Monday, January 19, 2009

Não é todos os dias






















que o escritor da América mais amado pela Europa faz 200 anos. Para parabenizar o Edgar, aqui fica a tradução de um seu poema curto e plácido, como poucos.

PARA HELENA


Tua beleza para mim, Helena,
É como a das antigas naus nicenas,
Que embalavam sobre oloroso mar
O viajante, e alijavam suas penas,
Trazendo-o para as praias do seu lar.

Dos mares que eu cruzava, tão agrestes,
Tu, Náiade de tez preclara, amena,
Com flores de jacinto nas melenas,
À glória, que foi Grécia, me trouxeste;
Em Roma, que foi grande, me acolheste.

Te vejo à janela, em teu recanto:
Altiva, tal estátua, te levantas,
E a ágata transluz na lamparina
Em tua mão, Psique, que me ilumina
Ardendo dos confins da Terra Santa!

Sunday, January 11, 2009

Declaração

Quando alguém diz em voz alta que mudou de ideias.

Thursday, January 08, 2009

e por que não um pouco de publicidade?


A minha máquina Espresso Phillips Profissional parece que foi feita para o café Sical



... e com um poucochinho de açúcar Sidul dá aconchego especial.

(pensei em pôr os links, mas já era de mais, embora prometa fazê-lo se me arranjarem um lote vitalício)

Wednesday, December 31, 2008

eu sabia que já tinha lido uma coisa parecida

"A Avenida Almirante Reis, eternamente cinzenta, pluviosa e triste ao sol de Julho, balizada alternadamente por ardinas e inválidos, trotava na direcção do Tejo entre duas gengivas de prédios cariados, como um cavalheiro apertado em sapatos novos para a paragem do eléctrico. Industriais de olho alerta impingiam relógios de contrabando nas esplanadas a que os engraxadores, acocorados em penicos de tábuas, conferiam uma dimensão insólita de creche. Em cafés gigantescos como piscinas vazias desempregados solitários aguardavam o Juízo Derradeiro em frente de galões imemoriais e de torradas terciárias, congelados em atitudes de espera. Salões de cabeleireiro habitados de baratas propunham às donas de casa em mal de imaginação soluções capilares imprevistas, a que retrosarias poeirentas dariam o toque final de soutiens de renda, mosquiteiros torácicos capazes de rejuvenescerem de erecções formidáveis vinte e cinco anos de resignação conjugal."

António Lobo Antunes, Memória de Elefante
.

Tuesday, December 30, 2008

Almirante Reis

A nossa solidão é esta avenida decotada,
do passeio do acaso, do furtivo e escancarado,
artéria tantas vezes paralela ao coração,
onde ninguém serve a nenhuma arquitectura;
onde sobe a miséria do terminal do eléctrico
até à igreja fronteira à sopa dos pobres,
temporárias sentinelas armando cartões
nas fachadas das lojas, trastes e artigos
de ocasião (apanham-nos de dia noivos
investindo num projecto de família).

O nosso é este meio de solidão, que se carrega
de qualquer coisa que não é bem perpétua
atmosfera de névoa, nem sujidade, que também
é terna, pena suspensa (corvos de Lisboa, naus
gastas no chão), saudade, por que não, sentimento
de povo sem pátria em que descreio; crer
creio
nisto que na indigência e vício coexiste a gente
dá-se e da carência faz-se uma disciplina às claras
e por muito pouco desprende-se quase nada
que se tem
.

Monday, December 29, 2008

ODES de Ana Salomé (Canto Escuro, 2008)

a uma existência de papel

e eis que é chegado o fim
como uma pedra que se suspendeu
e depois pousou no chão vencida
vencida pelo cansaço de querer mais
do que uma simples pedra pode querer
esta pedra, que josé ferreira gomes conhecia,
que ele próprio atirou contra a noite e o dia
no jardim que era, afinal, todos os jardins
que ele próprio comeu, depois do pódio do chão,
como uma sombra demasiado sombria
que ele próprio supôs como a palavra.
e eis que me dou conta que existo rodeada
de palavras e de pedras caídas - ou anjos em
falência.
não sou homem, e a uma mulher é mais difícil
viver só com as palavras. e quando digo só é só que digo.
esta vida a meio-gás, o JL no braço,
a mesa na esplanada de inverno e o cigarro, até esse,
a apagar-se até ao desnorte.
todo este frio de olhar em volta
e não ver a estrela nem a graça
de não ter uma única casa - uma única casa - branca
nas ruas desta ferida.
de olhar em volta, o centro comercial - o centro,
como esta palavra poderia ser bela - a trazer-me
os outros como uma paisagem sobre as folhas do jornal.
no centro comercial há tantos casais
que se amam como um padrão de pombos - ali, agora mesmo, um homem de bigode
e uma mulher de seios descaídos -
também os seios caem como as pedras suspensas - também os seios -
amam-se com a facilidade com que viro
as páginas do jornal e abandono os temas desisteressantes.
meu deus, faz com que eu tenha os seios descaídos
e dá-me um homem de bigode que me leve a passear no centro comercial.
não quero um amor maior do que o amor possível,
a lição dos livros - esta inqueitação - esta grande inquietação -
cansei-me de amar rodeada de palavras
e de vento e de nada
alguém que não vem mais.
levanto-me da mesa do café,
puxo a gola do casaco para cima,
prendo o cabelo
e vou para onde não sei.

