Monday, September 25, 2006

deslocalização da Primavera

a despedida de Setembro, o diagnóstico de Outubro
dão azo desta vez a uma melancolia remota
tão somente, gralhas que não gritam neste calendário
decerto extemporâneo; pois somos nós o mês de Maio,
migrantes pássaros não tementes já dos dias curtos;
que deslumbradamente as penas luzem: invés de cinza,
uma patine de prata – vantagem devida à lua
que roda e dura agora mais que o sol – e o tempo assim
é amor que não azeda na demora da reserva

6 comments:

Alexandre Dias Pinto said...

Lindíssimo!

Manuel Resende said...

Quando leio estas coisas da d'Ama fico sem palavras. Deve uma pessoa da minha provecta idade manifestar admiração e espanto, choque e pavor?

Então este aqui parece-me um Ruy Bello ao quadrado, mais profundo e mais alto e muito mais belo.

Vou calar-me antes que diga alguma asneira.

dama said...

Não é caso pra tanto, camaradas, mas o ego manda dizer obrigadinha :)
Saudações revolucionárias

dama said...

O Ruy Belo? Agora que falas nele, parece-me que deve lá estar. Em todo o caso, este poema partiu-me conscientemente do Céline quando, creio que na Morte a Crédito, no meio da mixórdia toda do campo reeducativo agrónomo, o narrador diz uma frase que nunca mais esqueci e que na altura me provocou aquela espécie de sufocação comovida no gorgomilo: "Nasci no mês de Maio. Eu sou a Primavera." Mas a diabrura é que acho que ninguém evocaria o Céline através do meu texto :)

Anonymous said...

Rebem-vindos, vós e nós. Eu, quando ouço falar em Ruy Belo, ponho-me logo em sentido, ou antes, rojo-me no chão - as minhas costelas militar e muçulmana. E ele deve lá estar no poema da dama porque é deus logo está em todo o lado, mas só nesse sentido particular.
F.Guerra

Anonymous said...

tem uma "dicção" que me fez imaginá-lo dito pelo Luis Miguel Cintra.
Rui Costa

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