Wednesday, September 10, 2025

Estátuas que valia derrubar

                                      para o Joaquim 

 

Arrancar — diluir ao menos — tudo

quanto ao peito, à lapela, ao pescoço

usámos e incrustámos — nossa pele 

o mar ignoto; a cruz esculpida em osso.

 

Dada a fé de anos verdes que vivemos, 

malgrado a cupidez que lhe ia a par,

pudemos por uns tempos ignorar

que numa esfera há história, que sofremos.

 

Odiámos depois ver-nos ao espelho

bem como a flor, a vela ou a balança

no corpo como em toda a arte pública —

 

mas, borrando o que não serve e era velho,

emerge à contraluz essa criança

que fomos e enleada nos suplica.

Saturday, July 12, 2025

asa cardíaca

minha solidão é funda construi-a escavando-a 

com os punhos pelas camadas do tempo

com a avareza e a renúncia e a escuta do silêncio

depois descasquei-a com as unhas 

até me serem por vezes suportáveis

as paredes vivas como a carne e o barro

até o vazio ser visão quase dizível

depois outra vez ser vazio

e por horas não saber que fazer

com o montículo do meu coração

 

não faço nada com ele sugere-me

um amigo num sussurro de um livro

por sua vez partido entre outros que me fizeram balançar

julgando-me com menos amparo no mundo

eu que comi todas as migalhas para a segunda pessoa

até restar um cu de côdea eu sobre ela com uma perna

a outra incansavelmente no ar

roçada pelos pássaros

e também pelo murmúrio de um coletivo distante por que nutri

uma militância displicente

 

oh não se iludam o meu coração

é alto e vasto quanto baste

para se circular cá dentro

e bicar às portas igualmente amplas do peito

levo-lhe a mão e a queratina perfura-a

criou as condições ideais para o eco e o gorjeio

Thursday, May 29, 2025

Por alto


 

o que espero em tradução

não é captura ou passagem de sentidos

 

embora satisfaça a impressão de fio

 

busco a lâmina da entrevisão

em que o lido se torna cortina de vidros 

cai com brilho de tons 

e com barulho nos espanta formar-se algo

como outra língua afinal quase tida

 

(ou antes a sensação de a termos) 

em comum atingida quase lá

 

a imaginação será prática 

como num amor que começa

 

treinar na cabeça um beijo

a boca real dissonante rude

desejando que aconteça

 

dois pulsares batendo riscando 

num

Tuesday, May 27, 2025

O sorriso penoso,


como moldar com palavras o desagradável

pássaro ao negro lenho pregado

 

com palavras escapar, que não nos defendem

de tudo o que nas costas se arreganha

 

ou seja, como se tornará

na cova

 

o rosto que se putrefaz

a mandíbula saliente onde, doce ainda

 

um sorriso jaz.

Pássaro: como folha se decompõe – irrompe.


Elke Erb

Friday, May 16, 2025

Há na praia um lírio que não estava ontem

 

flor que rompe acima de areia tão súbita
leve branca é sua corola a haste verde
sobre a duna acena-nos contra a luz vê-se
ondas até espuma
.

Saturday, April 12, 2025

Odile Kennel

 


Sem qualquer noção de centro-

europa

sigo em Berlim uma tradutora 

mediterrânica

que me envia fotografias de 

fotocópias

e alguns genuínos retratos de um 

rosto

em que a luz vence a luta com as 

linhas

 

de um rosto que pediu ao sol asilo

entre dois troncos

Saturday, March 29, 2025

Sobre um júri doutoral

no pano de mesa azul

escuro, sinal

de aplicado pensar

cai a tarde


arde o sol

no plástico da garrafa

no bojo da esferográfica

solta-se o mar

Tuesday, February 11, 2025

Comer frango frito


Detesto ter de confessar, meu irmão, mas há
Alturas em que estou a comer frango frito
Alturas em que não penso em mais nada senão comer frango frito
Alturas em que me esqueço completamente da família, da honra, do meu país.
Dos muitos derrames de sangue que me deves,
Das humilhações por que passei, dos crimes que cometerei —
De tudo, em suma, além da pele estaladiça do meu frango frito.