Ana Salomé

Sunday, December 21, 2008

Saudando a luz que se alonga



Augusto de Campos, "Sol de Maiakóvski" (1980-1993)

Wednesday, December 17, 2008

O raio do pombo

já chocou três vezes, hoje, contra a minha janela. O gato está há horas de bigodes afiados e focinho húmido colado ao vidro. Só por causa disto, até deixo aqui um inédito que eu acho que é do Fradique Mendes - quem quiser confirmar, vá ao espólio de Jaime Batalha Reis, na Biblioteca Nacional, caixa 55, documentos 15.2 e 15.3. Entre parêntesis rectos, coisas que não se percebem bem na caligrafia. Podem comparar à vontade com o Corvo do Poe. Ou com o Gato Preto. A mim não me rala nada. Sou só um bocadinho supersticiosa.

Quando virem minha pomba pelos campos pela eira
Negra, negra como um corvo azulada e luzidia
Não lhe atirem, não a matem, não a prendam que seria
Para mim ficar dormindo sem a minha companheira.

Há três anos e três dias que eu com ela vivo só
Há três anos e três dias que indo ver nascer o Sol
Ao findar duma elegia do nocturno rouxinol
Uma pomba na janela veio olhar-me a mim com dó.

Eu não sei se foi tristeza se prazer o que senti
Sei que os olhos negros tristes, compassivos, dolorosos
Ao fixarem-se nos meus doloridos lacrimosos
Me lembraram as saudades dum passado que perdi.

Costumava eu pela noite na janela do nascente
Esperar que a luz viesse colorir de azul o Céu
De maneira que no dia em que a pomba m’apareceu
Cuidei ser da noite a imagem junto a mim sempre presente.

Desde então que a pomba negra nunca mais, na natureza
[Sombra vã duma] saudade me deixou um só instante
[Vai às vezes] pelos campos a voar sinistra errante
Para vir junto da casa considerar-me com tristeza.

Monday, December 15, 2008

Solicitações

Por enquanto não custa praticar o limbo
e ficar quase num estado larvar assim
nem em alto nem em baixo
como tão cândido escreveste
com erros ortográficos que guardo para mim
e me fazem lembrar que não és rei de Ítaca
e talvez nem voltes cá, também

me fazem lembrar quando me chamas brava
embora agora não ouça:
para estar suspensa é preciso não usar os sentidos,
especialmente os da cabeça
que são eles que avisam quando é tempo de doerem os músculos
e de os membros inferiores terem formigueiros
e de ser preciso correr sangue antes de se porem roxos,

mas por enquanto não custa;
é tão agradável, desde que não pense muito
qual de nós vai ser primeiro a ficar frouxo
e cada noite faço versos para não ter outros
compromissos além de urdir o nosso enlace.
Se fosse hoje Penélope também
preferia dormir com barbitúricos
.

Sunday, December 14, 2008

Uma falha no programa

Estou à espera mais uma vez
de ser gentilmente votada
ao meu lugar de amante
intensa, grata e gozada
e é melhor que fique assim,

nem me queixo, inconveniente
sou para todo o protocolo
e além disso algo demente;
tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme

e desprendimento – aliás,
agradeço que entre portas
me deixem dedicar mil vezes,
no meio dos uivos e lodos,
a minha vulnerabilidade –

– mas se por acaso, só desta,
for mesmo da minha cabeça
e acontecer de outro modo,
fico de tal forma contente
que hei-de agradar-vos a todos
.

Para não enganar ninguém

NegritoAqui
uma crítica severa e provavelmente certeira às traduções de Daniel Ladinksy que tenho vindo a utilizar e também a alterar. Embora reste a hipótese de neste caso - só neste - o excesso de zelo ser contraproducente para o trabalho de amor, e de se calhar não devermos mesmo ser assim tão religiosos
.

