Tuesday, March 28, 2006

Female bonding # 3


para a allegra e a lebredoarrozal (esperando assim ser absolvida de furto de imagologia)

HAVERÁ ALGUM SENTIDO POR FORA DESTE SONHO?

As correias são frouxas
é frágil a bagagem
uma bata infantil
espreita dos caixotes
ela deslaça-me a mão
aflita e dócil
Na orientação dos adultos

eu não consigo partir
São precisos os carimbos
do passaporte as notas
lilases do monopólio:
$339 para começar—
um rigoroso cálculo
a apontar a confusão

As escadas rolantes
são escorregas desencontrados
o elevador encrava
o terminal tem sentidos escondidos
a bateria escangalhada não
dá sinal a menina apita
no embalo na descida

estamos nisto
há várias voltas
Colei as mãos ao volante
a criança desapareceu
agarrada a um biscoito
pelo espelho retrovisor
Apesar dos meus esforços

apesar de saber
que é um pesadelo comum
Ao último minuto
acorda-se Alice
está pronta para a partida
eu tenho a cabeça feita
para a perder

Monday, March 27, 2006

Carta de Paris


Apesar de curta a estada, e decorrida intra-muros de bibliotecas em fastidiosa aplicação e estudo, alinhavei estas breves impressões sobre os quatro dias que passei na cidade cognominada “das luzes”, actualmente em crucial ponto de intermitência.

1. Contrariando os cartazes anunciando os espaços verdes da cidade, “Paris respire”, os parisienses sufocam. Crispados, tensos, tristes. O céu, que Baudelaire descreveu como um capacete de chumbo, pareceu-me ter baixado ainda mais.

2. Outra inscrição-chave, a dos menus dos restaurantes, desta feita absolutamente justa: “formule” (entrada + prato + sobremesa, por um preço menos exorbitante do que seria a adição das partes, mas exorbitante “quand même”): grande parte de Paris é formulaica; “bon jour”, “je vous en prie”, “bonne soirée” – convenções de delicadeza que podem resguardar a intimidade.

3. No Quartier Latin, com ruas barricadas de grades de ferro e portinholas de sentinelas, não abundavam os jovens. Quando apareciam, era geralmente gritando à frente de polícias.

4. Nos cafés, nada que se equiparasse ao espírito de 68 que tinha esperanças de encontrar: dois anciãos, talvez professores da Sorbonne (suspensa até nova ordem), discutiam filosofia perante uma plateia neófita. Um, ensaiando pelo olhar a centelha do génio, perorava sobre Kant e a limitação da verdade às categorias perceptuais de espaço e tempo. O outro, mais taciturno, achou campo para o interromper: “Conheço gente que continua convencida de que o Sol gira em torno da Terra, por ser isso que observam no espaço, e por o Sol determinar o seu tempo.” O primeiro, insensível à ironia, refutou que a verdade se aplica ao cientificamente demonstrável, e que Galileu tratou bem do assunto.
Noutra ocasião, a voz melíflua de um americano discorrendo airosamente sobre o romance policial fez-me virar a cabeça para me certificar de que não estava perante uma ressurreição de Truman Capote, voltado do túmulo para assistir à sua entronização cinematográfica. Capote tinha o fascínio do requinte e da excentricidade dos franceses. Bajulou Colette e emulou Artaud. Nessa altura, pelo menos culturalmente, ainda se podia acreditar que a Terra rodava à volta de França.

5. Sempre resisti ao cliché da xenofobia francesa. Por outro lado, se a francofonia tem seus matizes de agência imperialista, são inegáveis as vias de acesso que proporciona à democratização cultural. Basta ir aqui: http://gallica.bnf.fr/. Desta vez, no entanto, por uma ou duas ocasiões, senti-me maltratado enquanto estrangeiro. Incertos do futuro da sua sociedade, pareceu-me que os parisienses se fechavam, algo covardemente, na arrogância nacional que se lhes colou como estereótipo. E pela primeira vez me deu que pensar a circunstância de a “fraternidade”, da fórmula revolucionária tricolor, não ser exactamente sinónima de “solidariedade”.

Ass: Xavier de Carvalho

Tuesday, March 21, 2006

Anita no Dia Mundial da Poesia


À atenção do Sr. D e do alfinete, que eu cá não sou antropógina.

