Sunday, August 21, 2011
Porque já era tempo de desempoeirar a xafarica
Thursday, February 10, 2011
Medeia
Thursday, December 23, 2010
Etílio Barroco
Sunday, December 05, 2010
O Balde

E a magana da gata, arisca e fugidia
foi logo parir as crias
no sofá do arrumo onde ele tinha os papéis
(havia de se esquecer do último,
agora por lá anda o advogado
a tratar de escrevê-lo)
no sofá que a bem dizer não era dele
nem nunca ninguém usou
que comprou para impressionar os gaiatos
filhos dos meus enteados
(os que trataram do advogado):
bom couro, estofo fofo,
a vagabunda gata achou-o de agrado.
Foi isto dois dias depois que me fizeram
sair da minha casa com o meu filho pois, diziam,
não nos sabíamos governar depois que
segundo eles – (eu achei-o delgado
e pequeno o meu homem
a quem puseram tubos uma algália
e aquela máscara nas ventas
que não o deixava sossegar
e obrigavam-no a dormir nu
porque não gostavam que ele suasse
só lá fui uma vez onde o levaram
para prolongar a morte
onde nem me conhecia
não tinha dentes nenhuns
e o corpo naquela indecência
nem sei se me ouvia
toda a vida ele tinha sido uma árvore
mas voltou já vestido no carro preto
e depois fez-se a missa) –
não tínhamos condições para o resto da vida.
A mim calhava melhor ter ficado em casa
com o meu filho que tem problemas mas é esperto
e sempre demos conta do recado
mas disseram os enteados,
meios-irmãos do meu filho,
mais os netos e o advogado
que eu já não posso
e era melhor irmos para um sítio
a que querem que chamemos lar
e eu chamo asilo para os arreliar
que estou fraca e magra é verdade mirrei
que vivemos no campo demora a ver-se
alguém de longe se sucedia alguma coisa
ficávamos aflitos e ninguém nos acudia.
mas ia-se a ver onde ela tinha metido os bichos
ninguém dava sentido senão eu
e por isso me trouxeram eu vi
logo ao abrir da porta
e ao sair da gata disparada
pelo cheiro
deixei na cozinha o balde preparado
o sofá estava armado no arrumo
ao lado esquerdo do corredor
onde ele tinha os papéis
meti as mãos pelo buraco no couro
dentro da espuma dei logo com a pele
ainda sem pêlo engelhada e corredia
a chiar de olhos cerrados
um dois três quatro cinco seis
que embrulhei no regaço ainda cegos
e levei para a cozinha
para fazer uma coisa
que já fiz tanta vez
com a porta fechada que a mãe
andava coitadita a rondar
e ainda continuou nos dias depois
em que eu a vi muito magra
minhas mãos de velha na água
a forçar-lhes o cachaço para baixo
aflito pequeno delgado
até sossegarem
quando já não se mexem
não me custa assim tanto
não estão à espera desta
não têm governo para o resto é a vida
.
Friday, August 06, 2010
Woolf

Someone has blundered
alguém meteu o pé na argola
e tu és a óbvia suspeita
Likely it was you
a vida irremediavelmente enrolou-se
e agora não se endireita
in an impassable crux
Sobrevém, pois, irresistível, comoção
do fluxo
What are we to do against the summon of the swoon
O transtorno das águas o tocar o fundo
the swell of your backward burial
mergulhar em câmara invertida
como dizem que passa a vida
quando se abandona o mundo
mesmo que desejes ainda
parar
o gesto nada
vai mudar if you wanted to press stop now it’s too late
a água é densa turva provavelmente
gelada
and the stones are loaded dice
nos bolsos a escuridão dilui-se
lentamente
ice cold thick, there you stood, yet ever did you regret what you undertook?
Quiseste alguma vez um pouco
menos de talento
?
Saturday, June 12, 2010
Condições mínimas
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas
semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha
e que só uso eu; a nós vontade
basta – e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,
aceitas? compreendes? aguentas?
no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro
.
Sunday, May 09, 2010
Gosto muito do meu macaco
Sunday, April 25, 2010
25 de Abril
Sunday, November 22, 2009
One Art
A arte de perder não custa dominar;
há tantas coisas que parecem decididas
a perder-se, que o mundo não pode acabar.
Perder quotidianamente. Há que aceitar
a falta das chaves, a hora consumida.
A arte de perder não custa dominar.
Depois treina-te a perder mais e sem parar:
nomes, e sítios, onde tinhas prometido
que ias; nem por isso há-de o mundo acabar.
Perdi o relógio da minha mãe, e – azar! –
a última, ou quase, das minhas casas queridas.
A arte de perder não custa dominar.
Perdi duas cidades, lindas, e, para somar,
duas terras, dois rios, e tantas despedidas
de coisas que faltam mas não causam pesar.
– Até perder-te a ti (a voz de troça, a xingar
que eu amo) não estou a enganar. É sabido
que a arte de perder não custa dominar,
embora pareça (escreva-se!) o mundo a acabar.
Oh, não, seja o que for o que for à excepção do amor
Diz: o mundo a acabar. (nota de Bishop para o poema)
Elizabeth Bishop
http://www.youtube.com/watch?
Sunday, November 08, 2009
Acordei hoje como se fosse natural-
mente necessário ter o comprimento
do teu corpo na minha cama e estranhei
que não me abraçasses, nem preenchesse
o encaixe da tua pélvis
as minhas nádegas, a tua mão
sobre o meu monte, os teus joelhos
encostados à dobra onde os meus flectem.
