Saturday, June 17, 2017

Um Castelo de Sonetos (IX)

9. Não mais dest’arte o génio iludido
ó muso Lauro, Beatrizo, bárbaro
dantesco emparedado pelo Tártaro,
Lenoro do sepulcro redivivo!

há raios muito grandes fogos presos
em fumos vários crio teu perfil
e faço — para não te deixar ir —
em serpentina todos estes versos

com regras que de cor dobro, corrompo
e busco língua nova que destape
a tumba hetero-sapiens do discurso.

Sonsa te uso, pois: por contraponto —
mas queria um só risco que nos cante
dum golpe fundo iterativo e brusco.

Friday, June 09, 2017

Um Castelo de Sonetos (IV)

Que me façam à hora vária e rara
crateras sombras mares semiluas
caudalosas torrenciais eclusas
franqueadas do degelo anteparas

do dilúvio eu vedora vara
eu poço-lodo octópode lacustre
eu caravela-raia eu bicho-luz
do espírito eu cerne eu tâmara

eu crescente fértil eu enrolada
em folhas de parreira eu marraquexe
mirra ouro fel hiena do zagrebe

zebu mãe ubu peluda emplumada
poção com todos escura irisada
tremura de prazer sólida febre

Wednesday, May 10, 2017

Não está fácil

nadar sem pé durante horas
sem dormir e nas costas
tantas léguas de cansaço
apetece dar um estalo à ilusão
não sou quem procuras mas
pensei (tarde demais) ser
quem encontraste e dizer
"a tal hora" estou aqui
com meus limites todos
para ti, repito que se gosto
de ti te quero feliz é elementar
sou responsável pelo meu descanso
devo a quem cuidar
sei respirar na perda já
cantar o coração a morder
o vazio, deixo a porta
por enquanto no trinco
não sei fechar o que tive tanto
de empurrar para abrir
embora não precises
sabe que fico perra
que a ferrugem dói
forcei demais não creio
ter fingido, faz uma flor
o ar nas frinchas
vou bordar de novo
meus A! de aflita
não sei dar
outro uso a isto
senão bonitos gritos.

Monday, January 23, 2017

O regador e a prisão

Rego as plantas do poeta que guarda prisões
trepadeiras desmaiam, suculentas não obstante
medram, a erva-dos-gatos descabela-se
de um tupperware — pois terá havido
um gato e donos que fizeram filhos
e um caramanchão no terraço onde faz tempo
houve soalheiro remanso e excepção à tortura.

Nas estantes sem leitura restam muitos livros
e o aquecimento central continua em dia
sem gente intra-muros para tanta literatura
é melindroso: a inclinação para descorar
o viço, a ferrenha minúcia da agonia, as
celas quase vazias — como má transladação
o regador prolonga a pena, comuta a vida
.

Monday, January 09, 2017

e. e. cummings na berlinda

may i feel said he

se posso disseste só desta disse
eu que estranho tu gemes que giro
fiz eu (tocar-te quiseste prefiro
que leve tu tentas lá longe) insistes

‘tá bom não anda tu pedes aonde
digo eu mais baixo apontas atalho
com beijo te mexo te pico tocá-lo
no ponto remexo enches respondes

me amas me matas digo é a vida
replico és casado e entras e oh
que tem não pares se sentes me diz

que máximo vens mas lento tem dó
já chega tesão mhumm como és linda
tu tombo eu grito cabrão infeliz
.

Saturday, December 31, 2016

Um Castelo de Sonetos (1 e 2)

1.
Quereres-me outra vez? Se for, será
para aquecer os pés, como dizíamos
quando outrora a ambos atraíra
desmanchar a beleza. Trauteáramos

a canção, marcando jogos futuros
quando we get older, losing our
hair, o que era bom, não fosse o besouro
ferrar nos corpos estragos prematuros

e rasgos de desejo imprudentes;
já faltou mais para os 64
e pode ser que nada sinta vendo-

-te hoje deslizar no vidro fráctil
em frente ao que há-de ser e delibero
que fiques só comigo mas não espero.

2.
Que fiques só comigo? não espero
esmola ou mentira, é altamente
idealista e pouco inteligente;
eu, deste lado da Flor do Império

aonde talvez finjas não me ver
impávida me quedo, sou mordaz
e fria aguardo a chuva contumaz
cessando de repente de tremer.

Incrível o que o tempo te sulcou:
um desses magros que ficam grisalhos
na barriga, tratando assunto sério

na máquina do banco. Tudo solto
o nosso ex-amor — de inolvidável

já nada nem de ti e outros quero.

Saturday, November 26, 2016

I heard a Fly buzz — (Emily Dickinson)

Zumbiu a Varejeira – quando morri
Nesse sereno Quarto
Como sereno é o Ar
Entre os Capelos do Mar —

Enxutos os Cabos — dos Olhos em roda
E suspensos os Fôlegos
Para o último Ato — entrado
Entre os mais — o Rei no Quarto —

Doei minhas Lembranças — assinei
O que de mim se usa
Em Rubrica – e nisto meteu-se
A Varejeira intrusa

Zumbindo azul ­— incerta — instante
Entre eu e a Luz — a estremecer —
Cessando as Janelas então — e eu
Não pude ver para ver —

Sunday, November 06, 2016

Obra Poética Completa (ensaio)


Por demais requintado esse livro
em que investimos: teus monstros, minhas
rimas, teus senhores, minha esgrima
em desmedida admiração. O crivo

da sintaxe que transpõe: tuas penas
longilíneas meus cerrados cílios
teus leitos de dossel meus idílios
teus zeppelins carregados de oferendas

meus cinemascopes desejantes
teus membros de volutas minhas garras
de pavor tuas brumas mendigantes

tua cósmica burguesa. Espanto de
ambos: o que estoura não quebranta
o resto entre nós foram só farras.


