Sunday, May 19, 2019

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pesaste quantas vezes tal agenda
o teu nome? nem tão neutro, o ph
tornando claro que não és de cá;
o duplo l de música molenga

mas no tom. Nem falta aliteração
à letra de outros mapas, arcano
da Grécia, drible da Dinamarca
com lendas de cavar o coração.

Tudo tomavas, mas só o Elísio
te dava contra-parte às tuas fomes.
Muito disciplinavas, mas o vício

do mar e de cigarros não, ah! ímpetos
de pedantismo e luz, teus cognomes 
contra-dicção de lindos versos limpos
.

Monday, May 13, 2019

[na cabeça do sonho: circuito e sabotagem]

Seguimos em carros separados. Peço-te que mandes no caminho, mas num cruzamento confuso ultrapasso-te. Metes em contra-mão para voltares para a frente e me poderes guiar. Quando fico para trás, tomas embalo e chego a deixar de ver-te.
Uma árvore vai abater-se sobre nós. Escolho-a no catálogo. O meu corpo sua vinho verde.

Saturday, May 11, 2019

[na cabeça do sonho: onde também há creme]

Em pequena, convenci-me que Hansel e Gretel só existiam na cabeça do sonho. Nada de humano podia ter inventado o horror que me mordia a imaginação. Esta noite, um grande caldeirão frente às escadas da Assembleia aquecia os estudantes em vigília pelo clima com  uma sopa de feijão e leite condensado, proteína e sugar boost da madrugada. Uma vez para exemplo, um sonho caridoso.

Thursday, May 09, 2019

[na cabeça do sonho: doutoramento]

A tese era a mesma mas com adaptações ao cinema. Por engano, o ficheiro que eu imprimira era o anterior. O júri batia, pois, em pontos que eu já mudara, o que era muito lamentável, mas também parecia com os copos, numa euforia javarda. A defesa passava-se num hangar automóvel como no vídeo do Childish Gambino, com que já sonhei uma distopia sobre a propriedade. Nessa altura dava acesso a um poço de escadas por onde se subia para o Fórum Grândola.


[acompanhamento musical
https://www.youtube.com/watch?v=K9t8vNN0ILg]

Monday, May 06, 2019

I cannot follow you

Não posso ir contigo, amor
Nem tu virás comigo
Sou o longe que foste interpor
Nas muitas alturas do nosso futuro.

Sabes quem eu sou
Viste o sol de frente
Pois eu sou aquele que muda
Insistente do nada para o um.

Às vezes te quero nua
Às vezes te quero crua
Quero que tragas meus filhos no ventre
Quero que uma criança violentes.

Se por acaso me fores no encalço
Rendo-me no ato
E deixo contigo um tipo aleijado
Que te mostro como arranjar.

Não posso ir contigo, amor
Nem tu virás comigo
Sou o longe que foste interpor
Nas muitas alturas do nosso futuro.
Sabes quem eu sou.