ANITA

Branca, franzina, delicada,
tem no olhar a inocência da criança,
que em fofo leitozinho reclinada,
sorrindo sonha, e que a sonhar, descansa.

Mas quando Anita sonha, gentil fada
voa dela ao redor, com asa mansa,
e com pés de cetim sobre a almofada
não faz ruído algum - Quem é? A Esprança.

Mas quando Anita acorda e em redor
ouve só gritos, ais, prantos de dor,
queixoso pranto lhe magoa o olhar.

Cerra de novo as pálpebras mimosas.
Quer ver de novo a Esprança, o Sol, as Rosas.
- fazes bem Dona Anita, é bom sonhar!...

Cascais, Ano trágico de 1914
GOMES LEAL

Monday, March 20, 2006

Poema heliotrópico-real-revisionário a partir do infra-citado Gomes Leal


mesmo que não haja nada novo
debaixo do Sol talvez seja
mesmo o Sol a fazer o novo
mau-grado a falácia de nascer
mesmo para todos

Literariamente, a capacidade de inovar é directamente proporcional à arte de furtar

Mas o busílis continua a estar na arte.

“Se um escritor tem de roubar a mãe, nem sequer hesita; a 'Ode a uma Urna Grega' vale bem umas quantas velhotas.”
William Faulkner

“E assim é fácil, por um contraste notável, num dado espírito poderem ter operado as influências da leitura de Proudhon, de Cícero, de Vico, de Dante, de Baudelaire, de Renan, de Voltaire e de S. Agostinho: e daí, depois, criar-se uma entidade tão diversa destas entidades, em particular, que nenhum deles o teria por discípulo.
(…)
É por isso que compete ao escritor trabalhar a sua ideia, lapidá-la, poli-la, desenvolvê-la, facetá-la, de maneira que ela seja como que um grande elo em que se vão encatenar um rosário luminoso doutras novas, e que ela saia transformada deste vasto laboratório intelectual, por um processo misterioso semelhante ao do que faz a natureza, transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.
O escritor é um produto literário do seu tempo, das suas leituras, do seu temperamento, do seu estudo: – e obedece, mais que tudo ainda, à sua consciência e à influência do Sol sob que nasceu.”
Gomes Leal

Sunday, March 19, 2006

Gomes Leal: para ajudar à festa do valor literário

Acabei de comentar um post acerca de mais uma recente polémica sobre o que deve ser a literatura, lembrando a importância de Gomes Leal para as nossas letras do século XIX. Não me canso de a lembrar. Gomes Leal foi, quanto a mim e alguns outros, o nosso mais estranho e empolgante poeta oitocentista. Considero o seu primeiro livro de 1875, Claridades do Sul, embora com muitas composições imitando descaradamente Baudelaire ou Eça de Queirós (e talvez por isso mesmo), muito mais fascinante do que as Odes Modernas de Antero cuja segunda edição foi publicada nesse mesmo ano. Gostava de ter mais Gomes Leal neste blog, mas não sei se a dama está pelos ajustes, e além disso noutro sítio já andaram a tratar disso.
Posto isto, parece-me que Gomes Leal às vezes falha muito, ou eu não o percebo, e sobretudo no fim da vida. Mas ele insistia que tinha uma visão. Com o rebentar da Primeira Guerra, Gomes Leal procurou iluminar-nos n’A Águia (a revista do Teixeira de Pascoaes) com sonetos de “medalhões femininos” em estilo que o mais das vezes me parece puerilmente gótico, sendo um deles acompanhado de desconcertante nota. Transcrevo um pouco dessa nota, e respectivo poema, na esperança de que possam aí achar mais do que eu. E porque o valor literário está nos olhos de quem lê, começando os problemas com o facto de um escritor ser o seu próprio e primeiro leitor (não resisto, a propósito, a citar o chiste que o contemporâneo Fernandes Costa dirigiu a Gomes Leal: “Eu sinto que emudecia / Todas as línguas mordazes, / – Desde o Alfeite à Trafaria, – / Se versos fizesse um dia… / Como tu pensas que os fazes!”). E porque não é de descurar a hipótese de existir um maravilhoso mundo de pessoas mais videntes do que nós.