Tuesday, July 05, 2016

Pico



Era ali sem aviso em êxtase
que alguma poesia começa

mas dei o flanco não aguento —
vertigem ao rés da promessa

medindo mais que o lance: inóspito
panorama absoluto ao topo
do globo.
Escala de demónios
que os intrépidos ignoram.

Mas eu só sei de trechos, filmes,
fotos. Idealizei subir
e subi e nada vi. Estive
estarrecida pela descida

(óxido férreo, bagacina
precipitando a colina, eu
paradoxalizada em face
a como passar) vazio
e céu

Larguei em minha frente as filhas

covarde lassa impreparada
sem coluna dorsal, nada
seguindo a trilha de barriga
de gatas de rojo nas rochas réptil


no poço do firmamento, ridícula

Friday, June 10, 2016

Laços de Família

Não há nada seguro que eu não incline.
Pelo que temos de gato não se espere
mudar-me o canto. Não que eu queira.
Troco a ordem do mundo por rotina

minha. Também te acontece às vezes?
Agir do avesso para ser-se aceite,
marcar o sofá onde outros se deitam.
Nós — os mesmos pais e dois países

irmãos mal adaptados à corrente
das mil líquidas léguas da infância
onde, por regra, um de nós se lembra

do que o outro desmente. Não o sangue
senão predadora coisa congénita


que dobra como coice e nos distende.
No passado ossos, ao futuro as peles.

Thursday, May 19, 2016

As I Lie Dying



as minhas mãos vão ficar dormentes

e logo cessará o sopro. É líquido

o ar zumbe e um susto paralítico

nos cobre dum lençol turvo recente



calado o rouco corpo rijo e tudo

o mais quieto tudo tão decente

de cera o rosto tristes os parentes

urdida ardência pressentido absurdo



o rumo — tema tantas vezes tétrico

a tentar a escrita o hiato disto

e a luz efervescente além do atrito



onde não morre verme não se extingue

fogo. Na hora esperarei seguir

ansiosa no redor de pó e éter

Monday, May 16, 2016

Marinha

E depois é preciso chamar os amigos
para soprar os versos todos mas há dias
tantos que nenhum nos visita. Ligamos-lhes
ou não lhes ligamos estão fora noutras tarefas.

Separarmo-nos de quem fomos não tem
mal, enganarmo-nos de longe também
não será o caso. Críamo-nos as filhas,
trocámos cartas de madrinhas de guerra.

Eu esqueci-em de como engatilhar a bomba
no dia em que bebemos muito além da conta.
Lembras-te. Dos enjoos do mar à tareia
na tua juventude zangada? Do tempo

em que temíamos mais que nos descobrissem
a celulite do que as manhas? Das tenazes
façanhas — durmo sozinha no relento —
que nos trouxeram aqui pouco mais ou menos

firmes peladas enxutas e em excesso?
E do mar nos cabos soltos e o grande vento
o chicote nas velas e dentro treva era
e não era nada deste estilo, os versos

se vierem que liguem serão líquidos

Sunday, May 15, 2016

Carlos


A tua bicicleta é o terreno que os locais cultivam nas traseiras
As traseiras da tua casa dão para uma barreira clara
A casa acolhe em novembro as pinhas no fogão em maio as papoilas e a época inteira uma promessa de mar
As pinhas estão entre a terra e o fogo as papoilas cozem sementes que são escuras e curtas entre o feno que se ceifa no verão a foice está entre a morte e o pão o mar está entre a barra pintada aos pés da casa e o céu
O céu tem carradas de espécies de aves entre si e a lagoa
A lagoa borrifa os arrozais onde descem as aves e alguns gatos bravos espantam as traças
As traças são catalogadas com nomes por curiosos de frontais e máquinas fotográficas
As fotografias não fazem justiça à noite entre as traças e as estrelas
As estrelas são escorraçadas pelos frontais que atraem as traças
Tudo isto é circular e há ainda melgas aos milhares que mordem os clientes que não sabem que o sol cai com vingança no terraço entre o peixe no churrasco e a comida da Maria
A Maria faz muitas horas na cozinha entre o cheiro a migas fritas e as arrelias entre o dono e as travessas que a filha serve com arroz refogado entre os coentros e o caldo dentro das côdeas do pão de cabeça
A cabeça quer ser clara como a barreira atrás da casa
A barreira da casa é a norte o vale a sul o sol a nascente o mar a poente
O Melidense fica mais à frente na aldeia de quem sai para as praias
A praia que tu preferes são sete quilómetros a pedalar na bicicleta e além dos arrozais há dunas de grosseira areia onde passam só pescadores e tu entre os cardos as camarinhas e as acácias rasteiras depois das piteiras e dos alemães e dos caçadores e dos seus cães
Há um marco geodésico que é o teu destino e os cães atrás da bicicleta são um susto a aborrecer-te a solidão desde que passaste o cemitério o vale e as areias com os traços de jipes e cavalos e os pacotes e garrafas que acumula o tempo quase tudo tão deserto e quase muito pleno
Do deserto vês o mar e penetras primeiro os pés e o tronco depois do sexo a cabeça atrás e aí o roxo som a mansa trepideira das ondas e das rodas e até o latir imprevisto em cima do destino e entre o salitre e o feno e entre a morte e o pão e a natureza toda a morder-te a atenção até o sono quando a luz declina faz-te falta por terreno

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