quem me tire para a dança me sustenha
a cintura no instante em que o despenho
dramático afinal era uma vénia
quem me tire para a dança me sustenha
a cintura no instante em que o despenho
dramático afinal era uma vénia
Amanhã e amanhã e amanhã
No seu miúdo passo a cada dia avança
Até que se diga do tempo a última
Sílaba e acendam todos nossos ontens
O pó da morte aos tolos. Expira, oh breve
Chama! A vida não é senão sombra andante,
Pobre actor que cabriola e força a hora
Sobre o palco sem que se ouça mais.
É um conto, contado por um tonto,
Cheio de som e fúria, significando nada.
Afinal éramos nós outra vez, como nunca fomos. Passáramos da correspondência aos atos de intimidade, clandestinos, provando a chama produzida entre contrários, da admiração e exaspero, recusando a ideia de amor exceto por alguns segundos pós-climáticos. Pelo meio, uma casa, com antigos namorados e críticos literários, que nem sabiam que minimamente nos relacionávamos. Como em Milfontes, um lugar onde se comia com escoras para o mar. O sexo não funcionava, eu queria ir tomar banho e vagamente voltar àquele com quem perdi a virgindade, amando desta vez o ponto de acreditar que seria para sempre. Aqueles olhos tinham uma bondade coruscante debaixo das lentes. Mas mantinha contigo o que era semi-sujo, semi-claro, encostávamo-nos um ao outro, saturados, ébrios, cépticos, frouxos.
Eu tinha achado um namorado. Giro, inteligente, pé rapado, malandro, fugido, mas bom. Não tinha onde cair morto mas também não me caía em cima do regaço. A dada altura desapareceu, depois disse que tinha adquirido uma casa para nós - fomos ver, era um loft, tipo algo que fora uma casa das máquinas, com tijolos vermelhos, janelas amplas. Depois acordou-me e disse que não sabia dos papéis da casa, que por isso lha iam tirar, mas que ia resistir. Não sei para onde fomos, eu e A. Ele ficou. Mandaram alguém para o debicar vivo. Acordou com dores, viu o homúnculo que o mordia e lhe comera parcialmente a tíbia e a virilha. Ferrado nele, atirou-lhe um pedaço da sua carne para cima, depois escapuliu-se.
Talvez criança seja, como disse Helène Cixous também a propósito de Alice, uma "espécie imaginária inventada por um certo tipo de literatura psicológica, não menos do que 'menina' um "um complexo fantasma da invenção de Carroll" (234). Mas importa também o que ressaltou Robert M. Polhemus, sobre Carroll ter movido um dos grupos mais marginalizados da História, a criança, para o centro da existência - e da literatura, como comprova este ser pelo menos o primeiro livro para crianças contemplado por um ciclo de Grandes Obras Universais. Mais importa que essa criança seja uma menina, abrindo-se a este género o mundo de aventuras. Na verdade, Alice, como as protagonistas de The Goblin Market ou Speaking Likenesses de Christina Rossetti, surge em contraponto e às vezes reversibilidade com a figura da Rainha, que tudo possui, e que dificilmente podemos separar de Vitória, cujo reinado (1837-1902) foi praticamente co-extensivo da vida do escritor (1832-1898) e que, aliás, terá adorado Alice no País das Maravilhas. Podemos dizer que, independentemente de todos os paradoxos aliados à questão do império e do despotismo, o período vitoriano inaugurou o "girl power"? Ou que nisto haja que pesar bem a questão de "quem tem o poder"?
