Friday, June 10, 2016

Laços de Família

Não há nada seguro que eu não incline.
Pelo que temos de gato não se espere
mudar-me o canto. Não que eu queira.
Troco a ordem do mundo por rotina

minha. Também te acontece às vezes?
Agir do avesso para ser-se aceite,
marcar o sofá onde outros se deitam.
Nós — os mesmos pais e dois países

irmãos mal adaptados à corrente
das mil líquidas léguas da infância
onde, por regra, um de nós se lembra

do que o outro desmente. Não o sangue
senão predadora coisa congénita


que dobra como coice e nos distende.
No passado ossos, ao futuro as peles.

Thursday, May 19, 2016

As I Lie Dying



as minhas mãos vão ficar dormentes

e logo cessará o sopro. É líquido

o ar zumbe e um susto paralítico

nos cobre dum lençol turvo recente



calado o rouco corpo rijo e tudo

o mais quieto tudo tão decente

de cera o rosto tristes os parentes

urdida ardência pressentido absurdo



o rumo — tema tantas vezes tétrico

a tentar a escrita o hiato disto

e a luz efervescente além do atrito



onde não morre verme não se extingue

fogo. Na hora esperarei seguir

ansiosa no redor de pó e éter

Monday, May 16, 2016

Marinha

E depois é preciso chamar os amigos
para soprar os versos todos mas há dias
tantos que nenhum nos visita. Ligamos-lhes
ou não lhes ligamos estão fora noutras tarefas.

Separarmo-nos de quem fomos não tem
mal, enganarmo-nos de longe também
não será o caso. Críamo-nos as filhas,
trocámos cartas de madrinhas de guerra.

Eu esqueci-em de como engatilhar a bomba
no dia em que bebemos muito além da conta.
Lembras-te. Dos enjoos do mar à tareia
na tua juventude zangada? Do tempo

em que temíamos mais que nos descobrissem
a celulite do que as manhas? Das tenazes
façanhas — durmo sozinha no relento —
que nos trouxeram aqui pouco mais ou menos

firmes peladas enxutas e em excesso?
E do mar nos cabos soltos e o grande vento
o chicote nas velas e dentro treva era
e não era nada deste estilo, os versos

se vierem que liguem serão líquidos

Sunday, May 15, 2016

Carlos


A tua bicicleta é o terreno que os locais cultivam nas traseiras
As traseiras da tua casa dão para uma barreira clara
A casa acolhe em novembro as pinhas no fogão em maio as papoilas e a época inteira uma promessa de mar
As pinhas estão entre a terra e o fogo as papoilas cozem sementes que são escuras e curtas entre o feno que se ceifa no verão a foice está entre a morte e o pão o mar está entre a barra pintada aos pés da casa e o céu
O céu tem carradas de espécies de aves entre si e a lagoa
A lagoa borrifa os arrozais onde descem as aves e alguns gatos bravos espantam as traças
As traças são catalogadas com nomes por curiosos de frontais e máquinas fotográficas
As fotografias não fazem justiça à noite entre as traças e as estrelas
As estrelas são escorraçadas pelos frontais que atraem as traças
Tudo isto é circular e há ainda melgas aos milhares que mordem os clientes que não sabem que o sol cai com vingança no terraço entre o peixe no churrasco e a comida da Maria
A Maria faz muitas horas na cozinha entre o cheiro a migas fritas e as arrelias entre o dono e as travessas que a filha serve com arroz refogado entre os coentros e o caldo dentro das côdeas do pão de cabeça
A cabeça quer ser clara como a barreira atrás da casa
A barreira da casa é a norte o vale a sul o sol a nascente o mar a poente
O Melidense fica mais à frente na aldeia de quem sai para as praias
A praia que tu preferes são sete quilómetros a pedalar na bicicleta e além dos arrozais há dunas de grosseira areia onde passam só pescadores e tu entre os cardos as camarinhas e as acácias rasteiras depois das piteiras e dos alemães e dos caçadores e dos seus cães
Há um marco geodésico que é o teu destino e os cães atrás da bicicleta são um susto a aborrecer-te a solidão desde que passaste o cemitério o vale e as areias com os traços de jipes e cavalos e os pacotes e garrafas que acumula o tempo quase tudo tão deserto e quase muito pleno
Do deserto vês o mar e penetras primeiro os pés e o tronco depois do sexo a cabeça atrás e aí o roxo som a mansa trepideira das ondas e das rodas e até o latir imprevisto em cima do destino e entre o salitre e o feno e entre a morte e o pão e a natureza toda a morder-te a atenção até o sono quando a luz declina faz-te falta por terreno

