Saturday, October 06, 2018

Menopausa


ando a tentar que o verão não morra
me dê calor mais do que afrontamento
me dê mais sumo do que mosto finto
e o sal na flor da pele não sorva ao corpo

o choro; que seja mar com luzentes
panos e seja ainda franco o espaço
da cabeça em espuma; que a folha estale
e não se suste em brancas reticentes

não caia sem palavra crespo nervo
só esqueleto, boca avara, azedume
e a vasta aridez de medo pelas

notícias. Restem-me balas e velas
onde o sangue seca e me conserve
velha a acicatar no lume os répteis.

Sunday, September 16, 2018

Projecionista!



Siga-se o lance então escrevendo campos fora alvoroçando a terra
revolvendo a fronteira, honrando a cabana, perdendo a chave, ignorando
a porta, oh mil
piqueniques sem toalha alimentando o besouro
levando ar ao estômago, poros__ cada poeta carregando novas linguagens como um jogo novo de flippers, com brilhos, zoada, records de estupenda felicidade
por poucos trocos.

Só que não caber nos versos verdade mete medo
já agora com esse paleio da abertura e do trajeto
alto lá com a moral escancarada (que é raro vir
por rezas, na vida, nicles, na conduta, enfim,
mistura promíscua, vá!, mas chilra e turvada credo)

Monday, September 10, 2018

Madeira

O pátio dá para os asseios da casa que a dona Aninhas aluga
aos verões, corre água no duche, vozes de dois corpos, imaginamos
novinhos, turistas daqui do Alentejo ou trabalhadores da estação
(percebe-se o sotaque nestas bandas é o sol raso à ribeira
que decresce), discutem o caso do momento — Isaías, madeireiro,
com o diabo do bagaço, pregou uma surra na noiva, a GNR pôs cobro
a ele meteu-lhe ordem de restrição, suave é a locução do banho:
Eh amor prometes que nunca me dás c’os pés?
arrepiando-se por sinistra corrente da consciência, ele:
Prometo tu sabes que ando sempre agarradinh’a ti
Onde outros se enterneceriam nós tememos pelos que
se desavêm, pedimos em surdina que nos provem o erro
e possam ficar para lá do vidro martelado da janela onde
se ouvem pingando-se afagos depois de mirrarem as peles.
Enquanto isso medimos quanto falta para o meio
da garrafa, nesta idade vigiam-se excessos por medo de cancro
em zonas melindrosas, da queima das ideias, duvidando se mais vale
a tristeza eufórica do álcool à válvula da dor que fecha mal.
Montaram uma cadeira nas dunas onde fomos – banais
afinal – deslumbrados absolutos. Sentámo-nos com a frustração
como mandam os mestres da meditação no oeste. Louvámos
os elementos que aliviam. Mas a respiração sobre o alto
da falésia estarrece. São rodeios ao que não pode ser escrito.
Podemos escrever os amores, tontos, tortos, torpes
fazer odes, elegias, sáficos troços sacrificados à grande dor de corno.
Podemos, quando se crê apesar de tudo, escorar o poema
de amantes disponíveis para atear o entorno, tentando tanto
podemos escrever a luz e as cinzas de um enlace com logros menores.
Não podemos escrever o pavor do descuido aos que daí vêm
depois (mas sim, vai resultar, está quase a passar), a responsabilidade
é nossa, a decisão deles, saberão ler, é natural, vão-nos cobrar
que se lixe, antes isso – madeira,
madeira,
madeira – que morram jovens pelos deuses que amaram.

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