É também Helène Cixous que nota a singularidade de Alice ser escrita por outrem e, no entanto, pegar no lápis para subverter o memorando do rei, porventura uma marca metaliterária do subtexto corrosivo do palimpsesto, ou até psicanalítico incesto, de que se constrói e desconstrói Alice. Na verdade, Hélène Cisoux é uma entre muitos críticos e artistas que notam a sujeição e derrisão de Alice a várias estruturas opressivas* - assombrando desde o corpo da menina ao social e ao político (um exemplo notável é "Uma Alice" do realizador checo Jan Svankmajer, 1987). "A ficção aliciana aborda a crise da autoridade na vida moderna, sentindo-se os leitores compelidos a resolvê-la" (Polhemus, p. 604). Hipersensível a quem come e a quem é comido, são vários os momentos em que Alice acusa o poder e a exploração de outros bens e seres (sem deixar de ser lembrada, aqui e ali, de ela própria os praticar). É aqui que entra Alice a ativista - não que a de Carroll seja propriamente uma, mas ainda assim pela-se, já o disse, por golpes de estado.
Em todo o caso, olhar para Alice com os olhos de quem é hoje a A. Gato, a filha que nomeámos na esteira da que caiu pela toca do coelho (full disclosure - o pai chama-se Pedro Coelho) faz-me querer rever o texto traduzido especialmente nessas partes que hoje podem associar-se às alterações climáticas, suas causas e combates. Por exemplo, a corrida eleitoral com efeitos de secagem liderada pela ave extinta Dodó (que se afiança ser outro pun do gago Dodgson). Ou a aparente distração das presas "ostrinhas" em que consiste o ardil da Morsa para que ela e o Carpinteiro, seu partner-in-crime, chegados a uma orla deserta aparentemente esvaziada de outros autóctones e testemunhas, possam papá-las todas até não sobrar nenhuma: falar de muitos tópicos, incluindo "why the sea is boiling hot." O nonsense de outrora torna-se o absurdo com que vivemos agora. Mas se porventura o matemático Dodgson estava longe de calcular o aquecimento dos mares, há realmente vários sinais de que a exploração subterráquea de Alice destapa o aterro provocado por ambições imperialistas, coloniais e extrativas. Movida por estas intuições fui googlar e claro que encontrei quem já as tivesse tido. Há um artigo que se debruça só sobre a balada da Morsa e do Carpinteiro, "Natural Selection and Colonialism in Carroll's 'The Walrus and the Carpenter'" de Rebecca McNelly. Face às ideias da autora de que os versos perversos desta história glutona encapsulam todo um jugo transatlântico feito pelos senhores de sapatos e barcos, selado pelo lacre de correspondências reais, à custa de injustiças sobre os "simplórios" (significado slang de "cabbages", ainda que eu veja hoje no verso também uma alusão aos "counselors and kings" do episódio de Job ... e de Bartleby), até a ilustração de Tenniel ganhou novos contornos para mim. Comecei a ver a personagem agachada mais parecida com um missionário do que com um carpinteiro. Acho agora que devia rever uma tradução que há vinte e cinco anos fiz quando era uma pessoa de outras manhãs, com certa ilusão de que no nonsense não importaria o que fosse que se dissesse:
* Ainda que Cixous note também que no final de contas, "nobody wins, nobody keeps anything, but something happens and the text is produced" (234); a roca por que disputam Tweedledee e Tweedledum é o derrisório que marca a propriedade
A tradução tem o problema de Alice, querer que as palavras tenham um significado - ou, vá lá, dois, três - , com a taxa acrescida de pretender ainda vincular esse(s) significado(s) ao de um emissor outro, anterior, que para isso utilizou um sistema linguístico mais ou menos alheio, ou resistente, ao da convenção da sua tradutora. Uma maneira insatisfatória de lidar com o problema é o da redução a uma única correspondência. Foi o que fiz na minha primeira tradução de Alice, "tudo o que tivesse cabeça podia ser decapitado". Continuo sem encontrar, todavia, melhor solução, para além de uma que era o horror de Haroldo de Campos (pode-se fazer tudo menos explicar a anedota), "tudo o que tivesse cabeça podia ser separado, ou ser parado, de a ter", o de outra, "tudo o que tivesse cabeça podia ser privado de a ter" que talvez tivesse o mérito de recuperar um sentido esquecido (como em "os privados do rei") mas dificilmente poderia ter uso, e graça, para um leitor infantil ou sequer um adulto pouco dado a oitocentismos.
