Friday, August 06, 2010

Woolf



Someone has blundered
alguém meteu o pé na argola
e tu és a óbvia suspeita
Likely it was you

a vida irremediavelmente enrolou-se
e agora não se endireita
in an impassable crux
Sobrevém, pois, irresistível, comoção
do fluxo
What are we to do against the summon of the swoon
O transtorno das águas o tocar o fundo
the swell of your backward burial
mergulhar em câmara invertida
como dizem que passa a vida
quando se abandona o mundo

mesmo que desejes ainda
parar
o gesto nada
vai mudar if you wanted to press stop now it’s too late
a água é densa turva provavelmente
gelada
and the stones are loaded dice
nos bolsos a escuridão dilui-se
lentamente
ice cold thick, there you stood, yet ever did you regret what you undertook?

Quiseste alguma vez um pouco
menos de talento
?

Saturday, June 12, 2010

Condições mínimas

Esta sarça é interdita a matilhas;
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas

semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha

e que só uso eu; a nós vontade
basta – e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,

aceitas? compreendes? aguentas?

no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro
.

Sunday, May 09, 2010

Gosto muito do meu macaco


toda a gente pensa que ele e so um peluche insensivel espicialmente é o M que diz isso. há muita gente que não acredita em peluche e pensão que esas pessoas são doidas mas as pessoas que não acreditam é que perdem.

Sunday, April 25, 2010

25 de Abril


sempre

(nem que seja para mostrar que este blog continua vivo, embora a precisar de assistência respiratória)

Sunday, November 22, 2009

One Art

A arte de perder não custa dominar;

há tantas coisas que parecem decididas

a perder-se, que o mundo não pode acabar.

Perder quotidianamente. Há que aceitar

a falta das chaves, a hora consumida.

A arte de perder não custa dominar.

Depois treina-te a perder mais e sem parar:

nomes, e sítios, onde tinhas prometido

que ias; nem por isso há-de o mundo acabar.

Perdi o relógio da minha mãe, e – azar! –

a última, ou quase, das minhas casas queridas.

A arte de perder não custa dominar.

Perdi duas cidades, lindas, e, para somar,

duas terras, dois rios, e tantas despedidas

de coisas que faltam mas não causam pesar.

– Até perder-te a ti (a voz de troça, a xingar

que eu amo) não estou a enganar. É sabido

que a arte de perder não custa dominar,

embora pareça (escreva-se!) o mundo a acabar.

Oh, não, seja o que for o que for à excepção do amor

Diz: o mundo a acabar. (nota de Bishop para o poema)


Elizabeth Bishop
http://www.youtube.com/watch?v=6dudxfkrYi4&feature=related

Sunday, November 08, 2009



Acordei hoje como se fosse natural-

mente necessário ter o comprimento

do teu corpo na minha cama e estranhei

que não me abraçasses, nem preenchesse

o encaixe da tua pélvis

as minhas nádegas, a tua mão

sobre o meu monte, os teus joelhos

encostados à dobra onde os meus flectem.

Vês daí como tudo aqui ainda e sempre

treme continuamente, e a descompasso

do real, todos os dias tenho calores

de imaginação, trabalho a líbido

do cansaço, se fecho os olhos não durmo

e ao invés viajo dentro de mim

enchendo-me de corpos e fricções. Depois

no outro plano, já sentiste, custa-me

estar presente: das consecutivas vezes

que nos tocámos na boca, estudei os beijos

como uma alegoria embaraçosa:

tudo sob o comando diferido

da cabeça, com tensão mais que tesão,

a minha língua esgrimia a tua, quase

nada clamava ou humedecia, talvez

exceptuando um latido pequeno de amor

a pingar com irritação, não sei,

e além do mais haveria que indagar

se realmente são compatíveis as nossas

espécies, se isso é motivo de inevitabilidade,

ou de eu precisar das tuas carícias

nos anéis das cervicais, ou dos teu dedos

na pele ou o princípio do escuro

a partir do perímetro da cintura.

Sunday, August 09, 2009

"Aquela que de amor descomedido"


Não resisto, depois do post abaixo, a colocar parte da minha tradução até agora favorita de Landeg White. A elegia é longa, e não transcrevo tudo, mas a verdade é que se não fosse a leitura nova do inglês, a mim nunca me teria tocado tanto este poema de Camões (clicar aqui para comparar com português, infelizmente sem quebra dos tercetos; o que transcrevo começa no 7º verso).








(...)

In the same fashion, of my personal hurt,
already history, nothing remains
but this poem I scribble urgently,

and if its tenuous, threadbare existence
reflects love, it's because the thought
echoes its loss of the good that is present.

My lord, do not be at all startled
that overtaken by such ill fortune,
I steal this little space to inscribe it,

for whoever has the strength to go on
without killing himself by way of statement
has also the strength to write it down.

Nor it is I who write of my customary fate;
but within my heart, overwhelmed and broken,
the heartbreak writes, and I translate.

(...)

