Wednesday, May 10, 2017

Não está fácil

nadar sem pé durante horas
sem dormir e nas costas
tantas léguas de cansaço
apetece dar um estalo à ilusão
não sou quem procuras mas
pensei (tarde demais) ser
quem encontraste e dizer
"a tal hora" estou aqui
com meus limites todos
para ti, repito que se gosto
de ti te quero feliz é elementar
sou responsável pelo meu descanso
devo a quem cuidar
sei respirar na perda já
cantar o coração a morder
o vazio, deixo a porta
por enquanto no trinco
não sei fechar o que tive tanto
de empurrar para abrir
embora não precises
sabe que fico perra
que a ferrugem dói
forcei demais não creio
ter fingido, faz uma flor
o ar nas frinchas
vou bordar de novo
meus A! de aflita
não sei dar
outro uso a isto
senão bonitos gritos.

Monday, January 23, 2017

O regador e a prisão

Rego as plantas do poeta que guarda prisões
trepadeiras desmaiam, suculentas não obstante
medram, a erva-dos-gatos descabela-se
de um tupperware — pois terá havido
um gato e donos que fizeram filhos
e um caramanchão no terraço onde faz tempo
houve soalheiro remanso e excepção à tortura.

Nas estantes sem leitura restam muitos livros
e o aquecimento central continua em dia
sem gente intra-muros para tanta literatura
é melindroso: a inclinação para descorar
o viço, a ferrenha minúcia da agonia, as
celas quase vazias — como má transladação
o regador prolonga a pena, comuta a vida
.

Monday, January 09, 2017

e. e. cummings na berlinda

may i feel said he

se posso disseste só desta disse
eu que estranho tu gemes que giro
fiz eu (tocar-te quiseste prefiro
que leve tu tentas lá longe) insistes

‘tá bom não anda tu pedes aonde
digo eu mais baixo apontas atalho
com beijo te mexo te pico tocá-lo
no ponto remexo enches respondes

me amas me matas digo é a vida
replico és casado e entras e oh
que tem não pares se sentes me diz

que máximo vens mas lento tem dó
já chega tesão mhumm como és linda
tu tombo eu grito cabrão infeliz
.

Saturday, December 31, 2016

Um Castelo de Sonetos (1 e 2)

1.
Quereres-me outra vez? Se for, será
para aquecer os pés, como dizíamos
quando outrora a ambos atraíra
desmanchar a beleza. Trauteáramos

a canção, marcando jogos futuros
quando we get older, losing our
hair, o que era bom, não fosse o besouro
ferrar nos corpos estragos prematuros

e rasgos de desejo imprudentes;
já faltou mais para os 64
e pode ser que nada sinta vendo-

-te hoje deslizar no vidro fráctil
em frente ao que há-de ser e delibero
que fiques só comigo mas não espero.

2.
Que fiques só comigo? não espero
esmola ou mentira, é altamente
idealista e pouco inteligente;
eu, deste lado da Flor do Império

aonde talvez finjas não me ver
impávida me quedo, sou mordaz
e fria aguardo a chuva contumaz
cessando de repente de tremer.

Incrível o que o tempo te sulcou:
um desses magros que ficam grisalhos
na barriga, tratando assunto sério

na máquina do banco. Tudo solto
o nosso ex-amor — de inolvidável

já nada nem de ti e outros quero.

Saturday, November 26, 2016

I heard a Fly buzz — (Emily Dickinson)

Zumbiu a Varejeira – quando morri
Nesse sereno Quarto
Como sereno é o Ar
Entre os Capelos do Mar —

Enxutos os Cabos — dos Olhos em roda
E suspensos os Fôlegos
Para o último Ato — entrado
Entre os mais — o Rei no Quarto —

Doei minhas Lembranças — assinei
O que de mim se usa
Em Rubrica – e nisto meteu-se
A Varejeira intrusa

Zumbindo azul ­— incerta — instante
Entre eu e a Luz — a estremecer —
Cessando as Janelas então — e eu
Não pude ver para ver —

Sunday, November 06, 2016

Obra Poética Completa (ensaio)


Por demais requintado esse livro
em que investimos: teus monstros, minhas
rimas, teus senhores, minha esgrima
em desmedida admiração. O crivo

da sintaxe que transpõe: tuas penas
longilíneas meus cerrados cílios
teus leitos de dossel meus idílios
teus zeppelins carregados de oferendas

meus cinemascopes desejantes
teus membros de volutas minhas garras
de pavor tuas brumas mendigantes

tua cósmica burguesa. Espanto de
ambos: o que estoura não quebranta
o resto entre nós foram só farras.


Tuesday, July 05, 2016

Pico



Era ali sem aviso em êxtase
que alguma poesia começa

mas dei o flanco não aguento —
vertigem ao rés da promessa

medindo mais que o lance: inóspito
panorama absoluto ao topo
do globo.
Escala de demónios
que os intrépidos ignoram.

Mas eu só sei de trechos, filmes,
fotos. Idealizei subir
e subi e nada vi. Estive
estarrecida pela descida

(óxido férreo, bagacina
precipitando a colina, eu
paradoxalizada em face
a como passar) vazio
e céu

Larguei em minha frente as filhas

covarde lassa impreparada
sem coluna dorsal, nada
seguindo a trilha de barriga
de gatas de rojo nas rochas réptil


no poço do firmamento, ridícula

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