Já no passo que citei sobre o tempo, usei de uma outra estratégia, mais paradoxal e eventualmente mais próxima da capacidade generativa do nonsense: não achando maneira de replicar exatamente a personificação do tempo pelo emissor, porventura insinuando ser o tempo também um mestre humano - "If you knew Time as well as I do," said the Hatter, "you wouldn't talk about wasting it. It's him." - achei uma forma dentro do meu sistema de utilizar os jogos comuns em Alice de ambiguidade, polissemia e falhas de endereçamento: "— Se conhecesses o Tempo tão bem como eu, não falavas dele. — disse o Chapeleiro. — Falavas com ele." Mais atreita à minha intuição de estar em causa uma correlação entre linguagem e gestão do tempo, a minha opção tem, porém, menos nonsense. Em wasting it, somos surpreendidos, porque mais do que lamentar o desperdício do tempo, há que lamentar como tratamos o que se desperdiça.
Já sobre o espaço, encontro outro foco de interesse na questão do nonsense. Passada a Casa do Outro Lado do Espelho que, embora às avessas, configura um espaço familiar, Alice traça uma panorâmica, antes de se aventurar, como Huclkeberry Finn, pelo território:
«É muito parecido com aprender geografia», pensou Alice, e pôs-se em bicos de pés na esperança de poder ver mais longe. «Rios principais: não há. Montanhas principais: encontro-me no cimo da única que existe, mas acho que não tem nome. Cidades principais… mas o que são aquelas criaturas ali em baixo a fazer mel?"
Alice procede por ali por caminhos que se revoltam e voltam sobre si, bem como por setas que apontam para direções contrárias, algumas inesperadas e outras arriscadas, mas talvez nenhuma inútil ou inconsequente. Um mapa da mente de uma criança, escreveu Barrie, criador de Peter Pan e da Terra do Nunca, "tem linhas aos ziguezagues" onde se misturam os elementos da fantasia, com gnomos e recifes de corais e casas em ruínas e princesas de seis irmãos e velhinhas de nariz adunco, mas também o da vida rotineira, de normas sociais e de aprendizado - é, como o de Alice, torcido como a rosca de um saca-rolhas ou tortuoso como a cauda de um rato. O nonsense permite uma interrupção dessa desorientação, provocado pelo desfazamento entre o mundo da psique e o dos marcos do espaço conducentes à socialização e à contextualização. Permite a descida direta às antípodas - ou aos antipatas - e, no limite, o esvaziamento do mundo, como em A Caça ao Snark, cujo mapa adquirido pelo comandante apenas mostra o mar, sem pontos conspícuos nem coordenadas, o que a tripulação aplaude porque estas "são apenas signos convencionais" e
outros mapas são feitios, com pontões e baixios
mas há que agradecer ao nosso bom comandante
(dizia a tripulação) que nos comprou o melhor:
um vazio perfeito e constante.
