Havia no canhenho doze anos
de memória, reserva especial
mal selada, havia lá marítimas
travessias, esquissos do velame,
planos, logs, tabelas de marés,
e partidas de king em horas
mortas, cálculos de azimutes,
havia relatos de perdas, queixas,
uma folha seca com fita gomada,
fixa a natureza a páginas
tantas, havia a minha mensagem
para o mundo, trajectos do espírito
com travessões e rimas mancas à – ah,
Dickinson – e Sede assim, cartografada
com maiúscula, a santa demanda da taça
fissurada, coágulo espesso, o sangue
que nunca seca bem no fundo, havia
amor com arrebiques de ficção, arrufos
conjugais, a fluida consciência assindética
amparando inexprimíveis comoções, havia
tropismos, apóstrofes de estímulos exteriores
com subjectiva irradiação, havia a íntima
confissão de minha filha elevando-se
cá dentro, raiada de tentáculos, vibrátil
medusa em muco de placenta ansiando
arborescer, havia algum motivo
de orgulho,
mas a fadiga dos fusos horários
mal registou o esquecimento, a crónica
de mim caída no tapete do aeroplano, varrida
junto com jornais, prospectos da companhia,
algum passageiro frequente tê-la-á pisado,
os funcionários da limpeza a bem
do asseio tê-la-ão – é o mais certo – destruído
.
Monday, June 01, 2009
Monday, May 25, 2009

Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:
quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo
ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei
julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.
*
Sunday, May 24, 2009
poema-resposta
(a um poema de um poeta de expressão inglesa cujo nome não me lembro, que me foi dado ler aqui)
do outro lado de mim há a casa
que tenho procurado
em corpo dos homens
por uma vez, duas vezes (eu só
sei bem
quantas)
encontrei-a.
Foi quando consegui dormir com ela.
do outro lado de mim há a casa
que tenho procurado
em corpo dos homens
por uma vez, duas vezes (eu só
sei bem
quantas)
encontrei-a.
Foi quando consegui dormir com ela.
Sunday, May 17, 2009
Medicação
indicada contra a melancolia.
Alegria
Literatura inclusa.
Posologia: ao menos
uma vez
cada dia
.
Alegria
Literatura inclusa.
Posologia: ao menos
uma vez
cada dia
.
A menor arte poética
ao Rui Almeida
Não obstante o canto, se calhar
o que me agarra aqui é a textura.
Que faço no poema? Acupuntura,
o texto em vez do tacto, massagem
a mensagem
.
Não obstante o canto, se calhar
o que me agarra aqui é a textura.
Que faço no poema? Acupuntura,
o texto em vez do tacto, massagem
a mensagem
.
Saturday, May 16, 2009
Aniversário
Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.
O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
no vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor
.
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.
O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
no vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor
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Wednesday, May 06, 2009
revisão da matéria dada
as pessoas mudam, e o amor é seu mais poderoso transformador, mesmo que nem sempre se possa garantir a irreversibilidade ou os benefícios de médio e longo termo das alterações produzidas
.
Sunday, May 03, 2009
Dia da Mãe
Já não sente este corpo, dói e come-
-se por dentro e é só cego animal
na oca luz do foco do hospital
pela qual a enfermeira sem nome
empurra as mãos como colher cavando
os muros do casulo de água duro
onde deves vir ao colo maduro,
mas és arisca e esquivas-te, nadando
a salvo do isco que te procura.
Até que a tua nuca desemboca
na minha boca, e ela te segura
com seus dedos hábeis, te desloca,
e por certeiro corte se desata
o nó da corda que de mim te aparta
.
-se por dentro e é só cego animal
na oca luz do foco do hospital
pela qual a enfermeira sem nome
empurra as mãos como colher cavando
os muros do casulo de água duro
onde deves vir ao colo maduro,
mas és arisca e esquivas-te, nadando
a salvo do isco que te procura.
Até que a tua nuca desemboca
na minha boca, e ela te segura
com seus dedos hábeis, te desloca,
e por certeiro corte se desata
o nó da corda que de mim te aparta
.
Friday, April 24, 2009
Tuesday, April 21, 2009
Pequeno-Almoço com Bernardo Soares
"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
.
.
Wednesday, March 25, 2009
Série Cartas de Lisboa