Saturday, April 30, 2016

400 anos da morte de Shakespeare


Coração-martelo, caixão-pregos, paixão-fraude.
Shakespeare morreu em Maio há quatrocentos anos
e escreveu “as alegrias extremas têm fins extremos”
e lavrou com pena o óbito do amor romântico.
Desde aí montes de amantes são estudos de caso
nos centros de investigação do ocidente, mulheres e homens
a ser manuseados pela nuca, a devorar-se mutuamente
e às trevas — com que dificuldade se reconhecem no flúor
de faróis, ecrãs, salões vazios de escritórios e hotéis
— vasculham-nos, arrumando pela madrugada, os silenciosos
azuis, que têm sonhos mais magros que salários.

Peço de ti o que não te ocorre perguntar e tenho
para te apontar este mundo cheio de lapsos, é certo.
O mundo está cheio de mortos que não chegam
a cair, o mundo está cheio de mortos que são vivos
com pouca sede, o mundo está cheio de jovens
que escorregam em sonos sólidos de dois dias e ressuscitam
ao terceiro sem redenção sem ninguém que lhes verifique
o pulso ou o que tomaram ou lhes deram em excesso.
Peço de ti desculpa e compreensão pelas tantas deceções
que mal estanca o garrote da maturidade, descobrirás

um dia o que não podes remediar. O mundo está cheio
de adultos sem separáveis de soluções e cambaleiam
por cima das ondas sobre longas falhas tectónicas,
o mundo está cheio de apáticos convulsos, de terremotos
domésticos, de torpedos em casas de repouso, de sítios pitorescos
obliterados da cartografia onde havia piscinas e praças e
gelados e matinés de domingo, havia cruzamentos e esquinas
e olhos brancos vagabundos voltados para cima. O mundo
está cheio de arames e grandes migrações para lugares piores,
está pejado de bolores que se inoculam em desgraçados
e não saram mas disparam os índices das publicações
científicas e, assim, saberás um dia o que não te ocorre

perguntar — de que acidentalmente virás a achar
cambiantes. O mundo está cheio de revoltos que são
mansos ambivalentes e desenrolam rolos negros
de linóleo onde nada se pode ler; cobrem com eles
minas das guerras de todos os pais e rejeitam pacientes
dotes milenares de insensatez e resolvem que lhes resta
traçar movimentos de dança contra o precário amparo
de haver chão onde cair. Peço de ti justiça e vulnerablidade
com desconhecimento do medo, resiste a que te instruam
teorias da conspiração, aspira à imaginação total
dos outros, à distração que impele o turista à coragem,

pensamento mágico quanto baste, filha, espero acharás
coincidentemente: que a tua existência resultou em parte
do encontro de intensidades; ter havido absolutos
e aflições, ajustes de colisões, juras retocadas, memórias
readmitidas, sequências interrompidas, correspondências
de afetuoso pormenor. Desejo-te não menos e tudo
mais: o tipo de humor capaz de acusar e relevar,
o esquecimento que se destrinça da indiferença e nos dá
deslumbrarem-nos coisas que passam sem anterior recordação,
solicitude, curiosidade, o filtro amoroso
doce se possível na mínima diluição
.

Saturday, April 02, 2016

Tarefa de Tradutores


No lábil osso da língua

o nosso exílio se esculpe,

onerosa letra adúltera

contra o juízo público

e a imaginação pobre

num romance de Hawthorne.

A nós não buscam tochas:

o desconforto enrosca-nos

e a gente só se comove

aqui (que ninguém nos ouve)

Wednesday, January 13, 2016

Avô Amaro


Quando o homem pisou a lua no café do meu avô

eu não estava lá [escrevi sobre isto antes por outra

causa mas (montagem, conspiração, solas ufanas de improváveis

galochas de lustro astronómico arrastando um pé retocado

pelo ângulo do vento bafejando ouro azul rubro e branco

e pura Americana forever) nem sempre há-de ser o mesmo

poema; neste o tema serve o desenho de quem era o meu avô:

ele tinha um café e um televisor ainda raro na altura, caixa

cúbica que todos convocou em torno ao espaço, só eu não;

