços e entravado
o túnel cerca e serpenteia
eu devia ter tentado o voo
porém faltava-me o equilíbrio;
devia ter optado pelo arroubo
todavia não sabia preces;
não tinha a palavra de salvar,
a senha que consagra e exonera;
só tinha este corpo para entrar
e um tacto insolente para abrir.
que pede à carne o espanto do mundo,
ou se é pretensão de arte o esquecer
à porta toda uma noite a chave
para acolher cupidamente
o imprevisto o amor a rapina
na ânsia excitada do que somos
a seguir capazes de fazer?
se é este o estrénuo abandono
ao inquieto instante ou se antes
nos ilude a evasão? tão ténue
a fronteira entre a fuga e a oferta.
Tu estás do outro lado e eu não
sei como chegar e se escavar
um túnel sob o mar pode haver
maior exumação antes de ti:
tudo o que sepulta o passado –
ruínas de outros, o mudo lodo
sem que haja o modo de dragar;
e o dilatar-se o curso e não
cumprir-se o nosso encontro. Mau grado
a grande apneia o imenso hausto,
cruzam-se os destroços e entravado
o túnel cerca e serpenteia
eu devia ter tentado o voo
porém faltava-me o equilíbrio;
devia ter optado pelo arroubo
todavia não sabia preces;
não tinha a palavra de salvar,
a senha que consagra e exonera;
só tinha este corpo para entrar
e um tacto insolente para abrir.
Thursday, October 12, 2006
Anti-matéria
Monday, October 09, 2006
Polegarzinha
(com gratidão para a Vanda Melo)
Refaço o percurso, detendo-me para trincar cada côdea a marcar a volta à casa partida.
Refaço o percurso, detendo-me para trincar cada côdea a marcar a volta à casa partida.
Saturday, October 07, 2006
Kit de Sobrevivência da Poesia Portuguesa # 1
ALBA

Levad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aves do mundo d'amor diziam,
leda m'and'eu
Levad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todalas aves do mundo d'amor cantavam,
leda m'and'eu
Todalas aves do mundo d'amor diziam
do meu amor e do vosso en ment'aviam,
leda m'and'eu
Todalas aves do mundo d'amor cantavam;
do meu amor e do vosso y enmentavam
leda m'and'eu
Do meu amor e do vosso en ment'aviam;
vós lhi tolhestes os ramos en que siiam,
leda m'and'eu
Do meu amor e do vosso y enmentavam;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam,
leda m'and'eu
Vós lhi tolhestes os ramos en que siiam,
e lhis secastes as fontes en que beviam,
leda m'and'eu
Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam
leda m'and'eu
Nuno Fernandes Torneol

Levad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aves do mundo d'amor diziam,
leda m'and'eu
Levad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todalas aves do mundo d'amor cantavam,
leda m'and'eu
Todalas aves do mundo d'amor diziam
do meu amor e do vosso en ment'aviam,
leda m'and'eu
Todalas aves do mundo d'amor cantavam;
do meu amor e do vosso y enmentavam
leda m'and'eu
Do meu amor e do vosso en ment'aviam;
vós lhi tolhestes os ramos en que siiam,
leda m'and'eu
Do meu amor e do vosso y enmentavam;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam,
leda m'and'eu
Vós lhi tolhestes os ramos en que siiam,
e lhis secastes as fontes en que beviam,
leda m'and'eu
Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam
leda m'and'eu
Nuno Fernandes Torneol
Friday, October 06, 2006
The Big Divide
ELAS: Aos meus filhos não há-de faltar nada nem que eu tenha de lavar escadas.
ELES: Aos meus filhos não há-de faltar nada nem que eu tenha de passar fome.
ELES: Aos meus filhos não há-de faltar nada nem que eu tenha de passar fome.
Sunday, October 01, 2006
Teatrinho
Monday, September 25, 2006
deslocalização da Primavera
a despedida de Setembro, o diagnóstico de Outubro
dão azo desta vez a uma melancolia remota
tão somente, gralhas que não gritam neste calendário
decerto extemporâneo; pois somos nós o mês de Maio,
migrantes pássaros não tementes já dos dias curtos;
que deslumbradamente as penas luzem: invés de cinza,
uma patine de prata – vantagem devida à lua
que roda e dura agora mais que o sol – e o tempo assim
é amor que não azeda na demora da reserva
dão azo desta vez a uma melancolia remota
tão somente, gralhas que não gritam neste calendário
decerto extemporâneo; pois somos nós o mês de Maio,
migrantes pássaros não tementes já dos dias curtos;
que deslumbradamente as penas luzem: invés de cinza,
uma patine de prata – vantagem devida à lua
que roda e dura agora mais que o sol – e o tempo assim
é amor que não azeda na demora da reserva
Saturday, September 23, 2006
Thursday, September 21, 2006
Eu cá não fazia fiado na fé deste Papa
(reflexão automática após conversa sobreouvida na mercearia:)
D. Georgete: O outro, sabe, era mais prudente.
Cliente do Cão Zulu: Pois, mas eu acho que há coisas que se dizem de boa fé e outras de má fé. E este se calhar é mais inocente, mas não quer dizer que não seja de boa fé.
D. Georgete: O outro, sabe, era mais prudente.
Cliente do Cão Zulu: Pois, mas eu acho que há coisas que se dizem de boa fé e outras de má fé. E este se calhar é mais inocente, mas não quer dizer que não seja de boa fé.
Monday, September 18, 2006
Porque sempre que tenho arrufos com a maternidade me lembro

