Friday, October 10, 2008

Aniversário (II)

Passou o dia desta vez sem que lembrasse
que teríamos feito anos. Não faz mal
tanto assim que as efemérides no geral
acendem o rancor, e já nos traz cansaço

sofrer das vezes todas, e mais depois
de partir o que foi comum; o desacato
porque o outro levou consigo o retrato
tirado por um enquanto eram os dois

– éramos –

nós. Ora aí está, dispense-se a poesia
de flexões de sintaxe e da narrativa. Haja
a sensatez de não querer decifrar nada

onde sempre de toda a forma fraqueja a
claridade. Pôs-se o luto, recolha cada
um o fumo do braço, o que acha que sentia
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Wednesday, October 08, 2008

O Coronel

O que ouviram dizer é verdade. Fui à casa dele.
A sua mulher trouxe uma bandeja com café e açúcar. A sua
filha limava as unhas, o seu filho tinha ido sair à
noite. Havia jornais do dia, cães de estimação, uma pistola
na almofada ao lado dele. Nua a lua balançava no
seu negro estendal sobre a casa. Na televisão
dava uma série de polícias. Em inglês. Havia garrafas
partidas incrustadas nas paredes pela casa toda para
raspar as rótulas das pernas de um homem ou
retalhar-lhe as mãos. Nas janelas havia grades
como nas mercearias onde se vendem bebidas. Jantámos,
costeleta de borrego, bom vinho, na mesa um sino de ouro para
chamar a criada. A criada trouxe mangas verdes,
sal, um pão especial. Perguntaram-me se gostava
do país. Houve um breve intervalo de publicidade em
espanhol. A mulher levantou a mesa toda. Fez-se
conversa sobre as dificuldades da governação. O
papagaio disse olá no terraço. O coronel
mandou-o calar, e empurrou a mesa para
sair. O meu amigo disse-me com o olhar: tu não
digas nada. O coronel voltou com um saco do
supermercado. Despejou muitas orelhas humanas sobre
a mesa. Pareciam metades de alperces secos. Não
há outra maneira de dizer isto. Pegou numa delas,
sacudiu-a à frente das nossas caras, deitou-a
para um copo de água. Aí ganhou vida. Estou farto
de brincadeiras, disse ele. Quanto aos direitos seja
de quem for, digam lá na vossa terra que se vão
f.... Varreu com o braço as orelhas para o chão e ergueu
ao ar o resto do vinho. Há-de servir-lhe para a
poesia, não? Perguntou. Algumas das orelhas no chão
apanharam aquele fio de voz. Algumas das orelhas no
chão estavam coladas à terra.

Carolyn Forché
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Thursday, October 02, 2008

Tuesday, September 30, 2008

uma sapateira gigante



A mãe tinha saído. Eu tinha ficado na casa velha com a Mariana e a mãe dela, a Xana. Havia uma sapateira gigante que cuspia fogo e andava a destruir as casas todas mas não chegou a destruir a nossa. A Xana estava sempre a ir ver quando é que a sapateira cuspia fogo. O pai estava sempre a dormir. A sapateira não destruiu a nossa casa, mas ainda deitou fogo ao quarto da mãe. Só que não fazia mal porque a mãe estava noutro país. Era desse país, aliás, que tinha saído a sapateira gigante. Eu ainda quero comer uma sapateira, desde que não cuspa fogo
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Friday, September 26, 2008

Melancolia

A falta que me fazem os teus postais
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Friday, September 19, 2008

uma paciência de louca


– Mas, seja como for, o que faz um amor sem trajecto?

– Transforma-se noutra coisa, noutra coisa pesada ou acutilante que se traz cá dentro e se embrulha com a nossa própria matéria até deixar de doer.

(Iris Murdoch, A Severed Head)
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Thursday, September 18, 2008

Manel, Manel não me deixes aqui


O AZUL (L'AZUR)



Do Azul infinito a plácida ironia
Estupefaz, bela indolente como as flores,
O poeta incapaz que o génio repudia
Através de um deserto árido de dores.