“NOTA: Este soneto parecerá a muitos que é somente inspirado pela mera poética imaginativa. Não o é, senão parcialmente. N’alguns livros dos Ocultistas, Cabalistas (…) encontram-se referências ao caso de um homem singular, que era sempre acompanhado pela sombra de uma jovem amada, que por toda a parte o seguia. Ora, a histérica e convulsionada Idade Média está cheia de todas estas tradicionais legendas, sobretudo e especialmente nos tempos das Cruzadas.
Parece que estes casos se podem explicar (mas que os escritores tradicionalistas nunca souberam fazer!) pelo facto passional, ou histérico, das castelãs medievais jazerem longos e dilatados anos, às vezes, sem receberem novas algumas dos castelões que haviam partido a combaterem os guerreiros infiéis na Palestina. Muitas delas feneciam, elanguesciam, extinguiam-se lentamente, melancolicamente, tal como uma
pálida lâmpada que bruxuleia numa penumbra nocturna; ou, muitas vezes, então, adulteravam, prostituíam-se, sucumbiam às tentações inferiores. Era ainda, e sempre, o mesmo caso patológico e doentio das místicas monjas e mais o de todos os corações insatisfeitos, sucumbindo no silêncio, no abandono, no isolamento, ao devastador mal da Saudade, ou do Tédio, e conhecido monacalmente pelo taciturno nome da Acedia. Por isso as legendas das damas brancas são inúmeras. (…) Os Cronistas referem às vezes desapiedadadamente, e minuciosamente, os medievais escândalos aulterinos da Idade Média, mas somente os poetas, ou os psicólogos, é que sabem definir, dissecar, ver claro muitas vezes, nestas desoladas idiossincrasias, histerias, e tragédias femininas. Leiam-se Huysmans, Papus, e sobretudo, com muita atenção, A Feiticeira, de Michelet. – G. L.”




A DAMA BRANCA

(Miniatura de Mistério)

Vivi outrora, num castelo antigo,
era então! era então! pagem, donzel,
da jovem castelã, casta, fiel,
etérea… loira… um loiro… cor de trigo.

Jamais me concedeu sorriso amigo,
mais terno que ao seu cão ou seu corcel.
Morreu bem cedo, e em prantos, no jazigo,
cerrei tão linda, tão mimosa pele!...

Alta noite, porém, eis que a finada,
vem sentar-se ao meu pé, muda, calada,
e ao partir, diz gemente: Adeus! Adeus!

Quem me dera entender um tal mistério.
A dama branca de olhar casto e sério,
Ama-me, adora-me… ou amo-a eu, meu Deus?

(imagem: John Everett Millais, “The Eve of St. Agnes”; alguém me explica como se escolhem as imagens que ficam maiores e mais visíveis? pelos vistos não é pelos píxeis)

Saturday, March 18, 2006

Esta noite



Não há cá fitas.
Enquanto a Dama se recolhe ao leito com a Adrienne, eu resigno-me a ouvir no meu discman o "Ser Solidário" do ZM Branco, cuja faixa oitava ("o que eu andei pr'aqui chegar, tra la") sempre tem algo em comum com o título supra-afixado dessa gaja por quem sou preterido.
Retomaremos a Plath oportunamente, para evitar misturas com biopics lacrimogéneos.

Tuesday, March 14, 2006

Acho que quando for grande nunca vou conseguir encontrar o caminho para casa.

Sunday, March 12, 2006

Senhora do O

Pois mesmo que não tenha nada a ver, eu aproveito as interjeições finais do poema da Anne à Sylvia para pespegar aqui com um soneto decalcado à noite, a partir do "Sermão de Nossa Senhora do O", do Padre António Vieira em 1640 (estás a ver alfinete, eu faço discriminação positiva de gajos). A pintura, mais uma vez com uma definição que só à lupa, é de Pierre Crouzet sobre foto de Bettina Rheims.



"Faemina circundabit virum."
Jer 31:22

Sendo Ele o objecto do anelo
e o meu colo o sujeito que anelava,
em mim logrou a forma que buscava
e logo anel formou para contê-lo.

E a roda do tempo em mim se trava,
em mim se imprime e grava o eterno selo,
pois todo o meu Amado eu desejava,
estendendo minha pele para acolhê-lo;

Em mim Ele se move e tem repouso
e Ele é o varão, eu a donzela,
e Ele está em mim e eu estou n’Ele

e este é o mistério mais gozoso,
ser Ele a pedra dura que por dentro
circula e mergulha no meu centro.