Em Alice não temos o esvaziamento total, aliás muitas vezes o seu submundo ou é atulhado ou é especular, às vezes até especulativo do mundo conhecido, mas há o momento em que através de uma clareira se chega ao bosque denso onde nada tem nome e se permite um encontro aparentemente pleno entre a menina e o fauno. Dizia-me o Rui Costa:
"porque é que não podemos amar a partir do zero e temos que levar sempre a nossa história (“por favor, pago-te o café. não me contes a história da tua vida.”)? porque é que temos que ser tão cada vez mais pesados? alice pode querer saturar-se, sim, de rastas e recicladores, para um dia acordar vazia. ou pode pensar que deve esvaziar o mundo. mas esvaziar o mundo de quê? (...) criar um mundo (esvaziado mas com tudo o que o mundo agora tem) em que o camarão fosse usado como chuveiro e o chuveiro fosse comido. em que a paula rego inspirasse um grupo de seguidores canónicos, que mediam as suas proporções para reproduzir as regras de ouro da paula? uuuh isto é que era a desbunda total, até enlouquecer deus. deus aparecia, de olheiras fundas, a dizer: que fazeis que me complicativais a criação? temos umas contas a ajustar com deus, non te parece? vamos ser moços e moças como debe ser ou vamos complicativar deus? eu respondo. vamos…pois. vamos dar educação aos nossos filhos dos outros ou vamos dizer-lhes nascestes fodeste-vos gozai-vos uns aos outros e esqueceitai-vos de tudo o que o pai vos ensimesnou? vamos…vamos. a alice é uma papoila, não te esqueças disso. uma papoila não é um animal qualquer [titular]. é de-veluda colérica, contraceptivamente falando. a cidade carece de raspanetes, de caresses. lá fora estriqam anjos, assoberbados pelos silvestres. roem maçãs de rosto e sabatinam os rapitadores das asas. como se falassem. como se mungissem. lá fora-fora os governos estaduais e municipais, que são os irmaes das redes de ensino. panelas e rosquilhas de ferro como uma pêra que desce. atropeladores de porcos, estrugindo música, o regimento com os cinco dedos espalmados. atravessa a rua e pára na calçada oposta. u love. quando a neve macia e fofa cobriu-lhe completamente as costas."
Uma sugestão de poder esvaziar-se o mundo pelo nonsense é-nos dada pelos trocadilhos criados a partir do verbo to draw, designadamente no episódio do chá dos loucos, em que se conta a história de Elsie, Lacie e Tillie, cujos nomes aludem às três irmãs Liddell, no fundo de um poço dedicadas à tarefa de aprender. E que aprendiam elas? a desenhar... ou a retirar... melaço. Subtraindo algo à constância da relação entre escrita e desenho no livro, ao cuidado até que Carroll punha no design das suas edições, não encontrei maneira de replicar em português o pun com draw (ainda que noutro episódio em que se fala de lições escolares, o da Tartaruga Fingida, tenha tentado que Despenho sugerisse Desenho e Destroço um Esboço). As irmãs da minha tradução estão a aprender a bordar e a coser, eventualmente cozem o melaço de que adoecem, e portanto a minha leitura carrega mais na saturação. Na boa e perversa matemática de Carroll, as constantes adições, subtrações, divisões e multiplicações (ou antes, no dizer da Tartaruga, Nullifications) que Alice experiencia levam-na a sair do ensimesmamento, ou da em-si-mesmice, a que convida o ensino.
Querendo "ir por partes" e determinar se ainda era ela quando acordara de manhã, Alice já não é quem podia ter deixado para trás, duplicando-se e telescopiando-se. A perda da identidade, materializando-se em literais e alegóricas dores de crescimento, ou no perigoso antídoto de levar coisas à boca para as controlar, tem feito as delícias e os delírios de leituras psicanalíticas da obra, não sendo propriamente divertida para Alice. Fá-la literalmente afogar-se em lágrimas e confronta-a não só com o "melaço" ligado à identificação, o molde convencional e redutor do que é ser "uma menina", como com a construção cultural de outras virtudes, na sua maioria não exclusivamente vitorianas mas resultantes do acúmulo a que damos o nome de moderna sociedade ocidental, "What did they live on" e "How is it you live?" são perguntas que atravessam o mundo das maravilhas até ao outro lado do espelho. Se, por um lado, elas refletem o tal mapa aos ziguezagues da criança em que a rotina se intersecta com a fantasia, desconfiando de personagens que nunca comem nem bebem nem vão à casa de banho, por outro servem para desestabilizar valores como sustento e trabalho. Pois bem, as meninas viviam de melaço e o velho muito velho da canção que o Cavaleiro entoa para Alice, responde, "como água na peneira": "Apanho as borboletas / que dormem entre as violetas; / Delas faço tartes de perua / Para vender na rua."