e lembro também um certo ex-aluno – dos que soe dizer-se “problemáticos” – cuja voz se lhe embargou quando lhe pedi para ler este texto do Almada, e ainda porque ontem, pelas 20h00, a Elisa viu nascer a Maria Rita.
“Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado! Eu ainda não fiz viagens E a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar. Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras. Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa. Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!”
Sunday, September 10, 2006
Monday, September 04, 2006
Não está estafado, nem o poema nem o tema, e aliás a questão é: o que se faz a seguir a isto?
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
- Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
excerto de Cântico dos Cânticos, tradução de Herberto Helder, ilustração de Marc Chagall
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
- Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
excerto de Cântico dos Cânticos, tradução de Herberto Helder, ilustração de Marc Chagall
Friday, September 01, 2006
Exercício expurgatório
Escrever 100 vezes:
amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir
amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir
Wednesday, August 30, 2006
Saturday, August 26, 2006
Wednesday, August 16, 2006
POST 100: Xantipa, a Megera
Tuesday, August 15, 2006
Saturday, August 12, 2006
Tuesday, August 08, 2006
DIES IRAE

“Whether Grace left Dogville or, on the contrary, Dogville had left her – and the world in general – is a question of a more artful nature, that few would benefit from by asking, and even fewer by providing an answer; nor, indeed, will it be answered here”
(do filme Dogville de Lars von Trier)
pela porra toda de mesquinhezes e rancores e prepotências e conspirações silenciosas ou resmoneantes e pelas barreiras e pelas defesas e pelas guardas e pelos chuis mais as suas mãos barradas de manteiga e por todo o laxismo oportunista e pelo deixa-andar e pelos maus olhados e os vodus e pelas aparências do que deve ser e do que não se pode e pelas pedras lançadas nas jenys e nos pretos e nas ciganas e nos libaneses e nos larilas e em todos que deviam ser nossos semelhantes mas que desconsoladamente não atingem a nossa fasquia e por aqueles que me cobram para poder chegar à minha casa ou para poder deixá-la e até se cumpro os semáforos têm ganas de me atropelar hoje é daqueles dias em que se me esvai a confiança na humanidade e que estou com um pó que só seria solúvel se pulverizasse duma vez e para sempre a louça toda e mandasse às urtigas a caritas paulina que já o João mais amado que decerto deus conserva à sua beira devia estar como eu quando resolveu deitar a pena ao apocalipse
Sunday, July 30, 2006
Woman Overboard
MAYDAY lanço, porque a guerra dura

e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
drena a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, em ponto lento a onda
fará um manto sobre o afogamento.

e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
drena a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, em ponto lento a onda
fará um manto sobre o afogamento.
Wednesday, July 19, 2006
Post Scriptum
COM-PAIXÃO & HIPOCONDRIA
Confortamo-nos com histórias laterais,
esquivamos o toque, há risco de contágio;
e, por mais que preservemos a franqueza,
passou o estágio da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía.
Confortamo-nos com histórias laterais,
esquivamos o toque, há risco de contágio;
e, por mais que preservemos a franqueza,
passou o estágio da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía.
Tuesday, July 18, 2006
Pousio
Saturday, July 08, 2006
Female Bonding # 4?


HETTIE JONES & AMINA BARAKA
E este, jovens mulheres,
é o dilema
ele mesmo a solução:
sempre fui ao mesmo tempo
muito mulher para me comover ao pranto
e muito homem para
conduzir meu carro em qualquer direcção.
(final do poema Hard Drive, de Hettie Jones, n. 1934)
"Há quem pense que a força está na perseverança; às vezes está no deixar ir"
(Amina Baraka, n. 1937, poeta, cantora de jazz e jornalista no órgão de propaganda de esquerda "People's Weekly World")
As duas mulheres foram companheiras do poeta actualmente conhecido por Amiri Baraka, n. 1934, antes associado ao movimento beat com o nome de LeRoi Jones. A mudança de nome deu-se no período quente de meados de 1960 com a radicalização da luta pela afirmação identitária dos afro-americanos (nomeadamente, em sequência do assassinato de Malcolm X) Muitos negros recusaram então os antropónimos que julgavam herdadados dos esclavagistas do passado, optando por nomes de origem africana. Amiri, ao que parece, significa "príncipe", e Baraka "benção". A questão torna-se controversa e irónica quando comparada com as mudanças de nome por que optaram as mulheres daquele que recentemente reconquistou notoriedade com o poema activista "Somebody blew up America". Hettie Jones, nascida Cohen, branca e de ascendência judia, mudou o apelido para "Jones" quando se casou com LeRoi numa cerimónia budista em 1958. Divorciaram-se em 1965 e no ano seguinte o escritor casou com a cantora negra Sylvia Robinson que viria a mudar para "Amina Baraka", significando o nome próprio "leal e fiel". Pelo menos em autógrafos recentes, a actual mulher do ex-poeta laureado de Nova Jersey assina apenas "Amina".
Saturday, July 01, 2006
Aos meus amigos # 2
FOI BONITA A FESTA, PÁ
"And I'll see if my friends are still there:
Yes, and here's to the few
Who forgive what you do
And the fewer who don't even care"
(Leonard Cohen)
Obrigada
"And I'll see if my friends are still there:
Yes, and here's to the few
Who forgive what you do
And the fewer who don't even care"
(Leonard Cohen)
Obrigada
Thursday, June 15, 2006
Beleza é fundamental
O meu primeiro silogismo
Se tu estás a dormir tu não te zangas
tu só te zangas quando não estás a dormir
tu só te zangas quando não estás a dormir
Monday, June 12, 2006
Pois, mas uns podem e outros esforçam-se, e olha que com amigos destes…
Foram-se todos embora para o sol e para o sul e para o mar, ou estão-se a preparar para os santos, ou até vão para Praga e Budapeste como os mafiosos lá de baixo, ou têm crianças para cuidar como uns e outras, mas não há ninguém, ninguém num raio de 30 km de tlm, disposto a compartilhar com os mais atarefados e menos afortunados uma horita de lazer com umas minis mais um pires de caracóis e um pãozito mal tostado. Essa é que é essa, e assim quem precisa de inimigos?
…. pronto, eu sei que até os há com razões capitais como afinal o mais bondoso dos recém-casais lá de baixo, e outra(o)s, e sou eu que tenho de me desemerdar, como dirias tu Miguel (embora aquela da unha partida, enfim ;)), porque estes gajos que escrevem têm sempre a mania que não conseguem carpir metáforas sem um amiguinho ao lado, e por isso, olhem, lá se vai a hora de lazer para posts onanistas e injustos.
…. pronto, eu sei que até os há com razões capitais como afinal o mais bondoso dos recém-casais lá de baixo, e outra(o)s, e sou eu que tenho de me desemerdar, como dirias tu Miguel (embora aquela da unha partida, enfim ;)), porque estes gajos que escrevem têm sempre a mania que não conseguem carpir metáforas sem um amiguinho ao lado, e por isso, olhem, lá se vai a hora de lazer para posts onanistas e injustos.
Sunday, June 11, 2006
Aos meus amigos
Friday, June 09, 2006
Talvez a injecção letal
não precise ser fatal
após o incerto cruzeiro
após pagar ao barqueiro
dos lameiros de Aqueronte
que pode bem ser bifronte
velho sátiro ou Morgana
criatura quase humana
que tudo engana consoante
se olha pra trás ou diante
tão cansada de engolir
comprimidos sem dormir
do meu sexo que se embota
do coração que se esgota
esticado na horizontal
sob uma agulha sensual
e a sopa na panela
embacia-me a janela
e sorvo mas sem palato
sem ter forças para o salto

