Wednesday, September 09, 2026

Durante A Travessia de Florence Miailhe

 


Aquilo que bosqueja, a rapariga

transposta a saída da infância

a tons de cera e negro, o mundo

é mescla, mal que liga e se amolece

como se não fosse atroz a história

e coexista o dia, a chama, a rama

viva de cerejas perto da aldeia

eis que se esfuma – o lar, e pais e filhos

vedados e vendidos de país

separados em gangues, saltimbancos

 

não obstante os intervalos do espanto

no trapézio, a paleta de improviso:

como se pisa o gelo e surge um lago

e um espinho pica o sangue nela nua —

sabemos, pois, já menstrua — e acresce

o perigo ao corpo desperto pelo frio

no mundo do homem (mesmo os mais rectos

soslaiam, comerciam, diminuem)

a beleza não salva, acompanha

 

o olho não evita, mas altera

(o dela, ucraniana, palestina,

síria, séria, lembra-me a amiga

Mariana, que não era migrante 

era etérea, teve um tumor, foi-se

em meses); é melhor enquanto vemos

os que traçam secretos o caminho:

aqueles com perguntas tatuadas

nos rostos mudos, esses que contemplam

tomar riscos para que atravessemos

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