Mas eu não sou completamente vil, também há alturas
Em que me recuso a chupar ou engolir seja o que for
Se não estiver disponível para o geral da humanidade

(Se formos a pensar, isso rigorosamente não é nada)

E decerto é por isso que as maçãs podem provocar motins,
E a carne traz mortificação,
E cada sorvo de ar
Há de encher-nos os pulmões de pólvora e de fumo.

Sunday, January 26, 2025

Canção da Manhã



O amor deu-te corda como a um relógio de ouro gordo.

A parteira bateu-te nos pés, e o teu choro calvo

Ocupou o seu espaço entre os elementos.

 

Nossas vozes ressoam, ampliando-te a chegada. Nova estátua.

Num museu ventoso, a tua nudez

Tolda a nossa segurança. À tua volta, brancos como paredes.

 

Já não sou a tua mãe, ao menos

Tanto como a nuvem que destila um espelho para refletir o seu lento

Apagamento à mão do vento.

 

Toda a noite a tua respiração de traça

Tremula entre as rosas róseas rasas. Acordo para escutar:

Um mar remoto move-se no meu ouvido.

 

Um choro, e tropeço da cama, vaca obesa, florida

Na camisa de noite vitoriana.

A tua boca abre-se limpa como um gato. O quadrado da janela

 

Esbranquiça e engole as suas estrelas baças. E agora ensaias

A tua mão-cheia de notas:

As claras vogais sobem como balões.



Sylvia Plath


Wednesday, January 22, 2025

Função Poética

 Quando baixo os braços porque não vale a pena o labor sem o futuro, nem tudo é soberba, mas pode ser um erro crasso da ética do trabalho: não se aplicar no que não funcionará. Pensar em desempenho, função, performance, afinal talvez tenha sido também um deslize de Jakobson em Linguística e Poética. “Reparem aquilo de que me faço”, pode ser uma súmula da sua “função poética”. O que sempre é diferente de “reparem naquilo que eu faço” e salvaguarda a esperança do restauro. Porém, o ato dessa linguagem, tornando-se mais saliente quanto mais inefável a sua matéria, não deixa de ser um truque demasiado próximo da publicidade, como viu o próprio, ao analisar um slogan de campanha presidencial (I like Ike) —  ou a paranomásia que numa língua ágil nos vicia em coisas e candidatos, no desejo sem os factos. 

Mas hoje, quando fui para um mergulho na fonte fria, por entre a chuva rala, o ar cinzento e o fresco vento, havia um carro parado, adiantando-se, irritante, à seminudez do meu momento. Duas pessoas magras e altas – um rapaz, claramente um jovem, a outra com um capuz que não desvendava o sexo nem a idade – tinham descido o empedrado até às pranchas do lavadouro, as que restam da ideia de este lugar ser uma aldeia. 

 

A do capuz tirava-lhe fotos, tocava no rapaz ao de leve na nuca e atirava-lhe beijos. E eu achei que ele atirava pedras, mas eram bolas de sabão que o vento fazia agachar no raso lago, e as sombras eram como os círculos das pedras, ajustando-se ao transtorno, onde a queda da nascente me banhou quando me decidi a fazê-lo. Ou quando decidi que afinal aquilo era belo. Esteticizarei? direi, antes, foi tocante o mistério que ela – era uma mulher, era uma mãe – me explicaria na mais simples linguagem: o filho tinha autismo, e ela desviara caminho para irem ali 

porque era a água nos dias de cinza 

e o vento

e o ar de sabão dentro do ar

do firmamento 

quase chuva a deslizar 

para o charco

o que mais o tranquilizava

Saturday, December 28, 2024

In Memoriam


à Mariana Branco, que me ensinou  

a posição da árvore e outras 

espiritualidades a consolidar

 

Apontadas ao vazio, as nossas rótulas

paralelas a uma linha imaginária 

entre os olhos e o longe — há que arredondar

o irracional infinito — mostravas-me

como elevar a zero a coluna, raiz

 

das dez mil coisas, em que palavras

tombam, espelham, espalham.