Thursday, March 09, 2006

enquanto a polícia die polizei investiga les flics


O achado da tradução de Sexton dos peitos skinny trouxe-me à memória um texto de um dos heróis da minha dama (sim, ela pode assobiar para o lado, mas também venera umas quantas figuras masculinas), Haroldo de Campos. Vem de Galáxias, texto experimental feito entre 1963 e 1973. Cinquenta páginas para cinquenta cantos. Começa assim e aqui fica um cheirinho do que se passa lá pelo meio:

você aceita uma palette die weitaus beliebste fabige filter-cigarette the exquisite taste of the finest tobaccos ses couleurs attrayants et l'élégance de sa présentation piacciono a tutti in tutto il mondo signorina stromboli ou a pequena prostituta paraibana abrindo manchetes nos jornais de genève como o sangue golfado da garganta aberta num cubículo cheirando urina e esta é aquela ou aquela é esta enquanto o vento cresta quando um cisne morre no zürichsee é notícia nos jornais de zurique porque nada acontece nada nos anosdias os dias de semanas-anos mas fraülein stromboli como entre os gordosglabros industriais de vidafamília e apartamento garçonnière sua loura alugada como um talão de cheques os chefetes de indústria os chefes de indústria os chefões de indústria um vulcão como seria enquanto o garçon comenta com a patronne as notícias do dia e alguém escreve cartas num café de genebra tomando genebra e contando outras mortes e computando outras sortes enquanto a polícia die polizei investiga les flics investigam pontas fumadas de palette the supreme artistry of the attractive presentation mlle. stromboli no estojoapartamento de luxe para ócios nocturnos de corado-gordos paisdapátria pupeta estrangulada sem saber como saber quem saberia que sua sorte sua morte seu porte minúsculo vulcão de matéria narrada

e continua

Tuesday, March 07, 2006

Female Bonding #2


Morte de Sylvia by Anne Sexton

para Sylvia Plath O Sylvia, Sylvia, com uma caixa inoperante das pedras e das colheres, com duas crianças, dos dois meteoros que vagueiam frouxamente em um playroom minúsculo, com sua boca na folha, no roofbeam, no prayer dumb, (Sylvia, Sylvia onde você foi depois que você me escreveu de Devonshire sobre batatas rasing e abelhas se manter?) que você estêve perto, apenas como o fêz para se encontrar para baixo? Ladrão -- como você rastejam em, rastejamento para baixo sozinho na morte eu quis assim mal e para assim que long, a morte que nós dissemos que nós ambos outgrew, essa nós desgastamos em nossos peitos skinny, esse nós falamos de assim frequentemente cada vez que nós tragamos três martinis secos extra em Boston, a morte que falou dos analistas e das curas, a morte que falou como brides com lotes, a morte nós bebemos a, os motriz e a ação quieta? (em Boston o passeio morrendo nos táxis, sim morte outra vez, que montam para casa com nosso menino.) O Sylvia, eu recordo o drummersleepy que bateram em nossos olhos com uma história velha, como nós quisemos o deixamos vir como um sadist ou um fairy de New York para fazer seu trabalho, uma necessidade, uma janela em uma parede ou um crib, e desde essa vez esperou sob nosso coração, nosso armário, e eu v agora que nós o armazenamos acima do ano após o ano, suicides velhos e eu sei na notícia de sua morte um gosto terrível para ele, como o sal, (e mim, mim demasiado. E agora, Sylvia, você outra vez com morte outra vez, que monta para casa com nosso menino.) E eu digo somente com meus braços esticados para fora nesse lugar de pedra, o que sou sua morte mas pertencer velho, uma toupeira que caia fora de um de seus poemas? (amigo de O, quando o bad da lua, e o rei ido, e a rainha na extremidade que da sua sagacidade a mosca da barra ought cantar!) Mãe minúscula de O, você demasiado! Duquesa engraçada de O! Coisa do blonde de O! Sylvia, Sylvia,

Tradução encontrada aqui (por quem, por quê? se for uma máquina é do caneco do poema de Anne Sexton, em 17 de Fevereiro de 1963. A imagem é de uma tal Lulu Fry

Female Bonding #2

A MORTE DE SYLVIA

Sylvia, Sylvia,
com um estojo morto de pedras e colheres,

com dois filhos, dois meteoros
à solta a brincar num quarto estreito

com a tua boca contra o lençol,
contra a trave do tecto, contra a muda prece,

(Sylvia, Sylvia
para onde foste
depois da tua carta
de Devonshire
sobre plantar batatas
e criar abelhas?)

por que causa te ergueste,
e como precisamente te afundaste?

