Friday, May 08, 2026

Como o par de Lorca que vimos no palco


com rancor doentes, ciumentos de hábitos

contra esse fantasma, a erosão de nós

contra, amemos contra o perecer da luz

tontos comoventes

Friday, April 24, 2026

Ao balcão a Leila parece um Velasquez

olho acentuado e saca-rolha à cinta

dedos de elo em copos trazendo éter ácido

e óleo ao pão poema – trinca-se à dentada

nódoa e alma

Tuesday, April 07, 2026

efemérides

 dou-me conta de que blogo há vinte anos, um mês e doze dias.

Thursday, March 19, 2026

Vamos no asfalto altos até ao Bugio


Cobre a orla gente e uma cadela ruiva

rói o fio às rendas de espuma cadente

varre o mar o sol desdobrável – encosto-me 

à tua costela

Friday, March 06, 2026

Depois de António Lobo Antunes


porque terias de viver para eu continuar

a alimentar imagens como jovens 

 

e porque ainda podia ser 

no Miguel Bombarda há

trinta anos quando acedeste a ver-me fazia sol

preparei-me para a tua ufana complacência 

descartei a sonsice dum livro para assinares  

e enfiei a farpela à altura dum relance

sobre a diferença de idades

um isco de beleza um filtro de desamparo

uma cosmética de ingenuidade

 

seria melhor que um autógrafo

um período num romance teu

 

havia sol havia um cisco a cair numa camélia

no banco na orla do panóptico

e falámos falaste sobretudo eu ouvi 

dos poucos poetas que te assistiam

oito horas por dia lendo e quatro escrevendo

Gottfried Benn e Cristovam Pavia

fora os loucos que ainda consultavas

e esbracejavam de passagem nos cobiçavam os maços

faz favor doutor faz favor menina

orientem uma moeda

ou então uma pirisca

 

nos acusavam nos viam à transparência

desorbitados

o alheamento clínico

ou a exposição do sujo ou a cobarde mania

das grandezas comoventes

as arrelias tornadas magnetes de desgraça

as voluptuosas querelas de famílias 

para um único bom poema

ainda assim ao alcance de um mau

escritor qualquer

fizeste notar

longe das torturas do grande romance

bastava olhar

para os americanos do Sul

Marquez Faulkner McCarthy mas Styron

já um triste com a sua mãe todo o dia

meneando às escuras

 

eu portanto tinha muito que pensar

se era capaz de passar dias sem uma linha

os olhos arregalados

quanto tempo aguentaria

sendo tudo tão prestes a perder-se

bem haja uma piriscazinha

se mandava aquilo

ao diabo

que se lixe

era ali e eu

nem carne nem peixe

gaja

Margarida e o mestre

não me descosi e tu partiste

 

Saturday, February 28, 2026

Tão fartas serão as soleiras de amantes


pese muito a chuva, a rotina, feroz
mundo amanhã; chegas assim, impermeável
húmido, haurindo ao reenquadrar o beijo
fé por minidoses

Tuesday, February 03, 2026

Chove, venta o clima ralha arrasa

 casas

gruas antes estáveis subidas

por homem

sem medir o que era. Repara

ainda assim — clara

a azeda húmida duma hora

jovem

noutra primavera



Friday, January 23, 2026

É também amor tristeza acompanhada

leia-se, aos pedaços, absorvê-la ao outro:
tal partida fome calmada por dois—
possa a tua dor levantar lestas mãos
máximas de afeto

Monday, January 12, 2026

Ir no trilho ao poço dum tal Barbarroxa


há o mar de ser uma rouca aventura—

lá te levo, há sol no rebordo dunar:  

bagas, fungos cor de veneno glacé

nus por sob os pés

Saturday, November 22, 2025

Vamos às castanhas no parque ao sol-posto


Há ouriços sob o tapete, fogo áspero

picos, folhas fofas no topo aplainado —

Amo a par de ti e tropeço, são soltos

frutos que atiçamos

Friday, November 07, 2025

como dizer onde nos lamber


delícia Odile

dá-me lídimo 

safismo e onanismo

decerto Odile titila-me

 

ficando aquém a língua, eu sei 

a líbido de cerzir com linhas 

minhas traduções de Odile

 

assim, se ela diz, die Zuflucht der Hand

an der Möse, der Möse an der Hand

eu sei, já deslizei de modo

tão semelhante aquela mão

tateando iguais medidas

entre espaço e matéria, abrigo

e humidade, tenra e tesa

a tua pélvis

as minhas nádegas, a tua mão

sobre o meu monte, os teus joelhos

encostados

num poema de há eras

chamado O princípio do escuro

 

