Saturday, October 14, 2023

A partir de "um invejável lugar"


            a mãe que castigava por igual

            perdoava a diferença

 

            quanto mais imensa a mãe

            e a mão tremendo

            menos pesaria o mundo

            entregue aos meus pensamentos     (Regina Guimarães)

            

Uma qualquer mulher

ainda não plena

sujeita poética

tem de encarar a mãe

e libertá-la de Electra

 

Passa-se a tragédia

entre fêmeas e atenas

mestiças, metecas, por regra

e o regresso secreto

do recalcado Orestes

é um fresco de batalha

numa parede:

soldados e marionetes.

 

Filha, não vês 

que erro na revolução

são os braços de ferro

com todos mortos

todos maus ou ambos

no chão

a glória um banho

manchado onde não

se salva um órfão...

 

As sujeitas poéticas

gostariam de figurar

no retrato da história

brandindo muito os braços

como moinhos brancos

de trigo mouro

 

As sujeitas da história,

quando filhas 

das sujeitas poéticas,

desarmam

a léguas a redondilha

dialética. Assim é difícil

desencaminhá-las 

da desproporção entre 

as cheias leviatânicas

e a beleza das ideias

 

Penso nisto quando elas 

tomadas de causa

iradas contra a caldeira

da casa dos átridas 

bloqueiam as artérias

da cidade

sob a ira das quadrigas

 

e penso em quando o petróleo

era como no Dallas:

brincava com o meu irmão

aos americanos e árabes

na idade do dólar

das séries

na inocência climática

da ciência 

do dolo das espécies

 

Ocasionalmente com uma fronha

e uma bandelete a fazer

de hijab, o meu irmão

punha-me num lugar

de dependência.

                            E a mãe,

chamada pelo arraial,

franzia-se com a querela

e dobrava inflexível

a chinela por igual

 

perdoando a diferença

é difícil também

ver as filhas como rés

na nossa vez

 

Uma mulher obscuramente

filha é uma mãe aflitamente

mãe

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