Monday, November 26, 2018

aspeto da linha cerca de abrantes



não posso evitar admirar como não caem carneirinhos
nem o resto que é de novo levantado, levado
torcido, lavado nas manchas lilases da manhã  
recém-cosida, líquida, desta hora
  moiral com os braços
de frio fincados na barriga, escada onde se alça
a mulher varejando a oliveira, rio a seguir videiras
que são rochas preciosas recortadas de cobre
no outono beirão, amanhece claro protegido
desta hora neste vidro do vagão, ó Ente-
-pavor, senhora disto que tremendo
se atravessa, paisagem-lustro, molhada, verde
sede expressionista céu de cores ainda homéricas
nasce mundo, mesmo se apoucando os dias, eu
penso me comovo mais de viço neste conforto
do que entre fios e nós e bichos por exemplo
debaixo de árvores onde raramente se está bem
para ler, porém os fabricantes de lápis desenhariam
tais aparas de luz, riscos do sol, praticamente incrível
aqui em baixo, esta hora, ainda a poder olhar-se
como lua sobre ardósia fresca —
monstros, só podem, dum furta-fogo vasto
que envolve tudo e filtra as fundas dores

encostas cheias de trevos musgo vertigens
impossíveis de choupos, depois arados campos e
tudo quanto faísca, desta hora, da chuva
da noite, das sombras das pontes quando vamos
— túnel breve afinal, desta hora, eu quero a verdade —
tudo passa e tão tangível que tu és: claro Divino
por quem a treliça do mundo se coloca em marcha
renovadamente, sobre as massas mesmo os escombros
e mesmo erros sim, consigo, cantiga, que grite também
esta santidade de agulhas louras e de ávidas auras
esta fartura, que até as rugas de rodas nos bordos
de lama, as murtas pequenas, as coisas metálicas
intrometidas nas poças extensas entre o alto e a crosta
e o que em segredo há de ferver, que até são portas
— laranjeiras, desta hora, e o rio como mar a forçar
uma visão a dançar entre montanhas, as aves
nos penedos pousadas se deslumbram certamente
também com a minha passagem
mais os balaústres de leques transparentes que
azuis se tornam, se cruzam, pois, pontes só carris
de patins, se cava um vale e vai rio
vai verde nele se varre película móvel de brilhos
de arribas cada vez mais solenes coroadas de esguios
sinalizadores álacres de óxidos raros —
dádivas, desta hora e tudo
tudo esdrúxulo ao mesmo tempo bem pensado
tudo deitado e gritando para o louvor e o espanto
irreprimíveis, desta hora, não regateados

Saturday, October 27, 2018

Tradução literária de inglês académico (I)




I set forth the idea that the hermeneutic project of translation stands on the Romantic belief that the impure, hopelessly inextricable translating language, enmeshed in the material struggle of historically-situated discourses, is yet striving to strike back at the “pure language”.

A Babel de Benjamin

O projeto alicerça-se
na fé romântica: argamassa
(dois discursos, ao menos, não
coevos nos seus sítios)
lançada, escreve-se
à puridade irretraçável:
Beleza

co-moção conspirada

forja (sem que valha
compreensão plausível
da piada) entre deus 
e nós os tijolos
a parede de sustentação
o algeroz 
da que falam no céu
.

Saturday, October 06, 2018

Menopausa


ando a tentar que o verão não morra
me dê calor mais do que afrontamento
me dê mais sumo do que mosto finto
e o sal na flor da pele não sorva ao corpo

o choro; que seja mar com luzentes
panos e seja ainda franco o espaço
da cabeça em espuma; que a folha estale
e não se suste em brancas reticentes

não caia sem palavra crespo nervo
só esqueleto, boca avara, azedume
e a vasta aridez de medo pelas

notícias. Restem-me balas e velas
onde o sangue seca e me conserve
velha a acicatar no lume os répteis.

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