Vês daí como tudo aqui ainda e sempre
treme continuamente, e a descompasso
do real, todos os dias tenho calores
de imaginação, trabalho a líbido
do cansaço, se fecho os olhos não durmo
e ao invés viajo dentro de mim
enchendo-me de corpos e fricções. Depois
no outro plano, já sentiste, custa-me
estar presente: das consecutivas vezes
que nos tocámos na boca, estudei os beijos
como uma alegoria embaraçosa:
tudo sob o comando diferido
da cabeça, com tensão mais que tesão,
a minha língua esgrimia a tua, quase
nada clamava ou humedecia, talvez
exceptuando um latido pequeno de amor
a pingar com irritação, não sei,
e além do mais haveria que indagar
se realmente são compatíveis as nossas
espécies, se isso é motivo de inevitabilidade,
ou de eu precisar das tuas carícias
nos anéis das cervicais, ou dos teu dedos
na pele ou o princípio do escuro
a partir do perímetro da cintura.
Sunday, August 09, 2009
"Aquela que de amor descomedido"

Não resisto, depois do post abaixo, a colocar parte da minha tradução até agora favorita de Landeg White. A elegia é longa, e não transcrevo tudo, mas a verdade é que se não fosse a leitura nova do inglês, a mim nunca me teria tocado tanto este poema de Camões (clicar aqui para comparar com português, infelizmente sem quebra dos tercetos; o que transcrevo começa no 7º verso).
(...)
In the same fashion, of my personal hurt,
already history, nothing remains
but this poem I scribble urgently,
and if its tenuous, threadbare existence
reflects love, it's because the thought
echoes its loss of the good that is present.
My lord, do not be at all startled
that overtaken by such ill fortune,
I steal this little space to inscribe it,
for whoever has the strength to go on
without killing himself by way of statement
has also the strength to write it down.
Nor it is I who write of my customary fate;
but within my heart, overwhelmed and broken,
the heartbreak writes, and I translate.
(...)
Direito à Indignação
"Admiro muito o trabalho de R Zenith mas está na altura de eu me indignar um bocadinho. Como é que esta notícia do Instituto Camões pode começar com a frase "A primeira tradução para inglês da poesia lírica de Luís de Camões"? Ainda o ano passado se lançou "The Collected Lyric Poems of Luís de Camões" - uma tradução de Landeg White que de resto foi comentada no lançamento de Zenith, onde estive. Já em 1884 R. Burton traduziu o que então pensava serem os poemas líricos completos, menos éclogas e elegias, e existem várias outras selecções parciais do século XIX. Sobre as recentes traduções, é justo dizer que se complementam: a de Zenith é um trabalho ponderado e exacto de um grande tradutor literário; a de L. White, que deu à língua inglesa também uns excelentes Lusiads (1997) é uma viagem de partilha amorosa entre poetas.
Já agora ainda digo mais: não me parece que R Zenith ou a Universidade de Dartmouth necessitem de publicidade enganosa. Não concebo que uma instituição cujo principal objectivo é a divulgação da língua portuguesa no estrangeiro, e que assume por nome o do poeta em causa, possa encetar uma notícia com um lapso destes.
Monday, June 01, 2009
Descrição de haver perdido a bordo
de memória, reserva especial
mal selada, havia lá marítimas
travessias, esquissos do velame,
planos, logs, tabelas de marés,
e partidas de king em horas
mortas, cálculos de azimutes,
havia relatos de perdas, queixas,
uma folha seca com fita gomada,
fixa a natureza a páginas
tantas, havia a minha mensagem
para o mundo, trajectos do espírito
com travessões e rimas mancas à – ah,
Dickinson – e Sede assim, cartografada
com maiúscula, a santa demanda da taça
fissurada, coágulo espesso, o sangue
que nunca seca bem no fundo, havia
amor com arrebiques de ficção, arrufos
conjugais, a fluida consciência assindética
amparando inexprimíveis comoções, havia
tropismos, apóstrofes de estímulos exteriores
com subjectiva irradiação, havia a íntima
confissão de minha filha elevando-se
cá dentro, raiada de tentáculos, vibrátil
medusa em muco de placenta ansiando
arborescer, havia algum motivo
de orgulho,
mas a fadiga dos fusos horários
mal registou o esquecimento, a crónica
de mim caída no tapete do aeroplano, varrida
junto com jornais, prospectos da companhia,
algum passageiro frequente tê-la-á pisado,
os funcionários da limpeza a bem
do asseio tê-la-ão – é o mais certo – destruído
.
Monday, May 25, 2009

Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:
quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo
ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei
julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.
*
Sunday, May 24, 2009
poema-resposta
do outro lado de mim há a casa
que tenho procurado
em corpo dos homens
por uma vez, duas vezes (eu só
sei bem
quantas)
encontrei-a.
Foi quando consegui dormir com ela.
Sunday, May 17, 2009
Medicação
Alegria
Literatura inclusa.
Posologia: ao menos
uma vez
cada dia
.
A menor arte poética
Não obstante o canto, se calhar
o que me agarra aqui é a textura.
Que faço no poema? Acupuntura,
o texto em vez do tacto, massagem
a mensagem
.
Saturday, May 16, 2009
Aniversário
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.
O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
no vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor
.
Wednesday, May 06, 2009
revisão da matéria dada
Sunday, May 03, 2009
Dia da Mãe
-se por dentro e é só cego animal
na oca luz do foco do hospital
pela qual a enfermeira sem nome
empurra as mãos como colher cavando
os muros do casulo de água duro
onde deves vir ao colo maduro,
mas és arisca e esquivas-te, nadando
a salvo do isco que te procura.