Saturday, December 13, 2008

Hafiz (em loop)

PEQUENINOS DEUSES

Dizem alguns deuses, os pequeninos,
“Eu não estou aqui, nos teus lábios vibrantes, húmidos
Que precisam de banhar-se sobre
A praia dourada de um
Corpo nu.”

Dizem alguns deuses, “Eu não sou
O anseio em ferida da alma não correspondida;
Eu não sou a face afogueada
De cada estrela e
Planeta –

Eu não sou o Regente aprovador
Dessas secreções preciosas que podem destilar
Todo o espírito numa jóia perfeita e cintilante, nem que por
Um só instante;
Nem resido em cada monte de estrume quente e doce
Que brota da gratuitidade
Da Terra.”

Dizem alguns deuses, os que temos de enforcar,
“A tua boca não foi feita para conhecer a Sua,
O amor não nasceu para consumir
Os reinos
Luminosos.”

Meus queridos,
Cuidado com esses deuses que os homens assustados
Criam

Para trazer consolo e anestesia
Aos seus tristes
Dias.

*

UMA NECESSIDADE PREMENTE

Por

Uma necessidade premente

Estamos de mãos dadas

E escalamos.

Não amar é largar.

Ouçam,

Por aqui o terreno

É demasiado

Movediço

Para isso.

*

DOIS CHARCOS À CONVERSA

Choveu durante a noite
E formaram-se dois charcos no escuro
E puseram-se à conversa.
Disse um,

“É tão agradável estar finalmente nesta terra,
E encontrar-te também,

Mas o que irá acontecer quando
O Sol resplandecente vier
E nos transformar outra vez em espírito?”

Meus queridos,
Aproveitem a noite o mais que puderem.

Para quê perturbar o coração com o voo,
Quando ainda agora chegaram
E o coração se vos aquece com tamanhos desejos.
E olhem:

Tantos prados de pêlos macios plantados
Sobre vós.

Para quê perturbarem-se com Deus
Quando Ele se abstém de julgar
E é tão gentil

A menos que sejam santos e íntimos
Do círculo
Do Perfeito Um?

*

AS GRANDES RELIGIÕES

As
Grandes Religiões são os
Navios,

Os Poetas os botes
De salvação

Todas as pessoas sãs que conheço saltaram
Borda fora.

Isso é bom para o negócio, não
Hafiz?

*

PEPINOS E PRECES

Todo o dia
A terra brada
“Ui, obrigada.”

Um ui tão exuberante
Que começa a atirar
Coisas.

Como se Deus passasse num desfile a incentivar
Os arruaceiros
Com aquele tão lindo aspecto –
Que atrai como mel uma avalanche inteira de maníacos!

Gosto desta ideia de atirar coisas a Deus
E especialmente – o fazer de nós arruaceiros!

Portanto, assim que salto da cama
Começo a encher grandes sacos
Com sapatos velhos, pepinos
E
Preces

Para o próximo
Evento de consagração

Aberto-a-todos
E sabe Deus
A que mais.

*

OS LINDOS JOGOS DO AMOR

Dizem sensatamente os jovens amantes,

“Vamos experimentar este ângulo,
Talvez suceda algo de maravilhoso,

Talvez três sóis e duas luas
Rolem
De um esconderijo no corpo
Que a nossa paixão ainda tem de acender.”

Dizem os velhos amantes,
“Podemos fazer mais uma vez,
Que tal desta longitude
E latitude –

Balouçando de uma corda atada ao tecto,

Talvez uma parte de Deus
Se esconda ainda num canto do nosso coração
Que o nosso afecto ainda tem de revelar.”

Conclusão:

Não deixem nunca de brincar
A estes lindos
Jogos
Do Amor.

*

OS SUBÚRBIOS

Só nos podemos
Queixar

Quando vivemos nos subúrbios
De Deus.

*

ÀS VEZES DIGO A UM POEMA

Às vezes digo a um poema,

“Agora não,
Não vês que estou a tomar banho!”

Mas o poema normalmente não quer saber
E replica,

“Paciência, Hafiz,
Nada de preguiça –

Prometeste a Deus que davas uma ajuda

E Ele acaba de inventar
Esta nova canção.”

Às vezes digo a um poema,

“Não tenho forças
Para espremer mais uma gota
Do Sol.”

E não é raro o poema
Responder

Subindo para a mesa de um bar;

Depois, levanta a saia, pisca o olho,
Fazendo com que todo o céu
Desabe.

*

DEIXA LÁ A RELIGIÃO

O que é que
Os tristes têm
Em comum?

Parece que
Ergueram um altar
Ao passado.

E vão lá muitas vezes,
E fazem um estranho lamento e
Culto.

Onde começa a
Felicidade?

Onde deixamos
De ser assim

Tão

Religiosos.