Esquivo, fechando os olhos, sinto-o observando,
Com a intensidade dum pesar demente
Minh’alma vazia; onde fugir? Que nefanda
Noite lançar, estilhas, contra seu contempto?

Deitai, ó densas névoas, as cinzas monótonas
Com andrajos de brumas pelo firmamento
Para afogar os lívidos pauis de Outono
E edificai um tecto mudo e envolvente!

E vai-te, tu, dos lodos de Letes, e traz,
Na volta, os limos e os pálidos bambus,
Caro Tédio, para vedar com mão tenaz
Os buracos que as aves abrem no céu cru.

E mais! Que sem descanso as tristes chaminés
Fumeguem, que uma urna esparsa de fuligem
Soterre no terror do seu obscuro grés
O ocaso que eclipsa de ouro a vertigem!

Está morto o Céu! A ti acorro, ó matéria!
Faz esquecer o fero Ideal e o Pecado
A este mártir que partilha a liteira
Onde o alegre gado humano jaz deitado.

Que quero – pois enfim meu cérebro de areia,
Tal balde de verniz vazado ao pé dum muro,
Não tem mais arte de avivar a fraca ideia –
Bocejar plangente ante um trespasse escuro.

Em vão! O azul triunfa e escuto-o nos sinos
A cantar. Por minh’alma! A voz que toma assusta
Ainda mais com sua glória escarninha,
E o metal vibra e toca hinos de angelus!

Rola através da bruma antiga e trespassa
A tua dor nativa como espada rútila:
Onde fugir nesta revolta amarga e lassa?
Eis-me assombrado: Azul! Azul! Azul! Azul!

Stéphane Mallarmé

A foto vem daqui.
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Wednesday, September 17, 2008

Versão de Moon Chung-hee (n. 1947, Coreia)


a partir do inglês de Windflower, trad. Wolhee Choe e Robert E. Hawks

A ARANHA

Um corpo mais pequeno que uma lasca de pedra
defrontando o vazio infinito
desenrola de um coração apertado
sedoso fio que de outro modo se não concebe
nem pelo Sol majestoso.

Sem confusão
costura o vazio

de onde emerge uma teia magnífica.
Ressoa no seu frémito
o som primitivo de uma viola.

Asas de prata presas
esvoaçam no Sol do meio-dia.

Onde vos perdestes?

Nesta terra

onde rosas e criaturinhas brincam
testemunho
Deus.
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Monday, September 15, 2008

Declaração de Intenções

Para aqueles que insistem diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.
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O Melhor dos Açores


se tu viesses desta vez é que eu não fazia perguntas nem poemas: já tinha aceso o bule para que as bocas mudas reservassem o mesmo aroma e se soltassem só com fins obscenos.
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Charles Simic

O blog do nosso quadro de honra está a publicar poemas de Charles Simic (n. 1938). Esta manhã apeteceu-me tentar este em português.

UM LIVRO CHEIO DE BONECOS

O Pai estudava teologia por correspondência
E era a época dos exames.
A mãe tricotava. Eu sentava-me calmamente
Com um livro cheio de bonecos. A noite caía.
As minhas mãos arrefeciam a tocar as caras
Dos reis e rainhas mortos.

Havia uma gabardina preta
No quarto de cima
A abanar do tecto,
Mas que estava ali a fazer?
As longas agulhas da mãe faziam cruzes lestas
Que eram pretas
Como então o interior do meu coração.

Voltava as páginas e soavam a asas.
“A alma é um pássaro”, dissera ele.
No meu livro cheio de bonecos
Eclodia uma batalha: lanças e espadas
Faziam uma espécie de floresta de Inverno
Em cujos ramos o meu coração se picava e sangrava.
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Monday, September 01, 2008

Rentrée

Este é da madrugada de hoje. Parte vem da Hélia Correia. Demorou meses.