Até que a tua nuca desemboca
na minha boca, e ela te segura
com seus dedos hábeis, te desloca,
e por certeiro corte se desata
o nó da corda que de mim te aparta
.
Friday, April 24, 2009
Tuesday, April 21, 2009
Pequeno-Almoço com Bernardo Soares
.
Wednesday, March 25, 2009
Série Cartas de Lisboa

Rua do Cardal (25/03/09)
aqui da graça com Sol
às altas janelas de uma casa
e rua sem história tem subido
hora a hora aos vidros
e a um céu de impostora clareza
o assobio estrídulo do amolador
encostado como os pássaros
à promessa da Primavera
gostaria até de ter navalhas murchas
para a sua tarefa
mas tão alheio me é o orgulho
quanto estrangeiro o sentido da memória,
de mais tangíveis contornos quero
penso às vezes esta espera embora
pouco pese — e mesmo pressinto
que por isso adoce a existência e eu
aqui agora nestes minutos meço
se vale ou não o desejo de empreender
no golfo que dista entre o que será
de banal ou simples evidência
ou o que há em mim a reconhecer
se me chegasses a ver
.
Sunday, March 08, 2009
Thursday, March 05, 2009
Notícias de Gaia
.jpg)
Segundo o Portal da Juventude de Gaia vai decorrer "um pouco por toda a capital portuguesa" a festa de 200 anos do Poeta Edgar Allan. Os estudantes da Escola de Hotelaria de Gaia e Grande Porto pensam já na melhor maneira de fazer chegar ao Bar Incógnito um gigante bolo de dois andares, constituído por Corvo, busto de Palas e 200 círios, estes patrocinados pelo curador da nave lateral direita do Mosteiro de Alcobaça. Paralelamente ao evento, sairá o livro Obra Poética Completa "com chancela da Tinta da China e autoria de Margarida Vale da Costa", correndo ainda rumores à boca pequena, não confirmados até ao fecho da edição, de que este contará com ilustrações doadas por um artista com deficiências motoras
.
Friday, February 27, 2009
mais uma variação (já cá faltava)

para o mano Roger
Herr God, Herr Lucifer
Há que
Resguardar.
Das cinzas renasço
Com meu cabelo ruivo
E devoro homens como ar
.
so hush little baby
.
Sunday, February 22, 2009
lembrete: como chegar ao início da Primavera
inspirar o rio imaginando que preenche o umbigo
expirar pelos olhos os telhados o casario os arcos a ponte
comer uma carcaça
.
Saturday, February 21, 2009
post post scriptum
sinto no avesso conflito da tua ternura
dista a memória milhas já
e o que resta neste instante
só
(um whisky após) o mesmo o intenso
desejo paz
.
mais ondas
para além das quem dera ser (e toca-me)
UMA ONDA
1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia
2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia
3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo
4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma
5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia
6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.
7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).
Manuel Rui
foto cortesia arodaemroda
.
Monday, January 19, 2009
Não é todos os dias
que o escritor da América mais amado pela Europa faz 200 anos. Para parabenizar o Edgar, aqui fica a tradução de um seu poema curto e plácido, como poucos.
Tua beleza para mim, Helena,
É como a das antigas naus nicenas,
Que embalavam sobre oloroso mar
O viajante, e alijavam suas penas,
Trazendo-o para as praias do seu lar.
Dos mares que eu cruzava, tão agrestes,
Tu, Náiade de tez preclara, amena,
Com flores de jacinto nas melenas,
À glória, que foi Grécia, me trouxeste;
Em Roma, que foi grande, me acolheste.
Te vejo à janela, em teu recanto:
Altiva, tal estátua, te levantas,
E a ágata transluz na lamparina
Em tua mão, Psique, que me ilumina
Ardendo dos confins da Terra Santa!
Sunday, January 11, 2009
Thursday, January 08, 2009
e por que não um pouco de publicidade?
Wednesday, December 31, 2008
eu sabia que já tinha lido uma coisa parecida
António Lobo Antunes, Memória de Elefante
.
Tuesday, December 30, 2008
Almirante Reis
A nossa solidão é esta avenida decotada,do passeio do acaso, do furtivo e escancarado,
artéria tantas vezes paralela ao coração,
onde ninguém serve a nenhuma arquitectura;
onde sobe a miséria do terminal do eléctrico
até à igreja fronteira à sopa dos pobres,
temporárias sentinelas armando cartões
nas fachadas das lojas, trastes e artigos
de ocasião (apanham-nos de dia noivos
investindo num projecto de família).
O nosso é este meio de solidão, que se carrega
de qualquer coisa que não é bem perpétua
atmosfera de névoa, nem sujidade, que também
é terna, pena suspensa (corvos de Lisboa, naus
gastas no chão), saudade, por que não, sentimento
de povo sem pátria em que descreio; crer
creio
nisto que na indigência e vício coexiste a gente
dá-se e da carência faz-se uma disciplina às claras
e por muito pouco desprende-se quase nada
que se tem
.
