Saturday, October 24, 2026

Tentativa de esgotar uma tenda no Rossio


19 de outubro de 2026

19h30

A tenda é verde, está montada numa praça.

Tem um fecho de correr que lhe abre em dois o pano da frente.

Entro pela divisão, deixo o fecho sempre aberto.

O pano é poliéster ou nylon

leves resistentes inflamáveis

para o directo da televisão.

Quando saio não há bosque nem silêncio nem falésia nem deserto.

A tenda dá para outra tenda que dá para outra tenda, as tendas todas dão para uma praça as pessoas dão à praça e a praça para uma estátua:

é um rei, abdicou de duas coroas, deixou o coração no Porto e mandou o corpo para o Brasil.

Tétrico.

Pelo sim pelo não cobrimos no pedestal uma cara 

com um fantoche de bode.

A calçada é portuguesa, encardida de paciência

forrada de pichagens

Aumento do susto de vida

Nós temos urgência.

Somos um curro de tendas 

um surto de tendas

a dar para tendas a dar para pessoas a dar para a praça voltamos todos os dias multidões às noites

a urrar impropérios, utopias

áreas

A polícia fica louca quando a luta está na boca

Tenho 81 anos e vou ser despejada

Egoísticos o caralho

há uniões insuspeitas

e um suspeito nervoso

Fogo aos fachos

não temos tempo para concordar com todos

já me esquecia deste gosto de cantar.

 

00h50 

Entro na divisão

quando enfio tampões depois fones

que me emprestou a S. – convidei-a a partilhar

o meu colchão fofo, no dela não pregava

olho — assim 

conseguimos melhor repouso

mas ainda é incómodo 

quando a praça não para de inventar.

 

20 de outubro de 2026

05h50 

Saio da divisão, S. atrás:

lonas em pantanas dando para pessoas aos tropeços

megafones

polícias com escudos, mocas e buffers todos de preto

cães.

S. aperta-me a mão depois trancamos cotovelos

num cordão humano

no perímetro da praça

em redor de “228 materiais de acampamento”

segundo o auto de apreensão.

Aumento do susto de vida

Lutamos pelo justo

Pacíficos pacíficos

Tremendo

relanceio nos olhos o polícia:

uma máquina de ameaça —

dissocio, ou seja, esvazio:

na posição de árvore

num bosque com silêncio na falésia uma orla

firme, mijo-me, mancha

ridícula se alastra.

Torno a olhar o polícia

cujo cheiro caça.

Quero ver

mantenho os óculos apesar do cassetete

por um átimo não sei se

__reconhece                    __desfaleço                 __nos estamos a conhecer

Tuesday, October 06, 2026

Postal da Lapónia

 


Olá,

 

sentada numa tábua sobre uma pedra

cuja vida se tresmalha branco-azulada 

parindo grãos pardos

os pés nas plantitas verdes

de pontas miúdas mas firmes e musgo ruivo

amigos

estou num outeiro em Abisko a dar para o lago lapão

imenso extenso de esmeralda cinza líquida

Tornesträck

que agita curtas vagas de leste para oeste

e há-de encontrar o mar na Noruega

 

acorda já tarde a manhã a toda a volta

nuvens grossas com suas orlas de afeição à montanha

onde o sol beija tufos a espaços

ouço distante o comboio

e penso em Thoreau outra vez

e penso porque vos escrevo se percebo neste instante

aqui vim em fuga do barulho

não só da cidade ou do trabalho

vim em fuga do barulho que há anos

sobe em bulha cá dentro

 

sem que o cale mesmo assim

passo-lhe por cima agora pousando os pés no fofo

e ainda que a beleza não ensine

como tratar a gente de modo equânime

olho com mais apego para o chão

e começo a ver aranhiços 

um pulgão ou afim

três moscas na preguiça 

com que me irmano

apesar de não saber nada de moscas

se dormem acaso embaladas

sob o céu de prodígios que vi dançar 

na noite verde-lixívia anteontem

 

amigos

esta noite não cacei auroras

só de manhã recuando a emissão das câmaras dei por elas

esta noite tive um sonho em que ia casar com o Emron

nada contra o Emron mas ele queria casar na Sé

com uma jóia no dedo

e professa os santos dos últimos dias

e a mim encurralava-me a cortesia

e vergonha e medo de dar o dito

pelo não dito

sem ter coragem de convidar a família

amigos

aquele poema do Rimbaud de boca às escâncaras

a colorir vogais na madrugada

eram as auroras a avisar

quanto mais dás o braço

mais te pedem a mão

 

fazendo aliás a anamnese da coisa

o gatilho

amigos

foi ter-me deitado a terminar uma FUC

(ficha de unidade curricular)

atingidos os mil caracteres do campo

e o limite das pálpebras abertas

precisamente no seu ponto décimo:

“demonstração da coerência das metodologias de ensino e avaliação

com os objetivos de aprendizagem da unidade curricular”

estão a ver?

quem escreveu este esperanto é árido

e incapaz para sempre de aprender com uma pedra

 

nem sei amigos

se aumento nisto o volume

queria antes rumorejar-vos

como as veredas húmidas

e o Tornesträck lambendo os xistos

e o musgo ruivo à passagem das aranhas

e as bétulas vacilando secas e oceladas

ou levantar a voz como vento

e imitar enfim as coisas que não trabalham nem fiam

como no Sermão da Montanha 

que não se aplica às aranhas

 

tenho pensado muito 

amigos

excepto nos melhores momentos

em que não penso nem tenho forma nem sexo

e sou paisagem como somos às vezes um livro

tenho pensado que só os livres

apreciam caminhar

sendo uma lástima

que liberdade e passeio requeiram

(não tendo berço nem sendo buda)

dinheiro e como o ganhar

por agora

isso vem-me de um lugar tenso

de anti-trabalho e certo esquerdismo caviar

 

se não fossem homens

terem cortado árvores e colocado madeiras

para eu atravessar pântanos com espanto

não estaria aqui

 

e há os passarinhos que piam

cortando os descampados da mãe

e o jorro do canyon galopando ao lago

e o múrmuro remanso som de silêncio

e um trlrtrszsslrr de bicho rasteiro saindo 

do abrigo em corre-corre uma marta

ou lémur ou lebre arisca do ártico

não sei amigos

 

certamente uma besta mais esperta

do que eu a fazer fichas de seca

na Lapónia sueca

 

 

(começado no caminho de Rallarleden, Abisko, e terminado no SJ nocturno para Estocolmo, 5 de outubro de 2026)

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