Ladra –
como pudeste esgueirar-te

acocorar-te sozinha
nessa morte que eu queria tanto e há tanto tempo,

a morte que ambas dizíamos ter vencido,
a que guardávamos nos peitos escanzelados,

de que falávamos tantas vezes de cada vez
que emborcávamos três dos mais secos martinis de Boston,

a morte que falava de analistas e de tratamentos,
a morte que falava como noivas entre tramas,

a morte a que bebíamos,
as razões e o gesto taciturno?

(Em Boston
a moribunda
corrida nos táxis,
sim outra vez a morte,
na corrida para casa
com o nosso menino.)

Ó Sylvia, recordo o tamborista sonolento
que tocava nos teus olhos com uma história antiga,

como queríamos deixá-lo vir
como um sádico ou uma fada de Nova Iorque

fazer o seu serviço,
uma necessidade, uma janela numa parede ou num berço,

e desde então ficou à espera,
debaixo do nosso coração, do louceiro,

e vejo agora que o vamos cumulando,
ano após ano, velhas suicidas

e conheço ao saber da tua morte
um terrível gosto disso, como sal,

(E eu,
eu também.
E agora, Sylvia,
tu outra vez
com a morte outra vez,
a correr para casa
com o nosso menino.)

E limito-me a dizer
estendendo os braços para esse lugar de pedra,

o que é a tua morte,
senão uma antiga pertença,

uma verruga caída
de um dos teus poemas?

(Ó amiga,
enquanto a lua é má,
e o rei partiu,
e a rainha treslouca,
que cante o cocktail espumante!)

Ó diminuta mãe,
também tu!
Ó estranha duquesa!
Ó coisa loira!

Anne Sexton, 17 de Fevereiro de 1963
Tradução às três pancadas: a dificuldade está na morte ser masculina em inglês; "o meu menino" ("my boy") é essa morte. Aceitam-se sugestões.
A lua vem a explodir em volta da nossa viagem.

Monday, March 06, 2006

O Não-senso Comum de Ted Hughes



Conheci uma miúda de classe média
Que às vezes me deu água pela barba.
Cada vírgula tresmalhada
Era uma imensa tragédia
Mas tinha talento em barda.

Sylvia Plath foi o meu engate,
Minha dama e companheira.
Era boa cozinheira
E escreveu uma obra de arte;
Tudo o resto é conversa quadrilheira.

Versos imitados do limerick de um cartoon de Roz Chast (infelizmente, sem definição para ser reproduzido).
Está-me a crescer uma flor no joelho.

Friday, March 03, 2006

Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um

1. Sei e sinto profundamente que aqueles adolescentes não eram adoráveis, mas que também nunca foram adorados. Que a família os desleixou. Que o Estado os abandonou. Aprovo, exijo, que se façam inquéritos às suas instituições e ambientes de acolhimento, que se discuta longamente sobre o que tem de mudar na educação e protecção de menores de risco em Portugal e em toda a parte.

2. Mas a que Estado pertencia Gisberta? Quem era a sua família? Como foi possível ter-se ela mantido um saco de descarga do pior de nós durante tanto tempo sem reacção (e não reagiu?) sem procurar ajuda (e não procurou?), sem ter a quem recorrer (e não teve?). Auto-imolou-se ou simplesmente se deixou escorregar até ao mais fundo de já não ser humana? Quem vai abrir um inquérito sobre as condições de abandono, ostracismo e violência homofóbica ou racial ou social ou o que seja dos tantos como ela, dos que se deixam ficar de borco deitados em cima dos cartões do nosso lixo, à porta das nossas igrejas? E quem vai mudar de passeio e quem vai ser o (seu) próximo? (Lc. 10; 29 – desculpem o mau jeito, mas ou há moralidade cristã ou comem todos)

Thursday, March 02, 2006

Vetusta Alface

Três anos é obra. Refocilemos com gorgonzola.