Monday, December 29, 2008
ODES de Ana Salomé (Canto Escuro, 2008)
e eis que é chegado o fim
como uma pedra que se suspendeu
e depois pousou no chão vencida
vencida pelo cansaço de querer mais
do que uma simples pedra pode querer
esta pedra, que josé ferreira gomes conhecia,
que ele próprio atirou contra a noite e o dia
no jardim que era, afinal, todos os jardins
que ele próprio comeu, depois do pódio do chão,
como uma sombra demasiado sombria
que ele próprio supôs como a palavra.
e eis que me dou conta que existo rodeada
de palavras e de pedras caídas - ou anjos em
falência.
não sou homem, e a uma mulher é mais difícil
viver só com as palavras. e quando digo só é só que digo.
esta vida a meio-gás, o JL no braço,
a mesa na esplanada de inverno e o cigarro, até esse,
a apagar-se até ao desnorte.
todo este frio de olhar em volta
e não ver a estrela nem a graça
de não ter uma única casa - uma única casa - branca
nas ruas desta ferida.
de olhar em volta, o centro comercial - o centro,
como esta palavra poderia ser bela - a trazer-me
os outros como uma paisagem sobre as folhas do jornal.
no centro comercial há tantos casais
que se amam como um padrão de pombos - ali, agora mesmo, um homem de bigode
e uma mulher de seios descaídos -
também os seios caem como as pedras suspensas - também os seios -
amam-se com a facilidade com que viro
as páginas do jornal e abandono os temas desisteressantes.
meu deus, faz com que eu tenha os seios descaídos
e dá-me um homem de bigode que me leve a passear no centro comercial.
não quero um amor maior do que o amor possível,
a lição dos livros - esta inqueitação - esta grande inquietação -
cansei-me de amar rodeada de palavras
e de vento e de nada
alguém que não vem mais.
levanto-me da mesa do café,
puxo a gola do casaco para cima,
prendo o cabelo
e vou para onde não sei.
Ana Salomé
Sunday, December 21, 2008
Wednesday, December 17, 2008
O raio do pombo
Quando virem minha pomba pelos campos pela eira
Negra, negra como um corvo azulada e luzidia
Não lhe atirem, não a matem, não a prendam que seria
Para mim ficar dormindo sem a minha companheira.
Há três anos e três dias que eu com ela vivo só
Há três anos e três dias que indo ver nascer o Sol
Ao findar duma elegia do nocturno rouxinol
Uma pomba na janela veio olhar-me a mim com dó.
Eu não sei se foi tristeza se prazer o que senti
Sei que os olhos negros tristes, compassivos, dolorosos
Ao fixarem-se nos meus doloridos lacrimosos
Me lembraram as saudades dum passado que perdi.
Costumava eu pela noite na janela do nascente
Esperar que a luz viesse colorir de azul o Céu
De maneira que no dia em que a pomba m’apareceu
Cuidei ser da noite a imagem junto a mim sempre presente.
Desde então que a pomba negra nunca mais, na natureza
[Sombra vã duma] saudade me deixou um só instante
[Vai às vezes] pelos campos a voar sinistra errante
Para vir junto da casa considerar-me com tristeza.
Monday, December 15, 2008
Solicitações
e ficar quase num estado larvar assim
nem em alto nem em baixo
como tão cândido escreveste
com erros ortográficos que guardo para mim
e me fazem lembrar que não és rei de Ítaca
e talvez nem voltes cá, também
me fazem lembrar quando me chamas brava
embora agora não ouça:
para estar suspensa é preciso não usar os sentidos,
especialmente os da cabeça
que são eles que avisam quando é tempo de doerem os músculos
e de os membros inferiores terem formigueiros
e de ser preciso correr sangue antes de se porem roxos,
mas por enquanto não custa;
é tão agradável, desde que não pense muito
qual de nós vai ser primeiro a ficar frouxo
e cada noite faço versos para não ter outros
compromissos além de urdir o nosso enlace.
Se fosse hoje Penélope também
preferia dormir com barbitúricos
.
Sunday, December 14, 2008
Uma falha no programa
de ser gentilmente votada
ao meu lugar de amante
intensa, grata e gozada
e é melhor que fique assim,
nem me queixo, inconveniente
sou para todo o protocolo
e além disso algo demente;
tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme
e desprendimento – aliás,
agradeço que entre portas
me deixem dedicar mil vezes,
no meio dos uivos e lodos,
a minha vulnerabilidade –
– mas se por acaso, só desta,
for mesmo da minha cabeça
e acontecer de outro modo,
fico de tal forma contente
que hei-de agradar-vos a todos
.
Para não enganar ninguém
Aquiuma crítica severa e provavelmente certeira às traduções de Daniel Ladinksy que tenho vindo a utilizar e também a alterar. Embora reste a hipótese de neste caso - só neste - o excesso de zelo ser contraproducente para o trabalho de amor, e de se calhar não devermos mesmo ser assim tão religiosos
.
Saturday, December 13, 2008
Hafiz (em loop)
Dizem alguns deuses, os pequeninos,
“Eu não estou aqui, nos teus lábios vibrantes, húmidos
Que precisam de banhar-se sobre
A praia dourada de um
Corpo nu.”
Dizem alguns deuses, “Eu não sou
O anseio em ferida da alma não correspondida;
Eu não sou a face afogueada
De cada estrela e
Planeta –
Eu não sou o Regente aprovador
Dessas secreções preciosas que podem destilar
Todo o espírito numa jóia perfeita e cintilante, nem que por
Um só instante;
Nem resido em cada monte de estrume quente e doce
Que brota da gratuitidade
Da Terra.”
Dizem alguns deuses, os que temos de enforcar,
“A tua boca não foi feita para conhecer a Sua,
O amor não nasceu para consumir
Os reinos
Luminosos.”
Meus queridos,
Cuidado com esses deuses que os homens assustados
Criam
Para trazer consolo e anestesia
Aos seus tristes
Dias.
*
UMA NECESSIDADE PREMENTE
Por
Uma necessidade premente
Estamos de mãos dadas
E escalamos.
Não amar é largar.
Ouçam,
Por aqui o terreno
É demasiado
Movediço
Para isso.
*
DOIS CHARCOS À CONVERSA
Choveu durante a noite
E formaram-se dois charcos no escuro
E puseram-se à conversa.