se há uma falha um abalo
Dickinson Plath Woolf Kahlo
onde foram estavam loucas
queriam coisas eram ocas
queriam chique eram pedras
queriam arte eram merdas
tentando o voo eram estacas
punho em riste eram farpas
fornos hortos seu delírio
nunca foi santo martírio
da fonte de Lete das letras
dos opostos caracteres
desconheço o que esquecer
se a vida sobre ou subterra
e se a barca vai na esteira
da nascente derradeira
ou duma foz mais absconsa
sem que embale a brisa ondas
sulcando turvas manhãs
duma ilha de maçãs
após o incerto cruzeiro
após pagar ao barqueiro
dos lameiros de Aqueronte
que pode bem ser bifronte
velho sátiro ou Morgana
criatura quase humana
que tudo engana consoante
se olha pra trás ou diante
tão cansada de engolir
comprimidos sem dormir
do meu sexo que se embota
do coração que se esgota
esticado na horizontal
sob uma agulha sensual
e a sopa na panela
embacia-me a janela
e sorvo mas sem palato
sem ter forças para o salto

se há uma falha um abalo
Dickinson Plath Woolf Kahlo
onde foram estavam loucas
queriam coisas eram ocas
queriam chique eram pedras
queriam arte eram merdas
tentando o voo eram estacas
punho em riste eram farpas
fornos hortos seu delírio
nunca foi santo martírio
da fonte de Lete das letras
dos opostos caracteres
desconheço o que esquecer
se a vida sobre ou subterra
e se a barca vai na esteira
da nascente derradeira
ou duma foz mais absconsa
sem que embale a brisa ondas
sulcando turvas manhãs
duma ilha de maçãs
Sunday, June 04, 2006
Os Pirotécnicos Unidos Jamais Serão Vencidos
Se calhar é por isso que eu me pelo pela Sintaxe
Aos cuidados de e de:
O Léxico tem sexo; a Morfologia tem géneros; o Sentido é filho da mãe que, não desfazendo, é a Semântica; só a Sintaxe permite sintéticas manipulações de genética, como por exemplo:
1. Agente de crime violento é inimputável.
2. Vítima destituída de reparação de danos.
3. Crime violento passa impune.
Todas estas opções têm as suas consequências. Mas podemos escolhê-las. Não podemos escolher que "vítima" seja um substantivo invariavelmente feminino nem que "agente" seja invariavelmente masculino.
Salvaguarde-se a paridade de "inimputável", "imputável", "impune" e "punível" serem todos hermafroditas (sujeitando-se inclusive a brejeiras pintelhices com putéfios e punhetas).
P. S. Se, por improvável hipótese, alguma alma penada, que não esteja na praia nem a curtir o arraial do meu bairro, tiver passado por aqui reiteradamente nos últimos quarenta minutos constatará que este post sofreu várias alterações. É que também me pelo pela palavra justa e pelo justo vocábulo.
O Léxico tem sexo; a Morfologia tem géneros; o Sentido é filho da mãe que, não desfazendo, é a Semântica; só a Sintaxe permite sintéticas manipulações de genética, como por exemplo:
1. Agente de crime violento é inimputável.
2. Vítima destituída de reparação de danos.
3. Crime violento passa impune.
Todas estas opções têm as suas consequências. Mas podemos escolhê-las. Não podemos escolher que "vítima" seja um substantivo invariavelmente feminino nem que "agente" seja invariavelmente masculino.
Salvaguarde-se a paridade de "inimputável", "imputável", "impune" e "punível" serem todos hermafroditas (sujeitando-se inclusive a brejeiras pintelhices com putéfios e punhetas).
P. S. Se, por improvável hipótese, alguma alma penada, que não esteja na praia nem a curtir o arraial do meu bairro, tiver passado por aqui reiteradamente nos últimos quarenta minutos constatará que este post sofreu várias alterações. É que também me pelo pela palavra justa e pelo justo vocábulo.
Efemérides #2: A LEBRE
Pentecostes
“Porque eu rezo numa LÍNGUA DESCONHECIDA, o meu espírito reza, mas a minha compreensão é estéril” (Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios)

