porque terias de viver para eu continuar
a alimentar imagens como jovens crias
e porque ainda podia ser
no Miguel Bombarda há
trinta anos quando acedeste a ver-me fazia sol
preparei-me para a tua ufana complacência
descartei a sonsice dum livro para assinares
e enfiei a farpela à altura dum relance
sobre a diferença de idades
um isco de beleza um filtro de desamparo
uma cosmética de ingenuidade
seria melhor que um autógrafo
um período num romance teu
havia sol havia um cisco a cair numa camélia
no banco na orla do panóptico
e falámos falaste sobretudo eu ouvi
dos poucos poetas que te assistiam
oito horas por dia lendo depois quatro escrevendo
Gottfried Benn e Cristovam Pavia
fora os loucos que ainda consultavas
e ali esbracejavam à passagem nos cobiçavam os maços
faz favor doutor faz favor menina
orientem uma moeda
então uma priscazinha
nos acusavam nos viam à transparência
desorbitados
o alheamento clínico
ou a exposição do sujo ou a cobarde mania
das grandezas comoventes
as arrelias tornadas magnetes de desgraça
as voluptuosas querelas de famílias
para um único bom poema
ainda assim ao alcance de um mau
escritor qualquer
fizeste notar
longe das torturas do grande romance
bastava olhar
para os americanos do Sul
o Marquez o Faulkner o McCarthy mas o Styron
já um triste com a sua mãe todo o dia
agarrando-se às escuras
eu portanto tinha muito que pensar
se era capaz de passar dias sem uma linha
os olhos arregalados
quanto tempo aguentaria
sendo tudo tão prestes a perder-se
bem haja uma priscazinha
se mandava aquilo
ao diabo
que se lixe
era ali e eu
nem carne nem peixe
gaja
Margarida e o mestre
não me descosi e tu partiste
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