Olá,
sentada numa tábua sobre uma pedra
cuja vida se tresmalha branco-azulada
parindo grãos pardos
os pés nas plantitas verdes
de pontas miúdas mas firmes e musgo ruivo
amigos
estou num outeiro em Abisko a dar para o lago lapão
imenso extenso de esmeralda cinza líquida
Tornesträck
que agita curtas vagas de leste para oeste
e há-de encontrar o mar na Noruega
acorda já tarde a manhã a toda a volta
nuvens grossas com suas orlas de afeição à montanha
onde o sol beija tufos a espaços
ouço distante o comboio
e penso em Thoreau outra vez
e penso porque vos escrevo se percebo neste instante
aqui vim em fuga do barulho
não só da cidade ou do trabalho
vim em fuga do barulho que há anos
sobe em bulha cá dentro
sem que o cale mesmo assim
passo-lhe por cima agora pousando os pés no fofo
e ainda que a beleza não ensine
como tratar a gente de modo equânime
olho com mais apego para o chão
e começo a ver aranhiços
um pulgão ou afim
três moscas na preguiça
com que me irmano
apesar de não saber nada de moscas
se dormem acaso embaladas
sob o céu de prodígios que vi dançar
na noite verde-lixívia anteontem
amigos
esta noite não cacei auroras
só de manhã recuando a emissão das câmaras dei por elas
esta noite tive um sonho em que ia casar com o Emron
nada contra o Emron mas ele queria casar na Sé
com uma jóia no dedo
e professa os santos dos últimos dias
e a mim encurralava-me a cortesia
e vergonha e medo de dar o dito
pelo não dito
sem ter coragem de convidar a família
amigos
aquele poema do Rimbaud de boca às escâncaras
a colorir vogais na madrugada
eram as auroras a avisar
quanto mais dás o braço
mais te pedem a mão
fazendo aliás a anamnese da coisa
o gatilho
amigos
foi ter-me deitado a terminar uma FUC
(ficha de unidade curricular)
tendo atingido os mil caracteres do campo
e o limite das pálpebras abertas
precisamente no seu ponto décimo:
“demonstração da coerência das metodologias de ensino e avaliação
com os objetivos de aprendizagem da unidade curricular”
estão a ver?
quem escreveu este esperanto é árido
e incapaz para sempre de aprender com uma pedra
nem sei amigos
se aumento nisto o volume
queria antes rumorejar-vos
como as veredas húmidas
e o Tornesträck lambendo os xistos
e o musgo ruivo à passagem das aranhas
e as bétulas vacilando secas e oceladas
ou levantar a voz como vento
e imitar enfim as coisas que não trabalham nem fiam
como no Sermão da Montanha
que não se aplica às aranhas
tenho pensado muito
amigos
excepto nos melhores momentos
em que não penso nem tenho forma nem sexo
e sou paisagem como somos às vezes um livro
tenho pensado que só os livres
apreciam caminhar
sendo uma lástima
que liberdade e passeio requeiram
(não tendo berço nem sendo buda)
dinheiro e como o ganhar
por agora
isso vem-me de um lugar tenso
de anti-trabalho e certo esquerdismo caviar
se não fossem homens
terem cortado árvores e colocado madeiras
para eu atravessar pântanos com espanto
não estaria aqui
e há os passarinhos que piam
cortando os descampados da mãe
e o jorro do canyon galopando ao lago
e o múrmuro remanso som de silêncio
e um trlrtrszsslrr de bicho rasteiro saindo
do abrigo em corre-corre uma marta
ou lémur ou lebre arisca do ártico
não sei amigos
certamente uma besta mais esperta
do que eu a fazer fichas de seca
na Lapónia sueca
(começado no caminho de Rallarleden, Abisko, e terminado no SJ nocturno para Estocolmo, 5 de outubro de 2026)

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