Segue excerto do “Boletim Paroquial”, emitido pela Igreja da Graça para a Paróquia de Santo André e Santa Marinha em Lisboa, nº 37, 4 de Junho de 2006; editado por mim, com ecumenismo e respeito por crentes e não-crentes (as maiúsculas correspondem a expressões em itálico no original, mas ainda não aprendi o código para fazer isso):
“Na festa de Pentecostes, em que se juntavam em Jerusalém muitos judeus vindos de todas as nações, os apóstolos falaram do Evangelho (…). E todos os presentes entenderam bem o que lhes era dito, apesar de falarem línguas diversas. (…) FALAR A MESMA LÍNGUA significa estar em comunhão com todos. Infelizmente, as pessoas às vezes falam, utilizam as mesmas palavras, mas não se entendem. (….)
Deixemo-nos invadir pelo Espírito Santo*; punhamos de lado o medo e a indolência. Saiamos do CENÁCULO do medo (…)”
* O Espírito Santo, para mim, como crente e não-crente, representa precisamente a coragem de procurarmos um entendimento, um espaço médio, ou mesmo uma fugaz comunhão, por entre as línguas múltiplas de que nos servimos. Nesse sentido, e reiterando um dos pontos talvez mais sensíveis do texto que há dias afixei, se houver (boa?) fé, julgo que a tradução é um seu artigo transitivo fundamental.

Segue excerto do “Boletim Paroquial”, emitido pela Igreja da Graça para a Paróquia de Santo André e Santa Marinha em Lisboa, nº 37, 4 de Junho de 2006; editado por mim, com ecumenismo e respeito por crentes e não-crentes (as maiúsculas correspondem a expressões em itálico no original, mas ainda não aprendi o código para fazer isso):
“Na festa de Pentecostes, em que se juntavam em Jerusalém muitos judeus vindos de todas as nações, os apóstolos falaram do Evangelho (…). E todos os presentes entenderam bem o que lhes era dito, apesar de falarem línguas diversas. (…) FALAR A MESMA LÍNGUA significa estar em comunhão com todos. Infelizmente, as pessoas às vezes falam, utilizam as mesmas palavras, mas não se entendem. (….)
Deixemo-nos invadir pelo Espírito Santo*; punhamos de lado o medo e a indolência. Saiamos do CENÁCULO do medo (…)”
* O Espírito Santo, para mim, como crente e não-crente, representa precisamente a coragem de procurarmos um entendimento, um espaço médio, ou mesmo uma fugaz comunhão, por entre as línguas múltiplas de que nos servimos. Nesse sentido, e reiterando um dos pontos talvez mais sensíveis do texto que há dias afixei, se houver (boa?) fé, julgo que a tradução é um seu artigo transitivo fundamental.
Wednesday, May 31, 2006
1º DE JUNHO: Quando eu for grande eu não vou combater
PUB - Estaleiros de Literatura

ESCRITA CRIATIVA NA FACULADE DE LETRAS DE LISBOA
21 de Junho
No âmbito do 9th International Conference on the Short Story in English, organizado pela Faculdade de Letras de Lisboa em conjunto com a Society for the Study of the Short Story, vão funcionar seis oficinas de escrita criativa orientadas pelos seguintes escritores:
Ana Castillo (“Unfinished Pieces: Keep or Trash?”)
Amiri Baraka/Leroi Jones ("Culture, Language, Fact, Fiction, Media")
Francine Prose ("Reading like a Writer.")
Katherine Vaz (“Portuguese & American Writing”)
Robert Olen Butler (“Creating Fictional Art”)
Rui Zink (“Lá vamos contando e rindo/“Snow White and her 7 shortcuts”)
Informam-se todos os interessados de que a inscrição nas oficinas, de três a quatro horas em blocos de manhã e à tarde, é de 50€, e independente da inscrição no congresso.
Para consultar uma breve descrição do tema de cada uma, bem como para descarregar o boletim de inscrição poderá visitar a página do Congresso.
Para mais informações ou esclarecimentos (designadamente sobre o custo, que não tem taxa de registo tardio, ao contrário do que a página pode indicar, sendo antes o que acima se discrimina), contactar via email shortstory2006@fl.ul.pt
Monday, May 29, 2006
Saturday, May 27, 2006
A Net voltou!
E nós, cara dama, somos relapsos.

