Tuesday, April 17, 2012

Melides - aluga-se férias casa / Melides house for holiday rental

2 bedrooms, for 4-6 people (there is a sleeping couch in the living room). Domestic appliances (icebox, washing machine, TV). Nice patios for sunbathing and dining. Overlooking a beautiful valley and brook. 7 km from the beach.


2 quartos para 4-6 pessoas (com sofá-cama na sala). Eletrodomésticos (frigorífico, máquina de lavar, fogão). Lindos terraços para banhos de sol e refeições. Sobre um bonito vale e uma gárrula ribeira. 7 km da praia.


310 € week / semana - 7-21 Jul, 4-11 Aug and 18 Aug - 1 Set
2 weeks / semanas 580 €
weekends or 2 day minimum / fins-de-semana ou mínimo 2 dias - 60 - 95 € dependente da époa / depending on season
Tel. 969667823
email - liteua19@gmail.com















Sunday, March 25, 2012

Não levaste pedras e eu duro


Embora distes mais da minha margem
com esta multidão de luzes no céu camponês,
não te penso nem busco menos, ou porque
planto jasmim e semeio bagas e carrego terra
numa pá desde a ribeira ao quintal, vingam
coisas que vivem. Disseste que virias mas
aqui o ano passou sem notícias, fiz
um voto por ti, atirei pela janela o resto
do espumante para os lábios remetentes.
Propuseste também fazermos um pacto
de azeite numa lua ou lagar em sangue, não
lembro bem, era natural distorcias as figuras
sentimentais, comentei até essa conversa
em que não vi nenhum fim especial
e apenas me deixou alegre pois virias eu
estava talvez não tão atenta mas foi bom
sendo incerto o que aconteceria a seguir
– e mil vezes aceitar, mesmo que contrário
ao investimento posto na ideia de amigo
ou até algo mais afim ao outro lado da alma,
avesso ainda assim à perda que é ficar
só com este real irremediável – tu nem 
remetente deixaste para uma chave
que não tinhas outro sítio onde enfiar,
mas nos olhos ou ao ombro uma banda
negra e escutavas um silvo apertado e seria
eufórico ou sobrenatural no fulgor de um
tímpano a perder de riso o rio, mas não
vale encobrir tantas vezes a morte
de muitas palavras, e afinal tu crês,
o que há além do superficial talvez seja
mais que fundo, mas só fundo repito é
onde estão os que ficámos e eu não sei
que tempos, porque não chove, demora,
com as cheias, a tranquila ascensão outra vez.
Queria pedir-te, como antes fazias e eu
vinha, uma visita em duas linhas neste estilo:
não se está mal mas não corre como eu queria,
se cá estivesses sempre parecia mais normal
.

Friday, March 02, 2012

Turva se faz não raro a graça ínfima,

nem sempre é garantido que não trema
na funâmbula corda que mantenho
entre a pulsão e o amor; se tenho
querido voltar para cima o poema,

estendê-lo ao ar e vibrá-lo tenso
e respirar em luz – sem que prescinda
da sombra e do chão do mar ainda
da onda que me lava em banho denso –

vejo que não resolvo toda a dó
de mim; lá lindo é, isto, mas preciso
– tanto – a temperatura de um homem

nos ocos que de frio me consomem;
porém mais vezes claro solto o riso
dou o melhor e quanto posso só
.

ar

na sua falta se cobra o mais alto
preço de querer ser livre
sem deixar de agradar
.

Wednesday, February 08, 2012

aquário

sou descendente de vikings, dos que iam
até newfoundland à pesca, foram eles que
começaram a estender os bacalhaus no convés
dos barcos, a secar. depois espetavam as
espinhas uns nos outros. eram tipos bons e
maus, e perto dos quarenta anos arrependiam-se
e afundavam os pés na terra, visitavam a mãe.
a mãe ainda estava lá, a remexer ovos no ar.



Rui Costa
Fev. 2009
.

Friday, February 03, 2012

Comparação

do olho à boca
corre natural a lágrima
como o beijo
.

Thursday, February 02, 2012

Sendo mais que palavras na cabeça

agora que penso claro que
nos atraíria a tal
admiração da dança:
o corpo em formidável equilíbrio
de desejar - e o tosco desajeito
em achar o eixo total
da matéria em ar

no meu sonho eras a dactilografia
da enumeração dos elementos
e o eco das tenazes de tinta
e ainda que eu cuide do que
sinta sempre queria saber
como é

banzé. revolução
não estás zangado
pois não
estás a dançar
iê-
-iê.
__

Thursday, January 19, 2012

Calmeirão cabeçudo, por tudo


Começou com um sinal ao lado dos teus óculos escuros, Não,
o princípio foi um rebordo à noite onde quiseste ensinar-me
a soletração de versos, Não, reinicio: o pequeno almoço
num café pequeno numa rua comprida com pernas para o mar
e dom rodrigos enxovalhos de lustro postos à mesa, Não
há-de ter sido só quando esticámos as mãos e elas escorregaram
e nos encostámos aos peitos os dois chocalhavam tu riste-te eu
fiz-me de parva, Se calhar foi aí porque escrevemos sobre isso
entendendo cada um à sua maneira como sempre se
fez, Eu adverti logo aliás não tinha nenhuma esperança
que viéssemos a coincidir alguma vez e tu achaste claro
muito bem feito porque assim queríamos constantemente
aprofundarmo-nos sempre aos apalpões a ver onde derretia
quando lá no fundo doía não encaixarmos perfeita
mente, Só que sim é um privilégio acontece menos
vezes do que os dedos encontrarmos alguém
a quem queiramos continuar a bater como
disseste que me fazias a vida toda quando apertaste por
baixo dos meus braços a resistência dos materiais, E há-de
ter sido gentileza não justificares apesar do orgulho
de cumprir proezas não contamos os princípios nem os fins

fico pois à espera que apareças atrás de um sms com uma tarte
de maçã encostada ao focinho, Que não te cansa o jogo de fazeres
todos os gestos importantes entre portas para depois te pores ao 
fresco como se nada fosse e largas daqui porque tens um handicap
muito menor e patas maiores e queres ver outros bichos cheios
de perguntas, Por mim punha era o vestido de Espanha para
rodopiarmos aos casais de sucesso entre os bem-pensantes com
licença vou escrever sobre os teus livros todos muitos palavrões
.

