Reparo que o meu último post teve um nível exagerado de leituras, o que talvez indique que esteja a ser comentado noutros canais. Gostaria de conversar mais sobre o assunto aqui, queiram deixar contributos na caixa. Isto porque tenho algum desconforto nisto. Reli o poema de Marieke Rijneveld. Ocorreu-me que esteja a querer dizer que a sua decisão tenha implicado descartar estrategicamente qualquer ideia sobre tradução (colocar-se nos sapatos do outro) em favor de uma "habitação mais inclusiva do poema", já que a sua recusa obrigará necessariamente a algo em que antes não se pensou: procurar e contratar um(a) tradutor(a) negro(a). Isso teria um lado positivo, desenvolvendo também o debate sobre o "quão" colorida têm sido a nossa literatura e a tradução (eu acho que as duas têm cor e sexo, ainda que essa diferença não seja discernível na leitura, e que idealmente se procure a trangressão - até mais do que a inclusão). Entretanto, de forma ambivalente, a editora declarou estar à procura de "uma equipa" - porquê? Rijneveld poderá até voltar à cena com uma colega negra, o que não sei se favoreceria muito a causa. Ou a ideia da "equipa" poderá transformar a concepção da profissão: lançar-se-á assim a tendência de ter um comité de diversidade para assegurar o resultado inclusivo da obra traduzida? (e isto mesmo que o original nem seja assim tão inclusivo?)
Talvez se encontrasse outra maneira de fazer a justiça reparadora pela falta de acesso à profissão, sem implicar comprometer, de uma maneira muito perigosa para o futuro, a latitude e o exercício (re)generativo da tradução literária. E preferia que Rijneveld fizesse uma declaração política clara sobre as razões da sua desistência.