eu era ainda para nascer e por isso lamento quando chegou

o primeiro homem à lua eu não estava lá] em Vendas Novas



e o café ficava em frente ao quartel e os mancebos

treinavam para ir matar no ultramar por causa do senhor

que julgava ainda governar Portugal mas também não esteve

lá e se calhar nem viu nada se calhar nem ouviu se calhar

nem deu por nada mesmo supondo um rouco transístor

seguro pela débil mão junto ao débil coração o enfermo

na cadeira de onde já tinha caído sem ter percebido

nada desconhecendo os mancebos e estes em paga

ignorando por uma vez tudo dele todos olhos e reparo

todos postos no futuro todos sôfregos na respiração

de Neil Amrstrong lá longe na lua na televisão do Amaro



preto no branco o dominó em tampo de mármore em câmara

lenta derrubado passado tempo guerra regime ó leve coração

efémero o meu avô no meio do café a serradura era neve

de botas cardadas na lua que ele limpou quando voltou

a tropa ao quartel de fantasia em forma ele só atencioso

ele desperto afã de cuidar de varrer como sempre fazia

ele pepitas semi-acesas eram estrelas fabulosas da alegria

eu não estava lá nem estive quando anos após (eu tinha

dezoito) o coração dele parou eu soube como um soco

a primeira vez que alguém morria a lua não tremeu não se via

o meu avô pela sua fé sem qualquer tecnologia tornou ao céu



Sunday, November 22, 2015

Aprendiz


para L. F.

do verbo que temo conjugar, que não digo
é o que não sou ainda e a cujo estampido
eu tremo e se comprime e entala no exíguo
espaço onde espero a luz no coração fundido —

que na cabeça se mantém aquela língua
brava, em brasa, brecha insegura que imagina
quase tudo o contrário ao que me ensinas
e eu a meu modo — não sou mal agradecida ­—

incorporo, se bem que em distonia, querido
ser, se bem que se decante um rumor áspero
onde sem estrépito a beleza erra, onde sem

secura. Só que se caem cântaros roço
arestas, sei que correspondo mas nem sempre
retribuo, enquanto paciente desfazes
meu rigor e o aceitas
.

Wednesday, November 11, 2015

Recensão

Em Spring and All o poeta
William Carlos

filho de uma mãe
de Porto Rico

solicita a imaginação
para a poesia

diz que a prosa é
sobre emoções

daí a primavera
no título

e tudo depende
disso

da fonte da
partida

da lagarta de
fugida


Saturday, November 07, 2015

Barroco da Penha de França


É densa a escuridão que me separa

das minhas traseiras e o ar opaco

no terceiro andar. Porém é facto

que sempre enfrento a simetria rara



entre o espelho mágico do WC

do vizinho e o quarto a cuja janela

escrevo. Vejo-o a ele amiúde em pêlo

sendo dia, só que à noite me vê



eu: no fronteiro vidro coço minha

cabeleira e cogito versos esquerdos

sem entender que oposta e má menina



em plano de Velasquez me persegue.

Não nego seduzir o que me impede

se quanto me limita me ilumina
.

Monday, October 26, 2015

O Gigante

para P. B.
para A. C.
para H. F.

Desculpem insistir pois não convém

manter a perda aberta e eu falhei

francamente na confusão da dor

que não soube distinguir entre amor

e aflição e se calhar ainda hoje

bato onde não têm de ouvir eco

que os versos nos subjugam e enganam

com pretensões crianças de um além

que não se verifica nem faz bem.



Absternha-se a emoção em circunstâncias

extraordinárias e desembrulhe-se

quem puder no embate do absurdo.

Despenhou-se, acabou, o resto é turvo

tudo; cabe estancar o que gangrena

se reincide a pena; ser sensível

não é opção de quem trava o gigante

com o arsenal que tem. Ponto final.



Parágrafo. Adenda. Eu disse, volto

após rodeio grande ao que perturba:

doeu a orfandade, doeu não

ter cuidado com ele e ele

não nos ter lembrado. Mas há mais

que isso — lidou com coisas que supomos

mal e nós admirámos sempre aquilo

que ele era capaz de conceber.



Quero-vos; não me julguem por escrever,

receie embora que dar forma a isto,

se parece que sara, no fim mude

pouco ou ainda para pior
.

Espanta-Espíritos


como mandam demónios esta carga
d’água como deitámos a febre amiúde
e mútua em toda a parte e como quanto pude
te prendi para singrar contigo e como sangro

por todo o iludido amor no interior
das húmidas paredes deste corpo neste quarto
e como foi tudo verdade e tão velhaco
e o sexo fracassado cúmplice do rancor

e como tanto nisto vem de veleidades d’alma
com histórias ilustradas e devo rir de mim
como girámos tantas vezes nas cinturas

como fizemos gatos treparem por pilares
e picotámos a pele e virámos as brasas
d’olhos como Francesca e Paolo e Abel e Caim.


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