Thursday, January 12, 2012

Cumpre que não foste

entender


falar de mar só com a boca afogada



a regularidade assusta

e eu acho isso bonito como o som de ossos na porta



cai alguma coisa

na direcção das minhas mãos e eu corto-as



sinto os cabelos

o ombro morno do coração no ombro



não me fui embora

na praia ao vento tudo o que acontece
 
Rui Costa (Março de 2009)

Tuesday, January 10, 2012

Segundo Amor

Segundo Amor

Quando estás só tens as manhãs todas
de organizar o mundo; preciso grito
intenso aqui agora. Lembro-me de ti
já nem tantas vezes assim, lembro
o que fomos à noite o dia desmentiu.
Mas também às vezes especialmente
querendo com isto – o quê – a pele
sempre lisa, o futuro de ocasiões, só,
sim, só lamento o corte, recrimino
algumas unhas de raspão, triste espera,
o que houve rasteiro, o que de alto
me falta, pouco limpos passes da vida
e terna, sinceramente, tua, Guida
.

Saturday, January 07, 2012

Maya Deren



Mas se uma enrola o novelo
a outra destorce a meada.

A que enovela é severa,
a que desmancha treslouca.

Pouco se move a que enrola,
a outra vibra com a boca
mas não se ouve o que fala –
apenas estica e deslaça
o fio que oblíquo se esgarça.

Aquela que mira a que larga,
de hirto rosto tal osso
denso caroço emaranha –
e vai-se tornando mais só
e a outra sempre mais estranha.

Até que resta uma corda –
e a que de riso se embala
toda de mãos espirala
e lavra o ar como ave...

A que é sisuda não fala
volve-se ainda mais grave;

Solta-se a primeira, leve,
flutua como rameira  –
as mamas de luz arqueia
e frustra a espera e a teia.

(A outra, do sério semblante,
olha uma inerte cadeira
agora sem ocupante.)
.

Tuesday, January 03, 2012

Democrítica


Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
que a exercer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,

herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,

e deixa que o isente a lucidez
da rota rigorosa da unidade
além da sua esfera. Mais consola

levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.

Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.

Agora, se descerem os médios
à rua e os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência e translação,
a derrubar ditas classes consumo e capital,
o cómodo sem afecto, a sôfrega avidez pateta,
e o que a todos sobre os ombros nos carrega,
aí então. além de sublime e ser poeta,
talvez mais do que busque eu dê entrega
.

Sunday, August 21, 2011

Porque já era tempo de desempoeirar a xafarica


Amtrak


Somando tudo já dei um par de vezes a volta
ao mundo agora outra vez enamorada outra vez
desengomada e tão de veludo e tensa e tenra
e outra vez um muito semelhante cansaço de urgência
impossível não comparar este relato de me deslocar
até ti com um poema de amor de há dezasseis anos
escrito em turbilhão e certeza onde maldizia
de avaro e com que ironia hoje o tempo

e pensar isto é pensar que muito se medita mas já se prevê
que não é desta que termina a correria
é Outono
outra estação outro país outra idade tu
falas outra língua tens a pele anilada
que herdaste de pais que vieram da Índia
e esta carruagem que me leva já vem do Canadá há
o Hudson que bordeja em serpentina sem eucaliptos nem igrejas
desta vez como num sonho crepitante há
folhas de ácer lembrando nos três dedos
patas de asas curtidas em peles secas e ocres e rugiriam
se pisadas
embora condiga a paisagem com mais doces imagens
de resto que perfeito isto até o frio
cá dentro não se sente e coa-se o ocaso
e eu deslizo para ti e um outro continente há
tantas horas viajo que quase tudo esqueci
menos o quanto abençoadamente
menos esta ternura coberta de fadiga
mesmo se suspeite
que sub-reptícia mova a vertigem e o impossível não dure

e de repente tenho vinte e um anos outra vez há
pouco tempo sou outra vez maior
visto que chego esta noite e tudo indica que faremos amor
voei sobre a água até ti suporto este atrito até ti
devoro as copas do ácer no Outono para me deitar junto de ti
contanto desta vez adivinhe – ou já percebi –
que são lindas promessas mas dificilmente nos perseguimos
até ao fim sequer a nós próprios porque a viagem
tem esta coisa de nos provar que já não somos o que fomos

