Monday, September 18, 2006

Porque sempre que tenho arrufos com a maternidade me lembro



e lembro também um certo ex-aluno – dos que soe dizer-se “problemáticos” – cuja voz se lhe embargou quando lhe pedi para ler este texto do Almada, e ainda porque ontem, pelas 20h00, a Elisa viu nascer a Maria Rita.

“Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado! Eu ainda não fiz viagens E a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar. Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras. Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa. Como a mesa. Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!”

Monday, September 04, 2006

Não está estafado, nem o poema nem o tema, e aliás a questão é: o que se faz a seguir a isto?

Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.

- Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.

O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.


Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.

excerto de Cântico dos Cânticos, tradução de Herberto Helder, ilustração de Marc Chagall

Friday, September 01, 2006

Exercício expurgatório

Escrever 100 vezes:

amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir amar é poder saber deixar partir

Voluntariado Infantil



Quando me caírem os dentes, se a fadinha me puser dinheiro debaixo da almofada, dou-to a ti.

Wednesday, August 30, 2006

Transfer

Que caiba na escrita tudo o que enegrece:
às palavras a escória, a mim a luz coada.

Saturday, August 26, 2006

Sabes que

mesmo quando eu me zango contigo eu estou feliz contigo.

Wednesday, August 16, 2006

POST 100: Xantipa, a Megera




Pudera. Ela até podia ter estofo para a maiêutica e pedalada para o peripatetismo. Mas tenho para mim que o que lhe deu a volta ao miolo foi a petulância do "conhece-te a ti mesmo/a".

Saturday, August 12, 2006

Introdução aos Estudos Linguísticos


Não se diz mais grande porque maior é mais grande que mais grande.

Sunday, July 30, 2006

Woman Overboard

MAYDAY lanço, porque a guerra dura



e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
drena a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, em ponto lento a onda
fará um manto sobre o afogamento.

Wednesday, July 19, 2006

Post Scriptum

COM-PAIXÃO & HIPOCONDRIA

Confortamo-nos com histórias laterais,
esquivamos o toque, há risco de contágio;
e, por mais que preservemos a franqueza,
passou o estágio da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía.

Tuesday, July 18, 2006

Pousio



Este blog entrou em estado de conserva vegetativo. Será reanimado lá para Setembro. Bem hajam, até lá.

Saturday, July 08, 2006

Female Bonding # 4?



HETTIE JONES & AMINA BARAKA

E este, jovens mulheres,
é o dilema

ele mesmo a solução:

sempre fui ao mesmo tempo
muito mulher para me comover ao pranto
e muito homem para
conduzir meu carro em qualquer direcção.

(final do poema Hard Drive, de Hettie Jones, n. 1934)

"Há quem pense que a força está na perseverança; às vezes está no deixar ir"
(Amina Baraka, n. 1937, poeta, cantora de jazz e jornalista no órgão de propaganda de esquerda "People's Weekly World")

As duas mulheres foram companheiras do poeta actualmente conhecido por Amiri Baraka, n. 1934, antes associado ao movimento beat com o nome de LeRoi Jones. A mudança de nome deu-se no período quente de meados de 1960 com a radicalização da luta pela afirmação identitária dos afro-americanos (nomeadamente, em sequência do assassinato de Malcolm X) Muitos negros recusaram então os antropónimos que julgavam herdadados dos esclavagistas do passado, optando por nomes de origem africana. Amiri, ao que parece, significa "príncipe", e Baraka "benção". A questão torna-se controversa e irónica quando comparada com as mudanças de nome por que optaram as mulheres daquele que recentemente reconquistou notoriedade com o poema activista "Somebody blew up America". Hettie Jones, nascida Cohen, branca e de ascendência judia, mudou o apelido para "Jones" quando se casou com LeRoi numa cerimónia budista em 1958. Divorciaram-se em 1965 e no ano seguinte o escritor casou com a cantora negra Sylvia Robinson que viria a mudar para "Amina Baraka", significando o nome próprio "leal e fiel". Pelo menos em autógrafos recentes, a actual mulher do ex-poeta laureado de Nova Jersey assina apenas "Amina".

Saturday, July 01, 2006

Aos meus amigos # 2

FOI BONITA A FESTA, PÁ

"And I'll see if my friends are still there:
Yes, and here's to the few
Who forgive what you do
And the fewer who don't even care"

(Leonard Cohen)
Obrigada

Thursday, June 15, 2006

Beleza é fundamental

Não é importante ser-se mais bonito. É importante ser-se bonito. Eu era Leonor Borboleta e tu eras Pedro Cravo.