Esse abismo do mundo possível que a representação torna presente é o que recordo com mais nitidez do meu primeiro encontro com a Alice no País das Maravilhas. Ainda que não faça parte da obra de Carroll, mas de Disney, a lição, creio, serve para os dois, e embora o seu deleite, à primeira vista, pareça provir de um recurso comum ao humor e à poesia, a literalização da metáfora, o que ali acontece é a evidência de um gesto (usar a faca para cortar a louça e não a merenda) e de um sentido (entender duplamente o que seja uma metade) que se podem reavivar no mundo por via de um código (visual ou verbal). Ao mesmo tempo que retalham a nossa perceção, e inclusive os nossos afetos (até então o chá para mim era a minha avó nos seus dias de vagar e boa têmpera, não um bule com um arganaz), este novo uso e sentido permitem outros ligamentos e preparações sem necessariamente desmentirem as noções que antes tínhamos sobre facas e meias chávenas. De resto, mesmo que a alternativa amedronte o nosso conforto, a sua maravilha está em que só podemos contemplá-la pela co-existência - isto era o que até agora pensava, mas se também for aquilo, há preparações possíveis. Creio que o curto-circuito provocado pelo nonsense, não é, A meia chávena talvez se possa beber pelas orelhas, se a primeira arrefecer e as segundas crescerem.
Foi isto que redescobri com Rui Costa quando escolhemos o nome Alice para a protagonista da peça que viríamos a chamar Desligar e Voltar a Ligar. Escreveu-me ele
Tal como a ficção científica, o nonsense não vive dos seus implementos, das extensões que chocam. O nonsense não é uma questão de aplicação, mas de desenvolvimento: de uma sintonização aguda das nossas disponibilidades sensoriais e dos dispositivos sensoriais dos códigos que temos, postos ao serviço da potência, fazendo do mundo um laboratório ou um gabinete de curiosidades generativas, estendendo as suas direções e, meio-esperançosamente, os seus fins, sem necessidade de bordos estanques ou de métodos eficazes de secagem na travessia do líquido ao sólido, do derretimento da face ao sabor da boca.
— Se conhecesses o Tempo tão bem como eu, não falavas dele. — disse o Chapeleiro. — Falavas com ele.
— Não percebo o que queres dizer — replicou Alice.
— Está claro que não! — exclamou o Chapeleiro, abanando a cabeça com ar de desprezo. — Quer-me parecer que nunca falaste com o Tempo!
— Talvez não — confessou Alice, prudentemente. —Só sei que tenho de bater o tempo certo quando estudo música.
— Ora aí está! — disse o Chapeleiro. — Ele não suporta que lhe batam. Agora, se tivesses uma boa relação com ele, ele fazia o que tu quisesses com o relógio.
*Miguel Tamen, What Art is Like, in Constant Reference to the Alice Books. Harvard University Press, 2012, p. 46.
** Michael Holquist, What is a Boojum? Nonsense and Modernism. Yale French Studies, 1969, pp. 145-164
*** Jean-Jacques Lecercle, Philosophy of Nonsense: The Intuitions of Victorian Nonsense Literature. Routledge, 1994, pp. 112-114
**** António Lobo Anuntes e Daniel Sampaio. "" Alice no País das Maravilhas" ou a esquizofrenia esconjurada." Análise Psicológica 2 (1978): 21-32.
Dizem que eu as torno impuras
que não regam como dantes
que tive sangue e amantes
que por um enlouqueci
que as águas lavam os campos
que ao ser livre as poluí.
Não sei porque o corpo lanço
porque sem pé tanto nado
se a margem jamais alcanço
na corrente levo o fardo
de mil léguas de cansaço —
quanto mais fria mais ardo
se à levada o corpo deito
de repente águas puras
brotam-me flores no peito
traça-se a luz de contraste:
mesmo sem ser quem procuras
fui aquela que encontraste.
E fêmea ou bicho que ouse
contradizer a corrente
verá que se abre a eclusa
que era estulta essa gente
que o corpo que lá se arrasta
faz a nascente profusa.
