Friday, February 15, 2019

Engrama

Neste caso a definição do dicionário parece
antes uma série em crescendo: 1. Traço ou marca
duradoura. 1.1. Definitiva e permanente essa marca
num tecido nervoso por estímulo muito forte impressa.
1.2. O traço na psique com rasto físico definitivo –

i. e. um aplique

de recalque, espécie de cavalo-marinho nas cabeças
implorando festas. Não só por sofrer naturalmente
dum não-correr de equídeo encalacrado na mente
como por achar-se cruzado de cenas foscas e espessas
do nosso passado. Ocupa na base do crânio um pé

curvado,

hipocampo, diz a gíria médica, e já os corretores,
vulgo psicanalistas, veem que um trauma se apura
consoante o intervalo entre as punções e a altura:
+ até onde, a que sangue acima dos lobos esse corte
evolui para gangrena? + fundos os cascos na vida

do que na arena.





Saturday, February 02, 2019

Declaração de Intenções


Para aqueles que insistem diluir


isto que escrevo aquilo que eu vivo

é mesmo assim, embora aluda aqui

a requintes que com rigor esquivo.


À língua deito lume, o que invoco

te chama e chama além de ti, mas versos

são uma disciplina que macera

o corpo e exaspera quanto toco
.

Traduzir, ser vil: arte e/ou adultério

O processo hermenêutico em tradução, que se dá pelo reconhecimento da linguagem diferenciada, apoia-se na atenção a colocações invulgares, jogos de palavras, rimas, padrões sintáticos, deíticos (inesperados, retrospetivos), a posição do sujeito em relação ao verbo e ao objeto, cadeias semânticas de ambiguidade e conotações variadas. O resultado da atenção a estes elementos é um modo extraordinário de aprofundar o conhecimento pela crítica e análise de texto (Gaddis-Rose 1997). Nesta tarefa, destrói-se e (de)compõe-se, extraindo-se fragmentos de resistência para se poderem fazer escolhas sobre o que se percebe ser fundamental manter ou compensar (o chamado “caroço” / core, variável consoante a fome de quem traduz) – algo que podemos “treinar” com base num misto de probabilidade e semelhança mas não numa delimitação prescritiva. George Steiner, que desenvolveu um modelo de quatro fases para a tradução enquanto hermenêutica – a começar com a confiança (o salto de fé ontológico na intenção de que haja sentidos a extrair), passando pela agressão (a supra-referida dissecação) até à incorporação e restituição – era extremamente crítico da legitimidade teórica de uma ciência da tradução, “que haveria de implicar testes críticos e falsificações” (1998 b p. 109). Não obstante, a teoria tem-se apoiado nos escritos de Steiner, não se eximindo também de os criticar.


Refira-se, a bem da afirmação da agência da mulher no trabalho artesanal, a crítica dos estudos de género que enquadra o discurso de Steiner numa longa tradição de metáforas de tradução que são sexistas. Desde a “bela infiel”, blague aparentemente cunhada por d’Ablancourt no século XVII, até à equação da tarefa com um trabalho derivativo, consequentemente feminino e mais ou menos transparente, passando pela fantasia da violação do texto original ou da lasciva adulteração da língua materna. A segunda e terceira fase enunciadas por Steiner, de agressão e incorporação, descritas numa linguagem sugestiva de penetração invasora e de inseminação que robustece, prestam-se a este tipo de crítica (Cahmberlain 1988; Round 2005).[1]

Em todo o caso, Steiner preferia, ao discurso de ciência sobre a tradução, uma “arte exata”, comunicada por “relatos interruptos e episódicos” (1998 b p. 109).




[1] A bela infiel

É precisa uma guerra que se invente
para criar – dixit George Steiner,
misógino, ou nisto o transfere
mais ou menos o teu pensamento
pingando de belicismo. O que Steiner
diz concerne, de resto, a tradução;
no fim há – rara – a restituição;
no meio, boas vindas à cativa,
“A vencida Grécia será mestra
de Roma”
 assim: língua nativa
cede à espessura da sua serva
e toma o corpo heróico da rival
(já Haroldo se achava canibal
mas em geral só comia gajos).
Tu, és duma escola mais risonha:
não lanças, abres; não bates, reages.

Lês vísceras com ácido e peçonha
mas de princípio dá-se confiança.


Friday, January 25, 2019

Mallarmé Amontillado

Como a Si próprio, enfim, a eternidade o torna,
O poeta convoca com um gládio em riste
Seu século, atónito por não ter previsto
Que nessa estranha voz triunfava a morte!

Eles, como a hidra que, torcida, ouviu
O anjo apurando o sentido de gentias
Palavras, gritaram ser aquilo heresia,
Peçonha vil bebida a desonroso rio.

Ó desgosto, do sol e da nuvem adversos!
Se não cinzela nossa ideia um relevo
Que o túmulo de Poe eleve com fulgor,

Bloco à terra descido por azar obscuro,
Ao menos o granito se erga com rigor
Contra esses fumos da Blasfémia no futuro.

[No primeiro verso, Mallarmé, que se estará a referir àquilo que não só Baudelaire como outros incluindo Amadée Pichot, Rollinat e ele próprio fizeram por Edgar Poe (o maior caso de ménage amorosa na história da literatura),  condensa aquilo que George Steiner designa como restituição. Esta é para ele a última e rara fase da tradução. Para a definir, colhe inspiração no que Walter Benjamin (1923/1968) designou como "sobre-vida" (Überleben em alemão, não tão distante em si da palavra para "traduzir"; Übersetzen, colocar por cima). Steiner fala em encontrar no texto "algo novo que já lá estava" (1998: p. 102), o que implica, parece, pelo menos uma semi-crença romântica na possibilidade de se irem encontrando os sentidos do puzzle do grande poema, ainda que o autor de Depois de Babel se queira salvaguardar contra a leitura mística da sua proposta. 


Volto, por isso, à intuição de que os tradutores são os pragmáticos do romantismo. E estou em crer, camaradas, que o ensino da tradução tem por conseguinte a ganhar com trazer o espírito à equação, bem como um discurso de iluminação (mas não de despotismo iluminado, porque precisamente virando de avesso a autoridade de um original). Ou não é a metáfora uma coisa do espírito ou não é o entusiasmo um aliado motivacional da experiência literária? 


Ter entusiasmo encontra uma das suas manifestações em estar entesoado/a, partindo da esperança que venham ambos de enthous, em possessão inspirada, um endeusamento. Na aparente heresia, vale a pena ir buscar a Benjamin outro termo, o de "iluminação profana"(1929)  para descrever a experiência de estranhamento pela qual, em certos estados oníricos, reparamos nos objetos esquecidos (tornamos a parar, neles tropeçando) da realidade quotidiana. Daí se justifica que a tradução deva fazer ao poema o que este faz à experiência ou ao sonho. É o que leio "No Túmulo de Edgar Poe" de Mallarmé: a tradução como o anjo que apura o sentido de gentias palavras. O francês diz "Donner un sens plus pur aux mots de la tribu" mas "dar um sentido mais puro às palavras da tribo" não rima no português do soneto. "Gentias" vem de Camões, que - defende quem o traduziu (Landeg White, refletindo sobre os seus Lusiads) - foi o primeiro a chamar "gente" àqueles que os seus contemporâneos chamavam nativos, selvagens e bárbaros.*]


*assim traduziu White "a estrangeira gente e estranha usança" por "these new ways of being human".




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