que não tinhas outro sítio onde enfiar,
Sunday, March 25, 2012
Não levaste pedras e eu duro
que não tinhas outro sítio onde enfiar,
Friday, March 02, 2012
Turva se faz não raro a graça ínfima,
Wednesday, February 08, 2012
aquário
até newfoundland à pesca, foram eles que
começaram a estender os bacalhaus no convés
dos barcos, a secar. depois espetavam as
espinhas uns nos outros. eram tipos bons e
maus, e perto dos quarenta anos arrependiam-se
e afundavam os pés na terra, visitavam a mãe.
a mãe ainda estava lá, a remexer ovos no ar.
Rui Costa
Fev. 2009
.
Friday, February 03, 2012
Thursday, February 02, 2012
Sendo mais que palavras na cabeça
admiração da dança:
sinta sempre queria saber
como é
banzé. revolução
não estás zangado
estás a dançar
iê-
-iê.
__
Thursday, January 19, 2012
Calmeirão cabeçudo, por tudo
.
Thursday, January 12, 2012
Cumpre que não foste
falar de mar só com a boca afogada
a regularidade assusta
e eu acho isso bonito como o som de ossos na porta
cai alguma coisa
na direcção das minhas mãos e eu corto-as
sinto os cabelos
o ombro morno do coração no ombro
não me fui embora
na praia ao vento tudo o que acontece
Rui Costa (Março de 2009)
Tuesday, January 10, 2012
Segundo Amor
Quando estás só tens as manhãs todas
de organizar o mundo; preciso grito
intenso aqui agora. Lembro-me de ti
já nem tantas vezes assim, lembro
o que fomos à noite o dia desmentiu.
Mas também às vezes especialmente
querendo com isto – o quê – a pele
sempre lisa, o futuro de ocasiões, só,
sim, só lamento o corte, recrimino
algumas unhas de raspão, triste espera,
o que houve rasteiro, o que de alto
me falta, pouco limpos passes da vida
e terna, sinceramente, tua, Guida
.
Saturday, January 07, 2012
Maya Deren
Tuesday, January 03, 2012
Democrítica
.
Sunday, August 21, 2011
Porque já era tempo de desempoeirar a xafarica
Thursday, February 10, 2011
Medeia
Thursday, December 23, 2010
Etílio Barroco
Sunday, December 05, 2010
O Balde

E a magana da gata, arisca e fugidia
foi logo parir as crias
no sofá do arrumo onde ele tinha os papéis
(havia de se esquecer do último,
agora por lá anda o advogado
a tratar de escrevê-lo)
no sofá que a bem dizer não era dele
nem nunca ninguém usou
que comprou para impressionar os gaiatos
filhos dos meus enteados
(os que trataram do advogado):
bom couro, estofo fofo,
a vagabunda gata achou-o de agrado.
Foi isto dois dias depois que me fizeram
sair da minha casa com o meu filho pois, diziam,
não nos sabíamos governar depois que
segundo eles – (eu achei-o delgado
e pequeno o meu homem
a quem puseram tubos uma algália
e aquela máscara nas ventas
que não o deixava sossegar
e obrigavam-no a dormir nu
porque não gostavam que ele suasse
só lá fui uma vez onde o levaram
para prolongar a morte
onde nem me conhecia
não tinha dentes nenhuns
e o corpo naquela indecência
nem sei se me ouvia
toda a vida ele tinha sido uma árvore
mas voltou já vestido no carro preto
e depois fez-se a missa) –
não tínhamos condições para o resto da vida.
A mim calhava melhor ter ficado em casa
com o meu filho que tem problemas mas é esperto
e sempre demos conta do recado
mas disseram os enteados,
meios-irmãos do meu filho,
mais os netos e o advogado
que eu já não posso
e era melhor irmos para um sítio
a que querem que chamemos lar
e eu chamo asilo para os arreliar
que estou fraca e magra é verdade mirrei
que vivemos no campo demora a ver-se
alguém de longe se sucedia alguma coisa
ficávamos aflitos e ninguém nos acudia.
mas ia-se a ver onde ela tinha metido os bichos
ninguém dava sentido senão eu
e por isso me trouxeram eu vi
logo ao abrir da porta
e ao sair da gata disparada
pelo cheiro
deixei na cozinha o balde preparado
o sofá estava armado no arrumo
ao lado esquerdo do corredor
onde ele tinha os papéis
meti as mãos pelo buraco no couro
dentro da espuma dei logo com a pele
ainda sem pêlo engelhada e corredia
a chiar de olhos cerrados
um dois três quatro cinco seis
que embrulhei no regaço ainda cegos
e levei para a cozinha
para fazer uma coisa
que já fiz tanta vez
com a porta fechada que a mãe
andava coitadita a rondar
e ainda continuou nos dias depois
em que eu a vi muito magra
minhas mãos de velha na água
a forçar-lhes o cachaço para baixo
aflito pequeno delgado
até sossegarem
quando já não se mexem
não me custa assim tanto
não estão à espera desta
não têm governo para o resto é a vida
.
Friday, August 06, 2010
Woolf

Someone has blundered
alguém meteu o pé na argola
e tu és a óbvia suspeita
Likely it was you
a vida irremediavelmente enrolou-se
e agora não se endireita
in an impassable crux
Sobrevém, pois, irresistível, comoção
do fluxo
What are we to do against the summon of the swoon
O transtorno das águas o tocar o fundo
the swell of your backward burial
mergulhar em câmara invertida
como dizem que passa a vida
quando se abandona o mundo
mesmo que desejes ainda
parar
o gesto nada
vai mudar if you wanted to press stop now it’s too late
a água é densa turva provavelmente
gelada
and the stones are loaded dice
nos bolsos a escuridão dilui-se
lentamente
ice cold thick, there you stood, yet ever did you regret what you undertook?
Quiseste alguma vez um pouco
menos de talento
?
Saturday, June 12, 2010
Condições mínimas
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas
semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha
e que só uso eu; a nós vontade
basta – e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,
aceitas? compreendes? aguentas?
no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro
.
Sunday, May 09, 2010
Gosto muito do meu macaco
Sunday, April 25, 2010
25 de Abril
Sunday, November 22, 2009
One Art
A arte de perder não custa dominar;
há tantas coisas que parecem decididas
a perder-se, que o mundo não pode acabar.
Perder quotidianamente. Há que aceitar
a falta das chaves, a hora consumida.
A arte de perder não custa dominar.
Depois treina-te a perder mais e sem parar:
nomes, e sítios, onde tinhas prometido
que ias; nem por isso há-de o mundo acabar.
Perdi o relógio da minha mãe, e – azar! –
a última, ou quase, das minhas casas queridas.
A arte de perder não custa dominar.
Perdi duas cidades, lindas, e, para somar,
duas terras, dois rios, e tantas despedidas
de coisas que faltam mas não causam pesar.
– Até perder-te a ti (a voz de troça, a xingar
que eu amo) não estou a enganar. É sabido
que a arte de perder não custa dominar,
embora pareça (escreva-se!) o mundo a acabar.
Oh, não, seja o que for o que for à excepção do amor
Diz: o mundo a acabar. (nota de Bishop para o poema)
Elizabeth Bishop
http://www.youtube.com/watch?