e porque haveríamos de ser separados de vidas anteriores
e colocados em lados contrários do globo
– amor que tudo move como iludes na verdade –
quero perscrutar pelo grande vidro deste vagão
a noite e descubro o meu reflexo sedentário
mas já não sou quem podia não ter usado o bilhete
na bifurcação além deixei-o para trás
e se compreendo o que antigamente era é
agora à luz da América e de ti
amor com desenlace iminente
e de todos os registos e testemunhos e gritos
de vidas por esse exigente caminho fora
sem tréguas mas com contemplações
se compreendo isto é porque compreendo dizia talvez
o tempo aqui por esta faísca em frente no espaço:
é preciso contar ao pormenor e repetidamente
o que vivemos e por que ansiámos e onde chegámos
pois é na medida em que nos movemos que mudamos
e basta deslocarmo-nos para divergirmos tu
soubeste antes de mim –  evidência que me surge com algum choque –
quando voltaste para aí depois da proposta que foste fazer-me
onde eu estava tiraste-me de lá amor
e respiraste-me ao ouvido Vai
fazendo com isso logo com que um pouco eu te perdesse
e será assim para sempre repetir constantemente por onde passámos
quem foram os nossos pais e quem julga neste momento
Vossa Majestade que eu sou quem não seremos jamais eu
envelheço falta-me a mão
para escrever e para errar quanto mais viver
importa portanto esta noite ir-te amar

vá o pensamento com o movimento e o cansaço
e algum frio que se levantou desde há bocado
não haja aspereza de palavras ou pedidos se
o que escrevo a cada quadrado de janela não fica se
modifica e passa se
expira a intensidade e o vazio a agarra – tanto
mais acerbo quanto ela for real – insisto
por ti por amor que me movi
em quatro sentidos seja total
a graça à noite

e nós no final
um pouco após a luz ainda unidos
.

Thursday, February 10, 2011

Medeia


[Lugar baixo, rancor surdo, tremenda
raiva – o despeito da mulher
ao centro e o sensato coro atrás.]








Diz-se que matou o próprio irmão,
que descende do Sol e solo bárbaro,
e que, deslumbrada por jovem prático
e pouco espiritual, lhe deu
um animal de lã dourada. Ele
porém ainda quis um trono, outro
matrimónio e o mando dum país.

Quando uma feiticeira chora invoca
demónios que invocam malefícios.
O escritor, atento ao móbil, fixa
os joelhos da semideusa mágica
e empático pinta-lhe na boca
a palavra trágica: eu nada quis
para mim, por ti só tudo fiz.

E o mundo  entretém no seu decurso
o público. Do crime participa
quem dele tira prémio ou espanto –
E o pranto corre a cada livre gesto
e o excesso com que sofre nos consola
o sobressalto. E o manto que tece
sufoca em chamas e excita deveras
o sangue a correr e a carne a arder.

Resta um par de cadáveres infantis
aos pés do pai: o céu está vazio
e ninguém saiu ainda da sala.
Para concluir o acto o génio
declara solene que ali se ama
e mata sobre a cena. Não mais
discursos. Inclina-se e repousa

a pena com a ponta de veneno.

Thursday, December 23, 2010

Etílio Barroco


Que eu, dizias, agendava êxtases
à sexta-feira, às vezes quinzenais,
cumprindo ao resto as lides usuais
–– meu umbigo d’amiba com metástases ––

e hoje, rima fácil, só-li-dão
comigo me embriago e consinto
a garrafa de Grant’s já a um quinto
(o rótulo soletra a alit’ração)

chove fora viola o vento o vidro
o mundo nunca é como os prospectos ––
Embriagado deste rame recto

e reco do arame, oco coração,
ó turvo murcho músculo entupido,
mil vezes fosse a vida a excepção
.

Sunday, December 05, 2010

O Balde









E a magana da gata, arisca e fugidia
foi logo parir as crias
no sofá do arrumo onde ele tinha os papéis
(havia de se esquecer do último,
agora por lá anda o advogado
a tratar de escrevê-lo)
no sofá que a bem dizer não era dele
nem nunca ninguém usou
que comprou para impressionar os gaiatos
filhos dos meus enteados
(os que trataram do advogado):
bom couro, estofo fofo,
a vagabunda gata achou-o de agrado.

Foi isto dois dias depois que me fizeram
sair da minha casa com o meu filho pois, diziam,
não nos sabíamos governar depois que
segundo eles – (eu achei-o delgado
e pequeno o meu homem
a quem puseram tubos uma algália
e aquela máscara nas ventas
que não o deixava sossegar
e obrigavam-no a dormir nu
porque não gostavam que ele suasse

só lá fui uma vez onde o levaram
para prolongar a morte
onde nem me conhecia
não tinha dentes nenhuns
e o corpo naquela indecência
nem sei se me ouvia
toda a vida ele tinha sido uma árvore
mas voltou já vestido no carro preto
e depois fez-se a missa) –

não tínhamos condições para o resto da vida.
A mim calhava melhor ter ficado em casa
com o meu filho que tem problemas mas é esperto
e sempre demos conta do recado
mas disseram os enteados,
meios-irmãos do meu filho,
mais os netos e o advogado
que eu já não posso
e era melhor irmos para um sítio
a que querem que chamemos lar
e eu chamo asilo para os arreliar
que estou fraca e magra é verdade mirrei
que vivemos no campo demora a ver-se
alguém de longe se sucedia alguma coisa
ficávamos aflitos e ninguém nos acudia.

mas ia-se a ver onde ela tinha metido os bichos
ninguém dava sentido senão eu
e por isso me trouxeram eu vi
logo ao abrir da porta
e ao sair da gata disparada
pelo cheiro
deixei na cozinha o balde preparado
o sofá estava armado no arrumo
ao lado esquerdo do corredor
onde ele tinha os papéis
meti as mãos pelo buraco no couro
dentro da espuma dei logo com a pele
ainda sem pêlo engelhada e corredia
a chiar de olhos cerrados
um dois três quatro cinco seis
que embrulhei no regaço ainda cegos
e levei para a cozinha
para fazer uma coisa
que já fiz tanta vez
com a porta fechada que a mãe
andava coitadita a rondar
e ainda continuou nos dias depois
em que eu a vi muito magra
minhas mãos de velha na água
a forçar-lhes o cachaço para baixo
aflito pequeno delgado
até sossegarem
quando já não se mexem
não me custa assim tanto
não estão à espera desta
não têm governo para o resto é a vida
.

