Tuesday, October 06, 2026

Postal da Lapónia

 


Olá,

 

sentada numa tábua sobre uma pedra

cuja vida se tresmalha branco-azulada 

parindo grãos pardos

os pés nas plantitas verdes

de pontas miúdas mas firmes e musgo ruivo

amigos

estou num outeiro em Abisko a dar para o lago lapão

imenso extenso de esmeralda cinza líquida

Tornesträck

que agita curtas vagas de leste para oeste

e há-de encontrar o mar na Noruega

 

acorda já tarde a manhã a toda a volta

nuvens grossas com suas orlas de afeição à montanha

onde o sol beija tufos a espaços

ouço distante o comboio

e penso em Thoreau outra vez

e penso porque vos escrevo se percebo neste instante

aqui vim em fuga do barulho

não só da cidade ou do trabalho

vim em fuga do barulho que há anos

sobe em bulha cá dentro

 

sem que o cale mesmo assim

passo-lhe por cima agora pousando os pés no fofo

e ainda que a beleza não ensine

como tratar a gente de modo equânime

olho com mais apego para o chão

e começo a ver aranhiços 

um pulgão ou afim

três moscas na preguiça 

com que me irmano

apesar de não saber nada de moscas

se dormem acaso embaladas

sob o céu de prodígios que vi dançar 

na noite verde-lixívia anteontem

 

amigos

esta noite não cacei auroras

só de manhã recuando a emissão das câmaras dei por elas

esta noite tive um sonho em que ia casar com o Emron

nada contra o Emron mas ele queria casar na Sé

com uma jóia no dedo

e professa os santos dos últimos dias

e a mim encurralava-me a cortesia

e vergonha e medo de dar o dito

pelo não dito

sem ter coragem de convidar a família

amigos

aquele poema do Rimbaud de boca às escâncaras

a colorir vogais na madrugada

eram as auroras a avisar

quanto mais dás o braço

mais te pedem a mão

 

fazendo aliás a anamnese da coisa

o gatilho

amigos

foi ter-me deitado a terminar uma FUC

(ficha de unidade curricular)

tendo atingido os mil caracteres do campo

e o limite das pálpebras abertas

precisamente no seu ponto décimo:

“demonstração da coerência das metodologias de ensino e avaliação

com os objetivos de aprendizagem da unidade curricular”

estão a ver?

quem escreveu este esperanto é árido

e incapaz para sempre de aprender com uma pedra

 

nem sei amigos

se aumento nisto o volume

queria antes rumorejar-vos

como as veredas húmidas

e o Tornesträck lambendo os xistos

e o musgo ruivo à passagem das aranhas

e as bétulas vacilando secas e oceladas

ou levantar a voz como vento

e imitar enfim as coisas que não trabalham nem fiam

como no Sermão da Montanha 

que não se aplica às aranhas

 

tenho pensado muito 

amigos

excepto nos melhores momentos

em que não penso nem tenho forma nem sexo

e sou paisagem como somos às vezes um livro

tenho pensado que só os livres

apreciam caminhar

sendo uma lástima

que liberdade e passeio requeiram

(não tendo berço nem sendo buda)

dinheiro e como o ganhar

por agora

isso vem-me de um lugar tenso

de anti-trabalho e certo esquerdismo caviar

 

se não fossem homens

terem cortado árvores e colocado madeiras

para eu atravessar pântanos com espanto

não estaria aqui

 

e há os passarinhos que piam

cortando os descampados da mãe

e o jorro do canyon galopando ao lago

e o múrmuro remanso som de silêncio

e um trlrtrszsslrr de bicho rasteiro saindo 

do abrigo em corre-corre uma marta

ou lémur ou lebre arisca do ártico

não sei amigos

 

certamente uma besta mais esperta

do que eu a fazer fichas de seca

na Lapónia sueca

 

 

(começado no caminho de Rallarleden, Abisko, e terminado no SJ nocturno para Estocolmo, 5 de outubro de 2026)

Blog Archive