O meu primeiro silogismo

Se tu estás a dormir tu não te zangas
tu só te zangas quando não estás a dormir

Sunday, June 11, 2006

Aos meus amigos

(especialmente aos mais belos recém-esposos do 10 de Junho)



A MESA TRANS-POSTA

se ao coração se vai pela barriga
dou a minha vulnerabilidade
em troca dum regalo de comida

Friday, June 09, 2006

Talvez a injecção letal

não precise ser fatal
após o incerto cruzeiro
após pagar ao barqueiro
dos lameiros de Aqueronte
que pode bem ser bifronte
velho sátiro ou Morgana
criatura quase humana
que tudo engana consoante
se olha pra trás ou diante

tão cansada de engolir
comprimidos sem dormir
do meu sexo que se embota
do coração que se esgota
esticado na horizontal
sob uma agulha sensual
e a sopa na panela
embacia-me a janela
e sorvo mas sem palato
sem ter forças para o salto



se há uma falha um abalo
Dickinson Plath Woolf Kahlo
onde foram estavam loucas
queriam coisas eram ocas
queriam chique eram pedras
queriam arte eram merdas
tentando o voo eram estacas
punho em riste eram farpas
fornos hortos seu delírio
nunca foi santo martírio

da fonte de Lete das letras
dos opostos caracteres
desconheço o que esquecer
se a vida sobre ou subterra
e se a barca vai na esteira
da nascente derradeira
ou duma foz mais absconsa
sem que embale a brisa ondas
sulcando turvas manhãs
duma ilha de maçãs

Sunday, June 04, 2006

Se calhar é por isso que eu me pelo pela Sintaxe

Aos cuidados de e de:

O Léxico tem sexo; a Morfologia tem géneros; o Sentido é filho da mãe que, não desfazendo, é a Semântica; só a Sintaxe permite sintéticas manipulações de genética, como por exemplo:

1. Agente de crime violento é inimputável.

2. Vítima destituída de reparação de danos.

3. Crime violento passa impune.

Todas estas opções têm as suas consequências. Mas podemos escolhê-las. Não podemos escolher que "vítima" seja um substantivo invariavelmente feminino nem que "agente" seja invariavelmente masculino.
Salvaguarde-se a paridade de "inimputável", "imputável", "impune" e "punível" serem todos hermafroditas (sujeitando-se inclusive a brejeiras pintelhices com putéfios e punhetas).

P. S. Se, por improvável hipótese, alguma alma penada, que não esteja na praia nem a curtir o arraial do meu bairro, tiver passado por aqui reiteradamente nos últimos quarenta minutos constatará que este post sofreu várias alterações. É que também me pelo pela palavra justa e pelo justo vocábulo.

Efemérides #2: A LEBRE


Regozijemo-nos, associando imagem consonante com o feliz aniversário e com o espírito santo de baixo. Parabéns.

Pentecostes

“Porque eu rezo numa LÍNGUA DESCONHECIDA, o meu espírito reza, mas a minha compreensão é estéril” (Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios)



Segue excerto do “Boletim Paroquial”, emitido pela Igreja da Graça para a Paróquia de Santo André e Santa Marinha em Lisboa, nº 37, 4 de Junho de 2006; editado por mim, com ecumenismo e respeito por crentes e não-crentes (as maiúsculas correspondem a expressões em itálico no original, mas ainda não aprendi o código para fazer isso):

“Na festa de Pentecostes, em que se juntavam em Jerusalém muitos judeus vindos de todas as nações, os apóstolos falaram do Evangelho (…). E todos os presentes entenderam bem o que lhes era dito, apesar de falarem línguas diversas. (…) FALAR A MESMA LÍNGUA significa estar em comunhão com todos. Infelizmente, as pessoas às vezes falam, utilizam as mesmas palavras, mas não se entendem. (….)
Deixemo-nos invadir pelo Espírito Santo*; punhamos de lado o medo e a indolência. Saiamos do CENÁCULO do medo (…)”

* O Espírito Santo, para mim, como crente e não-crente, representa precisamente a coragem de procurarmos um entendimento, um espaço médio, ou mesmo uma fugaz comunhão, por entre as línguas múltiplas de que nos servimos. Nesse sentido, e reiterando um dos pontos talvez mais sensíveis do texto que há dias afixei, se houver (boa?) fé, julgo que a tradução é um seu artigo transitivo fundamental.

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