Friday, August 06, 2010

Woolf



Someone has blundered
alguém meteu o pé na argola
e tu és a óbvia suspeita
Likely it was you

a vida irremediavelmente enrolou-se
e agora não se endireita
in an impassable crux
Sobrevém, pois, irresistível, comoção
do fluxo
What are we to do against the summon of the swoon
O transtorno das águas o tocar o fundo
the swell of your backward burial
mergulhar em câmara invertida
como dizem que passa a vida
quando se abandona o mundo

mesmo que desejes ainda
parar
o gesto nada
vai mudar if you wanted to press stop now it’s too late
a água é densa turva provavelmente
gelada
and the stones are loaded dice
nos bolsos a escuridão dilui-se
lentamente
ice cold thick, there you stood, yet ever did you regret what you undertook?

Quiseste alguma vez um pouco
menos de talento
?

Saturday, June 12, 2010

Condições mínimas

Esta sarça é interdita a matilhas;
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas

semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha

e que só uso eu; a nós vontade
basta – e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,

aceitas? compreendes? aguentas?

no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro
.

Sunday, May 09, 2010

Gosto muito do meu macaco


toda a gente pensa que ele e so um peluche insensivel espicialmente é o M que diz isso. há muita gente que não acredita em peluche e pensão que esas pessoas são doidas mas as pessoas que não acreditam é que perdem.

Sunday, April 25, 2010

25 de Abril


sempre

(nem que seja para mostrar que este blog continua vivo, embora a precisar de assistência respiratória)

Sunday, November 22, 2009

One Art

A arte de perder não custa dominar;

há tantas coisas que parecem decididas

a perder-se, que o mundo não pode acabar.

Perder quotidianamente. Há que aceitar

a falta das chaves, a hora consumida.

A arte de perder não custa dominar.

Depois treina-te a perder mais e sem parar:

nomes, e sítios, onde tinhas prometido

que ias; nem por isso há-de o mundo acabar.

Perdi o relógio da minha mãe, e – azar! –

a última, ou quase, das minhas casas queridas.

A arte de perder não custa dominar.

Perdi duas cidades, lindas, e, para somar,

duas terras, dois rios, e tantas despedidas

de coisas que faltam mas não causam pesar.

– Até perder-te a ti (a voz de troça, a xingar

que eu amo) não estou a enganar. É sabido

que a arte de perder não custa dominar,

embora pareça (escreva-se!) o mundo a acabar.

Oh, não, seja o que for o que for à excepção do amor

Diz: o mundo a acabar. (nota de Bishop para o poema)


Elizabeth Bishop
http://www.youtube.com/watch?v=6dudxfkrYi4&feature=related

Sunday, November 08, 2009



Acordei hoje como se fosse natural-

mente necessário ter o comprimento

do teu corpo na minha cama e estranhei

que não me abraçasses, nem preenchesse

o encaixe da tua pélvis

as minhas nádegas, a tua mão

sobre o meu monte, os teus joelhos

encostados à dobra onde os meus flectem.

Vês daí como tudo aqui ainda e sempre

treme continuamente, e a descompasso

do real, todos os dias tenho calores

de imaginação, trabalho a líbido

do cansaço, se fecho os olhos não durmo

e ao invés viajo dentro de mim

enchendo-me de corpos e fricções. Depois

no outro plano, já sentiste, custa-me

estar presente: das consecutivas vezes

que nos tocámos na boca, estudei os beijos

como uma alegoria embaraçosa:

tudo sob o comando diferido

da cabeça, com tensão mais que tesão,

a minha língua esgrimia a tua, quase

nada clamava ou humedecia, talvez

exceptuando um latido pequeno de amor

a pingar com irritação, não sei,

e além do mais haveria que indagar

se realmente são compatíveis as nossas

espécies, se isso é motivo de inevitabilidade,

ou de eu precisar das tuas carícias

nos anéis das cervicais, ou dos teu dedos

na pele ou o princípio do escuro

a partir do perímetro da cintura.

Sunday, August 09, 2009

"Aquela que de amor descomedido"


Não resisto, depois do post abaixo, a colocar parte da minha tradução até agora favorita de Landeg White. A elegia é longa, e não transcrevo tudo, mas a verdade é que se não fosse a leitura nova do inglês, a mim nunca me teria tocado tanto este poema de Camões (clicar aqui para comparar com português, infelizmente sem quebra dos tercetos; o que transcrevo começa no 7º verso).








(...)

In the same fashion, of my personal hurt,
already history, nothing remains
but this poem I scribble urgently,

and if its tenuous, threadbare existence
reflects love, it's because the thought
echoes its loss of the good that is present.

My lord, do not be at all startled
that overtaken by such ill fortune,
I steal this little space to inscribe it,

for whoever has the strength to go on
without killing himself by way of statement
has also the strength to write it down.

Nor it is I who write of my customary fate;
but within my heart, overwhelmed and broken,
the heartbreak writes, and I translate.

(...)