*

PROCURAR MELHOR EMPREGO

Se já

Está provado

Que tamanha

preocupação

É negócio

Que não rende,

Porque

Não

Procurar

Melhor

Emprego?

*

IMAGINO QUE AGORA POR MUITO TEMPO

Aconteceu
Outra vez
Ontem
À Noite:

O Amor
Rebentou a rolha de si mesmo –
Espalhou os meus miolos
Pelo
Céu.

Imagino que agora por muito tempo
Algo de mim
Há-de parecer

Que cai como
Estrelas.

Hafiz (um excerto)

O medo é o quarto mais ordinário da casa.
Eu gostava que vivesses em melhores condições
.

Thursday, December 11, 2008

Põe-se a vida

Onde
Deus deita Seu olho
Põe-se a vida
A aplaudir.

Inúmeras
Criaturas pegam nos instrumentos
E juntam-se à
Canção

Onde amor se faz conhecer
Contra outro
Corpo

Põe-se
A jóia no olho
A

Dançar.

Hafiz (c. 1320-1389) – tradução indirecta e liberta a partir de Daniel Ladinsky, The Gift, Penguin Compass, Nova Iorque, 1999

Saturday, December 06, 2008

Ainda amor me alui, friável carapaça

A mim que me cuidava há muito tempo seca
Ó tão íntima bênção – que a não esqueça
E a conserve – após o acto claro, após
O imenso espanto exacto, me fecunde

Esta miséria funda, e assim desfeita,
Guardando, grata, o quanto ampla fui

Que faço só poema onde haja dentro carne
E corpos prefiro que cubram como casas
Melhor ainda tendas, asilos fugazes
Um ou dois furos, ventos, humidade, dádivas
.

Monday, November 24, 2008

Nem sempre há novidade, mas hoje até há publicidade


Para os três leitores que ainda seguem este blogue, vão mas é já a correr à Praça das Flores.

Tuesday, November 04, 2008

Leminski, poeta de Curitiba (1944-1989)


podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano
.

Friday, October 10, 2008

Aniversário (II)

Passou o dia desta vez sem que lembrasse
que teríamos feito anos. Não faz mal
tanto assim que as efemérides no geral
acendem o rancor, e já nos traz cansaço

sofrer das vezes todas, e mais depois
de partir o que foi comum; o desacato
porque o outro levou consigo o retrato
tirado por um enquanto eram os dois

– éramos –

nós. Ora aí está, dispense-se a poesia
de flexões de sintaxe e da narrativa. Haja
a sensatez de não querer decifrar nada

onde sempre de toda a forma fraqueja a
claridade. Pôs-se o luto, recolha cada
um o fumo do braço, o que acha que sentia
.

Wednesday, October 08, 2008

O Coronel

O que ouviram dizer é verdade. Fui à casa dele.
A sua mulher trouxe uma bandeja com café e açúcar. A sua
filha limava as unhas, o seu filho tinha ido sair à
noite. Havia jornais do dia, cães de estimação, uma pistola
na almofada ao lado dele. Nua a lua balançava no
seu negro estendal sobre a casa. Na televisão
dava uma série de polícias. Em inglês. Havia garrafas
partidas incrustadas nas paredes pela casa toda para
raspar as rótulas das pernas de um homem ou
retalhar-lhe as mãos. Nas janelas havia grades
como nas mercearias onde se vendem bebidas. Jantámos,
costeleta de borrego, bom vinho, na mesa um sino de ouro para
chamar a criada. A criada trouxe mangas verdes,
sal, um pão especial. Perguntaram-me se gostava
do país. Houve um breve intervalo de publicidade em
espanhol. A mulher levantou a mesa toda. Fez-se
conversa sobre as dificuldades da governação. O
papagaio disse olá no terraço. O coronel
mandou-o calar, e empurrou a mesa para
sair. O meu amigo disse-me com o olhar: tu não
digas nada. O coronel voltou com um saco do
supermercado. Despejou muitas orelhas humanas sobre
a mesa. Pareciam metades de alperces secos. Não
há outra maneira de dizer isto. Pegou numa delas,
sacudiu-a à frente das nossas caras, deitou-a
para um copo de água. Aí ganhou vida. Estou farto
de brincadeiras, disse ele. Quanto aos direitos seja
de quem for, digam lá na vossa terra que se vão
f.... Varreu com o braço as orelhas para o chão e ergueu
ao ar o resto do vinho. Há-de servir-lhe para a
poesia, não? Perguntou. Algumas das orelhas no chão
apanharam aquele fio de voz. Algumas das orelhas no
chão estavam coladas à terra.

Carolyn Forché
.

Thursday, October 02, 2008

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