COTTAGE STREET, 1953
Edna Ward, tal fénix que um guarda-fogo encobre
Debruça-se no bule de Cantão, e verte
Chá à medrosa Sylvia Plath, depois sobre
A acanhada filha, mim e minha mulher,
Quer saber se o tomamos quente ou morno,
Indaga se com leite, lima, ou um cheiro.
Já a visita nos parece tensa e enorme
E cada um à vez lhe diz nossos desejos.
É meu encargo ilustrar a boa sorte
Do poeta publicado, para animar
A Sr.ª Plath, após ter cobiçado a morte;
Mas sinto-me tolhido e incapaz de dar,
Sou um canhestro salva-vidas, que encontrou
Uma miúda devolvida pela maré,
Que, ao largo, imensamente se afundou
E fixa assim a água, com olhos de pérola.
Tão fundo disse não, e tão vácuo agora
Recomendar-lhe, neste delicado entrecho,
A vida, de uma tarde de Verão, embora
O ocaso em brando lume acene o seu desfecho.
E dentro de quinze anos morrerá
Edna, aos oitenta e oito verões duma
Graça e bravura sem direito a lágrimas:
A esguia mão esticada, o amor a palavra última,
Sobrevivendo a Sylvia, à vida sujeita,
E a mais dez anos de labor, com tanto custo,
Até dizer que não enfim, um não perfeito,
Em poemas inquietos, livres e injustos.
Richard Wilbur (1921 - ), com texto de partida em inglês aqui, onde se explica que Edna Ward era sogra do poeta e amiga da família de Sylvia Plath.

COTTAGE STREET, 1953
Edna Ward, tal fénix que um guarda-fogo encobre
Debruça-se no bule de Cantão, e verte
Chá à medrosa Sylvia Plath, depois sobre
A acanhada filha, mim e minha mulher,
Quer saber se o tomamos quente ou morno,
Indaga se com leite, lima, ou um cheiro.
Já a visita nos parece tensa e enorme
E cada um à vez lhe diz nossos desejos.
É meu encargo ilustrar a boa sorte
Do poeta publicado, para animar
A Sr.ª Plath, após ter cobiçado a morte;
Mas sinto-me tolhido e incapaz de dar,
Sou um canhestro salva-vidas, que encontrou
Uma miúda devolvida pela maré,
Que, ao largo, imensamente se afundou
E fixa assim a água, com olhos de pérola.
Tão fundo disse não, e tão vácuo agora
Recomendar-lhe, neste delicado entrecho,
A vida, de uma tarde de Verão, embora
O ocaso em brando lume acene o seu desfecho.
E dentro de quinze anos morrerá
Edna, aos oitenta e oito verões duma
Graça e bravura sem direito a lágrimas:
A esguia mão esticada, o amor a palavra última,
Sobrevivendo a Sylvia, à vida sujeita,
E a mais dez anos de labor, com tanto custo,
Até dizer que não enfim, um não perfeito,
Em poemas inquietos, livres e injustos.
Richard Wilbur (1921 - ), com texto de partida em inglês aqui, onde se explica que Edna Ward era sogra do poeta e amiga da família de Sylvia Plath.
Thursday, May 25, 2006
Saturday, May 20, 2006
Trans-poética

HOTEL LOUNGE
Entre vocês e eu na arriscada
via rápida dos artistas há
um baldio de línguas que se
tresmalham incandescem e internamente
queimam os ouvidos: pares poetas eu
lamento discordar mas
sendo
a poesia
o que perde a tradução
há então mais importantes coisas
que guardar e eu não vejo forma
outra de sair deste férvido ruído
senão o esforço extreme e distendido
no transporte de chegarmos.
Quão arriscadamente – é o nodo
central desta questão – nos dispomos
a correr entre as línguas a arder
e se escrever vale de outro modo.
Por exemplo o nosso lounge
no hotel, pode ser um espaço
franco de chegarmos face
a face? e caso isso suceda
é prudente
defendermos a cilada
do comum e do corrente?
Pares poetas eu lamento discordar
mas na arte vejo alvos desiguais:
ter em vista o chegarmos a outrem
ou escudar a perda que se arrisca
e para mim é o primeiro que convém.
E mesmo assim no lounge do hotel
se enfim depositamos os punhais
no parapeito do balcão – rondando
estrangeiros num abrigo as bebidas
e as pontas de vidas e cigarros –
será jamais possível emalhar as nossas
línguas sem cair no brejeiro trocadilho
e no perverso lenocínio de um verso?
e vão tomar-me por aquilo que eu sou ou
por aquilo que em mim miram e pode haver
uma outra via de sair a via
de fazer um esforço mútuo
de mudar-nos e folgar quando falamos
o freio do orgulho de ser únicos?
Embaraça-me, pares poetas, discordar
do vosso tão distinto parecer
mas agradeço todavia essas vias
lenitivas no encontro de chegarmos
à provisória e aturdida comunhão
entre o médio-transitivo território
de um lounge num hotel.
Thursday, May 18, 2006
e o teu barco negro dançava na luz
outro poema de Ady Endre traduzido por Ernesto Rodrigues, e que foi silenciado por alfnete, apesar de ter andado a rondar a página

MULHERES NA PRAIA
Estavam na praia mil mulheres,
tendo seus lenços, e com flores,
que soluçavam nos adeuses,
e eu no barco jubilei.
Veio crepúsculo; em névoa,
estavam na praia mil mulheres.
Mas inda vi os lenços delas,
mas as flores inda caíram.
Veio a noite e escureceu,
como o passado, qual vingança;
estavam na praia mil mulheres,
e eu no barco que chorei.
Porque não via já nenhuma,
nem sequer lenços, flores sequer,
e ouviu-se assim, qual numa história:
«Estavam na praia mil mulheres».