Direito à Indignação

Comentei isto além, mas como raramente me indigno, e já há muito que aqui não boto nada, resolvi repetir:
"Admiro muito o trabalho de R Zenith mas está na altura de eu me indignar um bocadinho. Como é que esta notícia do Instituto Camões pode começar com a frase "A primeira tradução para inglês da poesia lírica de Luís de Camões"? Ainda o ano passado se lançou "The Collected Lyric Poems of Luís de Camões" - uma tradução de Landeg White que de resto foi comentada no lançamento de Zenith, onde estive. Já em 1884 R. Burton traduziu o que então pensava serem os poemas líricos completos, menos éclogas e elegias, e existem várias outras selecções parciais do século XIX. Sobre as recentes traduções, é justo dizer que se complementam: a de Zenith é um trabalho ponderado e exacto de um grande tradutor literário; a de L. White, que deu à língua inglesa também uns excelentes Lusiads (1997) é uma viagem de partilha amorosa entre poetas.
Já agora ainda digo mais: não me parece que R Zenith ou a Universidade de Dartmouth necessitem de publicidade enganosa. Não concebo que uma instituição cujo principal objectivo é a divulgação da língua portuguesa no estrangeiro, e que assume por nome o do poeta em causa, possa encetar uma notícia com um lapso destes.

Monday, June 01, 2009

Descrição de haver perdido a bordo

Havia no canhenho doze anos
de memória, reserva especial
mal selada, havia lá marítimas
travessias, esquissos do velame,
planos, logs, tabelas de marés,

e partidas de king em horas
mortas, cálculos de azimutes,
havia relatos de perdas, queixas,
uma folha seca com fita gomada,
fixa a natureza a páginas
tantas, havia a minha mensagem
para o mundo, trajectos do espírito
com travessões e rimas mancas à – ah,
Dickinson – e Sede assim, cartografada
com maiúscula, a santa demanda da taça
fissurada, coágulo espesso, o sangue
que nunca seca bem no fundo, havia
amor com arrebiques de ficção, arrufos
conjugais, a fluida consciência assindética
amparando inexprimíveis comoções, havia
tropismos, apóstrofes de estímulos exteriores
com subjectiva irradiação, havia a íntima
confissão de minha filha elevando-se
cá dentro, raiada de tentáculos, vibrátil
medusa em muco de placenta ansiando
arborescer, havia algum motivo
de orgulho,
mas a fadiga dos fusos horários
mal registou o esquecimento, a crónica
de mim caída no tapete do aeroplano, varrida
junto com jornais, prospectos da companhia,
algum passageiro frequente tê-la-á pisado,
os funcionários da limpeza a bem
do asseio tê-la-ão – é o mais certo – destruído
.

Monday, May 25, 2009


















Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.
*

Sunday, May 24, 2009

poema-resposta

(a um poema de um poeta de expressão inglesa cujo nome não me lembro, que me foi dado ler aqui)

do outro lado de mim há a casa
que tenho procurado
em corpo dos homens

por uma vez, duas vezes (eu só
sei bem
quantas)
encontrei-a.

Foi quando consegui dormir com ela.

Sunday, May 17, 2009

Medicação

indicada contra a melancolia.

Alegria

Literatura inclusa.

Posologia: ao menos
uma vez
cada dia
.

A menor arte poética

ao Rui Almeida

Não obstante o canto, se calhar
o que me agarra aqui é a textura.
Que faço no poema? Acupuntura,

o texto em vez do tacto, massagem
a mensagem
.

Saturday, May 16, 2009

Aniversário

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.

O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os brancos raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
no vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor
.

Wednesday, May 06, 2009

revisão da matéria dada

as pessoas mudam, e o amor é seu mais poderoso transformador, mesmo que nem sempre se possa garantir a irreversibilidade ou os benefícios de médio e longo termo das alterações produzidas
.

Sunday, May 03, 2009

Dia da Mãe

Já não sente este corpo, dói e come-
-se por dentro e é só cego animal
na oca luz do foco do hospital
pela qual a enfermeira sem nome

empurra as mãos como colher cavando
os muros do casulo de água duro
onde deves vir ao colo maduro,
mas és arisca e esquivas-te, nadando

a salvo do isco que te procura.
Até que a tua nuca desemboca
na minha boca, e ela te segura

com seus dedos hábeis, te desloca,
e por certeiro corte se desata
o nó da corda que de mim te aparta
.

Friday, April 24, 2009

Tuesday, April 21, 2009

Pequeno-Almoço com Bernardo Soares

"Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo."
.

Wednesday, March 25, 2009

Série Cartas de Lisboa


Rua do Cardal (25/03/09)






aqui da graça com Sol
às altas janelas de uma casa
e rua sem história tem subido
hora a hora aos vidros
e a um céu de impostora clareza
o assobio estrídulo do amolador
encostado como os pássaros
à promessa da Primavera

gostaria até de ter navalhas murchas
para a sua tarefa



mas tão alheio me é o orgulho
quanto estrangeiro o sentido da memória,
de mais tangíveis contornos quero
penso às vezes esta espera embora
pouco pese — e mesmo pressinto
que por isso adoce a existência e eu
aqui agora nestes minutos meço
se vale ou não o desejo de empreender
no golfo que dista entre o que será
de banal ou simples evidência
ou o que há em mim a reconhecer
se me chegasses a ver
.

Sunday, March 08, 2009

Thursday, March 05, 2009

Notícias de Gaia


Segundo o Portal da Juventude de Gaia vai decorrer "um pouco por toda a capital portuguesa" a festa de 200 anos do Poeta Edgar Allan. Os estudantes da Escola de Hotelaria de Gaia e Grande Porto pensam já na melhor maneira de fazer chegar ao Bar Incógnito um gigante bolo de dois andares, constituído por Corvo, busto de Palas e 200 círios, estes patrocinados pelo curador da nave lateral direita do Mosteiro de Alcobaça. Paralelamente ao evento, sairá o livro Obra Poética Completa "com chancela da Tinta da China e autoria de Margarida Vale da Costa", correndo ainda rumores à boca pequena, não confirmados até ao fecho da edição, de que este contará com ilustrações doadas por um artista com deficiências motoras
.