Leonard Cohen foi a minha alma gémea e objeto amoroso imaginários desde o 9º ano. O meu primeiro poema rejeitado foi uma carta inexpedida que não deitei fora e ando farta de procurar sem êxito. O refrão era “tu e eu, Leonard”. Nessa altura a canção que retraduzo tinha vinte anos*, eu havia de viver mais de quarenta na contemporaneidade de Cohen sem nunca lhe ter dirigido a palavra. Depois, nos meus vinte e quatro, caiu-me no colo a encomenda do romance Beautiful Losers. Estávamos na pré-internet e eu na biblioteca extasiada deixei que me emparedassem os tomos das enciclopédias Britannica e Luso-Brasileira para viver entre os iroqueses com Leonard Cohen, que pela sua parte me ignoraria em preces e engates e angústias lá longe no Canadá ou na ilha grega a carpir por uma norueguesa. De onde nunca fomos vistos em Elsinore. Um par de anos mais tarde, aliás, só restariam de nós ruínas, já que, no auge tresloucado da hubris, aceitei traduzir-lhe as canções, o que me valeu a dizimação pelo mais cáustico crítico da era. Ainda por cima tinha razão. Néscia e sobranceira, pus-me a jeito à catástrofe. O crítico cilindrou-me os disparates, entre os quais – tremo – o ter traduzido Book of Changes por Livro de Câmbios, quando afinal era o venerando I-Ching, e aquilo foi ao ponto de quase me ver protagonizando a história, tantas vezes repetida pelo editor da obra, sobre o tradutor que se enforcara com os cabos da impressora, como se fosse anedota para rir. O tanas, miserável tragédia. Recompus-me a custo. Lá em casa, o cônjuge, com pergaminhos melómanos, consolou-me com dichotes escarninhos aos gorjeios de Leonard, que no seu veredicto eram uma pieguice pegada sobre o som de fundo do padre Zezinho.
            Mas o pior dos dislates foi ter lançado a unha bilingue ao género ingrato das lyrics. É que a falta de encaixe na frase musical, mesmo (ou tanto mais) se melosa ou soporífera, resulta numa cacofonia investida contra as nossas mais valentes e violentas memórias, aquelas a cujo ritmo batemos os lugares comuns do coito, da dor de corno, dos estremecimentos do crânio e da terra, da crise de fé ou de prata. Se não cabe na cançoneta, se não entra na pauta da nossa cabeça, a letra portuguesa é só um esqueleto patego servido a frio, como as tripas do Porto que o poeta enjeitou como placebo do amor. Há ainda problema maior: aquilo, sem a espessura sonora da língua ligada originalmente à música, só a ferros se aguenta, fica ali mutilado e sofrível quando sozinho na página ou tela, em branco. E tu, Leonard, largavas-me aos bichos, mas não soubeste quem eu sou.

*Desde o século passado, é a minha terceira tentativa. Desta vez tentei seguir o “princípio do pentatlo” de Peter Low (2005): que seja cantável, que tenha sentido, que se ache natural, que conserve o ritmo, que ligue à rima (Low, porém, adverte que a maior palermice pode ser a sabujice ao esquema rimático original). Mas desesperam-me o meu ouvido e os meus pruridos. Mandei esta versão à maior tradutora jogralesca que conheço, a Regina, da terra das tripas geralmente quentes, e de Guimarães por parte dos pais. Ela logo tratou de me desarmar o eufemismo, amolando a faca no infanticídio:

Às vezes nua te quero
Outras feroz como és
Tão prenha de filhos meus
Que até chacinas bebés





Saturday, May 04, 2019

[na cabeça do sonho - "Don't critcize it"]

A psiquiatra condoía-se de ti e chamava camelo ao teu marido sem o conhecer.
A psiquiatra trabalhava num hospital público e atendia os telefones.
A psiquiatra dava ares de ter sido agarrada.
A psiquiatra priorizava os clientes de quem gostava e vinha para a sala de espera ver o desporto. Na testosterona dos penaltis, confidenciava que tinha tido dois irmãos com sida, mortos pelos seus pais com abusos físicos, fome e claustrofobia.
A psiquiatra nunca mais lhes falara. Nessa altura trabalhava em publicidade.
A rececionista gostava de crianças, atirava-lhes bolas e fazia com que elas começassem a andar mais cedo.
A psiquiatra apanhava-te a fazer versos contigo. Disfarçavas, sem jeito interrompias. No próximo canto eram as ruínas.
A psiquiatra condoía-se só de ti e chamava coninhas ao seu cliente anterior.
A rececionista apreciava que contasses cobras e lagartos às tuas crianças.
A rececionista borrifava-te as pupilas com um lança-perfume de que saía um sopro de ar como no oftalmologista.
A psiquiatra arranhava-te as pálpebras com uma mini-gadanha de ferro feita com o esqueleto duma caixa de música. A sensação era extraordinária. Os gadgets adaptados a novas funções tinham sido recolhidos pela rececionista nos saldos duma garagem demolida.
A psiquiatra prescrevia-te vapores de aguarrás para depois da série de raspagens ao que te matava e usava para isso a expressão “fumar uma broca”.
Incentivava-te a toma regular em vez de a perseguires.

*
A interpretação dos sonhos é uma competência transversal.

Blog Archive

Contributors