FEITICISMO

É verdade que quando eu contigo
me inclinava o mundo por instantes
recuava. Entreguei-me a ti aberta
como nunca porque querias ver-me,
e já então pelos teus olhos eu

gozava. Quando, pois, te evaporaste
com uma assombrosa fixidez
mandei o espírito buscar-te o corpo
e amar nele e tornar-se um outro
que atravessava as tuas mulheres.

Investi a crueza que evitei
connosco: saciei-me assim de início
marcando até algumas, contra
a evidência de que entre dois
o mais violento não tem testemunhas.

Tanto me apliquei que cheguei a crer
que tu retribuías. Iludi-me
na complacência de, tomando outros,
me devolver também a ti. Porém,
foi-me custando mais a cada vez

voltar. Mergulhei, esqueci aos poucos
onde, entre este e aquele, arquejei
no engodo que chamei de nosso amor;
e raro sinto que ouça tua boca
resfolegar por sobre minha pele.
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Sunday, August 31, 2008

201

reparo que o post abaixo foi o 200, e calhou ser um texto do tempo em que ainda não havia blogosfera (ou quase, o short de blog apareceu, segundo a wikipédia, em Abril ou Maio de 1999). Este é mais um texto do baú, que a memória do computador velho diz ser de Janeiro de 2000. A mim parece-me anterior. Mas foi retocado.

Parceria Breve

Já vieram as novas listas telefónicas.
O teu número é impossível de encontrar.
A tua família, creio, mudou de cidade.
Espero que lhes chegue a demorada alegria
sem que a tua memória a venha diluir.

Conheci-te num tempo tudo menos inocente
com ferozes sobressaltos de ternura. Tu já
perdido salvaste-me a adolescência
e a vida porventura. Parecias um índio
farejando os sulcos e os líquidos humores.

É sabido que os magnetes viajam velozes
atraídos pela circulação dos golfos sanguíneos.
Os cabelos cobriam-me no teu colo a cabeça
e a tua mão respirava sobre o meu desejo
num acto solene de xamanismo.

Depois que nos mentiste morreste sem cartas
com uma agulha erecta a prumo sobre a veia.
Recordo-nos, amor primeiro, boiávamos
ao mar um lugre o céu estrelas que eram ímanes
que singravam ondas pólos do nosso afecto.
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Saturday, August 30, 2008

Primavera dos Simples

A casa está toda aberta
A porta escancarada
As portadas de par em par

Corre uma brisa de nascente a poente
e o nosso amor é essa aragem
que atravessa através dos

longos dilúvios longos do mês de Março

(achei este no computador velho, com data de 28 de Março de 1999)
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Tuesday, July 08, 2008

segurança

quando um arrisca com outro

Sunday, July 06, 2008

tudo muito bonito, caro

mas porquê então ser ideal de comunicação adivinharmo-nos sem palavras?

Tuesday, June 17, 2008

Mulher ao Mar


foto de Rogério Rôla, quinta do Tio Manel, Sexta-feira

Saturday, June 14, 2008

incarnation exceptée

por mais que se diga, com a impossível excepção de O Princípio e Jesus, as palavras não podem tornar ninguém presente.

Pretérito Imperfeito

Talvez me seja difícil
chamar ali
completamente.
Connosco
tu estás lá
e eu estou lá
tanto o tempo
que durava

(A tradução disto é impossível em inglês. Pelo que o sentimento que expressa talvez seja linguísticamente circunscrito. Ou talvez seja apenas a expressão do sentimento que o é. De qualquer forma, a língua será um modificador do amor, por entre as variáveis de tempo e lugar. Outra alternativa: a língua como forma apriorística do sexo. O amor como nome que a língua dá ao sexo. Mas nem todo o sexo nem todo o amor. De toda a maneira, não me faz sentir melhor. Serei eu apenas a pensar mal. Ou a bater mal.)

Tuesday, June 10, 2008

Verão


Convém não esquecer. Mais as palavras de calor que ainda se correspondem.

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