Palavras, sobretudo as viperinas

que propagam. Deste-me o talismã

espanando o ar entre nós: Retira

 

era o que dizias, diluindo injúrias

de brigas vãs num aparar de sílabas

átomos, minutos, num ápice limpos.

Pior era a magia de anular o ácido

da ferida que sempre mais incide

 

contra nós... morde como formiga.

Disseste-me que nenhuma se deve

— Amiga —matar (por mais pequenino

o crime), que a formiga se põe a andar

com casca bolorenta de citrino

 

que a língua sarrenta revela o karma

do assassino. Treinaste-me a rodá-la

com a saliva na barriga; que afinal

se ascende, se cede, sem ondas...

de onde (será certo?) esse destino

 

para que foste cedo, insanamente hirta

tu, que sorrias tão profusa, devolverás 

ao céu — ao pó, ao nada (e eu aceito?

e isso prova que venceste a foleirice

da imagem? deste plano?) — tua luz dourada.

Saturday, November 16, 2024

Rípio

no muro ao sol, pedras roídas

somam tempo ao tempo.

O tema, supõe-se, é paralelo

no muro à sombra

no mais sombrio poema


nos bois de cornos apontados

a outros bois, no pastor

cujo bordão é uma enxada:

mas espalha a luz o aço

ao trilho, da cunha à torre


de alta tensão, o firmamento 


nem sempre se faz pedra

boi, bordão, ou cunha igual —

busca-se outro elemento

ou novo material, ou o muro

tomba, continua a gente

Calar

a quase homonímia

emudecer

e humedecer

ou a antinomia

homo

e nemo


não a

    barca

o que cala o mar


a cada grau

re cru

de

    s

        cer


nau fraga

o espaço


da quilha

à linha 

______ d'água

Thursday, October 10, 2024

Desligar e não ligar


curto desse teu swag

tua esbelta silhueta

o people até se engasga

com a nossa pirueta

nós com os bofes de fora

eles todos upside down

bora pôr o mundo em off

depois outra vez no on


quero ter contigo um date

no teto do mundo a pique

chegas lá com o teu skate

eu tenho patins e bike

se te cansas guio eu

e tu andas à pendura

fazermos slide no céu

é uma mega loucura


mêmo uma cena marada

o clima ‘tá bué da hot

o people lá na bancada

gira todo num virote 

bora desligar, my love

bora pôr o mundo em pause

vamos sair e not

not voltar a entrar



Foto de António Carlos Pereira da Costa

Monday, September 16, 2024

CERTA VEZ OLHEI PARA UM ESPELHO MAS NÃO CONSEGUI VER O MEU CORPO

                        a partir de Ghassan Kanafani

 

A minha argumentação é um documento; eu existo.

Aprendo isto de tanto ver o meu pai

 

sozinho à noite

traçando, retraçando 

um mapa

da Palestina, a tinta verde.

 

Antes de 1947, insistia ele, antes do retalho,

antes da nação se tornar história

 

antes de a minha língua confundir agradeço com sobrevivência

 

antes de eu escolher uma profissão que destaca

a morte da minha gente.

 

Uma máquina fotográfica derrete ao sol.

De muito longe, escuto os cliques moribundos do obturador, os pregões clamorosos 

     dos jornais 

que se atiram, o olhar cortante das órbitas.

 

Ergo-me diante do meu pai, as minhas próprias pupilas escancaradas

nos calos das suas mãos. Também eu desejo captar este momento,

 

retê-lo. Dizer, sim, esta violência é possível, e também dá prazer

olhar.

 

Mas quem é a audiência deste meu olhar

e até onde se espalha um flagelo

até amarelecer?



NOOR HINDI, in Dear God. Dear Bones. Dear Yellow, 2022, p. 6

Friday, September 06, 2024

Dupla Subordinação

 Diz-se que o santo, em sua humildade, expressara o desejo de ser enterrado no Colle d’Inferno, uma colina desprezada nos arredores de Assis, na qual os criminosos eram executados.  

                                                                                            Paschal Robinson, Vida de São Francisco

 

 

 

Como se fazia e ainda faz à criatura

cuja semelhança é dúvida e se tortura

investiga-se a coisa até só ser objeto

 

e ser possível

 

ver-se sofrer em direto. Também consola

achar que não tem alma o verme

que a sandália calca (só uma 

cedilha distingue o que pisa

do que enverga uma dupla sola)

 

São Francisco

 

mandaste para o Inferno teu próprio cadáver.