MULHERES NA PRAIA
Estavam na praia mil mulheres,
tendo seus lenços, e com flores,
que soluçavam nos adeuses,
e eu no barco jubilei.
Veio crepúsculo; em névoa,
estavam na praia mil mulheres.
Mas inda vi os lenços delas,
mas as flores inda caíram.
Veio a noite e escureceu,
como o passado, qual vingança;
estavam na praia mil mulheres,
e eu no barco que chorei.
Porque não via já nenhuma,
nem sequer lenços, flores sequer,
e ouviu-se assim, qual numa história:
«Estavam na praia mil mulheres».
Tuesday, May 16, 2006
Sobre literatura, geopolítica, e os limites do conhecimento da linguagem

e porque acabo de ler agora, e porque até pode vir a propósito de uma velha questão sobre as representações de Paris (ver comentários a este post), desta feita mais propriamente sobre essa cidade-artefacto que até há bem pouco tempo pôde ser uma “improvável síntese do asilo político e da consagração artística”, nas palavras de Pascale Casanova, autora do estimulante livro La Republique Mondiale des Lettres (Paris: Seuil, 2004). De sua segunda mão cito o seguinte relato de uma “excursão a Paris” do escritor jugoslavo Danilo Kiš (1935-1989):
“De súbito percebo nitidamente que não construí a Paris dos meus sonhos a partir dos franceses, mas que – de modo estranho e paradoxal – foi um estrangeiro que me inoculou o veneno da nostalgia (…) Penso em todos esses náufragos da esperança e do sonho que lançaram ferro num porto de salvação parisiense: Matoš, Tin Ujević, Bora Stanković, Crnjanski (…). [Endre] Ady, porém, foi o único que conseguiu exprimir e pôr em verso todas essas nostalgias, todos os sonhos dos poetas que se prostraram diante Paris como diante um ícone. (…) Não cheguei a Paris como um estrangeiro, mas como alguém que vai numa romaria às paisagens íntimas do seu próprio sonho, para uma Terra Nostálgica. (…) As vistas e os asilos de Balzac, o “estômago de Paris” naturalista de Zola, o spleen parisiense do Baudelaire dos Pequenos Poemas em Prosa, bem como as suas velhas e as suas crioulas, os ladrões e as prostitutas no perfume amargo d’As Flores do Mal, os salões e os fiacres proustianos, a ponte Mirabeau de Apollinaire (…), Montmartre, Pigalle, a place de la Concorde, o boulevard Saint-Michel, os Campos Elísios, o Sena (…), tudo isso não mais do que puras telas impressionistas salpicadas de sol cujos nomes aqueciam o meu sonho (…) Os Miseráveis de Hugo, as revoluções, as barricadas, o rumor da história, a poesia, a literatura, o cinema, a música, tudo isso chocalhava e fervia, ardendo-me na cabeça muito antes de ter posto os pés em solo parisiense.”

Sobre Endre Ady (aqui retratado por Josse de Pauw), o tal estrangeiro que ensinou Paris a Danilo Kiš (tantos antropónimos limítrofes e enigmáticos, em contraste com a reconhecível fisiologia da banca central dos valores literários de Paris, acima evocada…), encontrei a seguinte informação, repescada do site “A Poesia dos Calendários” da Assírio e Alvim: “Poeta húngaro, nascido em Érmindszent, que com seu lirismo poderoso e de exaltada sinceridade renovou a literatura e a vida cultural de seu país. De uma família de aristocratas calvinistas empobrecidos, começou a estudar direito em Debreczen. Publicou seu primeiro livro, Versek (1899) e mudou-se para Nagyvárad, hoje Oradea Mare, chamando a atenção como veemente publicista liberal. Com a sua amante Leda, morou em Paris (1904) e no ano seguinte, já em Budapeste, colaborou na revista Nyugat que reuniu a vanguarda modernista. Com uma linguagem toda particular, de intensidade explosiva e revolucionária, trouxe na sua obra uma mensagem de denúncia político-social e patriótica, tornando-se o símbolo da rebeldia, do inconformismo e de hostilidade aos conservadores de todos os estilos e propósitos. Morreu vítima de uma pneumonia, em Budapeste, e o melhor da sua lavra poética apareceu nos seus versos de acentos apocalípticos, como em Új versek (1906), Vér és arany (1907), Az Illés Szekerén (1908) e Szeretném, ha szeretnének (1909), e em livros como A Menekülö élet (1912), A halottak élén (1918) e o póstumo Az utolsó hajók (1923)”. Dele encontrei também este poema, traduzido por Ernesto Rodrigues para a Antologia de Poesia Húngara editada pela Âncora em 2002. À falta de referências culturais, lamento que seja uma composição para mim ininteligível, mas não soa mal:
Eu sou filho de Gog e Magog,
contra portas e muros em vão bato,
sem deixar de vos perguntar:
pode-se chorar abaixo dos Cárpatos?
Vim p'lo célebre caminho de Verecke,
soa-me inda aos ouvidos velho canto húngaro;
posso irromper de junto a Dévény
com cantos novos de tempos novos?
Chumbo vertam nos ouvidos fervente,
eu serei o novo cantor Vazul;
não oiça da vida os cantos novos,
pisem-me rude e cobardemente.
Mas, até lá, chorando entre penas,
nada esperando, em novas asas voa o canto;
e quando Pusztaszer maldiz cem vezes,
é inda vencedor, e novo, e húngaro.
Monday, May 15, 2006
Gomes Leal e o Publicismo das Vanguardas
ÁGUA FURTADA D’UM ORIGINAL
Eu moro altivo e só numa trapeira,
Onde as penas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia à soalheira…
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas vizinhanças límpidas dos astros!
Como na era feliz das serenadas,
As graves castelãs nos seus balcões,
E góticas varandas recostadas…
– Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!...
Professo o culto só do far niente
Deitado, todo o dia, num colchão…
Na posição imóvel dum vidente…
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquilos modos dum sultão.
Ó filhas do spleen malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
Ó sebentas do estudo empoeiradas,
E tristes quais sultanas desprezadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!...
E vós teias d’aranha inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!.
Ó musas que inspirais os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astro dos meus tectos!
Que vos criou ao seu fiat lux!?
Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felícia…
E onde pus um retrato de Trajano,
Dentro dum casacão diluviano,
Sofrendo como César de calvícia!
Nas paredes estão frases simbólicas,
E aqui e ali borradas a carvão:
Uma Vénus com ar de grandes cólicas,
Um santo dumas barbas apostólicas,
E dois frades jogando o bofetão!
Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Bíblia mui velha onde no fim…
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d’ouro…
Tendo num grande pé chinelo mouro,
E vestido com ar de mandarim!...
Defronte ri sinistra uma caveira,
A que pus uns bigodes de cortiça…
E dum truão a loura cabeleira…
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda à missa!
Ao lado mora-me um vizinho manco
Que faz dos sinos único regalo…
E goza da união dum saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noite canta como um galo.
Defronte uma vizinha costureira,
Doce lírio que treme a um vento vário…
Que canta a manhã toda e a tarde inteira…
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canário!...
Toda a noite o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!...
Imita o som dos sinos indiscretos…
E canta, numa voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!
E assim eu vivo só numa trapeira…
Onde as penas das pombas deixam rastros…
Exposta todo o dia à soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas vizinhanças límpidas dos astros.
Gomes Leal, Claridades do Sul, 1875.

