Wednesday, October 08, 2008

O Coronel

O que ouviram dizer é verdade. Fui à casa dele.
A sua mulher trouxe uma bandeja com café e açúcar. A sua
filha limava as unhas, o seu filho tinha ido sair à
noite. Havia jornais do dia, cães de estimação, uma pistola
na almofada ao lado dele. Nua a lua balançava no
seu negro estendal sobre a casa. Na televisão
dava uma série de polícias. Em inglês. Havia garrafas
partidas incrustadas nas paredes pela casa toda para
raspar as rótulas das pernas de um homem ou
retalhar-lhe as mãos. Nas janelas havia grades
como nas mercearias onde se vendem bebidas. Jantámos,
costeleta de borrego, bom vinho, na mesa um sino de ouro para
chamar a criada. A criada trouxe mangas verdes,
sal, um pão especial. Perguntaram-se se gostava
do país. Houve um breve intervalo de publicidade em
espanhol. A mulher levantou a mesa toda. Fez-se
conversa sobre as dificuldades da governação. O
papagaio disse olá no terraço. O coronel
mandou-o calar, e empurrou a mesa para
sair. O meu amigo disse-me com o olhar: tu não
digas nada. O coronel voltou com um saco do
supermercado. Despejou muitas orelhas humanas sobre
a mesa. Pareciam metades de alperces secos. Não
há outra maneira de dizer isto. Pegou numa delas,
sacudiu-a à frente das nossas caras, deitou-a
para um copo de água. Aí ganhou vida. Estou farto
de brincadeiras, disse ele. Quanto aos direitos seja
de quem for, digam lá na vossa terra que se vão
f.... Varreu com o braço as orelhas para o chão e ergueu
ao ar o resto do vinho. Há-de servir-lhe para a
poesia, não? Perguntou. Algumas das orelhas no chão
apanharam aquele fio de voz. Algumas das orelhas no
chão estavam coladas à terra.

Carolyn Forché
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