Thursday, August 06, 2026

A Segunda Vinda (W. B. Yeats)


Voando e revoando num maior círculo

Não pode o falcão ouvir o falcoeiro.

As coisas desabam; o centro não se aguenta;

A vulgar anarquia anda no mundo à solta;

Eivada de sangue, rompe a maré, por toda a parte

Se afoga a cerimónia da inocência;

Falta aos melhores toda a convicção, enquanto

Ardem os piores de intensidade apaixonada.

 

Na certa está prestes uma revelação

Na certa está prestes a Segunda Vinda.

A Segunda Vinda! Mal saem estas palavras

Já uma vasta imagem do Spiritus Mundi

Me tolda a vista; algures nas areias do deserto

Uma forma com corpo de leão, cabeça de homem,

Um olhar cego e implacável como o sol,

Move as ancas lentas, enquanto em seu redor

Passam iradas sombras de aves do deserto;

As trevas tornam a cair; mas eu agora sei

Que vinte séculos de um sono de pedra

Ruíram em pesadelo num embalo de berço,

E que rude fera, chegada enfim a sua hora,

Se arrasta até Belém para nascer?

Monday, August 03, 2026

O vestido de merino


Volto à posição de mulher

peito e braços na diagonal

um vinco na cintura

as articulações inchadas

tenho um vestido de merino

abafado para a estação

quase não respiro a erva é seca

 

não sei quem mo legou

de que guião

deixei de me ler

na instrução alheia

perdi as minhas deixas

não consigo gritar

no sonho em que foste de férias

com a tua ex

e me deixaram cães

a guardar

 

no agosto que mal inicia

em que passaste o óbito

ao verão

terço palavras

contra mim

todos meus agoiros conluios

verve de vítima

 

e besta

 

o vestido de merino

se o envergasse

menos lesta 

ao sufoco

no borboto

se caísse

se balisse ao menos

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