Em prospectivo tributo à Revista de Literatura, Música e Artes Visuais, cujo nº 9 amadurece em Maio (foto alusiva em cima, e mais informações aqui) e que, além de patente em bancas selectas, pode ser encomendada por este mail: jup@jup.pt
aguasfurtadas: imprescindíveis para uma nítida ofuscação de paisagens.
Eu moro altivo e só numa trapeira,
Onde as penas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia à soalheira…
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas vizinhanças límpidas dos astros!
Como na era feliz das serenadas,
As graves castelãs nos seus balcões,
E góticas varandas recostadas…
– Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!...
Professo o culto só do far niente
Deitado, todo o dia, num colchão…
Na posição imóvel dum vidente…
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquilos modos dum sultão.
Ó filhas do spleen malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
Ó sebentas do estudo empoeiradas,
E tristes quais sultanas desprezadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!...
E vós teias d’aranha inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!.
Ó musas que inspirais os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astro dos meus tectos!
Que vos criou ao seu fiat lux!?
Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felícia…
E onde pus um retrato de Trajano,
Dentro dum casacão diluviano,
Sofrendo como César de calvícia!
Nas paredes estão frases simbólicas,
E aqui e ali borradas a carvão:
Uma Vénus com ar de grandes cólicas,
Um santo dumas barbas apostólicas,
E dois frades jogando o bofetão!
Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Bíblia mui velha onde no fim…
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d’ouro…
Tendo num grande pé chinelo mouro,
E vestido com ar de mandarim!...
Defronte ri sinistra uma caveira,
A que pus uns bigodes de cortiça…
E dum truão a loura cabeleira…
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda à missa!
Ao lado mora-me um vizinho manco
Que faz dos sinos único regalo…
E goza da união dum saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noite canta como um galo.
Defronte uma vizinha costureira,
Doce lírio que treme a um vento vário…
Que canta a manhã toda e a tarde inteira…
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canário!...
Toda a noite o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!...
Imita o som dos sinos indiscretos…
E canta, numa voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!
E assim eu vivo só numa trapeira…
Onde as penas das pombas deixam rastros…
Exposta todo o dia à soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas vizinhanças límpidas dos astros.
Gomes Leal, Claridades do Sul, 1875.

Em prospectivo tributo à Revista de Literatura, Música e Artes Visuais, cujo nº 9 amadurece em Maio (foto alusiva em cima, e mais informações aqui) e que, além de patente em bancas selectas, pode ser encomendada por este mail: jup@jup.pt
aguasfurtadas: imprescindíveis para uma nítida ofuscação de paisagens.
Friday, May 12, 2006
d. A. (depois de Adília [Lopes])
enquanto tais poetisos obscuros
tanto mais
precisa a desassombrada poeta
tanto mais
precisa a desassombrada poeta
Sunday, May 07, 2006
do teu nascimento
como eu palavras busco que pensar
o amor que em dor se haure e me sufoca
meu leite busca brusca tua boca
do ventre que acabou de te soltar,
me assalta primitivo o incontido
materno sentimento imprevisto
dos corpos fluidos mútuos e vertidos
que um no outro se acham repetidos;
e se recolhe enfim teu cenho feio,
teu choro sem governo no meu colo
sossega e dá lugar, sugando o seio,
a um semblante humano que consolo.
De ti esperei tudo e agora isto:
que em ti o excesso meu se ache visto.
o amor que em dor se haure e me sufoca
meu leite busca brusca tua boca
do ventre que acabou de te soltar,
me assalta primitivo o incontido
materno sentimento imprevisto
dos corpos fluidos mútuos e vertidos
que um no outro se acham repetidos;
e se recolhe enfim teu cenho feio,
teu choro sem governo no meu colo
sossega e dá lugar, sugando o seio,
a um semblante humano que consolo.
De ti esperei tudo e agora isto:
que em ti o excesso meu se ache visto.
Thursday, May 04, 2006
Rogério Rola
ARTESANATO
Quantos anos dura o elefante?
Ainda jovem o elefante parece
um animal muito velho.
Às vezes cantamos
Se um elefante incomoda muita gente
dois elefantes.
O elefante pressente quando vai morrer
o elefante busca paciente
o lugar da sua morte.
Os olhos húmidos a tromba flácida
o elefante morre em silêncio.
O elefante deixa só os dentes
que encantados compramos na feira.
E os dentes do elefante enfeitam
as estantes das nossas casas.