Friday, February 27, 2009

mais uma variação (já cá faltava)


para o mano Roger

Herr God, Herr Lucifer
Há que
Resguardar.

Das cinzas renasço
Com meu cabelo ruivo
E devoro homens como ar
.

so hush little baby

a ambiguidade da linguagem, comparada com a do silêncio, é uma brincadeira de meninos de cueiros
.

Sunday, February 22, 2009

lembrete: como chegar ao início da Primavera

ir lá a cima ao monte
inspirar o rio imaginando que preenche o umbigo
expirar pelos olhos os telhados o casario os arcos a ponte
comer uma carcaça
.

Saturday, February 21, 2009

post post scriptum

Se a imprevista doçura ainda
sinto no avesso conflito da tua ternura
dista a memória milhas já
e o que resta neste instante
só
(um whisky após) o mesmo o intenso
desejo paz
.

mais ondas


para além das quem dera ser (e toca-me)





UMA ONDA

1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia

2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia

3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo

4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma

5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia

6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.

7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).

Manuel Rui

foto cortesia arodaemroda
.

Monday, January 19, 2009

Não é todos os dias






















que o escritor da América mais amado pela Europa faz 200 anos. Para parabenizar o Edgar, aqui fica a tradução de um seu poema curto e plácido, como poucos.

PARA HELENA


Tua beleza para mim, Helena,
É como a das antigas naus nicenas,
Que embalavam sobre oloroso mar
O viajante, e alijavam suas penas,
Trazendo-o para as praias do seu lar.

Dos mares que eu cruzava, tão agrestes,
Tu, Náiade de tez preclara, amena,
Com flores de jacinto nas melenas,
À glória, que foi Grécia, me trouxeste;
Em Roma, que foi grande, me acolheste.

Te vejo à janela, em teu recanto:
Altiva, tal estátua, te levantas,
E a ágata transluz na lamparina
Em tua mão, Psique, que me ilumina
Ardendo dos confins da Terra Santa!

Sunday, January 11, 2009

Declaração

Quando alguém diz em voz alta que mudou de ideias.

Thursday, January 08, 2009

e por que não um pouco de publicidade?


A minha máquina Espresso Phillips Profissional parece que foi feita para o café Sical



... e com um poucochinho de açúcar Sidul dá aconchego especial.

(pensei em pôr os links, mas já era de mais, embora prometa fazê-lo se me arranjarem um lote vitalício)

Wednesday, December 31, 2008

eu sabia que já tinha lido uma coisa parecida

"A Avenida Almirante Reis, eternamente cinzenta, pluviosa e triste ao sol de Julho, balizada alternadamente por ardinas e inválidos, trotava na direcção do Tejo entre duas gengivas de prédios cariados, como um cavalheiro apertado em sapatos novos para a paragem do eléctrico. Industriais de olho alerta impingiam relógios de contrabando nas esplanadas a que os engraxadores, acocorados em penicos de tábuas, conferiam uma dimensão insólita de creche. Em cafés gigantescos como piscinas vazias desempregados solitários aguardavam o Juízo Derradeiro em frente de galões imemoriais e de torradas terciárias, congelados em atitudes de espera. Salões de cabeleireiro habitados de baratas propunham às donas de casa em mal de imaginação soluções capilares imprevistas, a que retrosarias poeirentas dariam o toque final de soutiens de renda, mosquiteiros torácicos capazes de rejuvenescerem de erecções formidáveis vinte e cinco anos de resignação conjugal."

António Lobo Antunes, Memória de Elefante
.

Tuesday, December 30, 2008

Almirante Reis

A nossa solidão é esta avenida decotada,
do passeio do acaso, do furtivo e escancarado,
artéria tantas vezes paralela ao coração,
onde ninguém serve a nenhuma arquitectura;
onde sobe a miséria do terminal do eléctrico
até à igreja fronteira à sopa dos pobres,
temporárias sentinelas armando cartões
nas fachadas das lojas, trastes e artigos
de ocasião (apanham-nos de dia noivos
investindo num projecto de família).

O nosso é este meio de solidão, que se carrega
de qualquer coisa que não é bem perpétua
atmosfera de névoa, nem sujidade, que também
é terna, pena suspensa (corvos de Lisboa, naus
gastas no chão), saudade, por que não, sentimento
de povo sem pátria em que descreio; crer
creio
nisto que na indigência e vício coexiste a gente
dá-se e da carência faz-se uma disciplina às claras
e por muito pouco desprende-se quase nada
que se tem
.

Monday, December 29, 2008

ODES de Ana Salomé (Canto Escuro, 2008)