querida Sylvia Plath ainda um dia havia de escrever
sobre ti coleccionei-te semelhei-te ou pelo menos conheci
o tipo fisguei-te logo na fotografia de jovem pin-up
provocadora álacre que (se acaso te aludiam
ao que serias na vida) com graça respondias
serei poeta e célebre não quero ser serei
como se dizer fosse já concretizá-lo como
se a promessa dada da palavra não pudesse
reconsiderar. engano.

a procura quotidiana do assombro regulado
por depressões intercalares matinais
despertadores sacudindo o sono o mal
disfarçado prazer da rotina seguido
de aperitivo servido com mordomias de mulher
maravilha fada do lar arguta companheira
e depois tardes inteiras invocando em vão as parcas
economias da poesia
e depois súbitas ganas de violência sanguínea
e depois nada paralisia.

ó a cósmica angústia que grandiloquente
substituías ao comezinho azedume
da fortuna literária dane-se Sylvia
francamente inútil sondar o poço
da promissora adolescente prematuramente
morta.
Impossível recuar Et pourtant dirás
recuamos sempre perseguimos só
os que vão atrás de nós os precursores
que do alto de seu cerúleo areópago
com sentencioso alvitre de poetas laureados
nos cilindram.

Ted
e Ted Ted Ted Ted Ted Ted Ted
o enigma que dizem as más línguas
terá depurado a arte de que serias exímia
até um dia teres deixado de ensaiar
Ted o esposo o amante o pródigo magnânimo
tirano intelectual sentimental necrófago
do afecto,

ou a fatal atracção dos animais que se semelham
quando o laço que caça é o olhar reprovador
do retrato ao espelho

de chofre sem apelo fulminante
de feroz voracidade a Lucidez
lucíssima senhora lázaro
dos passos da poesia pela via dolorosa
Sylvia paralítica da palavra-salto sobres-
salto.

repousa tu que estás eternamente
e viva eu cá na guerra de arco em riste
a poderosa arma esta
palavra-funda que regressa.

Se não fosse a saudade

Cara dama, o que não diriam de nós?

"He was most affectionate, and said a a thousand saudades, which means so much that I cannot translate it by one word. It signifies tender remembrances, loving regards, soft hopes, precious assurances, friendship, fondness, caressing love, etc."

Sophia Hawthorne, sobre, creio, D. Fernando, esposo de D. Maria II (salvo erro, porque a fonte de onde consultei estava truncada: Nathaniel Hawthorne and His Wife, de Julian Hawthorne, vol. 2, 1884, p. 97)



Sinfonia Azul, de António Carneiro
o nosso pintor amado do saudosismo se calhar achava que "blues" era uma boa tradução, mas não se confessava às paredes.

Wednesday, March 01, 2006

Ainda que mal pergunte # 2

Eduardo Pitta é, quanto mais não seja pela regularidade com que dialoga connosco, o grande responsável pelo sucesso do blog da literatura. Dispõe, com generosidade, do seu tempo e capacidade de reflexão, para partilhar connosco os seus exercícios críticos num espaço que é, pelo menos teoricamente, de livre acesso e que possibilita réplicas e tréplicas ilimitadas. Enquanto crítico, tem também o mérito de se esforçar pela transparência. Em termos de afinidades electivas, por exemplo, deixa-nos saber, por vários meios, onde se situa e os seus “inner circles”, sem se fechar aos que não são propriamente do seu âmbito, antes mostrando curiosidade para se intersectar com eles. Mais do que isso, o Eduardo Pitta tem uma intervenção cívica com espinha dorsal.
É por isso que estranho a sua última prestação no debate sobre a crítica literária. Pitta levanta a questão da capacidade de inter-relação da crítica literária com o “vasto mundo”. Sugere, nomeadamente, que a recensão e divulgação de obras ensaísticas, como O Choque das Civilizações, de Huntington, deviam ser implementadas a bem de uma reflexão sobre a presente “insânia” da violência à volta dos cartoons de Maomé. Acontece que Pitta é um agente do meio sobre que vem opinar. Dos nossos três suplementos literários mais divulgados, encontro colaborações suas pelo menos em dois. E por que é que ele não pode propor recensões das obras ensaísticas que julga tão imprescindíveis? Porque as suas competências estão delimitadas? Por quem? Afinal, quem são os decisores de como se faz crítica literária em Portugal, e por que parâmetros se regem?

P. S. Para uma desopilação cómica sobre matéria análoga, este post.

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