Thursday, May 31, 2018

Falta de/ar


Falta dear
I miss des
leixo &
tu late eter
na mente 
soluço mí
nimo as contas
da biologia
bolsa na
barriga
sperm-
-whale
pontaria
in the head
elefante em
hills heels
saltos
agulha
pica dói
na mouche
no quarto
desmancha
you said
farto
feto
embaraço
baby
bye
eu sad
sorna
afora
balão
falta
flauta
ar
re stress
pífaro sad
hiss sad
est sangue
pifo
pipo
ff fsssss


Thursday, May 03, 2018

Atitude




Olá, não é para todos isto
de ser selvagem com o volume
da bagagem ocidental;
no clímax da meia-idade
é previsível já a quase-
-invariável rotina: i)
achar que não é para mim; ii)
aquiescer, eu, treinada
em variações de bardo (Deus,
faz com que eu nunca seja
uma poeta ressabiada),
na recondução ao redil; iii)
aceitar semi-lerda a classe
de trânsfuga descoberta; iv)
fingir que sou estrangeira
e não me altera esta bodega.

Monday, February 19, 2018

Um castelo de Sonetos (XIII)


Só húmido feltro rude mas justo —
proeza razoável face a outros
tristes coitos onde se esquiva a boca
ao corpo, onde se esconde o susto

se finge um pouco, se busca consolo
e se sai oco e desfalcado após
o grito. Ao menos nunca entre nós
sofremos disso, sempre um disse esfola

e o outro quase a bem assassinou.
No fim, o campo todo remexido
e nós dois pistoleiros muito unidos

nós preenchendo um único volume
na desordem, nós caos que atravessou
o fogo, parecendo à peste incólumes.

Sunday, February 04, 2018

Aliciamento

é altruísmo,
complacência
hubris ou satori
logo eu, aceitar
escrever polidamente
versos a perfurar
o nervo do mundo
ter vaidade ou servir
público de todas as idades
(recearei, como Brel,
definhar baladeira
poetèsse pour des gens
finissants
            se o que mais queria ser
            era bela e sacana também
            ao menos uma hora inteira)

sem contar com o pó
que o meu ex me tem
            (corja do chá inglês, acento
            de Oxford, fandango da BBC)

Antes marimbávamo-nos
para a salvação mansinha
tínhamos amor absoluto
e desprezo bruto
tínhamos precipícios
convenção abaixo
e fraternidade acima
— ou disso nos gabávamos
mas nem pestanejaríamos
por seviciar uma galdéria
em nome do assunto sério
            e radical da arte

Avante, como se queria,
e tanto que se balança
num castelo assombrado
por fantasmas desses dias
nossos corpos — não talhados
para os mútuos lançamentos
às jugulares do espírito —
ganhando bafio como frascos
de sofrimento azedo
e espessas películas,
paralisados os braços
pelos pulsos luminosos
da líbido

Houve, sim, igualmente primavera
em nossas vidas paralelas
— traças fugazes
pairamos na ascensão,
lepidópteros, de que faz troça
a luz

Então escolhes os copos
raspando das ressacas
o oleoso rancor
repassando-me a tremura
das asas
            — tive de espalmar
o teu torcido caráter
esfarelá-lo entre páginas
de linhas más
            feias, pequenas.

Então eis-me chegada
a escrever polida
encomenda para a BBC
            — pena de inoxidável
aço, compromisso burocrático,
sem zanga obscena, faca
na ferida, pingo sanguíneo ­—
estipêndio em libras
e mínimo perigo
sem contar
            que cínica

me havias de achar, meu doce
amante hypocrite
devasso leitor
que eu não desdenharia
seviciar


pelo meu verso perfurante.


Sunday, December 17, 2017

Sestina para Aurelia


Aurelia Plath, mãe, guardou entre os papéis
de Sylvia, filha, um ruivo rabo de cavalo,
puxo de cabelo cerce, ocorreu o corte
aos doze-treze, prenúncio duma morte
com sequelas. A angústia, uma tesoura
de ferro, escande, mancha sobre os retratos

todos, mesmo o da escola de arte, retrato
em três faces, tetraedros, grude em papel
sobre exóticas cores, vincos de tesoura,
talhado em esfinge o longo rosto de cavalo,
e algo de Índia e de karma, a má morte
que mãe alguma aguenta suspeitar, o corte

quando afinal ela era às vezes loura, o corte
quando tinha um mundo aberto, e nos retratos
ninguém a diz maluca, cortesã da morte —
de pequenina enfiada entre os papéis
ou nos bosques metida sobre o cavalo
Ariel, açulado, as pernas em tesoura,

assente quadril, livre rédea, tesoura
a toda a brida em direção à luz a corta-
-mato, a filha um só perfil com seu cavalo
em fogo e risco a lembra Aurelia —há um retrato
também de bicicleta e soquetes; os papéis
que ensaiou proliferaram, mas a morte

foi onde teve brio, Aurelia, ela jaz morta
e choram as mulheres, a parca co’a tesoura
daria até uma outra chance, outros papéis
se assim pudesse, um mais humano gás, um corte
em falso, mas a perda, mãe, face ao retrato
de antes não tem cura, a dor é um cavalo

torrencial, a tua filha é um cavalo-
relíquia inclemente da infância, a morte
é um mestre e levou-te todos, nos retratos
permanecem, pai e filha, uma tesoura
não aliviaria, por generoso corte
que aplicasse, há toda a sorte de papéis

e retratos, não há raízes para a morte;
pousa a tesoura, mãe sentimental que corta,
que faz um rabo de cavalo entre papéis?



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