eu sei, ao mesmo tempo, que monte

é uma fraca verve, cobardia

poética para Möse, e desola-me

a falta de um nome de que goste

na minha língua para o meu sexo

a léguas da igualdade com o texto

 

ou de um calão veemente

eu sei, esse princípio do escuro

é um blackout glossológico

até ao perímetro da cintura

ao ponto de, aliciando-me deveras

levar palavrões na caixa aberta

do poema, não ter ainda achado

até ao presente, provocação

certa, sem o mínimo de pudor

para o que tenho entre pernas

 

mesmo quando me titila Odile 

ao pôr na boca em Manifotzo

todas as formas de os gajos

nos acapacharem com o pior 

na sua língua – Fotze! – eu falho

 

o português é tão macho que até uma cona

para causar estragos

tem de ser do caralho 

Sunday, October 19, 2025

Translatio Imperii


As estradas eram longas e levavam

ou eram compridas e conduziam

The streets were long and led

escreve Rosmarie Waldrop

em A Key into the Language of America

que reincide (300 anos depois

de Roger Williams e da sua recolha

algo fatídica de expressões e costumes

dos Narragansett) e infiltra na estrutura

uma voz de rapariga nascida “do outro

lado” pouco à vontade

com seus sexo e classe entre povoadores

 

para quem nada de nativo é congénito

talvez um enunciado se possa deixar no ar as ruas longas sem uma ponte

mas como ruas longas numa urbe atamancada

ou será aquilo uma crítica sobre a escrita


ausente de esquinas
                            pontas

 

ou uma poeta na coeva cidade de Providence 

“com um nível de nevoeiro denso como sémen” abordando

o começo de um novo mundo 

com as compensações de alguém crente 

mas sem poderes aliando-se com dúvidas 

desfazendo pela mesma moeda sua língua

mãe vaga nuvem a infância dela em Kitzingen a irrupção

do Blitz o tempo logo após a divisão – em que faria de “seis

a sete anões

a neve era branca

e o príncipe na batalha”

 

em Berlin Mitte (num quartil de cidade 

em que histórias apagadas mas nada mortas

clamam pelo tempo presente de dever) 

Elke Erb atreve-se à própria

assimilação com uma madrasta

que nos vem no encalço

não para marcar mas para entretecer

escreve

 

paira em Kastananienalle um “cheiro 

a ratos egocêntricos” repara 


e depois revê um primeiro rascunho 

de A Key feito por Marianne (Oellers de nascença

Frisch por casamento com Max 

com um fraco por pequenas

apesar dos bloqueios)

e no princípio do trabalho risca

alle Strassen waren lang und führten

reescreve

alle Strassen führten lang und ledig

todas as ruas levavam longas e solteiras

uma sugestão que Waldrop sinalizou

a lápis — Prima!

 

mas compridas solteiras conduzindo aonde

por que “autocrática teia de vergonha” 

ou trama (Schmachgespinst) ou nódoa nas carruagens?

pode a arquitetura afinal 

ultrapassar um plano 

andaimar experiências

oscilantes trans-

bordantes vasos entre parentes

e estrangeiros Sinne

podem sentidos

em vez de levados

ser caudais tecidos para traslados

 

escritos nas margens

lambendo o que se está a apagar?


Saturday, October 11, 2025

Aprender alemão com Georgette Dee faz-me ter falta de ti

 



eu direi que ela cantava sobre o pobre Herz mit dem Schnee de Marguerite (aha! G. Dee cantava só para mim), um poço fundo (tief) e claro de ingénuo amor, consumado à pressa numa pensão (klein Hotel), depois degenerado em abuso (bordel) e conduzido à penúria (ohne gelt) — tudo ao sabor altíssono e rouco da voz do grande corpo branco com um caranguejo tatuado ao ombro (ou coração com curvas finas, vértebras picotadas, asas-espinhas): Georgette Dee, seu plexo revérbero

e o cabaré teria a medida certa de Brecht e Dietrich — e ela, inclassificável (weder fisch noch Vogel), mãos espanadoras à Brel, pertinaz pesar à Piaf — alavancado tom, chorrilho com élan — por porte singular se destacando (verve à Camões) — e uma audiência afim, disponível para a emoção e a chacota 

 

nas partes ditas num tom misto de confissão e matreiro gozo, em que este meu immer arrastado tateio da língua não me deixou perceber por que todos se sacudiam de riso, limitei-me ao estudo dos gestos, mínimos pestanejos ou um subir de queixo para Terry Truck, parceiro profissional há décadas ao piano e pessoal (leva a empatia ilícita a imaginar) também na cama; aliás, grande parte da assistência mais ou menos queer se deu nalgum momento as mãos em duo ou trio — eu entre um cocktail e um caderno a querer sem poder apertar-te a tua 

