Sunday, December 09, 2018

Chamar puta durante o sexo

Coito e dividendo: cara queca

de socorro, o prolema é
distinto da justa luta legal da classe
profissional mais velha do mundo.
É que li Engels demasiado
em nova e dá tanta dó
ver um homem entesoar-se
mais com mulher comprada, ou borla
além do que ordinariamente pagaria, em vez
de com gaja livremente gozada —
Questão de afluência e jugo, de influência
e mando, de macho membro que endurece
(ainda, quem diria após tanto bruáa
e viril introjeção) doloroso — digo, da
flatulência; então tiro-o, dedo
do gatilho desse furo, por mais
que entre nós o jogo fosse fogo
limpo, ponta pura, é coisa de disparo
direto na cabeça, num nó estancando tudo
o que baixo corria, e fico toda só, não
sendo, não dando, a tal fantasia
(não vale endemonhar, sei, entre nós
algumas gostam) ­— e vem a ideologia
pregar moral? em dita relação
consensual? seja, nisto eu mandava:
o ideal da posse, livre entrega 

a fundo sem retorno capital.

Monday, November 26, 2018

aspeto da linha cerca de abrantes



não posso evitar admirar como não caem carneirinhos
nem o resto que é de novo levantado, levado
torcido, lavado nas manchas lilases da manhã  
recém-cosida, líquida, desta hora
  moiral com os braços
de frio fincados na barriga, escada onde se alça
a mulher varejando a oliveira, rio a seguir videiras
que são rochas preciosas recortadas de cobre
no outono beirão, amanhece claro protegido
desta hora neste vidro do vagão, ó Ente-
-pavor, senhora disto que tremendo
se atravessa, paisagem-lustro, molhada, verde
sede expressionista céu de cores ainda homéricas
nasce mundo, mesmo se apoucando os dias, eu
penso me comovo mais de viço neste conforto
do que entre fios e nós e bichos por exemplo
debaixo de árvores onde raramente se está bem
para ler, porém os fabricantes de lápis desenhariam
tais aparas de luz, riscos do sol, praticamente incrível
aqui em baixo, esta hora, ainda a poder olhar-se
como lua sobre ardósia fresca —
monstros, só podem, dum furta-fogo vasto
que envolve tudo e filtra as fundas dores

encostas cheias de trevos musgo vertigens
impossíveis de choupos, depois arados campos e
tudo quanto faísca, desta hora, da chuva
da noite, das sombras das pontes quando vamos
— túnel breve afinal, desta hora, eu quero a verdade —
tudo passa e tão tangível que tu és: claro Divino
por quem a treliça do mundo se coloca em marcha
renovadamente, sobre as massas mesmo os escombros
e mesmo erros sim, consigo, cantiga, que grite também
esta santidade de agulhas louras e de ávidas auras
esta fartura, que até as rugas de rodas nos bordos
de lama, as murtas pequenas, as coisas metálicas
intrometidas nas poças extensas entre o alto e a crosta
e o que em segredo há de ferver, que até são portas
— laranjeiras, desta hora, e o rio como mar a forçar
uma visão a dançar entre montanhas, as aves
nos penedos pousadas se deslumbram certamente
também com a minha passagem
mais os balaústres de leques transparentes que
azuis se tornam, se cruzam, pois, pontes só carris
de patins, se cava um vale e vai rio
vai verde nele se varre película móvel de brilhos
de arribas cada vez mais solenes coroadas de esguios
sinalizadores álacres de óxidos raros —
dádivas, desta hora e tudo
tudo esdrúxulo ao mesmo tempo bem pensado
tudo deitado e gritando para o louvor e o espanto
irreprimíveis, desta hora, não regateados

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