Disse um,
“É tão agradável estar finalmente nesta terra,
E encontrar-te também,
Mas o que irá acontecer quando
O Sol resplandecente vier
E nos transformar outra vez em espírito?”
Meus queridos,
Aproveitem a noite o mais que puderem.
Para quê perturbar o coração com o voo,
Quando ainda agora chegaram
E o coração se vos aquece com tamanhos desejos.
E olhem:
Tantos prados de pêlos macios plantados
Sobre vós.
Para quê perturbarem-se com Deus
Quando Ele se abstém de julgar
E é tão gentil
A menos que sejam santos e íntimos
Do círculo
Do Perfeito Um?
*
AS GRANDES RELIGIÕES
As
Grandes Religiões são os
Navios,
Os Poetas os botes
De salvação
Todas as pessoas sãs que conheço saltaram
Borda fora.
Isso é bom para o negócio, não
Hafiz?
*
PEPINOS E PRECES
Todo o dia
A terra brada
“Ui, obrigada.”
Um ui tão exuberante
Que começa a atirar
Coisas.
Como se Deus passasse num desfile a incentivar
Os arruaceiros
Com aquele tão lindo aspecto –
Que atrai como mel uma avalanche inteira de maníacos!
Gosto desta ideia de atirar coisas a Deus
E especialmente – o fazer de nós arruaceiros!
Portanto, assim que salto da cama
Começo a encher grandes sacos
Com sapatos velhos, pepinos
E
Preces
Para o próximo
Evento de consagração
Aberto-a-todos
E sabe Deus
A que mais.
*
OS LINDOS JOGOS DO AMOR
Dizem sensatamente os jovens amantes,
“Vamos experimentar este ângulo,
Talvez suceda algo de maravilhoso,
Talvez três sóis e duas luas
Rolem
De um esconderijo no corpo
Que a nossa paixão ainda tem de acender.”
Dizem os velhos amantes,
“Podemos fazer mais uma vez,
Que tal desta longitude
E latitude –
Balouçando de uma corda atada ao tecto,
Talvez uma parte de Deus
Se esconda ainda num canto do nosso coração
Que o nosso afecto ainda tem de revelar.”
Conclusão:
Não deixem nunca de brincar
A estes lindos
Jogos
Do Amor.
*
OS SUBÚRBIOS
Só nos podemos
Queixar
Quando vivemos nos subúrbios
De Deus.
*
ÀS VEZES DIGO A UM POEMA
Às vezes digo a um poema,
“Agora não,
Não vês que estou a tomar banho!”
Mas o poema normalmente não quer saber
E replica,
“Paciência, Hafiz,
Nada de preguiça –
Prometeste a Deus que davas uma ajuda
E Ele acaba de inventar
Esta nova canção.”
Às vezes digo a um poema,
“Não tenho forças
Para espremer mais uma gota
Do Sol.”
E não é raro o poema
Responder
Subindo para a mesa de um bar;
Depois, levanta a saia, pisca o olho,
Fazendo com que todo o céu
Desabe.
*
DEIXA LÁ A RELIGIÃO
O que é que
Os tristes têm
Em comum?
Parece que
Ergueram um altar
Ao passado.
E vão lá muitas vezes,
E fazem um estranho lamento e
Culto.
Onde começa a
Felicidade?
Onde deixamos
De ser assim
Tão
Religiosos.
*
PROCURAR MELHOR EMPREGO
Se já
Está provado
Que tamanha
preocupação
É negócio
Que não rende,
Porque
Não
Procurar
Melhor
Emprego?
*
IMAGINO QUE AGORA POR MUITO TEMPO
Aconteceu
Outra vez
Ontem
À Noite:
O Amor
Rebentou a rolha de si mesmo –
Espalhou os meus miolos
Pelo
Céu.
Imagino que agora por muito tempo
Algo de mim
Há-de parecer
Que cai como
Estrelas.
Hafiz (um excerto)
Eu gostava que vivesses em melhores condições
.
Thursday, December 11, 2008
Põe-se a vida
Deus deita Seu olho
Põe-se a vida
A aplaudir.
Inúmeras
Criaturas pegam nos instrumentos
E juntam-se à
Canção
Onde amor se faz conhecer
Contra outro
Corpo
Põe-se
A jóia no olho
A
Dançar.
Saturday, December 06, 2008
Ainda amor me alui, friável carapaça
Ó tão íntima bênção – que a não esqueça
E a conserve – após o acto claro, após
O imenso espanto exacto, me fecunde
Esta miséria funda, e assim desfeita,
Guardando, grata, o quanto ampla fui
Que faço só poema onde haja dentro carne
E corpos prefiro que cubram como casas
Melhor ainda tendas, asilos fugazes
Um ou dois furos, ventos, humidade, dádivas
.
Monday, November 24, 2008
Tuesday, November 04, 2008
Leminski, poeta de Curitiba (1944-1989)
podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano
eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano
.
Friday, October 10, 2008
Aniversário (II)
que teríamos feito anos. Não faz mal
tanto assim que as efemérides no geral
acendem o rancor, e já nos traz cansaço
sofrer das vezes todas, e mais depois
de partir o que foi comum; o desacato
porque o outro levou consigo o retrato
tirado por um enquanto eram os dois
– éramos –
nós. Ora aí está, dispense-se a poesia
de flexões de sintaxe e da narrativa. Haja
a sensatez de não querer decifrar nada
onde sempre de toda a forma fraqueja a
claridade. Pôs-se o luto, recolha cada
um o fumo do braço, o que acha que sentia
.