 

eu a apontar à frouxa luz palavras que retinha e sabia devia já saber – por exemplo (zum Beispiel), combinações preposicionais cujo sentido não se soma, do tipo vorüber, vê lá tu, das Liebt vorüber não é “amor antes e sobre tudo” mas “transisente”, “volúvel”– o que wirklich, porém, eu queria dann und jetz, porventura ewig, era encostar em ti à mesa os olhos húmidos e vielleicht debaixo dela as pernas como um brinde

 

conforme via aqueles e presumia estas da assistência – não por tara, mas por causa do pique e da carência de uma diva-magnete cantando fixa e invergável warum ist deine Arsch so wörm (o quê tão quente, eu a anotar e a consultar depois – o rabo), a sua boca tão encarnada elástica, o modo (an deinem Mund) como aos setenta se inclina, vibra as cordas da garganta, a breve barba do seu colo para trás, e abre os dentes como quem traga (an ferne Lande) mosto de um lagar celeste — 

 

a ti, num canto atabafado e rubro (Holstufe) de Berlim, eu digo tenho febre de te comer aqui

Wednesday, September 10, 2025

Estátuas que valia derrubar

                                      para o Joaquim 

 

Arrancar — diluir ao menos — tudo

quanto ao peito, à lapela, ao pescoço

usámos e incrustámos — nossa pele 

o mar ignoto; a cruz esculpida em osso.

 

Dada a fé de anos verdes que vivemos, 

malgrado a cupidez que lhe ia a par,

pudemos por uns tempos ignorar

que numa esfera há história, que sofremos.

 

Odiámos depois ver-nos ao espelho

bem como a flor, a vela ou a balança

no corpo como em toda a arte pública —

 

mas, borrando o que não serve e era velho,

emerge à contraluz essa criança

que fomos e enleada nos suplica.

Saturday, July 12, 2025

asa cardíaca

minha solidão é funda construi-a escavando-a 

com os punhos pelas camadas do tempo

com a avareza e a renúncia e a escuta do silêncio

depois descasquei-a com as unhas 

até me serem por vezes suportáveis

as paredes vivas como a carne e o barro

até o vazio ser visão quase dizível

depois outra vez ser vazio

e por horas não saber que fazer

com o montículo do meu coração

 

não faço nada com ele sugere-me

um amigo num sussurro de um livro

por sua vez partido entre outros que me fizeram balançar

julgando-me com menos amparo no mundo

eu que comi todas as migalhas para a segunda pessoa

até restar um cu de côdea eu sobre ela com uma perna

a outra incansavelmente no ar

roçada pelos pássaros

e também pelo murmúrio de um coletivo distante por que nutri

uma militância displicente

 

oh não se iludam o meu coração

é alto e vasto quanto baste

para se circular cá dentro

e bicar às portas igualmente amplas do peito

levo-lhe a mão e a queratina perfura-a

criou as condições ideais para o eco e o gorjeio

Thursday, May 29, 2025

Por alto


 

o que espero em tradução

não é captura ou passagem de sentidos

 

embora satisfaça a impressão de fio

 

busco a lâmina da entrevisão

em que o lido se torna cortina de vidros 

cai com brilho de tons 

e com barulho nos espanta formar-se algo

como outra língua afinal quase tida

 

(ou antes a sensação de a termos) 

em comum atingida quase lá

 

a imaginação será prática 

como num amor que começa

 

treinar na cabeça um beijo

a boca real dissonante rude

desejando que aconteça

 

dois pulsares batendo riscando 

num

Tuesday, May 27, 2025

O sorriso penoso,


como moldar com palavras o desagradável

pássaro ao negro lenho pregado

 

com palavras escapar, que não nos defendem

de tudo o que nas costas se arreganha

 

ou seja, como se tornará

na cova

 

o rosto que se putrefaz

a mandíbula saliente onde, doce ainda

 

um sorriso jaz.

Pássaro: como folha se decompõe – irrompe.


Elke Erb

Friday, May 16, 2025

Há na praia um lírio que não estava ontem

 

flor que rompe acima de areia tão súbita
leve branca é sua corola a haste verde
sobre a duna acena-nos contra a luz vê-se
ondas até espuma
.

Saturday, April 12, 2025

Odile Kennel

 


Sem qualquer noção de centro-

europa

sigo em Berlim uma tradutora 

mediterrânica

que me envia fotografias de 

fotocópias

e alguns genuínos retratos de um 

rosto

em que a luz vence a luta com as 

linhas

 

de um rosto que pediu ao sol asilo

entre dois troncos

Saturday, March 29, 2025

Sobre um júri doutoral

no pano de mesa azul

escuro, sinal

de aplicado pensar

cai a tarde


arde o sol

no plástico da garrafa

no bojo da esferográfica

solta-se o mar

Blog Archive