Aqui escande-se o Outro até o desconhecer.






Saturday, August 31, 2024

 

para quê escrever

o disforme

esporeia a tristeza

sela o pouco de beleza

outra montaria a pele

doada predadora

que extenua

a radiante fera —

acho ali está

afinal lá continua 

feia


para quê escrever se é disforme o que se escreve 

se o disforme esporeia a tristeza e sela o pouco de beleza 

ainda tangível ainda a flor tonal da pele?


outrora ou se outra fosse mais valia antes

montar a pele outra montaria a pele virável correria

predadora extenuada ah tanto de beleza e apoteose 


na radiante fera

e tu captora achas cá está ela tres-

passei-a no papel mas afinal lá continua e te devora feia


vagabunda lírica


tantos sulcos percorridos

hoje ocultos acamados

por outros pés nesses quartos
corpos em que enrolou

amarinhou quis muito 

alguns em todo 

o caso a maioria

 

nus 

 

para um crescer climático

ou final de despenho

à beira de matar

resgatar alguns

que empurraram a porta

depois bateram-na

dando por si trancada

sem estima sem ira

sem sentidos 

mónada na fechadura 

espiando temerosa

futuros desaparecidos

 

salvo exceções 

que não a envaidecem

e quase esquece

sem regozijo nisso

mas cujo nojo

procuro não procurar

(vai longe essa líbido

para o choro

sobre desperdícios) 

despimo-nos normalmente

juro como se fôramos, átrios

 

nós

 

e se produzissem prodígios

Wednesday, June 26, 2024

Sobre espeleologia, ou o controlo da descida na doença da fronteira

Podes num dia com certeza

introduzir-te com frontal

pelos poços da alegria

ou pular da corda da tristeza


mas de cada vez a apneia

é mais breve

e a superfície escasseia

nestas zonas de conflito


ao todo a vertigem leva

quase menos do que o título



Friday, June 21, 2024

SOLSTÍCIO

                       Le soleil se mourant jaunâtre à l'horizon !


- Le Ciel est mort. - Vers toi, j'accours !  (Mallarmé, L’Azur)

 

20 de junho de 2024

hoje, no Hemisfério Norte, o dia é mais longo do que qualquer

precedente

 

e a luz lavra e o poema inicia. Mas Mal-

larmé dizia que tudo permeava o verso

que podia ritmar-se a língua par-

tout exceto nos anúncios e na quarta página

dos jornais 

 

hoje, no Guardian, novo recorde da Humanidade:

crescem ainda furos de ouro negro 

à margem de renováveis energias


Mallarmé ardia pelos vocábulos 

areados, mais puros, da tribo

pepitas na navegação de massas—

 

o problema, diz o mensageiro de referência do Reino

Unido, é que a Índia

sozinha, torrou mais carvão do que a Europa

e a América avançada, no mesmo hemisfério, hoje

 

onde mais do que nunca permanece o Sol a ocidente.

 

Mallarmé também escreveu sobre o pálido 

Vasco, a quem preocupava só a viagem ultra-

marina da Índia esplêndida e túrbida

 

e não obstante uma ave mono-

córdica gritaria, inútil jazida

sobre a cana invariável do leme

noite, desespero e pedraria.

 

Suponho que no século XIX a quarta página era a da necrologia

 

quando a Índia não era só, mas parte do Reino

Unido, de onde importou

até 1895

grandes quantidades de carvão

de onde também

se passou a extrair índigo

mais depressa do alcatrão do que da planta

 

O sol amarelando lá longe onde se morre!

 

Extinto é o azul. Eu já te acudo, verso!

Traz, matéria, olvido de erro e ideal cruel...

 

Hoje, britânicos e não 

viajam 

na ave de diesel

para irem praticar o tantra

ao terceiro país mais poluidor do mundo

(primeiro a China, segundo os Estados

Unidos) onde a consciência se dissolve

 

e o corpo não corre para o fim do amor

Blog Archive

Contributors