Thursday, February 09, 2006

Prendas















Cabalmente instruídas mas
pouco experimentadas
somos as cabras-
-cegas da literatura.
Sustém-nos o tédio
e a lonjura sujeitamos
o verso a tarefas prendadas
e a frase lavramo-la com
a mesma fastidiosa ternura

dos trabalhos de costura:
raros acontecem os poemas
um ror de vezes a escrita
sob censura traça-se
um verso emenda-se
a mão o avesso não
falta à compostura.

o mundo repartido
em rimas assi-
métricas cesuras contra
tempos, rotundamente
Fracassamos.
Por que não escrevemos?

Porque as nossas vidas são falhas
de convulsões e a palavra é
Arte dócil como nós
e paciente aguarda
e pega no talher com
etiqueta e leva
só com todos já
servidos
a apurada
refeição à nossa boca.

3 comments:

ana said...

não escrevemos porque as vidas são falhas? ou porque costurar as falhas tem emendas?

ângela said...

abriste-me o apetite de voltar.
gostei. agradeço à Ana.

dama said...

Ana: se calhar é por causa das emendas, e da mania de avessos perfeitos.
Curiosos, os circuitos da linguagem. Não conhecia o teu blogue, mas fui visitar e dei de caras com a Maria Velho da Costa, cujo livro Irene ou o Contrato Social inspirou este poema.
Allegra: se calhar os posts do alfinete também se imiscuem nos teus discursos desviantes, mas não consigo lá ficar por muito tempo, porque aparece um polícia da net desconfiado que ando a roubar alguma coisa.
Obrigada por terem vindo cá parar. Não reparem na desarrumação da casa, que ainda agora nos mudámos :)

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