A minha amiga mais antiga tinha uma ninhada de gatinhos. Não podia ficar com todos mas não se queria desfazer de nenhum, seriam uns oito. Íamos à veterinária e eles escorregavam-nos das mãos, além de que tinham de ser emergidos cuidadosamente, porque não, não os queríamos afogar. Depois estavam todos numa gaiola num parque de estacionamento e aguardávamo-te. Vinhas com o teu filho connosco à Serra da Estrela. A tua mulher acompanhava-te, estava mais robusta, de verde, beijava-te de despedida. O teu filho queria um dos gatinhos, eu intercedia e íamos escolhê-lo, mas um esgueirara-se e caíra por uma catarata que era, ó Hollywood, o Niagara.
Saturday, July 02, 2022
Sunday, June 26, 2022
Fala do garçom que serviu a dobrada ao engenheiro
O amor, púzio na mesa
mas arrefeceu enquanto o senhor escrevia.
Thursday, June 23, 2022
Nota sobre a experiência do eterno
nos cinge nos liberta ao mundo assiste
e intima a eternidade entrevista –
mas tenta vir se chamo por favor.
Entende: não me julgo calculista
nem tanto me comove a matéria
mas já me tisna o excesso de mistério
do fogo e da alma halterofilista.
Quero-te: nem só para seres cama
denodada, nem mesmo a todo o dia
toque, mas eco, acordo dessa chama
quando arrefece, importa, se aprecia.
E mais: se acode à alma pouco o céu
é de não ter um corpo a entrar no seu.
Monday, May 02, 2022
bonita questão
de uma aluna: será que a ponte entre duas pessoas é como a que temos com lugares que nunca visitámos?
Saturday, April 30, 2022
pequeno angor
cansada da poesia que morre a cada poema para voltar a morrer no próximo. Tem de haver outra coisa além de se descer ao inferno de suspensórios.
Monday, April 25, 2022
Tresleitura
Questo seno darà buon latte alla nostra piccina
Alda Merini
será verdosa com carpas splashs limos libélulas
a piscina de amor a haver lá atrás
mau grado a efabulação as perdas
da idade do whisky das desoras da memória
dos melindres e das matanças à custa de uma ideia
ou a pago de armadores
Penso numa boia de líbido no fundo útero
e duas piscinas de criança a haver nos testículos
Seios que darão bom leite para a nossa piscina
praias a haver na maioria dos atos de conceção
e em todos os atos de folgar certas trilhas da ira línguas
de areia mínimos arquipélagos nós
e esse ser o esteio
quando penso nas filhas
que gostaria de estreitar muito embora
a ladainha para lhes tocar leve a dor
nem sempre surta
a incineração da dor dou
por mim a pensar
para elas e os amigos seremos como o pai de S.
em casa de quem também assim acampámos
vezes a ouvir vinis aspirações ressentidas de louros
dois dedos de azedume mais dois do tal whisky
outros tantos cubos de cântico
medida ao lado a água lisa
para dali sairmos mal
se separavam do céu os gomos do sol
e o rio se despia ainda às escuraspara depois da ressaca vociferarmos versos livres
sobre o poeta herdeiro que o futuro ilegitimara
e na verdade nos parecia bem mais para lá
do que para cá estávamos nós
o gangue dos ladrões de livros
a malta da alegria induzida
cool cheia de complexos os tais arquipélagos e só
nos faltava cuspir o fogo que todos nossos poros nervos engoliam
novos
e penso em S. quando vir que já tem (terá?)