... e A Coney Island of the Mind 65. Este o seu poema décimo:
10
Não me deitei com a beleza toda a vida
repetindo para mim
os seus mais pródigos encantos
Não me deitei com a beleza toda a vida
nem me encostei à sombra das suas mentiras
repetindo para mim
que é imorredoura a beleza
mas fica lá longe
entre os aborígenes
e muito acima dos campos de batalha
do amor.
É superior a isso tudo
Ah pois é
senta-se nos mais seletos
bancos da Igreja
lá onde se reúnem os diretores artísticos
para escolherem as coisas da imortalidade
E eles deitaram-se com a beleza
toda a sua vida
E alimentaram-se de néctar
E beberam os vinhos do Paraíso
de maneira que têm perfeita noção
de que uma coisa bela é um deleite
para todo o sempre
e nunca nem jamais
pode em rigor descambar
em nada onde se perca dinheiro.
Oh não eu não me deitei
nos Beauty & Relax da vida
receoso de me levantar de noite
não fosse perder sabe-se lá como
algum movimento que a beleza pudesse fazer
Mesmo assim tenho dormido com a beleza
à minha maneira abstrusa
e já me aconteceu armar uma ou duas birras de fome
com a beleza na minha cama
derramando assim um ou dois poemas
derramando assim um ou dois poemas
neste mundo muito de Bosch
para a Ana Luísa Amaral
Pouco dona da casa embora a trate
não sei defender-me de homens nem
de mim salvar-me por escrito porém
busco placar ruído ao que se parte
mesmo que falhe nisto: consolar-te
o susto (a filha ainda tem no dedo
um vidro onde o sangue à luz não veda).
Não sei aspirar Deus como Descartes
nem na floresta negra ver o todo
ou ser além de certas folhas—sei
lá. O estilhaço brilhará no iodo
deixado ao ar. Desconvencer o ser
das coisas é mister do poema e
cabe-nos o restauro das pequenas.
depois de Luís Miguel Nava
Bem arrancada, a palavra
descola no mundo algo por que tomava partido
por que nos faz torcer
a favor ou por rancor
assim o que se traduziu
no bastidor do picotado
recortando o vazio e entrevendo um poço
que se tapou com uma pele de renda
um exercício de fios, calculado
algo de nosso, muito humano
à mostra por breve vez
os órgãos a polpa a carne
o pisado sangue depois pontos
sutura flash de cuspo, cuidado
com o verniz profilático
sobre o brilho da dor
a nova pele que exibe o corpo
a contrapelo da própria língua. Diz
corre distorce.
Quero bater no teu corpo como
o sol como no mármore o pão
se embola e cobre sob fofo pano
e vai a forno baixo a minha cona
quer-te dentro rude húmido lêvedo
montar-te giratória como clara
no castelo como nata sob vara
como treliça ou renda ou vereda
veloz ocelada amplamente leda
e tortuosa.
Pensar que assim
faço ondas avolumando enormes
amantes verdes fortes. Impossível
que não te alague desse lado a noite
e te levante aí onde tu dormes.
Como eu dizia amar
escutar ouvir constantemente
todo o repetir o chegar
a compreender completamente
alguém é para alguns certo
natural modo de ser.
Ora isto é mais a descrição
do sentir que aspira um(a) assim,
ora isto é mais a descrição
de como ouvir o repetir
chega a formar a completa
compreensão
ora isto é mais a descrição
de como ouvir o repetir
logra alcançar completa
compreensão. Ora isto é mais a
descrição de como repetir
lentamente chega a formar
em cada um(a) a história
completa da gente.
Conheço muita gente cada
vez mais e mais conheço a
gente toda a repetir ouço-a
mais e mais compreendo sempre
mais como completa história
dentro.
Toda a gente com seu completo
ser dentro. Há quem seja género
de homem e mulher. Há quem lá
dentro seja muitos géneros
de homem e mulher. Lentamente
isto vem, algo evidente vem
dele/as. Sempre vem, dentro
dela/es. Sempre vem, como algo
a repetir dentro da gente.
Então, para totalmente
compreender isto repetem
continuamente é tudo nela/es.