Wednesday, October 08, 2008
O Coronel
A sua mulher trouxe uma bandeja com café e açúcar. A sua
filha limava as unhas, o seu filho tinha ido sair à
noite. Havia jornais do dia, cães de estimação, uma pistola
na almofada ao lado dele. Nua a lua balançava no
seu negro estendal sobre a casa. Na televisão
dava uma série de polícias. Em inglês. Havia garrafas
partidas incrustadas nas paredes pela casa toda para
raspar as rótulas das pernas de um homem ou
retalhar-lhe as mãos. Nas janelas havia grades
como nas mercearias onde se vendem bebidas. Jantámos,
costeleta de borrego, bom vinho, na mesa um sino de ouro para
chamar a criada. A criada trouxe mangas verdes,
sal, um pão especial. Perguntaram-me se gostava
do país. Houve um breve intervalo de publicidade em
espanhol. A mulher levantou a mesa toda. Fez-se
conversa sobre as dificuldades da governação. O
papagaio disse olá no terraço. O coronel
mandou-o calar, e empurrou a mesa para
sair. O meu amigo disse-me com o olhar: tu não
digas nada. O coronel voltou com um saco do
supermercado. Despejou muitas orelhas humanas sobre
a mesa. Pareciam metades de alperces secos. Não
há outra maneira de dizer isto. Pegou numa delas,
sacudiu-a à frente das nossas caras, deitou-a
para um copo de água. Aí ganhou vida. Estou farto
de brincadeiras, disse ele. Quanto aos direitos seja
de quem for, digam lá na vossa terra que se vão
f.... Varreu com o braço as orelhas para o chão e ergueu
ao ar o resto do vinho. Há-de servir-lhe para a
poesia, não? Perguntou. Algumas das orelhas no chão
apanharam aquele fio de voz. Algumas das orelhas no
chão estavam coladas à terra.
Carolyn Forché
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Thursday, October 02, 2008
Tuesday, September 30, 2008
uma sapateira gigante

A mãe tinha saído. Eu tinha ficado na casa velha com a Mariana e a mãe dela, a Xana. Havia uma sapateira gigante que cuspia fogo e andava a destruir as casas todas mas não chegou a destruir a nossa. A Xana estava sempre a ir ver quando é que a sapateira cuspia fogo. O pai estava sempre a dormir. A sapateira não destruiu a nossa casa, mas ainda deitou fogo ao quarto da mãe. Só que não fazia mal porque a mãe estava noutro país. Era desse país, aliás, que tinha saído a sapateira gigante. Eu ainda quero comer uma sapateira, desde que não cuspa fogo
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Friday, September 26, 2008
Friday, September 19, 2008
uma paciência de louca
– Mas, seja como for, o que faz um amor sem trajecto?
Thursday, September 18, 2008
Manel, Manel não me deixes aqui

O AZUL (L'AZUR)
Do Azul infinito a plácida ironia
Estupefaz, bela indolente como as flores,
O poeta incapaz que o génio repudia
Através de um deserto árido de dores.
Esquivo, fechando os olhos, sinto-o observando,
Com a intensidade dum pesar demente
Minh’alma vazia; onde fugir? Que nefanda
Noite lançar, estilhas, contra seu contempto?
Deitai, ó densas névoas, as cinzas monótonas
Com andrajos de brumas pelo firmamento
Para afogar os lívidos pauis de Outono
E edificai um tecto mudo e envolvente!
E vai-te, tu, dos lodos de Letes, e traz,
Na volta, os limos e os pálidos bambus,
Caro Tédio, para vedar com mão tenaz
Os buracos que as aves abrem no céu cru.
E mais! Que sem descanso as tristes chaminés
Fumeguem, que uma urna esparsa de fuligem
Soterre no terror do seu obscuro grés
O ocaso que eclipsa de ouro a vertigem!
Está morto o Céu! A ti acorro, ó matéria!
Faz esquecer o fero Ideal e o Pecado
A este mártir que partilha a liteira
Onde o alegre gado humano jaz deitado.
Que quero – pois enfim meu cérebro de areia,
Tal balde de verniz vazado ao pé dum muro,
Não tem mais arte de avivar a fraca ideia –
Bocejar plangente ante um trespasse escuro.
Em vão! O azul triunfa e escuto-o nos sinos
A cantar. Por minh’alma! A voz que toma assusta
Ainda mais com sua glória escarninha,
E o metal vibra e toca hinos de angelus!
Rola através da bruma antiga e trespassa
A tua dor nativa como espada rútila:
Onde fugir nesta revolta amarga e lassa?
Eis-me assombrado: Azul! Azul! Azul! Azul!
Stéphane Mallarmé
A foto vem daqui.
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Wednesday, September 17, 2008
Versão de Moon Chung-hee (n. 1947, Coreia)

a partir do inglês de Windflower, trad. Wolhee Choe e Robert E. Hawks
A ARANHA
Um corpo mais pequeno que uma lasca de pedra
defrontando o vazio infinito
desenrola de um coração apertado
sedoso fio que de outro modo se não concebe
nem pelo Sol majestoso.
Sem confusão
costura o vazio
de onde emerge uma teia magnífica.
Ressoa no seu frémito
o som primitivo de uma viola.
Asas de prata presas
esvoaçam no Sol do meio-dia.
Onde vos perdestes?
Nesta terra
onde rosas e criaturinhas brincam
testemunho
Deus.
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Monday, September 15, 2008
Declaração de Intenções
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.
À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.
Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita
um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.
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O Melhor dos Açores
Charles Simic
UM LIVRO CHEIO DE BONECOS
O Pai estudava teologia por correspondência
E era a época dos exames.
A mãe tricotava. Eu sentava-me calmamente
Com um livro cheio de bonecos. A noite caía.