Tenho a mesma idade que o meu pai quando
e haver de encontrar algo a que se agarrar
senão está tramado
mesmo que seja uma coisa pequena a da piscina
que seja o embaraço de então o gesto encovado no vago trajar
de passar-nos os livros com a dedicatória
Avisa-me quando achares que começo a parecer-me
sequer um bocado com ele ou isso ou o papel
que nem chegou a deixar a irmã que foi a primeira
num erro de cálculo entre a dor e a dose de neve a queimar
tão nova
na lamela de prata
que o pai de S. seguiu anos depois depois ultrapassando a janela
e tanto o sofrimento a jusante do amor
no farto seio
como se um chapão no vazio
que não sabemos o quê
que espécie
inventou os deuses e lhes deu a morte
novos
e já o texto vai longe da piscina verdosa dos peixes
da permacultura
da gozosa cópula
ou velhos que tacteemos
um corte de corrente um choque que nos devolva
à primeira tresleitura
após o aluimento lá atrás a prancha e a pique
olá ainda
de lodo e de leite
aí estás
a amorosa
do farto seio
*
Mas não começámos sequer a encarar
se se escreve para uma nostalgia a morte ou agora
à procura das grandes questões ou assentimentos
enleio empatia desvelos
afins
gostamos ainda de nos dirigir à beleza
a disfarçar o furo o halo o enxofrado bafo
de um generation gap cada vez mais fosso
o futuro uma fritadeira
cavamos e cavamos
já nos assam os cabelos
de Sulamite
já a paisagem rutila motores fumam marés levantam
o preço a que repetimos amor
numa linguagem convertível em estatísticas
para tradução automática e o comércio
das perguntas ao google
ainda que lhes gritemos
vamos juntas
será que iremos
a fundo
com nossas piccinas menores
a haver
e a voz delas distorcida
como num filme de Spielberg
a pedir o corte — 1.5
de emissões numa década lá atrás
bebés ainda há pouco o primeiro choro
a plenos pulmões e todos os poros convulsos de tão indevida
desvantagem no tempo
a haver
e por muito
impressionante então dizer
que fosse o nosso melhor
Monday, February 21, 2022
Branca
Já estavas tu a jogar ao chão
a toalha da vida e ela aparece
de trás, na mochila, à sorrelfa
pelas costas, ela todo um safanão
depois, quando a olhas a teu lado
chama-te puta de merda, quem manda
meteres-te à frente ó minha vaca do
caralho, abre arvoredos nos brancos
dos olhos, injeções de incêndio
álcool, nojo, cavalo e tu cedes —
Sabes que te alumia a violência
e te aviva o melindre e prossegues
tapando o sol mesmo não querendo
é privilégio a tua desistência.
Wednesday, February 16, 2022
Liguee Translator - il miglior fabbro
"Não convencer o ser das coisas"
foi a tradução que me deu para The task of the poet is to unconceal the being of things.
Monday, January 31, 2022
My fair love
claro amor vinte anos no fundo sabes
que sendo alto ainda o sol além as estrelas
supernovas rareiam e no escuro violável
há também a dança o tambor a assimetria
do poder do mal parecendo a dor equânime
claro amor vinte anos já sabes quase
tudo o que eu disse que gostaria de evitar
para ti noutra carta ao mesmo tempo logo
que a escrevia acho a pensar que era eu
de antemão a avisar-te isto é a assimetria
do poder das mães parecendo o amor excecional
claro amor vinte anos se calhar sabes melhor
do que eu pois se o conhecimento é cumulável
acaba por consumir muito consoante o ponto
de vista do trabalho ou do desejo o que te quero
assim comunicar feito o parêntesis do capital
e do estado em que encontras a propriedade
que é pouco comum para nem falar da família
do sul da justiça do clima assindical de nós que sinto
ainda isto cá dentro maior que o mundo a atmosfera
o mar a onda em que me habitaste e não sei
se é fábula se banal claro amor vinte anos sabes
Thursday, January 13, 2022
Florbela
Vá assobie lá quanto o além-
tejo pode fazer por si se tanto
lonjura nojo erótico quebranto
cantou sempre lhe digo também
me embaraçou estranha fêmea
comadre eu cobarde que em desdém
lhe cato farpas dos sonetos sem
ousar louvar-lhe a febre a apneia
o querer a auto-morte aliviada
antes lhe acuso tal papel de atriz
esbanjada por Visconti a que assisti
a afogar docemente a mão espal-
mada no nó górdio da cerviz
tensa aflita arfante quase igual
Sunday, January 02, 2022
NA FALTA DO MAR
Algo remove rumores dos ouvidos desta casa,
Pendura cortinas desventadas, espanta os espelhos
Até privar de substância os reflexos.
Algum som como moinhos que rangem e estacam
Na moagem da morte.
Uma ausência de ensurdecer, uma guinada.
Zune por este vale, pesa nesta montanha,
Aliena o gesto, empurra este lápis
Pelo grumoso nada de agora.
Assusta a louça com silêncio, dobra a roupa azeda,
Como as roupas do morto deixadas tal qual
O morto se apresentava à amada,
Incrédulo, aguardando ocupação.