Seja quem for que veja então
o/as compreende. É um prazer
para quem ame repetir
quando em alguém o firme
repetir conta outra vez a história
completa desses seres.
É uma grande satisfação
para tal gente cujo talento
é amar repetir e completa
a compreensão
Como eu dizia às vezes
alguém causa desnorte.
O repetido ouvir da gente
não forma o ser completo tido
nela em ninguém. Tem vezes
passam-se anos ouvindo
repetir um(a) assim, o ser
da gente não é completa
história para ninguém aí
que ouça. Tem vezes então
que vem de lá dentro repetir
mais alto. E, se era pouco claro
sem ter quem escutasse, então
é como total ser para quem
escute o repetir que vem
assim de alguém.
Como eu dizia
amar escutar
ouvir sempre tudo repetindo
alcançar compreender em absoluto
alguém é para alguns certo modo
natural de ser.
Ora isto é mais uma descrição
do sentimento que contém
alguém assim
ora isto é mais uma descrição
do modo como ouvir repetir
alcança a absoluta compreensão.
Isto é mais uma descrição
do modo como repetir
devagar alcança fazer de alguém
absolutamente a sua história.
Como eu dizia
amiúde anos e anos
alguém provoca o desnorte.
Então isto agora
é uma descrição do ser
amando o repetir de certa gente.
Então isto agora
é uma descrição de ser
singularmente amando repetir.
Quando as maduras amoras
balouçam nos bosques, nas silvas
de ninguém, passo
todo o dia nas ramadas
altas, a esticar
os braços arranhados, a pensar
em nada, a encher
de mel negro do verão
a minha boca, todo o dia o corpo
aceita o que é. Nos escuros
ribeiros que ali vão há
a pata peluda da minha vida célere
entre os sinos negros, as folhas; há
esta língua alegre.
A máquina está a matar a trilha. A trilha é de prata.
Estende-se no horizonte. Será comida não obstante.
É infrutífera a sua corrida.
Ao cair da noite há a beleza dos campos submersos.
A aurora doura os agricultores como suínos,
oscilando ao de leve nos fatos espessos.
Perfilam-se as torres brancas da feira do gado,
Com ganas de sangue e pernis suculentos.
Não há piedade nas centelhas dos cutelos,
Na guilhotina sibilante, o açougueiro: “Quer assim?”,
No alguidar aborta-se a lebre,
E já não estorva a cabecinha, toda temperada.
Esfolada do pêlo e da humanidade.
Comamos como a progénie de Platão,
Comamos como Cristo,
São pessoas que foram importantes —
Seus olhos redondos, os dentes, a carantonha,
Um pau que chocalha e estala, serpente de brincar,
Poderá o capuz da cobra espavorir-me—
A solidão de como olha, o olho das montanhas
Por onde passa eternamente o fio do céu?
No mundo o sangue ferve, levado a peito
Diz a aurora, com as veias abertas.
Não há terminal, apenas bagagens
De onde, como um fato, espreita a identidade
Velha, calva, lustrosa, com bolsos de desejos,
Noções, bilhetes, curto-circuitos, espelhos dobráveis.
Sou maluca, grita a aranha, e ondeia os muitos braços.
E na realidade é terrível,
Multiplicando-se nos olhos das moscas.
Zumbem como meninas azuis
Em teias do infinito
Cujo remate final cabe
À única morte cheia de pauzinhos.
I
agora atravessamos a terra de ninguém dou-te
a minha mão penso com uma dor
que sobe desta claridade fria das axilas à cabeça
amo-te e temo o estrépito o anel do som
a combustão do mel na garganta
II
demorámos muito tempo para nos abraçarmos sob o céu
de cinza o céu sem noite onde uma escotilha traz pouca chuva
deitados no chão ao lado do meu monte a cabeça no declive
e os pés agarrados às costas debulhamos sucessivamente
o rigor dos prazos finais cronologicamente
pergunto seremos imortais
III
Um dia a mala abre-se a casa cai
estendidos por todo o deserto
tu e eu atiçaremos as estrelas