a uma existência de papel

e eis que é chegado o fim
como uma pedra que se suspendeu
e depois pousou no chão vencida
vencida pelo cansaço de querer mais
do que uma simples pedra pode querer
esta pedra, que josé ferreira gomes conhecia,
que ele próprio atirou contra a noite e o dia
no jardim que era, afinal, todos os jardins
que ele próprio comeu, depois do pódio do chão,
como uma sombra demasiado sombria
que ele próprio supôs como a palavra.
e eis que me dou conta que existo rodeada
de palavras e de pedras caídas - ou anjos em
falência.
não sou homem, e a uma mulher é mais difícil
viver só com as palavras. e quando digo só é só que digo.
esta vida a meio-gás, o JL no braço,
a mesa na esplanada de inverno e o cigarro, até esse,
a apagar-se até ao desnorte.
todo este frio de olhar em volta
e não ver a estrela nem a graça
de não ter uma única casa - uma única casa - branca
nas ruas desta ferida.
de olhar em volta, o centro comercial - o centro,
como esta palavra poderia ser bela - a trazer-me
os outros como uma paisagem sobre as folhas do jornal.
no centro comercial há tantos casais
que se amam como um padrão de pombos - ali, agora mesmo, um homem de bigode
e uma mulher de seios descaídos -
também os seios caem como as pedras suspensas - também os seios -
amam-se com a facilidade com que viro
as páginas do jornal e abandono os temas desisteressantes.
meu deus, faz com que eu tenha os seios descaídos
e dá-me um homem de bigode que me leve a passear no centro comercial.
não quero um amor maior do que o amor possível,
a lição dos livros - esta inqueitação - esta grande inquietação -
cansei-me de amar rodeada de palavras
e de vento e de nada
alguém que não vem mais.
levanto-me da mesa do café,
puxo a gola do casaco para cima,
prendo o cabelo
e vou para onde não sei.

Ana Salomé

Sunday, December 21, 2008

Saudando a luz que se alonga



Augusto de Campos, "Sol de Maiakóvski" (1980-1993)

Wednesday, December 17, 2008

O raio do pombo

já chocou três vezes, hoje, contra a minha janela. O gato está há horas de bigodes afiados e focinho húmido colado ao vidro. Só por causa disto, até deixo aqui um inédito que eu acho que é do Fradique Mendes - quem quiser confirmar, vá ao espólio de Jaime Batalha Reis, na Biblioteca Nacional, caixa 55, documentos 15.2 e 15.3. Entre parêntesis rectos, coisas que não se percebem bem na caligrafia. Podem comparar à vontade com o Corvo do Poe. Ou com o Gato Preto. A mim não me rala nada. Sou só um bocadinho supersticiosa.

Quando virem minha pomba pelos campos pela eira
Negra, negra como um corvo azulada e luzidia
Não lhe atirem, não a matem, não a prendam que seria
Para mim ficar dormindo sem a minha companheira.

Há três anos e três dias que eu com ela vivo só
Há três anos e três dias que indo ver nascer o Sol
Ao findar duma elegia do nocturno rouxinol
Uma pomba na janela veio olhar-me a mim com dó.

Eu não sei se foi tristeza se prazer o que senti
Sei que os olhos negros tristes, compassivos, dolorosos
Ao fixarem-se nos meus doloridos lacrimosos
Me lembraram as saudades dum passado que perdi.

Costumava eu pela noite na janela do nascente
Esperar que a luz viesse colorir de azul o Céu
De maneira que no dia em que a pomba m’apareceu
Cuidei ser da noite a imagem junto a mim sempre presente.

Desde então que a pomba negra nunca mais, na natureza
[Sombra vã duma] saudade me deixou um só instante
[Vai às vezes] pelos campos a voar sinistra errante
Para vir junto da casa considerar-me com tristeza.

Monday, December 15, 2008

Solicitações

Por enquanto não custa praticar o limbo
e ficar quase num estado larvar assim
nem em alto nem em baixo
como tão cândido escreveste
com erros ortográficos que guardo para mim
e me fazem lembrar que não és rei de Ítaca
e talvez nem voltes cá, também

me fazem lembrar quando me chamas brava
embora agora não ouça:
para estar suspensa é preciso não usar os sentidos,
especialmente os da cabeça
que são eles que avisam quando é tempo de doerem os músculos
e de os membros inferiores terem formigueiros
e de ser preciso correr sangue antes de se porem roxos,

mas por enquanto não custa;
é tão agradável, desde que não pense muito
qual de nós vai ser primeiro a ficar frouxo
e cada noite faço versos para não ter outros
compromissos além de urdir o nosso enlace.
Se fosse hoje Penélope também
preferia dormir com barbitúricos
.

Sunday, December 14, 2008

Uma falha no programa

Estou à espera mais uma vez
de ser gentilmente votada
ao meu lugar de amante
intensa, grata e gozada
e é melhor que fique assim,

nem me queixo, inconveniente
sou para todo o protocolo
e além disso algo demente;
tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme

e desprendimento – aliás,
agradeço que entre portas
me deixem dedicar mil vezes,
no meio dos uivos e lodos,
a minha vulnerabilidade –

– mas se por acaso, só desta,
for mesmo da minha cabeça
e acontecer de outro modo,
fico de tal forma contente
que hei-de agradar-vos a todos
.

Para não enganar ninguém

NegritoAqui
uma crítica severa e provavelmente certeira às traduções de Daniel Ladinksy que tenho vindo a utilizar e também a alterar. Embora reste a hipótese de neste caso - só neste - o excesso de zelo ser contraproducente para o trabalho de amor, e de se calhar não devermos mesmo ser assim tão religiosos
.

Saturday, December 13, 2008

Hafiz (em loop)

PEQUENINOS DEUSES

Dizem alguns deuses, os pequeninos,
“Eu não estou aqui, nos teus lábios vibrantes, húmidos
Que precisam de banhar-se sobre
A praia dourada de um
Corpo nu.”

Dizem alguns deuses, “Eu não sou
O anseio em ferida da alma não correspondida;
Eu não sou a face afogueada
De cada estrela e
Planeta –

Eu não sou o Regente aprovador
Dessas secreções preciosas que podem destilar
Todo o espírito numa jóia perfeita e cintilante, nem que por
Um só instante;
Nem resido em cada monte de estrume quente e doce
Que brota da gratuitidade
Da Terra.”

Dizem alguns deuses, os que temos de enforcar,
“A tua boca não foi feita para conhecer a Sua,
O amor não nasceu para consumir
Os reinos
Luminosos.”