Monday, December 27, 2021
O MAR É HISTÓRIA
Onde os vossos monumentos, batalhas, mártires?
Onde a vossa memória tribal? Senhores,
naquela cripta sombria. O mar. É no mar
que estão trancados. O mar é História.
Primeiro, foi o óleo que pulsava,
pesado como caos;
então, qual luz ao fundo do túnel,
a vela acesa de uma nau,
e foi o Génesis.
Depois foram os gritos enlatados,
a merda, as lamúrias.
Êxodo.
O coral soldando osso a osso,
mosaicos
acamados sob a bênção do sombrio tubarão,
e foi isso a Arca da Aliança,
depois, dos soltos filamentos de arame
de sol no pavimento do mar,
as harpas plangentes de servidão babilónica,
enquanto os caurins brancos, como algemas,
se agarravam aos homens afogando-se.
e essas foram as pulseiras de marfim
do Cântico dos Cânticos,
mas o mar não parava de virar folhas brancas
à procura da História.
Então vieram os homens com olhos de ferro, âncoras,
que se afundaram sem campas,
rufias que assavam gado nas brasas,
deixando costeletas queimadas na praia, folhas de palmeira,
depois o bucho, espumejante, raivoso
da onda gigante que engoliu Port Royal,
e isso foi Jonas,
mas onde a vossa Renascença?
Senhor, está trancada nas areias do mar
além, depois da pedra amoladora do recife,
onde flutuam fundo as caravelas portuguesas;
calcem as barbatanas; eu próprio vos levarei lá.
É tudo muito subtil e submarino,
através de colunatas de coral,
passem janelas góticas de exoesqueletos,
até onde a garoupa rude fecha os olhos
de ónix, de joias encrustada, qual rainha calva;
e essas grutas ogivadas de percebes
cravados como pedras
são as nossas catedrais,
e a fornalha que antecipa os furacões:
Gomorra. Ossos que os moinhos trituram
em marga e papas de milho,
e foi isso as Lamentações;
apenas as Lamentações,
não foi História;
vieram então, como baba nos lábios secos do rio,
os juncos castanhos das aldeias
acamando e congelando em cidades,
e à noite, os coros de melgas,
e sobre elas as espiras,
lancetando o lado de Deus
vieram depois as irmãs brancas aplaudindo
o progresso das ondas
e foi isso a Emancipação —
regozijo, Ó regozijo —
rapidamente esvaído
enquanto enxuga ao sol a renda do mar,
mas não foi isso História,
isso foi só fé,
e então cada rocha se quebrou numa nação própria;
então veio o sínodo das moscas,
então veio a garça secretarial,
então veio a rã-touro a berrar por votos,
os pirilampos cheios de ideias luminosas
e os morcegos como embaixadores tingidos,
e os louva-a-deus, a polícia de caqui,
e as lagartas peludas dos juízes
escrutinando caso a caso,
e então nos escuros tímpanos dos líquenes
e no sal escarninho das rochas
com suas poças de mar, veio o som
como um rumor sem eco
da História, realmente a começar.
Saturday, December 18, 2021
[na cabeça do sonho:] do amor pedestre
Guiando até Madrid, aproximávamo-nos do hotel.
Sem sítio para estacionar, levámos o carro ao colo
(matéria de velhos sonhos... é também para outros
recorrente?). Para assegurar a cama deixámo-lo
numa berma em curva. Depois já não estava lá
(aqui é roubo frequente, garantiam os amigos
da poesia). Depois cerrava-se a noite e eu
procurava, tu desaparecias (ligava-te, mudaras
para o quarto em frente, tinhas-te desviado
de ti, dizias.) Aí desistia de termos veículo
para voltar. A consolar-me, uma amiga antiga
(de quando eu fazia vela) trazia um saco
de entrecosto, pála-pálas – quente furor
a farejar o literal: tínhamos chegado um ao
outro mas francamente não havia meio
de transporte ou alimento.
Tuesday, December 14, 2021
[na cabeça do sonho:] de pretender reaver a perda
Leva-se a coisa ou pessoa da realidade para dentro do sonho. No meu caso, a mochila azul às flores. Faz-se a coisa desaparecer. No meu caso, apeada de um veículo sobre um passeio. Saber que a coisa se reave na realidade e acordar para a mentira da perda. Mas antes complica-se o sonho. A mãe passa por uma tasca de interior de trevas e névoa e afirma ter detetado a mancha colorida da mochila. Vou buscá-la entre as pernas de dois senegaleses sentados nos bancos corridos. Ganho de bónus lá dentro uma lancheira. Ando a ler o Frantz Fanon, acordo para o auto-denegrimento.