Rogério Rola é professor de Português no ensino Secundário. Nasceu em 1961, passou os primeiros anos da sua infância em Moçambique
Quantos anos dura o elefante?
Ainda jovem o elefante parece
um animal muito velho.
Às vezes cantamos
Se um elefante incomoda muita gente
dois elefantes.
O elefante pressente quando vai morrer
o elefante busca paciente
o lugar da sua morte.
Os olhos húmidos a tromba flácida
o elefante morre em silêncio.
O elefante deixa só os dentes
que encantados compramos na feira.
E os dentes do elefante enfeitam
as estantes das nossas casas.

Rogério Rola é professor de Português no ensino Secundário. Nasceu em 1961, passou os primeiros anos da sua infância em Moçambique
Wednesday, May 03, 2006
Revista do Portugal da outra senhora
A propósito do primeiro número, dedicado a Afonso Henriques, da história infatilóide da nação que está a ser publicada serialmente pelo Expresso na colecção “Era uma Vez Um Rei”, já aqui o Camarada D deixou pertinentes considerações, a que se podiam acrescentar ainda mais, como o maniqueísmo racial com que se perpetua a versão heróica da vitória dos pequenos e honrados portugueses contra os numerosos e avassaladores mouros. Mas é sobre o nº 4 da referida colecção, dedicado a “D. João I, O de Boa Memória”, que gostaria agora de ventilar a minha fúria de feminista compulsivamente pirómana de soutiens (cf. comments a este post). É que, relativamente a duas das mulheres mais interessantes da nossa história que marcaram este período, Leonor Teles (dita “a aleivosa”) e a lendária padeira, aka Joana Brites de Almeida, que abateu sete espanhóis saídos de um forno de Aljubarrota, o livro - caucionado, tal como os restantes, pela “revisão científica” [sic] da Associação de Professores de História, escrito por uma donzela finalista de Psicologia (!!!), narrado pela consorte dum intelectual socialista, e com ilustrações do filho dum poeta da intervenção pela liberdade de Abril - mantém uma impávida omissão. Em contrapartida, numa das canções festivaleiras que pontuam assiduamente esta série, só uma figura feminina é digna de singularização nominal, D. Filipa de Lencastre. E nestes termos: “[D. João] Casou com D. Filipa, / Rainha e mãe virtuosa / Que educou bem os seus filhos, / Sendo honesta e caridosa.” Concede-se ainda, noutra das cantigas, a que festeja a Batalha virilmente chefiada por Nun’Álvares (com esta pérola versejante do cançonetismo popular, “Com a táctica do quadrado / Damos conta do recado”), dar voz ao feminino, mas, não surpreendentemente, em indistinto coro e contraponto de “mulheres”. E que cantam elas? “– Lá estão os nossos maridos / Nos campos, a combater. / Façamos uma sopinha, / Para melhor os receber…”

Face a isto, com masoquista ansiedade, aguardo ardentemente o único número da colecção dedicado a uma gaja que, à falta de melhor varão, conseguiu trepar à hierarquia do trono: “D. Maria II – A Educadora”. É o décimo primeiro. Se é mãe, ou pertence ao grupo de risco das que podem vir a sê-lo, faça já a sua reserva. Sob pena de descurar a cultura genérica de suas filhas e filhos.
(foto: insígnia das enfermeiras da Cruz de Aviz)

Face a isto, com masoquista ansiedade, aguardo ardentemente o único número da colecção dedicado a uma gaja que, à falta de melhor varão, conseguiu trepar à hierarquia do trono: “D. Maria II – A Educadora”. É o décimo primeiro. Se é mãe, ou pertence ao grupo de risco das que podem vir a sê-lo, faça já a sua reserva. Sob pena de descurar a cultura genérica de suas filhas e filhos.
(foto: insígnia das enfermeiras da Cruz de Aviz)
Monday, May 01, 2006
Fórum de caracteres russos

Raskólnikov said...
sibéria natal tristeza e que frio meu deus
com todo o respeito andou mal fiódor mikháilovitch na sua busca
do cristo moderno ao
eleger-me e depois de eleito ao abandonar-me
Semicrucificou-me apenas
quando eu queria morrer
pelos homens. Deu-me a Sónia a quem lavei os pés mas não salvei e não provou que pelo sofrimento
se chega ao amor
Deu-me um pouco da sua epilepsia
e a alergia ao cheiro das tintas que me traiu na esquadra é verdade
para cumprir o que estava no Livro
mas não bastou não me sinto
seu filho nem salvador de nada
apenas o triste mortal
rodion dito o Raskal
Sunday, April 30, 2006
Efemérides # 1
DIA DO TRABALHADOR,

em feliz sintonia com o aniversário natalício do blogger Camarada D aka Alexandre Dias Pinto. Parabéns, portanto, para todos nós.

em feliz sintonia com o aniversário natalício do blogger Camarada D aka Alexandre Dias Pinto. Parabéns, portanto, para todos nós.
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