Monday, August 03, 2026

O vestido de merino


Volto à posição de mulher

peito e braços na diagonal

um vinco na cintura

as articulações inchadas

tenho um vestido de merino

abafado para a estação

quase não respiro a erva é seca

 

não sei quem mo legou

de que guião

deixei de me ler

na instrução alheia

perdi as minhas deixas

não consigo gritar

no sonho em que foste de férias

com a tua ex

e me deixaram cães

a guardar

 

no agosto que mal inicia

em que passaste o óbito

ao verão

terço palavras

contra mim

todos meus agoiros conluios

verve de vítima

 

e besta

 

o vestido de merino

se o envergasse

menos lesta 

ao sufoco

no borboto

se caísse

se balisse ao menos

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