d'ama

Friday, March 02, 2012

Turva se faz não raro a graça ínfima,

nem sempre é garantido que não trema
na funâmbula corda que mantenho
entre a pulsão e o amor; se tenho
querido voltar para cima o poema,

estendê-lo ao ar e vibrá-lo tenso
e respirar em luz – sem que prescinda
da sombra e do chão do mar ainda
da onda que me lava em banho denso –

vejo que não resolvo toda a dó
de mim; lá lindo é, isto, mas preciso
– tanto – a temperatura de um homem

nos ocos que de frio me consomem;
porém mais vezes claro solto o riso
dou o melhor e quanto posso só
.

ar

na sua falta se cobra o mais alto
preço de querer ser livre
sem deixar de agradar
.

Wednesday, February 08, 2012

aquário

sou descendente de vikings, dos que iam
até newfoundland à pesca, foram eles que
começaram a estender os bacalhaus no convés
dos barcos, a secar. depois espetavam as
espinhas uns nos outros. eram tipos bons e
maus, e perto dos quarenta anos arrependiam-se
e afundavam os pés na terra, visitavam a mãe.
a mãe ainda estava lá, a remexer ovos no ar.



Rui Costa
Fev. 2009
.

Friday, February 03, 2012

Comparação

do olho à boca
corre natural a lágrima
como o beijo
.

Thursday, February 02, 2012

Sendo mais que palavras na cabeça

agora que penso claro que
nos atraíria a tal
admiração da dança:
o corpo em formidável equilíbrio
de desejar - e o tosco desajeito
em achar o eixo total
da matéria em ar

no meu sonho eras a dactilografia
da enumeração dos elementos
e o eco das tenazes de tinta
e ainda que eu cuide do que
sinta sempre queria saber
como é

banzé. revolução
não estás zangado
pois não
estás a dançar
iê-
-iê.
__

Thursday, January 19, 2012

Calmeirão cabeçudo, por tudo


Começou com um sinal ao lado dos teus óculos escuros, Não,
o princípio foi um rebordo à noite onde quiseste ensinar-me
a soletração de versos, Não, reinicio: o pequeno almoço
num café pequeno numa rua comprida com pernas para o mar
e dom rodrigos enxovalhos de lustro postos à mesa, Não
há-de ter sido só quando esticámos as mãos e elas escorregaram
e nos encostámos aos peitos os dois chocalhavam tu riste-te eu
fiz-me de parva, Se calhar foi aí porque escrevemos sobre isso
entendendo cada um à sua maneira como sempre se
fez, Eu adverti logo aliás não tinha nenhuma esperança
que viéssemos a coincidir alguma vez e tu achaste claro
muito bem feito porque assim queríamos constantemente
aprofundarmo-nos sempre aos apalpões a ver onde derretia
quando lá no fundo doía não encaixarmos perfeita
mente, Só que sim é um privilégio acontece menos
vezes do que os dedos encontrarmos alguém
a quem queiramos continuar a bater como
disseste que me fazias a vida toda quando apertaste por
baixo dos meus braços a resistência dos materiais, E há-de
ter sido gentileza não justificares apesar do orgulho
de cumprir proezas não contamos os princípios nem os fins

fico pois à espera que apareças atrás de um sms com uma tarte
de maçã encostada ao focinho, Que não te cansa o jogo de fazeres
todos os gestos importantes entre portas para depois te pores ao 
fresco como se nada fosse e largas daqui porque tens um handicap
muito menor e patas maiores e queres ver outros bichos cheios
de perguntas, Por mim punha era o vestido de Espanha para
rodopiarmos aos casais de sucesso entre os bem-pensantes com
licença vou escrever sobre os teus livros todos muitos palavrões
.

Thursday, January 12, 2012

Cumpre que não foste

entender


falar de mar só com a boca afogada



a regularidade assusta

e eu acho isso bonito como o som de ossos na porta



cai alguma coisa

na direcção das minhas mãos e eu corto-as



sinto os cabelos

o ombro morno do coração no ombro



não me fui embora

na praia ao vento tudo o que acontece
 
Rui Costa (Março de 2009)

Tuesday, January 10, 2012

Segundo Amor

Segundo Amor

Quando estás só tens as manhãs todas
de organizar o mundo; preciso grito
intenso aqui agora. Lembro-me de ti
já nem tantas vezes assim, lembro
o que fomos à noite o dia desmentiu.
Mas também às vezes especialmente
querendo com isto – o quê – a pele
sempre lisa, o futuro de ocasiões, só,
sim, só lamento o corte, recrimino
algumas unhas de raspão, triste espera,
o que houve rasteiro, o que de alto
me falta, pouco limpos passes da vida
e terna, sinceramente, tua, Guida
.

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