Direito à Indignação

Comentei isto além, mas como raramente me indigno, e já há muito que aqui não boto nada, resolvi repetir:
"Admiro muito o trabalho de R Zenith mas está na altura de eu me indignar um bocadinho. Como é que esta notícia do Instituto Camões pode começar com a frase "A primeira tradução para inglês da poesia lírica de Luís de Camões"? Ainda o ano passado se lançou "The Collected Lyric Poems of Luís de Camões" - uma tradução de Landeg White que de resto foi comentada no lançamento de Zenith, onde estive. Já em 1884 R. Burton traduziu o que então pensava serem os poemas líricos completos, menos éclogas e elegias, e existem várias outras selecções parciais do século XIX. Sobre as recentes traduções, é justo dizer que se complementam: a de Zenith é um trabalho ponderado e exacto de um grande tradutor literário; a de L. White, que deu à língua inglesa também uns excelentes Lusiads (1997) é uma viagem de partilha amorosa entre poetas.
Já agora ainda digo mais: não me parece que R Zenith ou a Universidade de Dartmouth necessitem de publicidade enganosa. Não concebo que uma instituição cujo principal objectivo é a divulgação da língua portuguesa no estrangeiro, e que assume por nome o do poeta em causa, possa encetar uma notícia com um lapso destes.

Monday, June 01, 2009

Descrição de haver perdido a bordo

Havia no canhenho doze anos
de memória, reserva especial
mal selada, havia lá marítimas
travessias, esquissos do velame,
planos, logs, tabelas de marés,

e partidas de king em horas
mortas, cálculos de azimutes,
havia relatos de perdas, queixas,
uma folha seca com fita gomada,
fixa a natureza a páginas
tantas, havia a minha mensagem
para o mundo, trajectos do espírito
com travessões e rimas mancas à – ah,
Dickinson – e Sede assim, cartografada
com maiúscula, a santa demanda da taça
fissurada, coágulo espesso, o sangue
que nunca seca bem no fundo, havia
amor com arrebiques de ficção, arrufos
conjugais, a fluida consciência assindética
amparando inexprimíveis comoções, havia
tropismos, apóstrofes de estímulos exteriores
com subjectiva irradiação, havia a íntima
confissão de minha filha elevando-se
cá dentro, raiada de tentáculos, vibrátil
medusa em muco de placenta ansiando
arborescer, havia algum motivo
de orgulho,
mas a fadiga dos fusos horários
mal registou o esquecimento, a crónica
de mim caída no tapete do aeroplano, varrida
junto com jornais, prospectos da companhia,
algum passageiro frequente tê-la-á pisado,
os funcionários da limpeza a bem
do asseio tê-la-ão – é o mais certo – destruído
.

Monday, May 25, 2009


















Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.
*

Sunday, May 24, 2009

poema-resposta

(a um poema de um poeta de expressão inglesa cujo nome não me lembro, que me foi dado ler aqui)

do outro lado de mim há a casa
que tenho procurado
em corpo dos homens

por uma vez, duas vezes (eu só
sei bem
quantas)
encontrei-a.

Foi quando consegui dormir com ela.

Sunday, May 17, 2009

Medicação

indicada contra a melancolia.

Alegria

Literatura inclusa.

Posologia: ao menos
uma vez
cada dia
.

A menor arte poética

ao Rui Almeida

Não obstante o canto, se calhar
o que me agarra aqui é a textura.
Que faço no poema? Acupuntura,

o texto em vez do tacto, massagem
a mensagem
.

Saturday, May 16, 2009

Aniversário

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.

O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
no vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor
.

Wednesday, May 06, 2009

revisão da matéria dada

as pessoas mudam, e o amor é seu mais poderoso transformador, mesmo que nem sempre se possa garantir a irreversibilidade ou os benefícios de médio e longo termo das alterações produzidas
.

Sunday, May 03, 2009

Dia da Mãe

Já não sente este corpo, dói e come-
-se por dentro e é só cego animal
na oca luz do foco do hospital
pela qual a enfermeira sem nome

empurra as mãos como colher cavando
os muros do casulo de água duro
onde deves vir ao colo maduro,
mas és arisca e esquivas-te, nadando

a salvo do isco que te procura.
Até que a tua nuca desemboca
na minha boca, e ela te segura

com seus dedos hábeis, te desloca,
e por certeiro corte se desata
o nó da corda que de mim te aparta
.

Friday, April 24, 2009

Tuesday, April 21, 2009

Pequeno-Almoço com Bernardo Soares

"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
.

Wednesday, March 25, 2009

Série Cartas de Lisboa


Rua do Cardal (25/03/09)






aqui da graça com Sol
às altas janelas de uma casa
e rua sem história tem subido
hora a hora aos vidros
e a um céu de impostora clareza
o assobio estrídulo do amolador
encostado como os pássaros
à promessa da Primavera

gostaria até de ter navalhas murchas
para a sua tarefa



mas tão alheio me é o orgulho
quanto estrangeiro o sentido da memória,
de mais tangíveis contornos quero
penso às vezes esta espera embora
pouco pese — e mesmo pressinto
que por isso adoce a existência e eu
aqui agora nestes minutos meço
se vale ou não o desejo de empreender
no golfo que dista entre o que será
de banal ou simples evidência
ou o que há em mim a reconhecer
se me chegasses a ver
.

Sunday, March 08, 2009

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