As minhas mãos arrefeciam a tocar as caras
Dos reis e rainhas mortos.
Havia uma gabardina preta
No quarto de cima
A abanar do tecto,
Mas que estava ali a fazer?
As longas agulhas da mãe faziam cruzes lestas
Que eram pretas
Como então o interior do meu coração.
Voltava as páginas e soavam a asas.
“A alma é um pássaro”, dissera ele.
No meu livro cheio de bonecos
Eclodia uma batalha: lanças e espadas
Faziam uma espécie de floresta de Inverno
Em cujos ramos o meu coração se picava e sangrava.
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Monday, September 01, 2008
Rentrée
FEITICISMO
É verdade que quando eu contigo
me inclinava o mundo por instantes
recuava. Entreguei-me a ti aberta
como nunca porque querias ver-me,
e já então pelos teus olhos eu
gozava. Quando, pois, te evaporaste
com uma assombrosa fixidez
mandei o espírito buscar-te o corpo
e amar nele e tornar-se um outro
que atravessava as tuas mulheres.
Investi a crueza que evitei
connosco: saciei-me assim de início
marcando até algumas, contra
a evidência de que entre dois
o mais violento não tem testemunhas.
Tanto me apliquei que cheguei a crer
que tu retribuías. Iludi-me
na complacência de, tomando outros,
me devolver também a ti. Porém,
foi-me custando mais a cada vez
voltar. Mergulhei, esqueci aos poucos
onde, entre este e aquele, arquejei
no engodo que chamei de nosso amor;
e raro sinto que ouça tua boca
resfolegar por sobre minha pele.
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Sunday, August 31, 2008
201
Parceria Breve
Já vieram as novas listas telefónicas.
O teu número é impossível de encontrar.
A tua família, creio, mudou de cidade.
Espero que lhes chegue a demorada alegria
sem que a tua memória a venha diluir.
Conheci-te num tempo tudo menos inocente
com ferozes sobressaltos de ternura. Tu já
perdido salvaste-me a adolescência
e a vida porventura. Parecias um índio
farejando os sulcos e os líquidos humores.
É sabido que os magnetes viajam velozes
atraídos pela circulação dos golfos sanguíneos.
Os cabelos cobriam-me no teu colo a cabeça
e a tua mão respirava sobre o meu desejo
num acto solene de xamanismo.
Depois que nos mentiste morreste sem cartas
com uma agulha erecta a prumo sobre a veia.
Recordo-nos, amor primeiro, boiávamos
ao mar um lugre o céu estrelas que eram ímanes
que singravam ondas pólos do nosso afecto.
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Saturday, August 30, 2008
Primavera dos Simples
A porta escancarada
As portadas de par em par
Corre uma brisa de nascente a poente
e o nosso amor é essa aragem
que atravessa através dos
longos dilúvios longos do mês de Março
(achei este no computador velho, com data de 28 de Março de 1999)
.
Tuesday, July 08, 2008
Sunday, July 06, 2008
Tuesday, June 17, 2008
Saturday, June 14, 2008
incarnation exceptée
Pretérito Imperfeito
chamar ali
completamente.
Connosco
tu estás lá
e eu estou lá
tanto o tempo
que durava
(A tradução disto é impossível em inglês. Pelo que o sentimento que expressa talvez seja linguísticamente circunscrito. Ou talvez seja apenas a expressão do sentimento que o é. De qualquer forma, a língua será um modificador do amor, por entre as variáveis de tempo e lugar. Outra alternativa: a língua como forma apriorística do sexo. O amor como nome que a língua dá ao sexo. Mas nem todo o sexo nem todo o amor. De toda a maneira, não me faz sentir melhor. Serei eu apenas a pensar mal. Ou a bater mal.)
Tuesday, June 10, 2008
Monday, June 09, 2008
Transportes
Sunday, June 08, 2008
Saturday, May 31, 2008
rios

Nesta última semana, ocuparam-me os rios, como este e este.
Sempre me achei mais do mar, mas talvez mudem as correntes. O rio é o espaço selvagem mas também das pessoas que nos traz ou para quem somos arrastadas. O rio atravessa-se. Não faria sentido nenhum haver um mar do esquecimento ou um mar da morte, ou barqueiros para nos orientarem ou iludirem entre as duas margens. Rio é comércio entre nós. Afinal, foi no último Dezembro que o meu guia, no Vale Sagrado dos Incas, me baptizou no Vilcanota, muito perto do preciso sítio que se vê na imagem.
primeiro dia de menstruação
e não há ninguém
em roda de mim
de barriga moída
e macerados rins
posso tirar o dia
para verter o sangue
e soletrar poesia.
Sunday, May 11, 2008
recordo às vezes que me dizem alguns versos
Nas longas mesas do tempo
bebem os cântaros de Deus.
Bebem até ao fim os olhos dos que vêem e os olhos dos cegos,
os corações das sombras dominantes,
as faces ocas da tarde.
São os mais poderosos bebedores:
levam à boca o vazio e o cheio
e não transbordam como tu ou eu.
Paul Celan
Agora muitas vezes só me toco
e muito mais me basta que embalar-me
em cartonada aspereza de palavras
com quanto me castiga este meu corpo
à falta de criar eu morro um pouco
e já a nada chego se a mão estendo
aí escurece insisto por instantes
só onde contraio me desloco
até ninguém me amar. O que me aquece
me seca e envergonha tudo nu
me cerca – tão voraz eu fui das chamas
que agora me consumo, não inflamo
ou quase não, nem tudo,
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Friday, April 25, 2008
A Reflexão dos Cravos
Sunday, April 20, 2008
Sunday, February 24, 2008
Chat
detectou duas crateras de auréolas
sombrias. Apresentam ambas bordos
quase intactos e muros de socalcos
segundo especifica o endereço
http://messenger.jhuapl.edu/
(anoto e espero que o poema
seja eterno e o link não). Cliquei
para ampliar a imagem, e dentro
vi pequeninas covas circulares
como as que na areia faz a chuva
ou nas fontes as moedas dos desejos.