Meus queridos,
Cuidado com esses deuses que os homens assustados
Criam

Para trazer consolo e anestesia
Aos seus tristes
Dias.

*

UMA NECESSIDADE PREMENTE

Por

Uma necessidade premente

Estamos de mãos dadas

E escalamos.

Não amar é largar.

Ouçam,

Por aqui o terreno

É demasiado

Movediço

Para isso.

*

DOIS CHARCOS À CONVERSA

Choveu durante a noite
E formaram-se dois charcos no escuro
E puseram-se à conversa.
Disse um,

“É tão agradável estar finalmente nesta terra,
E encontrar-te também,

Mas o que irá acontecer quando
O Sol resplandecente vier
E nos transformar outra vez em espírito?”

Meus queridos,
Aproveitem a noite o mais que puderem.

Para quê perturbar o coração com o voo,
Quando ainda agora chegaram
E o coração se vos aquece com tamanhos desejos.
E olhem:

Tantos prados de pêlos macios plantados
Sobre vós.

Para quê perturbarem-se com Deus
Quando Ele se abstém de julgar
E é tão gentil

A menos que sejam santos e íntimos
Do círculo
Do Perfeito Um?

*

AS GRANDES RELIGIÕES

As
Grandes Religiões são os
Navios,

Os Poetas os botes
De salvação

Todas as pessoas sãs que conheço saltaram
Borda fora.

Isso é bom para o negócio, não
Hafiz?

*

PEPINOS E PRECES

Todo o dia
A terra brada
“Ui, obrigada.”

Um ui tão exuberante
Que começa a atirar
Coisas.

Como se Deus passasse num desfile a incentivar
Os arruaceiros
Com aquele tão lindo aspecto –
Que atrai como mel uma avalanche inteira de maníacos!

Gosto desta ideia de atirar coisas a Deus
E especialmente – o fazer de nós arruaceiros!

Portanto, assim que salto da cama
Começo a encher grandes sacos
Com sapatos velhos, pepinos
E
Preces

Para o próximo
Evento de consagração

Aberto-a-todos
E sabe Deus
A que mais.

*

OS LINDOS JOGOS DO AMOR

Dizem sensatamente os jovens amantes,

“Vamos experimentar este ângulo,
Talvez suceda algo de maravilhoso,

Talvez três sóis e duas luas
Rolem
De um esconderijo no corpo
Que a nossa paixão ainda tem de acender.”

Dizem os velhos amantes,
“Podemos fazer mais uma vez,
Que tal desta longitude
E latitude –

Balouçando de uma corda atada ao tecto,

Talvez uma parte de Deus
Se esconda ainda num canto do nosso coração
Que o nosso afecto ainda tem de revelar.”

Conclusão:

Não deixem nunca de brincar
A estes lindos
Jogos
Do Amor.

*

OS SUBÚRBIOS

Só nos podemos
Queixar

Quando vivemos nos subúrbios
De Deus.

*

ÀS VEZES DIGO A UM POEMA

Às vezes digo a um poema,

“Agora não,
Não vês que estou a tomar banho!”

Mas o poema normalmente não quer saber
E replica,

“Paciência, Hafiz,
Nada de preguiça –

Prometeste a Deus que davas uma ajuda

E Ele acaba de inventar
Esta nova canção.”

Às vezes digo a um poema,

“Não tenho forças
Para espremer mais uma gota
Do Sol.”

E não é raro o poema
Responder

Subindo para a mesa de um bar;

Depois, levanta a saia, pisca o olho,
Fazendo com que todo o céu
Desabe.

*

DEIXA LÁ A RELIGIÃO

O que é que
Os tristes têm
Em comum?

Parece que
Ergueram um altar
Ao passado.

E vão lá muitas vezes,
E fazem um estranho lamento e
Culto.

Onde começa a
Felicidade?

Onde deixamos
De ser assim

Tão

Religiosos.

*

PROCURAR MELHOR EMPREGO

Se já

Está provado

Que tamanha

preocupação

É negócio

Que não rende,

Porque

Não

Procurar

Melhor

Emprego?

*

IMAGINO QUE AGORA POR MUITO TEMPO

Aconteceu
Outra vez
Ontem
À Noite:

O Amor
Rebentou a rolha de si mesmo –
Espalhou os meus miolos
Pelo
Céu.

Imagino que agora por muito tempo
Algo de mim
Há-de parecer

Que cai como
Estrelas.

Hafiz (um excerto)

O medo é o quarto mais ordinário da casa.
Eu gostava que vivesses em melhores condições
.

Thursday, December 11, 2008

Põe-se a vida

Onde
Deus deita Seu olho
Põe-se a vida
A aplaudir.

Inúmeras
Criaturas pegam nos instrumentos
E juntam-se à
Canção

Onde amor se faz conhecer
Contra outro
Corpo

Põe-se
A jóia no olho
A

Dançar.

Hafiz (c. 1320-1389) – tradução indirecta e liberta a partir de Daniel Ladinsky, The Gift, Penguin Compass, Nova Iorque, 1999

Saturday, December 06, 2008

Ainda amor me alui, friável carapaça

A mim que me cuidava há muito tempo seca
Ó tão íntima bênção – que a não esqueça
E a conserve – após o acto claro, após
O imenso espanto exacto, me fecunde

Esta miséria funda, e assim desfeita,
Guardando, grata, o quanto ampla fui

Que faço só poema onde haja dentro carne
E corpos prefiro que cubram como casas
Melhor ainda tendas, asilos fugazes
Um ou dois furos, ventos, humidade, dádivas
.

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