Tuesday, November 23, 2021
A Revelação Mosaica
El poeta, inmerso en el movimiento del idioma, continuo ir y venir verbal, escoge unas cuantas palabras – o es escogido por ellas. Al combinarlas, construye su poema: un objeto verbal hecho de signos insustituibles e inamovibles. El punto de partida del traductor no es el lenguaje en movimiento, materia prima del poeta, sino el lenguaje fijo del poema. Lenguaje congelado y, no obstante, perfectamente vivo. Su operación es inversa a la del poeta...
Octavio Paz, Traducion: Literatura Y Literalidad
Um pulmão rosa aflora outro pulmão cor
de pele
um torso bege namora um bosquejo
de coração ou molde
de púbis feminil
por baixo um rosto de homem seu chapéu oval
farejando tudo
num mapa deflagrável nos estilhaços
do material cintilante sigiloso
negro
era isto que eu via prolongando o tempo
na sanita
eu menina cruzava os grifos que havia
no padrão tosco do mosaico
cujo nome há de ser pertença do mundo
da construção civil
(termos relacionados
grés
lambaz
tessela)
decifrar era a indagação daquilo que conversava
o chão consigo
talvez pensasse que o chão era a cabeça
da terra ou que o mosaico falava
e as formas eram bocas a buscar a cor
o alvo de um acento
talvez não pensasse
creio em palavras que soube primeiro n’As Mais Belas
Histórias da Bíblia e na catequese
sarça
maná
profeta
contratos de cedência
entre homens
bonecos que apagava o dedo de Jesus no terreiro
em frente à fúria de lapidação da mulher
adúltera
Cada lasca
tinha mais línguas do que o céu o meu exercício
era isso
línguas ainda não palavras nem
ainda linguagem pendurada em árvores
sintáticas
só um diagrama infantil de forca
a terminar as patas de uma rola cantando
ainda expressão
incomum sem comunicação genérica
ainda só sentidos ainda
só paleta só pauta
e o tempo da diferença a dissuadir o tácito
convénio da gramática
mais variáveis
do que regras
quando eu era menina relacionava assim
as formas na retrete e se retraçava
de mirada absorta
nem de perto nem
de longe a vida
e a sua pantomina
se praticava
o desejo partido de coisas
abjetas quem me dera
hoje
essa tradução de
morada tosca escondida
anterior
a poetas
Thursday, November 04, 2021
Re volta
Cem dias ao ano o banho
em curso de água frio corrente—
Coisa da revolução
e o mundo: o desejo
de encontrar outra pele
mais funda que a língua
lambente—
Deixar os cigarros sempre
mais bicudo que manifestar-se
por uma salvação verde.
Estender após lançada a linha
aos de bruços na amurada:
importância em queda
zunindo, cortante, uma lâmina
de prata, um pano preto, quanta jangada
a morrer na praia, quanta vaga
levantada por inércia. Que alague
os livros e queime e abale solo e onda
a prumo, o ataque, o pirata
misericordioso que acabe rápido
com este tormento: maré
vaza, estopa e fogo nesse conceito
mimoso do sujeito
suposto saber, dengoso
de amor e ocidente (aquele “morrer
na praia”); maré
cheia, briga, motim, ir de novo
logo vir à tona, quanto custa
esta história de singrar
no mar (além do floreio obsceno)
cortar-lhe a vela na raiz, repor, rodopiar
o tabuleiro do jogo da solitária, do assentamento
na sofrência injusta e inglória:
desnaturar o privilégio – largar
a má onda de ser infeliz.
Sunday, October 10, 2021
Álcool
a célere imagem eclipsa a ideia
desconjunta, aquém, díspar do fundo
e da frequência alta que distende
disso que vibra lá e à vista de outros
é ínfimo, assoma fero monstro
monstro belo, qual que seja, te rende
te expulsa de proporções aceites
comensuráveis, por mais pequenas
é grande a afronta ao infinito. Assíncrono
torna o corpo: daí beber — tal sede,
repito, que te dobra e pede apenas
o pouso do incêndio no sono.