Também por via Messenger te encontro
e troco novidades, mais veloz
do que a luz, mais ágil o gracejo
do que o próprio pensamento, faísca
o espaço – onde chegamos, sem risco
já de nos tocarmos; os dois estamos
cheios de buracos – e nem é grave
se soubermos flutuar. Em tudo isto
ainda há algo como um halo fundo
e um radar que é como água gotejando
por degraus, que inquieta mas seduz
e nos deixa sombrios intactos sós.
Saturday, February 23, 2008
sex symbol bis
Monday, February 18, 2008
o primeiro pássaro que namora
Monday, February 04, 2008
Sunday, January 27, 2008
poema de Rogério Rôla para mim
DESCOLAGEM
Como eu gostava de me elevar
na ponta dos pés quando me abraçavas
e pendurar-me ao teu pescoço.
Sorvia -te os olhos a voz e os lábios
e a tua nuca voava mais alto
como aeronave que toma outro rumo.
Eu ia feliz seguindo embalada
a directriz da tua viagem
sempre pendurada ao teu pescoço.
Os calcanhares já não tocam o solo
cruzo a estratosfera o ar rarefeito
pendurada e rígida ao teu pescoço.
Rogério Rôla
Saturday, January 26, 2008
Friday, January 25, 2008
Wednesday, January 16, 2008
Ressabiadas

Talvez lá no fundo acredite
que os seres humanos são todos sensivelmente
os mesmos em toda a parte, mas então
necessariamente as mulheres são mais.
Costumes que frequentamos:
o arame da loiça, os panos dos pratos, os ganchos e as linhas
do estendal, a vinha-de-alhos, o fogão,
o alguidar, guardamos os restos, torcemos
os trapos, os nossos recados, os nossos sacos,
os nossos ovos.
Certamente que eles, em grande maioria,
escanhoam os queixos e gostam
de arejar, mas são médicos, polícias,
engraxadores, economistas
e os vários naipes da banda filarmónica
nós somos todas domésticas, mesmo
assim não nos entendemos, e
nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice, e a poesia
vem dos anjos já se sabe
carecidos de sexo.
E aliás que me rala a mim,
levo a minha vida e tenho o amor
de que não desconfio
e se consolo o cio e a fome
decerto falo de cor,
nem é por isso que me doem os calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos, refinadas
galdérias que se tomam a sério,
pestanas certeiras e beiços
que brilham, línguas que estalam
e mamas que chispam
corada invoco a imagem mal tirada
da fêmea recortada ao macho que a conforma;
sei que desminto qualquer laço comunal
e seja como for ninguém pediu
o meu palpite, pelo que não me habilito
e me desquito, acinte
mudo, era eu
quem estava mal.
Sunday, January 06, 2008
Saturday, January 05, 2008
Mosteiro de Odivelas
da Rainha Santa, percorríamos a emparedada adolescência
e, como rezava a lenda, no nosso colo
o pão da merenda em rosas se mudava;
com elas engrinaldávamos o júbilo imperfeito
que o pudor cerceava.
Como lira a estridência dos nossos corpos
de sombrias raparigas, na argila mergulhávamos
as mãos que dilatavam as primícias do Verão
e éramos inocentes conquanto experimentadas
no ofício da entrega e da sujeição.
Iludindo as harpias que nos espiavam,
a amiga e eu trocávamos de mãos dadas
junto às grades interditas palavras,
boca a boca nos enlevávamos
no atrito do canto das cigarras.
Wednesday, January 02, 2008
O BRANCO DO CORPO
Um esboço de canábis a branco
As lágrimas a branco deslizando sob as lentes
O estômago a branco, retorcendo-se
O coração branqueado, vais deixar-me
Porque nunca sorrimos
Como um casal feliz.
Eu arrancava-te todo o branco do corpo
Para te ensinar a ferida.
Como sempre sento-me à beira da cama
O rumor de uma palavra não dita destroça tudo
Chama-me, morde-me, chora um pouco mais
Vem
Apesar de tudo não sei o que tenho e quero
Acariciar-te.
Rocío Silva Santisteban (n. Lima, 1963) - de Mariposa Negra, 1993
Friday, December 28, 2007
Porque tenho vocação para o melodrama
Coping
aplico com rigor, e no preciso
sítio em que pulsa paraliso
tudo, quem está morto livre está.
Creio que começou quando cedeu
o avô. Alguém disse: afinal
o coração não aguentou. Eu
pensei: mais vale declinar o abalo.
Mas também não cheguei nessa altura
até ao fim. Escangalhei-me na novena
aos degredados filhos de Eva.
Iniciei-me então nos barbitúricos
e hoje passo bem melhor. Às vezes
é um jogo, em que recorro ao coito
antes da apanhada, e se esgoto
essa via, dedico-me à mimese,
diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não
há como acordar um corpo mudo.
Por exemplo agora que não veio
o homem, podia ter-me ferido
ou saído à busca de outro, e perdido;
mas pratico com vantagem a apneia
e a domesticidade. É pena
que me esqueça tanta coisa; foi
sorte saber da lamela – eia, pois,
advogada nossa – dormir serena.






