Rua do Cardal (25/03/09)
aqui da graça com Sol
às altas janelas de uma casa
e rua sem história tem subido
hora a hora aos vidros
e a um céu de impostora clareza
o assobio estrídulo do amolador
encostado como os pássaros
à promessa da Primavera
gostaria até de ter navalhas murchas
para a sua tarefa
mas tão alheio me é o orgulho
quanto estrangeiro o sentido da memória,
de mais tangíveis contornos quero
penso às vezes esta espera embora
pouco pese — e mesmo pressinto
que por isso adoce a existência e eu
aqui agora nestes minutos meço
se vale ou não o desejo de empreender
no golfo que dista entre o que será
de banal ou simples evidência
ou o que há em mim a reconhecer
se me chegasses a ver
.
Sunday, March 08, 2009
Thursday, March 05, 2009
Notícias de Gaia
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Segundo o Portal da Juventude de Gaia vai decorrer "um pouco por toda a capital portuguesa" a festa de 200 anos do Poeta Edgar Allan. Os estudantes da Escola de Hotelaria de Gaia e Grande Porto pensam já na melhor maneira de fazer chegar ao Bar Incógnito um gigante bolo de dois andares, constituído por Corvo, busto de Palas e 200 círios, estes patrocinados pelo curador da nave lateral direita do Mosteiro de Alcobaça. Paralelamente ao evento, sairá o livro Obra Poética Completa "com chancela da Tinta da China e autoria de Margarida Vale da Costa", correndo ainda rumores à boca pequena, não confirmados até ao fecho da edição, de que este contará com ilustrações doadas por um artista com deficiências motoras
.
Friday, February 27, 2009
mais uma variação (já cá faltava)

para o mano Roger
Herr God, Herr Lucifer
Há que
Resguardar.
Das cinzas renasço
Com meu cabelo ruivo
E devoro homens como ar
.
so hush little baby
a ambiguidade da linguagem, comparada com a do silêncio, é uma brincadeira de meninos de cueiros
.
.
Sunday, February 22, 2009
lembrete: como chegar ao início da Primavera
ir lá a cima ao monte
inspirar o rio imaginando que preenche o umbigo
expirar pelos olhos os telhados o casario os arcos a ponte
comer uma carcaça
.
inspirar o rio imaginando que preenche o umbigo
expirar pelos olhos os telhados o casario os arcos a ponte
comer uma carcaça
.
Saturday, February 21, 2009
post post scriptum
Se a imprevista doçura ainda
sinto no avesso conflito da tua ternura
dista a memória milhas já
e o que resta neste instante
só
(um whisky após) o mesmo o intenso
desejo paz
.
sinto no avesso conflito da tua ternura
dista a memória milhas já
e o que resta neste instante
só
(um whisky após) o mesmo o intenso
desejo paz
.
mais ondas
para além das quem dera ser (e toca-me)
UMA ONDA
1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia
2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia
3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo
4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma
5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia
6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.
7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).
Manuel Rui
foto cortesia arodaemroda
.
Monday, January 19, 2009
Não é todos os dias
que o escritor da América mais amado pela Europa faz 200 anos. Para parabenizar o Edgar, aqui fica a tradução de um seu poema curto e plácido, como poucos.
PARA HELENA
Tua beleza para mim, Helena,
É como a das antigas naus nicenas,
Que embalavam sobre oloroso mar
O viajante, e alijavam suas penas,
Trazendo-o para as praias do seu lar.
Dos mares que eu cruzava, tão agrestes,
Tu, Náiade de tez preclara, amena,
Com flores de jacinto nas melenas,
À glória, que foi Grécia, me trouxeste;
Em Roma, que foi grande, me acolheste.
Te vejo à janela, em teu recanto:
Altiva, tal estátua, te levantas,
E a ágata transluz na lamparina
Em tua mão, Psique, que me ilumina
Ardendo dos confins da Terra Santa!
Tua beleza para mim, Helena,
É como a das antigas naus nicenas,
Que embalavam sobre oloroso mar
O viajante, e alijavam suas penas,
Trazendo-o para as praias do seu lar.
Dos mares que eu cruzava, tão agrestes,
Tu, Náiade de tez preclara, amena,
Com flores de jacinto nas melenas,
À glória, que foi Grécia, me trouxeste;
Em Roma, que foi grande, me acolheste.
Te vejo à janela, em teu recanto:
Altiva, tal estátua, te levantas,
E a ágata transluz na lamparina
Em tua mão, Psique, que me ilumina
Ardendo dos confins da Terra Santa!
Sunday, January 11, 2009
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